A segunda etapa da pesquisa consistiu na coleta de dados. Nosso corpus é composto de charges publicadas no período de 2010 a 2014.
Para a escolha das charges, visitamos sites especializados, a saber, A charge online e Humor político. Os dois sites escolhidos, além de apresentarem algumas charges criadas exclusivamente para serem por eles publicadas, também apresentam charges publicadas em diversos jornais brasileiros, de diferentes estados. Também visitamos outros sites esparsos, como blogs, em busca de textos sobre Dilma (e também sobre Lula) que tivessem ligação com o tema do nosso trabalho.
Como trabalhamos com charges, devemos lembrar que estamos investigando metáforas multimodais, conforme vimos no primeiro capítulo de nosso trabalho, ou seja, metáforas cujos domínio-fonte e alvo são representados em diferentes modos.
A charge, geralmente, é um texto multimodal, envolvendo aspectos não verbais (figuras, cores, formas etc) e, ainda, muitas vezes, aspectos verbais. As charges, segundo Carneiro (2012), têm a política como sua principal matéria-prima. Argumentativo por natureza, esse texto aparentemente simples e ingênuo, através do qual o chargista veicula sua opinião/posição/ideologia, é capaz de influenciar o leitor, tanto quanto uma reportagem de uma revista (ou até mais). A charge possui uma função humorística, descritiva e avaliativa.
Desse modo, a charge revela-se, portanto, um gênero textual apenas aparentemente ingênuo e despretensioso: o humor, que promove o riso e angaria, assim, a adesão do leitor, acentua, em verdade, seu caráter questionador e seu poder derrisório. (CARNEIRO, 2012, p. 83)
Cavalcanti (2008, p. 38) afirma que
A charge encontra-se na página de opinião, de editoriais, ou mesmo na primeira página dos jornais porque transmite informações que envolvem fatos, mas é, ao mesmo tempo, um texto crítico e humorístico. É a representação gráfica de um assunto conhecido dos leitores segundo a visão crítica do desenhista ou do jornal.
De acordo com El Refaie (2009), as charges são uma ótima oportunidade de explorar a metáfora multimodal, já que a metáfora é um artifício comumente utilizado por chargistas e a maioria das charges combina códigos visuais e verbais. Para a autora (2009), as charges de jornais agem como uma ponte entre a realidade e a ficção, combinando eventos verdadeiros com um mundo imaginário criado pelo chargista.
El Refaie (2009) destaca que a charge é um gênero que possui estilo, convenções e propósito comunicativo próprios. Geralmente ela aparece em um único quadro, publicado no editorial ou nas páginas de comentários dos jornais e, diferentemente das propagandas, nas quais o propósito comunicativo é destacar alguma característica positiva do produto anunciado, na charge, o artista representa um aspecto da vida cultural, social ou política de maneira humorística, com a intenção de expor seus aspectos negativos, algo ruim ou vergonhoso sobre a situação. Por essa razão, não é surpresa alguma que os chargistas frequentemente façam uso de estereótipos e conceitos metafóricos para representar negativamente a complexidade do mundo de maneira mais simples e engraçada.
No mesmo caminho que Forceville (2007), El Refaie (2009) afirma que o gênero textual escolhido para comunicar algo tem um importante papel na escolha das metáforas que serão utilizadas, bem como na forma em que elas serão apresentadas e, ainda, na maneira em que elas serão identificadas e interpretadas.
Embora as charges muitas vezes retratem situações claramente absurdas, elas tomam como base as experiências de vida real dos leitores e confiam em suas competências interpretativas mais amplas [...] O chargista, desse modo, confia na capacidade de cada leitor para completar em sua cabeça o que é sugerido por uma imagem, incluindo as ações que a precedem e as que sucedem o momento retratado. (EL REFAIE, 2009, p. 178-179, tradução nossa)49
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Although cartoons often depict clearly ludicrous situations, they draw on readers‘ real-life experiences and
rely on their wider interpretive competences [...] The cartoonist thus relies on every reader‘s ability to complete
in his or her head what is suggested by an image, including the actions that precede and follow the depicted moment. (EL REFAIE, 2009, p. 178-179)
Nas charges é possível que algumas metáforas sejam compreendidas do mesmo modo, até intuitivamente, por todos os membros de um grupo cultural ou comunidade linguística. No entanto, vale ressaltar que, para compreender o que a charge veicula, o leitor necessita ter certo conhecimento cultural, social, histórico e político, pois é esse conhecimento prévio que vai gerar o riso, a crítica, a denúncia. Sem ele, não será possível ao leitor compreender, de maneira plena, o que está implícito no texto.
Como afirmam Schilperoord e Maes (2009, p. 216, tradução nossa), ―o processamento e interpretação das charges requer uma mistura complexa de conhecimento político, cultural,
histórico e contextual‖.50
A interpretação das charges é, em certa medida, guiada pelo gênero e por considerações pragmáticas. Os leitores provavelmente lerão e interpretarão o texto tendo em mente que ele irá criticar ou ridicularizar uma pessoa ou situação e buscarão interpretá-lo dessa maneira. A interpretação também dependerá da capacidade do leitor de reconhecer pessoas, objetos, situações e, ainda, do seu conhecimento de fatos tais como notícias atuais, eventos históricos, hábitos culturais, dentre outros. Essa capacidade de interpretação do leitor será indispensável.
Embora seja imprescindível reconhecer que as charges possuem uma dimensão pragmática tanto quanto uma dimensão cognitiva, em nosso trabalho não nos ocuparemos da interpretação que o leitor fará das charges, mas sim das metáforas conceptuais veiculadas nos textos e dos mapeamentos autorizados.