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Como vimos anteriormente, a Teoria da Metáfora Conceptual mostra que o locus da metáfora não é a língua, mas o pensamento e, ainda, que as metáforas conceptuais têm base experiencial, ou seja, elas nascem a partir de nossas experiências corporais e sócio-culturais.

Se a metáfora é, como afirma e demonstra tal teoria, um fenômeno do pensamento humano, a metáfora conceptual deve estar presente em todas as esferas da vida humana. Logo, segundo Yu (2009), a visão cognitiva da metáfora criou novas oportunidades de estudo no campo das metáforas não-verbais e multimodais, pois não sendo um atributo exclusivo da língua, além de manifestar-se verbalmente, a metáfora também deve estar presente nas interações não-verbais.

Forceville (2002) afirma que uma das limitações das pesquisas na área da metáfora conceptual é que, apesar do crescente interesse pelo estudo das metáforas, a maioria das pesquisas tem como foco suas manifestações verbais, dando pouca ou nenhuma atenção às manifestações não-verbais das metáforas.

Apesar da caracterização que Lakoff e Johnson (1980: 5) fazem da essência da metáfora como "compreender e experimentar um tipo de coisa em termos de outra" enfaticamente evitar a palavra "verbal" ou "linguística", a validade das afirmações feitas pela TMC sobre a existência de metáforas conceptuais depende, quase que exclusivamente, de padrões detectáveis em metáforas verbais. (FORCEVILLE, 2009, p. 21, grifo do autor, tradução nossa)27

27Even though Lakoff and Johnson‘s (1980: 5) characterization of metaphor‘s essence as ―understanding and experiencing one kind of thing in terms of another‖ emphatically avoids the word ―verbal‖ or ―linguistic,‖ the

O foco nas metáforas verbais, segundo Forceville (2009), é perigoso por, pelo menos, dois motivos: (a) as pesquisas em Linguística Cognitiva sofrem de um raciocínio circular – tornando-se um espelho do que ocorre no nível verbal, elas analisam a língua para inferir sobre o corpo e a mente que, por sua vez, irão motivar diferentes aspectos da estrutura linguística e do comportamento humano – e (b) corre-se o risco de cegar os pesquisadores para aspectos da metáfora que só ocorrem (ou são típicos) de metáforas não-verbais ou multimodais.

Claramente, para validar a ideia de que as metáforas são expressa s pela língua como oposição a ideia de que ela são necessa riamente linguísticas por natureza, faz-se mistér demonstrar que e como elas podem ocorrer não-verbal e multimodalmente, assim como puramente de maneira verbal. (FORCEVILLE, 2009, p. 21, grifo do autor, tradução nossa)28

Forceville (2007) afirma que, provavelmente, a maioria das metáforas não-verbais são metáforas multimodais.

Sobre a teoria da multimodalidade, postulada por Kress e Van Leeuwen em 2001, Sperândio (2012, p. 2) explica que a partir dela, pensa-se na linguagem como sendo um fenômeno multimodal, ―onde os sentidos sejam resultado da relação textual estabelecida a partir dos diferentes modos utilizados na sua constituição‖.

A teoria da multimodalidade entende que a linguagem se constitui de múltiplas articulações entre diversos estratos, e não apenas da dupla articulação entre significante e significado, como concebe a semiologia tradicional. Sperândio (2012) explica que Kress e Van Leeuwen entendem que na era das tecnologias e na cultura ocidental os textos estão cada vez mais multimodais, ou seja, neles coexistem diferentes níveis semióticos, como, por exemplo, o sonoro, o gestual, o visual etc.

Definir o que é modo, segundo Forceville (2009), não é tarefa fácil, visto que tal definição envolve vários e diferentes fatores. De maneira rudimentar, ele diz que modo pode ser tomado como um sistema interpretável através de uma percepção específica, ou seja,

validity of CMT‘s claims about the existence of conceptual metaphors depends almost exclusively on the

patterns detectable in verbal metaphors. (FORCEVILLE, 2009, p. 21, grifos do autor) 28

Clearly, to further validate the idea that metaphors are expressed by language, as opposed to the idea that they are necessarily linguistic in nature, it is imperative to demonstrate that, and how, they can occur non-verbally and multimodally as well as purely verbally. (FORCEVILLE, 2009, p. 21, grifo do autor)

temos o modo visual ou pictórico, o modo sonoro, o modo olfativo, o modo gustativo e o modo tátil.

Porém, outros aspectos, tais como a maneira na qual o texto foi produzido (através de imagens, gestos, música, verbal, escrito, impresso etc) e, até mesmo, aspectos culturais (o que é considerado música em uma cultura pode ser considerado som/ruído em outra, por exemplo) também irão indicar a presença de um ou mais modos no texto. O autor diz que é impossível dar uma lista exaustiva dos modos existentes. No entanto, ele nos fornece uma listagem inicial: signo pictórico ou visual, signo escrito, signo falado, gestos, sons, música, cheiro, gosto e toque.

As metáforas monomodais são as que tanto o domínio-alvo quanto o domínio-fonte são processados em um mesmo modo. Já as metáforas multimodais são aquelas cujos domínios-fonte e alvo são representados, como afirma Forceville (2009), exclusiva e predominantemente em diferentes modos. O autor explica que os termos exclusiva e predominantemente são necessários, pois as metáforas não-verbais, frequentemente, possuem domínios-fonte e/ou domínios-alvo construídos sobre mais de um modo simultaneamente.

Forceville aponta que a metáfora monomodal prototípica é a verbal e acrescenta que outro tipo de metáfora monomodal é a pictórica ou visual, por ele estudada em Pictorial metaphor in advertising (2002). Dentre as metáforas visuais, ele destaca que existe um

subtipo, a verbo-visual, que não é mono, mas sim multimodal. Já os textos multimodais, conforme o autor, incluem uma diversidade de gêneros textuais, tais como, propagandas, charges, tirinhas, videoclipes, filmes etc.

Em comum entre as metáforas multimodais e as monomodais verbais, temos o fato de que dois fenômenos pertencentes a categorias diferentes são representados de maneira que nós somos convidados a entender e experienciar um em termos do outro, ou seja, uma ou mais de uma característica do domínio-fonte é projetada no domínio-alvo que, dessa maneira, sofre uma transformação conceptual. Porém, uma das diferenças mais importantes entre os dois tipos de metáforas, segundo Forceville (2007, p. 27, grifo do autor, tradução nossa), é o fato de que ―A comunicação não-verbal é mais facilmente compreendida e tem maior apelo emocional do que a verbal.‖29

Com essa afirmação, Forceville não pretende dizer que as metáforas não-verbais são universais, pois, como falamos anteriormente em nosso trabalho, existe o filtro cultural e a

29 Non-verbal communication is more ea sily comprehensible and has greater emotionalappeal than verbal communication. (FORCEVILLE, 2007, p. 27, grifo do autor)

experiência individual que irão influenciar na interpretação dessas metáforas. Porém, segundo o autor, embora certo conhecimento da língua ou cultura seja necessário para a construção e interpretação da metáfora, nas metáforas em que os domínios-fonte e alvo são representados seja de maneira visual, tátil, sonora ou musical, pessoas não familiarizadas com a língua/cultura poderão compreendê-la, mesmo que de maneira rudimentar ou diferente.

Forceville (2007) destaca ainda que o canal de informação escolhido para transmitir uma metáfora, seja ele a língua, sons, gestos, imagens ou outros, determina como a metáfora foi construída e como ela deve ser interpretada. Ele recorre aos trabalhos de Kennedy (1982) e Whittock (1990) sobre as metáforas não-verbais para dar base ao que diz: tais autores enfatizam que a interpretação das metáforas pressupõe alguma intenção por parte do autor, que combina certos elementos perceptuais não apenas com uma intenção estética, mas também para que sejam entendidos como uma metáfora.

As pesquisas sobre as metáforas multimodais ainda são poucas se comparadas às das metáforas verbais. Alguns exemplos são as investigações de Forceville (1996; 2003; 2007) e de McQuarrie e Mick (2003) sobre propagandas, a de El Refaie (2003) sobre charges políticas, as de Cienki (1998), McNeill (1992; 2005) e Muller (2004) sobre discursos orais acompanhados de gestos e, no Brasil, a de Sperândio (2012) sobre charges animadas.

A pesquisa sobre a metáfora multimodal configura-se como um novo desenrolar dos estudos sobre metáfora conceptual, ainda carente de reflexões teóricas e de novas pesquisas empíricas, apesar das investigações que foram e vêm sendo desenvolvidas no Brasil e no mundo. Nesse sentido é que buscamos contribuir para a área com este trabalho, cujo corpus é composto de textos que, em sua grande maioria, são multimodais: as charges.