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Taula 2. Formació de l’equip docent en interculturalitat

4. Proposta d’analisi del context de sa Pobla i del jovent d’origen immigrant

4.6. Propostes de treball cap a la interculturalitat

A história dos conflitos por recursos da Ilha de Marajó que atingem as comunidades negras de Salvaterra é melhor compreendida quando voltamos nossas observações para o processo de formação da grande propriedade durante o século XVIII. Tudo começou com a

concessão de grandes terras da Ilha “aos donatários de sesmarias” 88, no ano de 1721. Tais concessões permitiram que estes controlassem pastos naturais para a criação de gado. Segundo Acevedo Marin (2004) foram concedidas cinqüenta sesmarias, entre os anos de 1721 e 1740, principalmente ao longo do rio Arari. As fazendas “invadiram” o Arquipélago do Marajó já nos últimos anos do século XVIII, depois que os religiosos perderam a posse da terra para “oficiais dos corpos militares e pessoas casadas provenientes do reino”. No século XIX menciona que “nas freguesias mais importantes os fazendeiros praticavam o comercio de gado e cultivavam suas representações de poder”. Tais representações tornaram-se expressivas na vida política da província do Pará, após a Independência.

No inicio do século XIX, ano de 1803, cerca de 500 mil cabeças de gado, distribuídos em 226 fazendas da ilha forçaram ex-escravos, indígenas e homens livres pobres a se dispersarem às margens das fazendas ou em “terras mais longínquas”, formando sítios. A mão-de-obra das fazendas eram os indígenas e mestiços, os homens livres e o escravo. Os índios e mestiços representavam 80% da população de Arquipélago do Marajó e havia um número de escravos expressivo, “cerca de 2040 escravos em 1823”, que passam a formar muitos povoados como os de Cachoeira do Arari, Muana, Chaves, Monsaras, Monforte e Salvaterra. Este número era quase seis vezes maior que o número de brancos encontrados na região (ACEVEDO MARIN, 2004).

Estes dados sobre os escravos da Ilha do Marajó não podem ser considerados “numericamente desprezíveis” entre os grupos que povoaram a Amazônia. Autores como Salles (1988) e Acevedo Marin; Castro (1999) afirmam que a presença dos negros na Amazônia é expressiva e pode ser percebida em diversas produções agro-extrativas e em grandes propriedades rurais, a partir do século XVIII.

A rigidez da estrutura fundiária no arquipélago do Marajó, que tem raízes no período colonial, impossibilitou o incremento demográfico pela migração, pois a atividade pastoril ainda utiliza um número reduzido de pessoas em grandes extensões de terra e gado. Em outro extremo existiram as “fazendolas” e “sítios”, que são formas distintas de constituição da propriedade e organização do trabalho, onde o trabalho familiar predominou. Nos pequenos sítios se reuniam “indígenas, camponeses negros e mestiços” que praticavam regularmente atividades como a agricultura, a pesca e o extrativismo, desde o início da ocupação colonial. Nas margens das fazendas haviam “as comunidades de fugitivos na ilha de Marajó”, que

88 Acevedo Marin (2004) afirma que as sesmarias foram distribuídas nas regiões: meridional e nordeste da ilha do Marajó, primeiramente ao longo do rio Arari e depois subiram em direção das nascentes desse rio e seus afluentes.

provavelmente mantinham intercâmbio com as comunidades negras da Região do Salgado, Vigia, Colares e até Bragança (ACEVEDO MARIN, 2004).

Os sítios e as fazendas representam espaços geográficos - ambientais e simbólicos distintos. Diegues (1994)afirma que as forças produtivas que uma sociedade dispõe para agir sobre a natureza que a cerca, possui dois componentes intimamente interligados, uma parte material e uma parte ideal - representações da natureza, regras de fabricação e de uso de utensílios etc. Tais representações são indispensáveis para a mobilização dos meios materiais, a qual se efetua por conjuntos de ações encadeadas que constituem o que se chamam “processos de trabalho”. Segundo o autor a porção imaterial processo de trabalho constitui uma realidade social tão palpável quanto às ações materiais que o homem exerce sobre a natureza (DIEGUES, 1994).

Acevedo Marin (2004) relata que o sítio representa tanto a filiação quanto as formas de acesso a um patrimônio, visto que ele representa “os herdeiros de uma terra”, compartilhado por filhos e filhas, mas que é importante perceber que “o mundo agrário do arquipélago também tem uma diversidade considerável de tamanho de propriedades, de formas de grupos sociais formados pelos herdeiros e deserdados” de acesso.

A concentração de terras em fazendas agropecuárias permitiu que se originasse na Ilha uma aristocracia local que pode ser identificada como oligarquia. Esta é definida por Emmi; Acevedo Marin (1996, p. 51), como “uma estrutura de poder, caracterizada pelo controle político e econômico exercido através de uma extensa rede de relações em que predominam mecanismos de dominação/subordinação”. As autoras afirmam que o domínio da terra é a base do poder oligáquico no Pará e que esta base, ao longo do processo histórico “continua relativamente intocada”. Nas sociedades rurais, como no Marajó a terra é o meio de trabalho essencial, bem como o objeto e o produto de trabalho, assim há uma tendência generalizada à formação de grandes propriedades particulares, semelhante ao que Emmi, (1988) discute em sua obra “A Oligarquia do Tocantins e o domínio dos Castanhais”

Emmi, (1988, p. 147), em estudos sobre a oligarquia de Marabá, compara a oligarquia presente no Marajó com esta e diz que em Marabá ela foi formada por intensas lutas “que resultaram na constituição de oligarquias locais ligadas ao comércio e fortalecidas pelo domínio da terra”. Entretanto a autora descreve um quadro equivocado quando afirma que as oligarquias que se estabeleceram em Marajó não encontraram resistência dos moradores, ou agregados do latifúndio agropecuário.

Os antagonismos sociais que surgem no meio agrário, não se restringem ao Arquipélago de Marajó, em todo país é o reflexo de formas econômicas e políticas repressivas

e violentas, onde grupos empresariais e o próprio governo se apropriam continuamente de territórios e recursos dos quais depende a existências de grupos como camponeses, quilombolas, posseiros, índios, seringueiros, entre outras categorias que se afirmam por meio de uma existência coletiva denominada identidade - carregada de simbolismo, de trabalho, de resistência coletiva diante de uma opressão.

Na região da Bragantina surge como questão importante, “a relação de construção do território, a idéia de mobilização política, com a produção da memória”. A memória ao ser construída sob esta perspectiva surge como “invenção de grupo” (auto-identificação), trazendo a “ancestralidade” como “elemento mobilizador das comunidades negras”. Há relatos, como os de Narcisa, onde grupos bastante organizados reagiram ativamente pela conquista da terra- fortalecendo sua identidade étnica. Um ponto semelhante entre a região de Mangueira (Salvaterra/Marajó) e a Região Bragantina é que em ambas está ocorrendo a fuga de seus jovens para as áreas urbanas. As autoras Acevedo Marin; Castro (1999, p. 85) ao analisarem os elementos marcantes das terras de preto na região Bragantina afirmam que:

A evolução dessas comunidades revela as situações do campesinato regional mais afetado pelo processo de cercamento de terras, vendo lentamente reduzirem-se suas terras agriculturáveis pela entrada de grupos de fazendeiros e empresas agroindustriais. Nessas comunidades é freqüente o fracionamento da terra, muitas vezes permanecendo pequenas faixas reservadas como terras de santo, o que contribui para manter a unidade do grupo. Também revigoram as tradições familiares, religiosas, de trabalho o que funciona como elemento de agregação e respondem pela atualidade desses grupos como comunidade negra rural. A migração da geração mais nova para os núcleos urbanos dificulta a elaboração de projetos societários enquanto as políticas de crédito e fundiária restringem a expansão da agricultura familiar.

A visão hegemônica que se tem da Ilha de Marajó como “vazio da ocupação humana”, estabelecida nas últimas décadas pelos poderes públicos Estaduais, advém do fato dessa região ser alvo da atuação permanente destes poderes, que acabam sendo pressionados pela oligarquia local (ALMEIDA, 1998). Tal visão não “enxerga” um “campesinato negro que se originou da formação dos mocambos da Ilha, da existência dos pequenos sítios, de concessões, doações e aquisições de terras de famílias que lutam por uma condição de autonomia e que na maioria das situações ficaram limitadas pelas cercas das fazendas” (ACEVEDO MARIN, 2004).

Almeida (1998, p. 41-42), ao estudar os Municípios de Cachoeira do Arari e Santa Cruz do Arari, afirma que é importante analisar as “estratégias de sobrevivência de vaqueiros, pequenos produtores agrícolas e pescadores”, pois quando se percebe o conjunto de

representações e regras processadas pelos referidos atores sociais, criam-se possibilidades de planejar de maneira eficaz ao invés de repetir “velhas receitas” como foi e é o caso das políticas de incentivos das empresas pastoril do Marajó. O autor chama atenção ao discurso que os fazendeiros e planejadores, impuseram durante décadas, de que a indústria pastoril da ilha passa por depressões e que este fato torna necessária a intervenção do Estado para cobrir os custos dos empreendimentos privados.

Apropriando-se do discurso do referido autor afirmamos que cabe à academia e aos planejadores regionais e nacionais perceberem que, diante do processo de “múltiplas adversidades” - “caracterizada por cerceamento dos direitos das águas por interdições de acesso a terra”, é impossível planejar, de maneira eficaz, sem passar pela análise dessas situações concretas (ALMEIDA, 1998, p. 42).

4.3 CONFLITOS EXTERNOS: DESENCADEADOS PELA INTRODUÇÃO DE