Taula 2. Formació de l’equip docent en interculturalitat
5. Conclusions
Na década de 1970, outro sistema de trabalho surgiu no cenário amazônico a partir da expansão da pesca industrial, citado por autores como Furtado (1988), Mello (1993) e Diegues (1995). Este novo setor é descrito por Furtado (1988, p. 265), no Pará, como “grande pesca”, ou seja, “aquela que é praticada nos moldes empresariais, com alto grau de modernização em seus processos de captura e beneficiamento, cujas relações de trabalho são de caráter capitalista”.
Segundo dados apresentados pelo Departamento Estadual de Estatística (DEE), que compõe uma série que vai de 1966 a 1970, os municípios do Marajó contribuíram em 60% de toda produção de pescado desembarcado em Belém (Ver-o-Peso) neste período (INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO ECONOMICO-SOCIAL DO PARÁ, 1974). Destes municípios, os de Soure e de Salvaterra foram os que mais produziram nestes anos, tendo atingido um percentual de 45% e 30% respectivamente.
Segundo Ferreira (2002) nas docas do Ver-o-Peso, em Belém, se comercializam cerca de 80 toneladas por dia de pescado. Este fato a elege a maior receptora de pescado da região Amazônica com um volume de cerca de 10 mil toneladas de peixe por ano, movimentando valores em torno de US$ 10 milhões de dólares. O autor afirma que os dados estatísticos sobre as áreas de pesca de origem do pescado é impreciso e que não há separação sobre a contribuição de cada setor pesqueiro (artesanal ou industrial). É sabido, no entanto que os
barcos pesqueiros da Ilha de Marajó e Baixo Tocantins realizam de seus produtos pesqueiros em Belém, contribuindo na captura deste montante acima citado.
Vale lembrar que no início dos anos 80, em conseqüência do surgimento do setor industrial a produção do pescado no Marajó acusou um crescimento da ordem de 195% que, segundo dados do DEE, provavelmente foi sustentado nos anos seguintes pela intensificação da captura da Piramutaba na área da baía de Marajó, para fins de industrialização e exportação.
A pesca industrial, segundo Mello (1993), é aquela realizada por barcos de grande porte, com casco de ferro e redes de arrasto, que capturam exclusivamente Piramutaba (Brachyplatysstoma vaillanti) e camarões (gêneros Macrobrachium e Penaeus), usam tecnologia de produção altamente sofisticada, mão-de-obra assalariada, dentre outras características particulares. Diferencia-se da pesca artesanal também pela motorização ou a capacidade de transporte das embarcações. A área de atuação da frota também pode ser utilizada para classificar os barcos, sendo consideradas artesanais aquelas embarcações que pescam em ambientes costeiros litorâneos ou em águas interiores, e industrial aqueles que pescam em ecossistemas oceânicos (BARTHEM, 1985; LEITÃO, 1996; ESPIRITO - SANTO, 2002).
A concorrência que surgiu entre a pesca artesanal comercial89 e industrial provocou novos conflitos que deviam ter sido minimizados após a proibição legal90, por meio da Portaria 009/88 da circulação da frota industrial na Baía do Marajó, mas o que ocorreu foram mais denúncias e confrontos. Os pescadores industriais passaram a fazer parte dos atores envolvidos ao se aliarem aos antigos grupos sociais antagônicos. Como agravante a Portaria 009/83 foi substituída em 199091 e a frota industrial passou a circular livremente nesta baía. Os conflitos continuaram e as medidas de intervenção dos órgãos governamentais não conseguiram evitar tais enfrentamentos. A intensificação da pesca e o surgimento da frota industrial, na década de 1970, não trouxeram desenvolvimento à população e tampouco ao
89 A definição de pesca artesanal comercial difere da artesanal de subsistência, pois é entendida como aquela que acontece durante o período de safra, nos meses de julho a novembro, e que é formada por agrupamentos de trabalhadores cujos vínculos familiares não definem os parceiros podendo estes serem provenientes de vários lugares distintos. É importante destacar que as técnicas e instrumentos de pesca se assemelham aos dos pescadores artesanais de subsistência, entretanto a forma de trabalho e o destino de seus produtos são aspectos diferentes. Os dos comerciais são quase exclusivamente enviados à geleiras para atender mercados próximos e distantes. Isaac e Barthem (1995: 299) os classifica como artesanais de caráter comercial.
90 Portaria 009/83. Isaac &Barthem (1995).
91 Portaria IBAMA/SUSPES-PA nº11 de 30.05.1990 dispõe sobre a abertura da pesca Profissional na Bacia Hidrográfica da Ilha de Marajó, no Pará, considerando-a aberta a pesca industrial.
setor pesqueiro, o que se tem notícias é que tais medidas não alcançaram seu objetivo e ainda deixaram como saldo maiores problemas (FURTADO, 1997).
É importante frisar que o choque entre as atividades pesqueiras artesanais comerciais e industriais ocorreram na região da baía do Marajó a partir da década de 80, quando a pesca da Piramutaba (Brachyplatysstoma vaillanti) e do camarão (gêneros Macrobrachium e Penaeus) foi intensificada em todas as regiões marinhas e estuarinas do Brasil. Houve enfretamentos entre pescadores da região do Marajó e os de fora, portanto é verdadeiro afirmar que os pescadores artesanais (monovalentes) migraram em busca desta nova modalidade de pesca, tanto que relatórios do IDESP (1991) sugerem que esses pescadores artesanais deveriam ser treinados para melhor desenvolver suas atividades nesta nova realidade produtiva. Furtado (1990);Mello (1984) e Maneschy (1990) fazem uma rica análise sobre este processo.
Nos rios, lagos e igarapés do Marajó, os pescadores tradicionais assimilaram as novas tecnologias paulatinamente, ao longo dos anos. Diegues (1995, p. 97) analisa esse fato, em estudos realizados com pescadores da área marítima, afirmando que “a pouca disponibilidade de capital e da sazonalidade da pesca, muitas vezes põe em risco a própria sobrevivência física do pescador e sua família”, sendo por isso comum que o pequeno produtor incorpore uma nova tecnologia apenas quando esta tenha provado ser eficiente. Outro aspecto que restringiu o uso imediato das inovações, originadas na década de 70, é o raro financiamento cedido aos pescadores tradicionais da região. Como exemplo podemos analisar os dados emitidos pelo IDESP (1991), a respeito do projeto PESCART92, em 10 projetos emitidos para aprovação de financiamento apenas três pescadores obtiveram o crédito - a quantidade de pescadores artesanais registrados nas colônias do Marajó era de 5.920, ou seja, 16,30% de um total estadual de 36.308 trabalhadores deste ramo.
As novas tecnologias, surgidas desde a década de 1970, como a rede de nylon, o barco motorizado, a geleira e a formação da frota industrial, não provocaram enfrentamentos entre os pescadores artesanais de subsistência, salvo aqueles que migraram para a frota industrial e os trabalhadores da frota pesqueira industrial, pois esta não tem acesso aos mananciais ícticos da região, nem mesmo os afluentes de rios, igarapés e lagos da Ilha de Marajó. Os conflitos registrados na baía marajoara possuem outra natureza, assim como sua utilização pode ser
92 Segundo Diegues(1995: 116-117) o projeto PESCART foi criado em 1973 para compensar a pesca artesanal. Em sua análise tal projeto teve efeito reduzido pois se tratava de dar assistência técnica- disponibilizando engenheiros de pesca. Entretanto, o que percebemos e o autor afirma é que nem sempre tais inovações eram necessárias, pois o problema não era o auto da produção e produtividade, mas sim os baixos preços pagos ao pescador pelo sistema injusto de intermediação, não levaram em conta o contexto-sócio cultural e o sistema de poder reinante das comunidades pesqueiras.
explicada, nos dias de hoje pela pressão da demanda externa (atendendo a lógica capitalista de mercado), pois a intervenção federal tornou uma porção desta área como espaço livre para a exploração da pesca industrial, antes disso não há conhecimento de como se dava esta exploração, mas certamente a pressão exploratória era menor devido a impossibilidade de realizar grandes armazenamentos, já que foi também na década de 1970 que houve a expansão dos frigoríficos. Esta expansão, juntamente com o crescimento do mercado consumidor possibilitaram a absorção do excedente da produção gerado pela entrada das inovações tecnológicas.
Os conflitos sociais observados no interior da Ilha são ocasionados atualmente, como já mencionado, pela usurpação dos recursos por parte dos fazendeiros. A dificuldade de reprodução das atividades realizadas pelas populações pesqueiras é proveniente das interdições, restrições e permissões do “dono do recurso”. Por vezes, o poder oligárquico da Ilha supera o das instituições responsáveis pelo controle e manutenção dos recursos renováveis, como IBAMA, ou ainda instituições creditícias regionais como o BASA (HURLEY, 1933; ALMEIDA et al, 1998). Este poder não reconhece a forma como os pescadores gerenciam as áreas onde desenvolvem sua atividade.
4.4 CONFLITO DE BEIRADA: UM CONFLITO INTERNO QUE HOJE ACONTECE ÁS