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Taula 2. Formació de l’equip docent en interculturalitat

3. Estat de la qüestió

3.1. L’immigrant a les societats occidentals europees

Este trabalho de cunho interdisciplinar busca conciliar as metodologias utilizadas pelas ciências sociais e as naturais, seguindo assim por um novo caminho que tem sido percorrido por diversos pesquisadores a partir dos anos 90 (BATISTELLA, CASTRO, VALLE, 2005). A etnoictiologia é este caminho. Ela é uma vertente da etnobiologia e tem sido apontada por autores como Diegues (1998) e principalmente por Batistella, Castro e Valle (2005) em trabalhos desenvolvidos em Manaus; Souza (2004) em estudos com os pescadores artesanais do litoral, em São Paulo e Thé; Madi e Nordi (2003), pesquisando comunidades do Alto- médio São Francisco.

Primeiramente, é importante observar que a ictiofauna da bacia amazônica é a mais diversificada de água doce do mundo, segundo estudos científicos biológicos. O número de

espécies estimadas para este ambiente varia entre 1500 e 5000 (GOUDING, 1996). Segundo Lowe-McConnell (1999) a ictiofauna da bacia Amazônica divide-se em dois grupos: um primeiro, onde estão as espécies freqüentes em regiões de planície e outro grupo que engloba as que habitam “os cursos superiores dos afluentes”, denominadas espécies de planalto. Esta divisão é espacial e não implica dizer que haja espécies que podem ser encontradas em apenas um dos ambientes. A abrangência de seu estudo nos permite afirmar que na Ilha de Marajó, uma região de planície amazônica, pode-se encontrar um grande número de “espécie de planície” de valor comercial que “penetra nos afluentes durante a enchente para explorar as áreas alagadas, retornando ao rio principal na vazante”. Podemos citar como exemplo o tambaqui (Colossoma macropomom), o pirarucu (Arapaima gigas), o curimatã (Proclilodus nigricans), entre outras.

É importante frisar que há uma relação entre a distribuição da ictiofauna no ambiente e as modalidades de pesca desenvolvidas no mesmo, tanto que as características sazonais e a ecologia das espécies permitem aos autores Isaac e Barthem (1995) dividirem a atividade pesqueira continental em duas modalidades: aquela denominada pesca nos lagos de várzeas e outras áreas alagadas e outra que se desenvolve nos canais dos rios. Sobre o tema, Smith (1979) afirma que a sazonalidade e variedade dos ambientes de várzea fazem com que as comunidades de peixes mudem radicalmente durante o ano, de acordo com as flutuações do nível da água. Os métodos pesqueiros e a relação dos pescadores com os recursos hídricos varzeiros também se adaptam às diferenças do “movimento dos peixes”, na localização dos mesmos na água e pelas relações socioculturais estabelecidas na região.

No decorrer das entrevistas e na observação direta feita em campo foi possível perceber estas mudanças socioculturais a partir, por exemplo, das complexas tarefas diárias a que o pescador (a) artesanal das “turmas de rio” se lançam, como: estar atento as mudanças de marés, a cada seis horas; identificar os cardumes; manter suas redes limpas e “reparadas” (pequenos consertos feitos a mão); entalhar a rede nova (ato de colocar uma corda em uma das extremidades da rede); saber exatamente o tamanho da malha da rede que deve ser usado, ser solidário com o seu companheiro caso este precise de ajuda na despesca (ato de retirar o peixe da rede) e muitas outras ações que a primeira vista parecem fazer pouco sentido a quem não conhece a arte.

Observemos as palavras do Sr. Barbosa:

O Marajó é todo varado de rios [...] peixe vai daqui pra lá e outros voltam. Quando o inverno é grande o peixe sobe na piracema (desova), vão para os lagos. Na volta é

hora de pegar. Já sabe que vai dar muito peixe. No lago é a rede de arrasto, fazendo bloqueio, que pesca jeju, tamoata, piranha, mandi, mandubé (informação verbal)73.

O Sr. Barbosa tem cinqüenta e seis anos e se autodenomina um pescador-lavrador, pois além dele pescar desde os dezessete anos, trabalha na cria de animais e na agricultura. É possível perceber em seu relato a necessidade de se estar munido de conhecimentos diversos para realizar as complexas atividades desempenhadas por um pescador. É necessário saber, como o Sr. Barbosa, que há peixes migradores que se refugiam nos lagos durante o inverno e fogem da apoxia (falta de oxigênio na água) e da predação durante o verão, podendo ser capturados nesta época. O conhecimento profundo da icitiofauna é pré- requisito fundamental para que a pessoa seja denominada pescadora. Segundo Salati (1983, p. 70) “as grandes populações ribeirinhas exercem a pescaria para o abastecimento das famílias, o que leva a um conhecimento profundo das particularidades do rio e do comportamento dos peixes e ainda garante a transferência de conhecimentos”. A autora afirma que um biólogo pesqueiro, que deseja estudar a fauna ictica amazônica, geralmente se rende ao conhecimento preciso de um pescador artesanal. Faço das afirmativas da autora as minhas próprias, pois quando fui bolsista de aperfeiçoamento, sob a orientação da Drª Vitória Issac, tive a oportunidade de participar de uma das muitas reuniões que o grupo realizou com as comunidades pesqueiras bragantinas para apresentar um projeto de biologia pesqueira que seria implementado na região estuarina do rio Caeté e que carecia de apoio destes grupos, para obter informações sobre a frota pesqueira artesanal e a frota industrial da localidade. Durante esta reunião foi possível perceber não só o fato dos pescadores conhecerem profundamente a fauna íctica local como a necessidade imprescindível de inseri-los, a partir da indicação de cada comunidade estudada, no processo de captação de informações necessárias ao nosso estudo.

Segundo Batistella, Castro e Vale (2005) é preciso dar a merecida importância aos conhecimentos das comunidades ribeirinhas sobre os aspectos ecológicos das regiões em que eles estão inseridos, por serem estas formas racionais distintas das oferecidas pelas ciências modernas, porém não menos importante para o estudo dos recursos pesqueiros, por exemplo. Estes autores, depois de comparar as informações dadas pelos moradores da comunidade de Boas Novas- AM e da literatura sobre a dieta alimentar de alguns grupos de peixes da região, afirmaram que os pescadores artesanais possuem conhecimento “consistente e detalhado” sobre a dieta alimentar dos peixes por ele capturados, “em um grau elevado de especificidade”. Cabe afirmar, como bióloga, que não se está aqui desmerecendo as práticas

das ciências naturais ou da biologia pesqueira e sim evidenciando a importância do conhecimento tácito tradicional que geralmente é negligenciado.

No arquipélago do Marajó, há os lagos de várzea e áreas alagadas de Salvaterra onde grupos familiares, pertencentes a as comunidades negras rurais, realizam a “pesca de perto”74 , produzindo para a subsistência de seu povoado e para a troca ou comercialização com outros povoados próximos. Desta forma acontece entre Deus Ajude- Mangueira e Providência; Mangueira e Bacabal ou Pau Furado e Barro Alto; em Salvá e Mangueira ou entre Caldeirão e Soure. Os recursos próximos as comunidades são usados o ano todo por homens mulheres e crianças, maiores de onze anos, que para obterem êxito na “lida com os peixes” preparam redes camaroeira ou de tapagem, tarrafas e caniços e também utilizam iscas que são capturadas nas beiras dos igarapés como sapos, pequenos peixes e frutos de plantas aquáticas75.

As comunidades pesquisadas usam estratégias espaço - temporais para a utilização dos recursos ícticos. Geralmente, durante o período chuvoso, as Baixas, os lagos temporários e rios próximos as comunidades e o igarapés são os territórios de pesca mais freqüentados. Na comunidade de Deus Ajude, por exemplo, grupos familiares freqüentam as baixas entre os meses de março e maio para capturar principalmente a traíra, o jeju e o tamuatá. Segundo o Sr. Aluísio Alcântara, no mês de maio é possível capturar tucunaré (Cichla sp.), por isso nesta época este Sr. vai até o Igarapé do Siricari ou ao Igarapé Mãe de Deus, com linha de mão e isca de “peixe miúdo”, capturar por entre as raízes da Rizhophora, este espécime tão apreciado pela culinária local. Sobre este fato ele nos conta: “Época do tucunaré é o mês de maio. É quando o peixe tá cortivando naquele lugar, chega aquela época já sabe [...] que é hora de saber onde ele está... época de maio é época de tucunaré” (Informação verbal)76.

O mês de maio marca o início do verão e a ocorrência da diminuição dos volumes de água nos ambientes aquáticos. Esta mudança sazonal facilita a pesca do tucunaré, outro aspecto é que ele é sedentário de hábitos alimentares carnívoros, ou seja, costuma alimentar- se de outros peixes entre troncos e raízes de árvores às margens dos rios e igarapés, nas palavras de seu Aluízio: “É quando o peixe tá cortivando naquele lugar”.

O tucunaré é o nome popular atribuído por mais de uma espécie do gênero Cichla. Estas variedades são percebidas entre os pescadores artesanais das comunidades negras de Salvaterra, bem como seu nicho ecológico (habitat, dieta, comportamento, reprodução etc.),

74 Ver definição de pesca de perto no capítulo 1 deste estudo.

75 O fruto maduro da aninga é colocado em gomos no anzol como isca para capturar o bacu. 76 Entrevista de Sr. Aluízio Alcântara concedida à autora (2004).

no rio Mangueiras e Igarapé Siricari as espécies tucunaré-vermelho (Ciclha sp.) e tucunaré- açú (Cichla ocellaris) são mencionadas como as capturadas e consumidas pelas famílias das comunidades de Deus Ajude, Providência, Siricari e Barro Alto, sendo que em Mangueira estes espécimes são geralmente vendidos. No Rio do Saco, os pescadores de Mangueiras capturam e comercializam duas espécies: o tucunaré-pinima (Cichla temensis) e o tucunaré – açú (Cichla ocellaris) (SANTOS; JEGU; MERONA, 1984).

Thé; Madi; Nordi (2003, p. 394), estudando pescadores artesanais mineiros, fizeram comparações entre o conhecimento local dos pescadores e o conhecimento científico acerca do tucunaré e chegaram a conclusão que estes eram convergentes em todos os fenômenos observados como: comportamento trófico da espécie, local de reprodução, tipo de desova, cuidado parental, entre outros. Estes autores afirmam que os pescadores artesanais “são detentores de um conjunto de conhecimentos relativos à pesca, conseguidos ao longo da lida diária com o peixe e com o rio”.

Os pescadores artesanais das comunidades rurais negras, tanto de subsistência quanto os comerciais, semelhante aos pescadores artesanais mineiros detêm o conhecimento relativo a icitiofauna que consomem e comercializam. Os relatos do Sr. Aluízio já citado ou o Sr. Rui Guilherme, que observaremos a seguir, são dois entre muitos pescadores (as) artesanais que expressam estes conhecimentos. O Sr. Rui Guilherme quando questionado sobre a freqüência das espécies de peixe durante os meses de safra, no Rio do Saco, e de entressafra no Rio Mangueiras, nos afirma que:

No começo da safra, nos meses de maio e junho dá mais a dourada, a pescada branca, a piaba, o bagre e a piraíba. Mais adiante em julho e agosto dá mais é o aracu, a piranha, o mandubé, cachorro, tamoatá, apaiari e a traíra, sendo que o mandi e a tainha é todo tempo. No inverno, no rio, dá mais bacu.

No rio Mangueiras no inverno dá a dourada, a pescada branca, a amarela, dá camurin, bagre, bacu, o filhote, a pirapema. Só os que não dão são os do Salgado.(informação verbal)77

O Sr. Rui Guilherme é um dos muitos pescadores artesanais que, em seu discurso, diferencia a freqüência das espécies ícticas ao longo do ano e as distribui horizontalmente, nos diversos ambientes (rios, igarapés, mangues e baixas) em que trabalham. Estes pescadores percebem as alterações ictiofaunísticas existentes em seus “territórios de pesca de produção e comercialização” e “territórios de subsistência”.

Nos “territórios de pesca de subsistência” é freqüente o uso de artes de pesca como o espinhel e principalmente o caniço, na pesca de isca. Os pescadores e pescadoras artesanais de

subsistência usam diversas iscas, de acordo com os hábitos alimentares dos espécimes capturados. As iscas são coletadas no próprio território, assim como o material para a confecção artesanal do caniço e do espinhel, apenas os anzóis são comprados em comércios próximos as comunidades. O quadro 5 foi elaborado a partir do relato de homens, mulheres e crianças que pescam nos rios e igarapés próximos as suas comunidades.