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Saí de casa carregando uma sacola com o par de tênis antigo que há tempos havia esquecido sob a poeira debaixo do armário. Decidi levá-lo a uma oficina de sapateiro para reparar certas avarias, que apesar de pequenas, presenteavam-me os pés com calos aborrecedores todas as vezes que insistia em usar novamente o calçado. A ideia era ir ao lugar que uma grande amiga havia indicado, um ateliê localizado na Avenida Gama Abreu, no bairro da Campina, próximo à Paróquia da Santíssima Trindade. Já havia passado uma ou duas vezes em frente ao espaço em outras ocasiões e percebera que poderia encontrar ali o que procurava em minha pesquisa.

A placa à frente da oficina sinalizava o nome Zeno Calçados e junto ao nome estava a imagem de um sapateiro trabalhando e exibindo um sorriso farto. Vários sapatos masculinos e femininos à mostra decoravam a entrada do lugar. Empilhados em uma armação de ferro que servia como mostruário, estes se apresentavam como a linha de calçados fabricados ali na oficina.

O senhor que me atendera era o mesmo da placa, Seu Zeno. Bastante atento e compreensivo ao meu pedido, anotou em um recibo o preço do serviço e me indicou que retornasse na quarta-feira para buscar o calçado (estávamos na segunda). Durante a conversa sobre o reparo, o preço e o prazo, procurei observar brevemente o lugar, os funcionários, os vários calçados espalhados por estantes e balcões, os calendários e cartazes pregados à parede – um ou dois de conteúdo religioso, elemento que já havia notado estar presente em algumas outras oficinas também. Além

de Seu Zeno, estavam trabalhando ali mais dois11 senhores de idade considerável (algo entre

os 50 e 60 anos, provavelmente) e um rapaz mais novo (que aparentava estar na casa dos vinte e poucos anos) em uma pequena sala ao fundo.

Por conta daqueles acontecimentos inesperados que confluem na rítmica diária da urbe, regando com o imprevisível os hábitos cotidianos dos citadinos, só pude retornar à oficina para buscar o par de tênis na quinta-feira, um dia após o prazo acertado para a entrega. Ao chegar ao lugar, os senhores estavam todos trabalhando e Seu Zeno distribuía a cola de um recipiente maior entre algumas latas menores postas sobre uma grande mesa ao centro. Ele ao me reconhecer, perguntou surpreso o serviço que eu havia solicitado, já prevendo que havia algo errado. Após tê-lo lembrado meu nome e lhe ajudado a recordar meu pedido, ele procurou o calçado e logo notou o equívoco. O serviço, na verdade, só estaria pronto na quarta-feira da semana seguinte.

Seu Zeno e eu pedimos desculpas um ao outro, o senhor assumindo que não havia calculado atentamente as datas e me informado corretamente e eu perguntando-me se havia compreendido errado o que aquele senhor havia me dito poucos dias antes. Para não haver desentendimento ele me prometeu que no dia seguinte, sexta-feira, o tênis estaria pronto. Eu lhe respondi que não precisava apressar o trabalho, por não haver necessidade ou urgência para tanto e, além disso, sabia que eu também tinha minha parcela de culpa no desencontro (ou provavelmente, eu fosse o único culpado no fim de tudo). Contudo, ele insistiu generosamente que eu retornasse no dia seguinte para receber o calçado novinho em folha.

No dia seguinte dirige-me à oficina de Seu Zeno para buscar o calçado. Já estava pronto, um trabalho muito bem feito por sinal. Saiu melhor que a encomenda. No meio da conversa, aproveitei a oportunidade para falar sobre minha pesquisa. Falei de forma breve sobre os mestres de ofício que conhecera desde 2010 e de como achava importante o trabalho destas pessoas para a história da cidade e como a memória dos mais antigos, dentre os quais figuram senhores como ele, são significativas para compreender como a capital paraense se modificara ao longo dos anos. Comentei a importância de um espaço como a oficina e lhe sugeri que participasse de meu estudo, é claro, se ele estivesse disposto a contribuir e se possuísse certo tempo livre.

O sapateiro logo demonstrou apreço pela ideia, inclusive comentou que em mais de 20 anos de trabalho já havia dado várias entrevistas a respeito do ofício de sapateiro. Recordou de uma delas, na qual falou para A Província do Pará, antigo jornal popular de Belém que,

11 Descobri mais tarde que um destes senhores era funcionário temporário, estaria apenas auxiliando no atendimento da extensa demanda daquele mês.

hoje em dia não circula mais. Lembrou que além dele, mais outros dois senhores que trabalhavam com outros ofícios tradicionais também foram entrevistados. A reportagem iria tratar de “Profissões em extinção”. Seu Zeno guarda até hoje o recorte de jornal com tal matéria.

Logo expliquei ao senhor que minha pesquisa tinha como proposta refletir sobre a questão a partir de uma perspectiva mais abrangente: não obstante o pensamento corrente de que tais profissões desapareceram ou estão em vias de extinguir-se pelo fato de não garantirem o mesmo espaço na economia de mercado atual que outrora mantiveram, é possível encontrar um número significativo de pessoas exercendo tais atividades em diversos bairros do mundo urbano belemense12. Logo, procuro entender o porquê da

presença/permanência de ofícios de caráter manual/tradicional em meio a um tempo racionalizado, resistindo à lógica de mercado que insiste em marginalizar tudo aquilo que não se adequa ou a acompanha.

Seu Zeno demonstrou pronto interesse em contribuir com o estudo, ajudando com tudo aquilo que estivesse ao seu alcance. Foi neste momento que cheguei a uma das ocasiões de fundamental importância em qualquer pesquisa etnográfica: o antropólogo deve sempre estar atento com a maneira através da qual estabelece, ou melhor, “negocia” o diálogo com o interlocutor. Minha preocupação era aprofundar o quanto pudesse o contato com os sapateiros daquela oficina e passar ali o maior tempo que conseguisse, porém, tentando interferir o mínimo possível na dinâmica cotidiana do lugar.

Sendo assim, procurei negociar com Seu Zeno os melhores horários para visitar a oficina, aqueles em que o fluxo de clientes e de serviço fosse menor, a fim de utilizar os horários em que o sapateiro pudesse me oferecer maior atenção sem atrapalhar seus afazeres. Após a conversa, combinamos então que eu retornaria na semana seguinte, segunda-feira a partir das dezesseis horas.