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Passei cerca de três semanas combinando com Seu Zeno o dia em que iria à oficina para fotografar os sapateiros “botando a mão na massa”. Ele me sugeriu fotografar um de seus funcionários fabricando alguns pares de calçados que haviam sido encomendados recentemente. Sempre que chegava ali, Seu Zeno me recebia gentilmente, no entanto, me pedia para retornar dois, três dias depois pois o empregado responsável pelo trabalho havia faltado ou então estava ocupado em outras tarefas mais urgentes, pedidos que já estavam para esgotar o prazo de entrega.

Numa tarde de quarta-feira as circunstâncias na oficina estavam, enfim, favoráveis para que eu pudesse etnografar, visualmente, inclusive. Seu Zeno estava bastante ocupado, se revezava entre atender os clientes no balcão e consertar alguns pares de sapato, mas me deixou à vontade para fotografar o que quisesse. Indicou-me dois senhores que estavam fabricando dois pares de calçados. Francisco, 43 anos, sapateiro desde os 14, estava terminando o conserto de um sapato feminino, e logo em seguida iria partir para a fabricação de um calçado masculino. Enquanto observava e fotografava Francisco trabalhando em uma peça, ele se virou para mim e disse: “O trabalho aqui é ‘quase’ cem por cento artesanal, só falta matar o boi mesmo pra tirar o couro”.

Enquanto isso, Seu Nazareno estava na etapa de solar o calçado, uma peça que fora trabalhada primeiramente por Francisco em uma etapa anterior. Este senhor é o mais velho trabalhador do local, e por certo, o mais brincalhão. Um senhor de 63 anos que iniciou no ofício aos nove, logo se dirigiu a mim dizendo que se chamava “O bonitão”.

Numa pequena sala ao fundo da oficina estavam Diego e “Zezão”. O primeiro é o sapateiro mais novo da oficina, um rapaz de 25 anos que trabalha desde os 12 como sapateiro e espera abrir sua própria oficina futuramente. O outro aparenta estar na faixa dos 40 anos, começou aos 15 no ofício, e hoje em dia trabalha como segurança noturno e há dois meses ganha um dinheiro extra como sapateiro.

Enquanto Francisco e Nazareno trabalham na frente da oficina e em serviços com calçados, Diego e Zezão trabalham numa salinha ao fundo, pouco iluminada, menos arejada,

as paredes com pintura desgastada, o chão poeirento. Em geral, trabalham ali com serviços relacionados à bolsas e malas. Aqui se percebe os meandros de uma hierarquia que tem por base os conhecimentos que cada sapateiro acumulou ao longo dos anos. Os dois mais experientes são responsáveis pelos serviços de fabricação e os consertos de maior complexidade e dificuldade, logo trabalham em um espaço mais arejado e com as mesas mais adequadas ao serviço. No espaço mais ao fundo da oficina, os serviços relativamente mais simples são realizados pela outra dupla.

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Do alto de seus 63 anos, Nazareno afirma que não gosta de ficar em casa sem fazer nada. Prefere ir todos os dias trabalhar, pois caso contrário, tem que aturar as preocupações da esposa em casa, que o “atormenta” com uma constante vigília: “ah, se eu ficar em casa a mulher fica perturbando, perguntando pra onde eu vou, o que eu vou fazer... ai é melhor vir pra cá trabalhar, porque o cara que não trabalha fica velho rápido”. Isso demonstra também a relação de satisfação pessoal que Nazareno tem com o ofício de sapateiro: trabalhar com calçados é o que faz do senhor sentir-se jovem, “vivo”, ao invés de ter de se conformar com a idade e a velhice.

Nazareno e Zeno são amigos de longa data, trabalharam juntos no passado para o pai de “Zeca” (sapateiro que já conhecia há alguns anos, por outro apelido, Zé Luís). A rotina na oficina para estes dois senhores não é apenas de trabalho: a todo momento eles fazem piadas ou chacotas, xingam-se e brincam um com o outro, mantendo um clima bem alegre e

descontraído no lugar. Seu Zeno insiste em chamar Nazareno de “Velhinho”, que responde “Velho é tu! Só porque eu tenho cabelo branco eu sou velho?”.

Um senhor que trabalha em um banco próximo à oficina chegou e perguntou o preço de alguns calçados. Aparentemente ele já era conhecido de Seu Zeno, pois estes conversaram durante alguns minutos sobre coisas triviais, momento no qual o bancário falou ao sapateiro que sua categoria estaria entrando em greve nos próximos dias. Seu Zeno brincou: “Ah, nós vamo aderir também! Vamo grevar também!”. Pouco depois do bancário se retirar, Zeno e Nazareno trocaram opiniões a respeito, comentando com certo tom de desaprovação como estava se tornando um hábito esta greve nos bancos, que todos os anos ocorria coincidentemente no período que antecede o feriado do Círio. Um ato que por mais importante que fosse enquanto luta social, parecia aos dois senhores, uma desculpa para não trabalhar. Para estes senhores, o sapateiro deve ser trabalhador dedicado e empenhado se quiser ganhar a vida, não pode se dar ao luxo de ficar sem trabalhar (fazer greve, no caso).

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Perguntei aos dois, Zeno e Nazareno, se já haviam conhecido alguma mulher que trabalhasse como sapateira. “Já sim!” me responderam os dois. Inclusive, a ex-esposa de Nazareno fora sapateira e trabalhava costurando as peças de sapato: “trabalhava bem ela, podia se dizer sapateira” – comentaram os senhores. Seu Zeno revelou que conhecera ao longo dos anos quatro mulheres que exerciam o ofício, entre elas, a que mais se destacava pelo talento era chamada “Cotinha”: “Ela cortava, costurava e solava! (…) Ela tinha categoria, fazia umas peça fina!”. A sapateira trabalhara inclusive na “Oficina do Beça”, no bairro de Nazaré, segundo Zeno, uma das oficinas mais importantes e tradicionais de Belém.

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Acompanhei o movimento na oficina durante a tarde inteira e pude identificar o grande número de clientes do sexo feminino (tal como Sidnei me revelara anteriormente). Seu Zeno atendia a todos sempre muito gentil e atencioso. Ao atender uma cliente em específico, virou-se para mim e fez uma referência “ao filme do Chaplin” (Tempos Modernos), fazendo o contraste entre a produção em série e o trabalho do sapateiro: ali na oficina, o sapateiro se preocupa com o trabalho bem feito, então se algo não dá certo ele retoma o processo e

conserta os erros; já que não há uma esteira dinamizando e acelerando o trabalho do sapateiro, ele tem a possibilidade de retornar, refazer, aprimorar.

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Por volta das dezesseis horas apareceu um senhor para buscar os calçados que havia encomendado. Na verdade, os calçados deste senhor estavam sendo feitos naquele exato momento (pelas mãos de Francisco e Nazareno). Tive a oportunidade de presenciar Seu Zeno explicando para o cliente que ainda não estavam prontos, mas que na manhã do dia seguinte ele poderia ir lá na oficina que o trabalho já estaria terminado. Zeno fazia algumas piadas com o velho para tentar descontrair enquanto este reclamava pela demora com os calçados. Aquele

senhor ficou ali até o fim da tarde, ligeiramente aborrecido com a situação, hora ou outra resmungando “égua, a quanto tempo que eu já encomendei isso?!”.

Ele permaneceu sentado ali um bom tempo, observando a rua, as pessoas que ali passavam, batendo papo com Zeno, lendo jornal. Ele reclamava da demora pois queria os sapatos para “ir bonito” aos bailes que frequenta. Recordou brevemente de antigos bailes que aconteciam em Belém, falou que fora no passado membro de um grande clube de Belém onde era realizado um dos principais bailes da capital. Seu Zeno me revelou depois que aquele senhor tem o hábito de encomendar sapatos ali, inclusive comentou que somavam-se mais três aos dois que estavam sendo fabricados. Seu Zeno já conhece o modelo específico que agrada o senhor, bem como a fôrma que melhor cabe em seu pé.

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Ao final da tarde despedi-me dos sapateiros e conversei com Seu Zeno para combinar meu retorno à oficina. Eu ainda pretendia entrevistá-lo com mais calma, dando-o tempo para falar de forma mais abrangente sobre sua trajetória no ofício de sapateiro, e se ele permitisse, utilizaria o gravador digital para fazer o registro de seu relato. Ele me indicou que retornasse nos dias de sábado após o almoço, pois neste horário ele poderia fechar a oficina e dedicar toda sua atenção à entrevista.