Passados os primeiros anos da trajetória de Seu Zeno no ofício de sapateiro, ele inicia- se em oficinas de maior porte localizadas no centro da cidade. Na década de 1980 o sapateiro começa a trabalhar na “Oficina do Beça” e posteriormente na oficina de um senhor chamado Epaminondas. Foi ao longo desta década que o sapateiro ganhou mais experiência no ofício, pois trabalhou em organizações variadas onde o trabalho visava diferentes objetivos (produção voltada para a fabricação por encomenda, produção em larga escala, produção especializada em calçados femininos), aprendeu a trabalhar com matéria-prima mais
16 Não se pode esquecer que esta instituição tende a ser a responsável por selecionar e segregar os indivíduos, garantindo a manutenção das hierarquias e assimetrias sociais.
sofisticada, entrou em contato com o trabalho mecanizado mais complexo, manuseando as máquinas mais modernas da época. O sapateiro revela que durante este período pôde acumular o conhecimento necessário e imprescindível para vir a administrar o próprio negócio e garantir por todos estes anos o sucesso de seu empreendimento.
ZENO: Fui trabalhar na 28 de setembro no Beça, uma empresa aí já mais sofisticada. Couros de primeira qualidade. Já um outro padrão de trabalho, tudo chamado de primeira classe. Aí que eu fui conhecer pelica, camurça, marca de couro... Isso tudo eu fui conhecendo lá.
***
Quando eu sai de lá... em 1980, em fevereiro de 1980... Aí eu vim trabalhar no Beça, onde eu vim fazer especialização. Era tipo uma faculdade, tipo uma faculdade. Essas outras lá era como se fosse um jardim de infância, um ginásio, né. E lá no beça não, era como se fosse já a faculdade. Era tudo de primeira, tinha máquinas modernas, mais moderna que a do pai do Zé Luís. Aí, foi aonde eu trabalhei quatro anos, que foi ótimo, já viu só a faculdade, o curso é de quatro anos, né. Foi quatro anos bem, bem, bem aproveitado. (…) Aí foi de lá que, depois saí de lá e voltei de novo com o pai do Zé Luís, lá pra Marambaia. Voltei de novo, aí trabalhei mais um ano. Mas como eu já tinha o padrão, já era muito elevado pra oficina dele, né, aí foi pra onde eu vim trabalha aqui na 13 de maio, com o Senhor Epaminondas.
***
Aí lá eu fui aprender linha de produção. Grande escala… cem, duzentos, trezentos pares de sapato por semana, lá era linha de produção. Uma média de 150 pares de sapatos por semana tudo manual (…) Aí já ia pras lojas. Não fazia já o que a gente faz aqui, conserto e encomenda. Era só fabricação, uma linha específica de produção, só para mulheres. O diferencial do Beça é que era pra homem e pra mulher, mas só que era unidade, encomenda, sapato exclusivo.
***
Isso década de oitenta, foi em 86. Aí foi ai que eu fui me especificar mais ainda. Fui aprender a produção, já correr com o serviço. Aí tudo foi servir pra que eu aplicasse no meu mesmo. Aí saindo de lá, foram três anos e sete meses, né, nesse Epaminondas.
Nos anos 1990, Seu Zeno veio empregar-se na rua Gama Abreu, onde trabalha desde então. O experiente sapateiro chamado Aldenor foi quem primeiramente lhe ofereceu serviço ali naquele perímetro do bairro da Campina. Contundo, no período da presidência de Fernando Collor, assim como várias outras pessoas, o patrão de Zeno acabou passando por grandes dificuldades. Ele se viu então obrigado a fechar as portas de sua oficina de calçados e tentar encontrar outra forma de ganhar seu sustento.
Como o próprio sapateiro enfatiza este foi um momento decisivo na sua vida. Seu Aldenor havia desistido do empreendimento por não mais ter condições de manter a oficina em pleno funcionamento. Zeno aproveitou a oportunidade que surgira e pediu permissão ao antigo empregador para assumir o negócio em seu lugar. O senhor deixou para Zeno parte das máquinas, ferramentas e outros instrumentos, porém, ele teria de iniciar sua própria produção,
além de assumir o contrato de aluguel com a proprietária do local e arcar com toda a responsabilidade daquela oficina.
ZENO: Aí foi aí que veio a minha área. Fui entrar e fui trabalhar dois anos e cinco meses com um cearense de nome Aldenor. Qualquer dia desses vou aproveitar, vou visitar ele. Vou dizer que a planta, a árvore que ele plantou deu frutos, né (…) O negócio era dele, ele entregou, mas ele não me entregou assim, ele abandonou e eu que tive coragem assim, e assumi. Em 1991, quando o Fernando Collor assumiu.
***
Fui lá no Banco do Brasil ai o cara me disse: “Olha cara eu vou te ajudar, mas tu é muito corajoso”. Ninguém queria se meter num negócio quando o Fernando Collor assumiu. Ninguém queria. Mas o que aconteceu? Ele deixou o povo sem anda. Eu não tinha nada, né. Então não tirou nada de mim. Agora eu vou começar do zero!
***
Comecei do zero. Quando nós “começamo” lá na oficina, não tinha um cinto sequer pra colocar pra vender! Então nós “trabalhamo” segunda, terça, quarta e quinta. Não tinha como abrir a porta, a gente tava fazendo cinto e sapato pra botar pra vender. Como é que a gente vai abrir se não tem nada. A gente tinha que vender alguma coisa. Faz o seguinte, bora trabalhar segunda, terça e quarta, bora fazer alguma coisa pra botar aí (…) Aí “colocamo”. Quando foi quinta-feira eu digo: é, já tem sapatilha, já tinha sandália rasteira também, né. Já tinha uma base de uns 100 pares de sapatos e uns 25 a 50 cintos. É, bora abrir!
A narrativa do sapateiro revela como uma iniciativa no mínimo ousada, pois tomada justamente na ocasião em que o país atravessava um momento de crise econômica e política, resultou em um negócio de notável sucesso apesar de todas as dificuldades evidentes e os obstáculos por vir, contrariando qualquer previsão de fracasso. A história de Zeno demonstra como diferentes trajetórias sociais desenham-se por meio das decisões tomadas com base no campo de possibilidades (Velho 1994) que o cotidiano da urbe moderno-contemporânea nos apresenta.
ZENO: Na primeira semana, sucesso total. Na segunda aí já entrou a fase do conserto. Fabricação e conserto. Que foi aonde explodiu todo o auge aqui, só quem tinha trabalho com conserto era lá na “A proletária”. Lá na 28 de setembro, com a Quintino. Sessenta anos de tradição. Lá eles só faziam coisa de conserto. Era o único que existia. “Vamos começar a fazer aqui!” Ai foi onde nós começamos a fazer aqui. Fabricar e consertar. Eu fui o primeiro aqui na área.
***
Sapateiro que tinha negócio de consertador era aquele de beira de rua, entendeu? Existia que era o engraxate e sapateiro. Isso ai existia tudo nos anos setenta. Mas em pontos aqui mesmo, não existia nenhum. Não tinha ninguém que… Ai quando foi que viram a gente fazendo ai, ai que começou a se expandir na cidade.
Conserto não dá prejuízo. De jeito nenhum. Mesmo que não venham buscar, o que fica ai. Dá um retorno muito grande, na faixa de setenta a oitenta por cento do geral do mês. Já a fabricação não, a fabricação é dez, quinze, vinte por cento no máximo.
A perspicácia de Seu Zeno em trazer para o “centro” um serviço que só era encontrado no bairro do Reduto e que antes fora oferecido por apenas uma oficina, revela as táticas (Certeau 1994) por meio das quais os citadinos (re)inventam o sentidos do viver a cidade e praticar o espaço urbano17. Como conta o sapateiro, depois dele as outras oficinas do bairro da
Campina e da porção mais central da cidade passaram a aderir ao trabalho com o reparo de calçados. Tal movimento constituiu uma mudança gradual, mas profunda e significativa, pois estes sapateiros enfrentaram a ideia de trabalhar com algo que os mais antigos consideravam menos honroso – e em alguns casos, passaram por cima do próprio orgulho. Este processo de transformação configura um dos elementos cardeais que garantem a presença/permanência do ofício de sapateiro no mundo urbano belemense.
Na avenida 16 de Novembro encontrei a oficina U.T.I das malas, bolsas e calçados, onde trabalham os senhores Anacleto e “Bené”. Estes sapateiros são da geração anterior a de Seu Zeno. Apesar de trabalharem apenas com conserto, narram de forma trágica as mudanças pelas quais seu ofício passou nas últimas décadas. Contaram-me sobre a época do fechamento dos curtumes aqui em Belém onde se trabalhava o couro utilizado para a fabricação de calçados, a chegada de linhas de sapatos de outros estados do Brasil, e nos últimos dez anos até mesmo de outros países como a China. Segundo estes senhores desde a década de 1960 começou o processo de decadência dos sapateiros na capital paraense. No quinto capítulo, as narrativas destes senhores serão abordadas de forma mais aprofundada.
Próximo do fim de nossa conversa, Seu Zeno contou-me sobre seus planos para o futuro, sobre a vontade de trabalhar seus últimos anos apenas em casa, no distrito de Icoaraci18 onde mora com a família. Observando as expectativas que o sapateiro pincela para
os próximos anos é possível compreender, tal como já indicara Gilberto Velho (1994), que as trajetórias individuais dos citadinos tendem a seguir a ideia de um “projeto” (Velho 1994), uma linha através da qual planejamos, objetivamos e estetizamos os rumos da vida cotidiana,
17 Segundo Michel de Certeau (1994), a cidade é palco de diferentes forças que dinamizam o espaço e suas transformações ao longo do tempo: de um lado, a experiência urbana é regulada e normalizada verticalmente pelo viés institucional, através do qual uma série de “estratégias” viabilizam o projeto e planejamento da urbe, tendo por resultando uma “cidade panorâmica”, imagem da cidade que é redimensionada e ressignificada por meio da agência dos citadinos, que no fazer e inventar o cotidiano, elaboram “táticas” através das quais subvertem o ordenamento racionalizado imposto a experiência na cidade.
um “planejar” que está sujeito, contudo, às disposições de um campo de possibilidades inerente à dinâmica do vivido.
Tô com vontade de levar lá pra Icoaraci, até mesmo pra fugir do aluguel. Não tem condições de comprar aqui, os preços são muito... muito altos. Qualquer casinha aqui é 250, 300 mil reais. Lá não, eu já tenho, não vou ter que comprar nada. (…) Quero ir daqui a três anos (…) Tô com 52 anos… quero trabalhar lá até os 65.
O planos de Zeno estão longe de estar prontos e acabados, pois o sapateiro redesenha, reelabora e tece o seu projeto de vida cotidianamente ali naquela oficina. Mudá-la para o bairro onde mora não é apenas um sonho, não se justifica apenas pelo fato de que o sapateiro deseja trabalhar em casa. Esta vontade revela também uma tática (Certeau 1994) através da qual ele busca fugir dos altos preços de aluguel do bairro da Campina. Sobre os caminhos futuros da trajetória do sapateiro nada posso afirmar, cabe apenas considerar que estes percursos serão reflexos dos arranjos sociais provenientes da própria agência do sapateiro e de seus parceiros de ofício.
CAPÍTULO IV
OS SAPATEIROS DE BATISTA CAMPOS As memórias de Zé Luís e Chiquito