7. Conclusión
7.2. Las clases semánticas y significados que los verbos aparentemente comparten
7.2.1. Enfermedades
Neste contexto de mudanças do início do modernismo nacionalista, Oscar Lorenzo Fernandez insere-se como figura peculiar, pois alia uma sólida formação musical à observação cuidadosa das tradições populares brasileiras e ao contato com as práticas musicais urbanas e com os cantos familiares espanhóis. Além disto, reúne um temperamento algo introspectivo a uma personalidade forte, capaz de congregar pessoas em torno das causas nacionalistas, firmando-se também como teórico e homem público ligado aos assuntos culturais do Estado. Era um homem multifacetado: compositor, regente, instrumentista, professor e poeta.
Filho de imigrantes espanhóis, comerciantes de finas iguarias ibéricas, Lorenzo Fernandez conviveu com a música desde muito cedo. Seus pais frequentemente organizavam saraus musicais em casa, ao som do piano, violão, bandolins e cantos. Sua mãe entoava zarzuelas e canções típicas flamengas com sua irmã Amália ao piano. Lorenzo Fernandez aprendeu a tocar piano de ouvido. Passava horas improvisando ao piano e a família logo percebeu seu talento de harmonizador. Passou então a estudar teoria musical com sua irmã, então aluna de piano de Henrique Oswald e que, mais tarde, seria aluna premiada no curso de canto no Instituto Nacional de Música. Segundo Renato Almeida (apud Correa, 1992, p.20), Lorenzo chegou a compor “alguns tangos e sambas”. Escreveu certa vez, por volta de 1917, um samba carnavalesco com ritmo de marcha no qual a letra, escrita por seu irmão, apresentava charge contra as “reformas de empréstimos” preconizadas pelo então presidente Wenceslau Brás.
O contato com a música fez-se de forma natural e despretensiosa, diletante mesmo. O objetivo do jovem Lorenzo era cursar Faculdade Nacional de Medicina. Entretanto, um distúrbio nervoso o impede de prosseguir em seus planos e uma “terapia musical” lhe é então receitada. Em 1917, matricula-se oficialmente no Instituto Nacional de Música, ao mesmo tempo em que frequenta o curso do pianista e compositor Henrique Oswald, considerado, segundo o historiador Eurico Nogueira França (1950, p.17) o maior técnico daquela geração.
Nessa instituição, Lorenzo Fernandez tem a oportunidade de obter primorosa formação musical em contato com Frederico Nascimento, português que desde 1880 se
radicara no Brasil, mestre de larga erudição, catedrático de harmonia, físico, matemático e violoncelista, e com Francisco Braga, compositor que, após ser escolhido como um dos finalistas do concurso para escolha do Hino Nacional Brasileiro, recebera uma bolsa de estudos para completar sua formação musical na França, onde foi aluno de Jules Massenet, e cujo domínio das questões harmônicas e formais da escrita pós-romântica pode ser percebido em suas obras. Poucos anos depois de ingressar no Instituto Nacional de Música, em 1923, Lorenzo Fernandez já assume a cátedra de harmonia nesta instituição, substituindo seu mestre Frederico Nascimento.
Lorenzo Fernandez também conviveu com o compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920) que, em seus últimos anos de vida, já adoentado, hospeda-se em casa do amigo Frederico Nascimento. Lorenzo Fernandez frequenta assiduamente os dois mestres, juntamente com o amigo Luciano Gallet. Alberto Nepomuceno, além de familiarizá-lo com a harmonia de Schoenberg, certamente contribuiu para a construção de sua estética nacionalista. Nepomuceno defendia a utilização do folclore pelos músicos de formação musical tradicional e colecionava melodias populares coletadas em várias partes do país. Lutou pela afirmação do canto em português, escrevendo as primeiras canções em vernáculo sobre poemas de poetas brasileiros.
A convite de Graça Aranha, idealizador da Semana de Arte Moderna de 22, Lorenzo Fernandez acompanhou como assistente e ouvinte os eventos da semana. Nessa época, aos 25 anos, já havia apresentado publicamente suas composições Arabesca e
Miragem, para piano, e as canções para orquestra Velas ao Mar, A Samaritana e Um beijo. Com Cisnes, para canto e piano, e suas peças para piano Noturno e Arabesca, obteve os três primeiros lugares do Concurso Nacional de Composição promovido pela Sociedade Cultura Musical do Rio de Janeiro. Lorenzo Fernandez trava sólida amizade com Graça Aranha, cuja casa, desde então, passa a frequentar. São desta época os primeiros esboços realizados pelo escritor do libreto da ópera Malazarte, que só estrearia duas décadas depois.
Durante a Semana de Arte Moderna, travou relações com Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Di Cavalcanti, Francisco Mignone e, naturalmente, Villa-lobos. Tornou- se amigo de Portinari, filho de imigrantes igual a ele, muito pobre então, e que mais tarde lhe pintou dois retratos a óleo.
Em 1924, obteve o primeiro lugar em concurso de composição da Sociedade de Cultura Musical com o Trio Brasileiro. Entre suas obras, destacam-se a Suíte Sinfônica, a
Suíte para quinteto de sopro, o bailado Imbapara, seu poema coreográfico Amaya e a suíte
Reisado do pastoreio, cujo “Batuque” final foi gravado pela Sinfônica de Washington, com grande êxito comercial, apresentado por orquestras como a Orquestra de Boston ou a Orquestra do Augusteo de Roma, executado por regentes famosos como Arturo Toscanini e premiado em várias ocasiões. Além de suas muitas canções, escritas ao longo de toda a sua carreira, Lorenzo Fernandez escreveu também um concerto para violino e orquestra e duas sinfonias.
Uma de suas maiores realizações foi a fundação, em 1936, do Conservatório Nacional do Rio de Janeiro, do qual foi diretor e grande incentivador de uma moderna pedagogia musical.
Lorenzo Fernandez conseguiu o respeito por seu trabalho como compositor, regente e conferencista no Brasil e também no exterior. Empreendeu turnês por vários países da América Latina, divulgando, além de suas obras, as de autores brasileiros, como Villa-Lobos, Alberto Nepomuceno e Henrique Oswald. Seu cinquentenário foi comemorado em vários círculos musicais do país e concertos de suas obras foram realizados em cidades como Curitiba, Recife e João Pessoa.
Lorenzo Fernandez falece em 27 de agosto de 1948, em pleno sono, na noite após ser ovacionado de pé por uma plateia que lotava o Salão Leopoldo Miguez, em concerto comemorativo do primeiro centenário da Escola Nacional de Música.