Como é do nosso conhecimento, o apego depende da interação que o bebê forma com o seu cuidador. É essa interação que desenvolve o respectivo relacionamento e
comportamento, evidenciando a importância da sensibilidade materna na formação do tipo de apego do bebê, conforme já mencionado anteriormente e que iremos também continuar a desenvolver ao longo de todo este trabalho.
Os padrões de apego foram descobertos por Ainsworth (Ainsworth, 1964; 1979; Ainsworth at al., 1978) que desenvolveu a metodologia chamada situação do estranho com a qual se tornou possível identificar com relativa facilidade os padrões de apego das crianças. Como sabemos, estes padrões são profundamente influenciados pela maneira como os pais (ou outras figuras) tratam a criança, uma vez que é através desta interação que a criança desenvolve os seus modelos internos (representações) de que o outro está ou não disponível e se pode contar ou não com ele.
Ainsworth et al., (1978) identificaram três padrões de resposta que as crianças de um ano tinham na situação do estranho. Assim foram criadas três categorias: A; B e C nas quais as crianças eram identificadas. Os três padrões principais que os pesquisadores identificaram foram: O padrão seguro (categoria B) no qual a criança está confiante de que o seu familiar ou
figura de apego vai estar disponível, sensível aos seus apelos e necessidades, e pronto para ajudar caso a criança venha a encontrar alguma situação adversa ou ameaçadora. Com esta certeza, a criança tem confiança quando das suas explorações do mundo. Esta atitude é promovida pelos pais nos primeiros anos de vida quando eles estão disponíveis e sensíveis para as necessidades e sinais da criança proporcionando proteção, conforto e respostas amorosas (Bowlby, 2005). Segundo Main e Solomon (1990), estas crianças dão mostras de sentirem a falta dos seus pais após a separação, saúdam com alegria a sua volta e
posteriormente retornam para as suas brincadeiras.
Já o segundo padrão, também chamado de apego ansioso ambivalente/resistente (Grupo C), é aquele na qual a criança apresenta estresse quando da separação e agarra-se bastante ao cuidador quando ele volta, sendo difíceis de consolar. A criança também tem um comportamento que alterna entre o agarrar-se e expressões de raiva (Landa & Duschinsky, 2013). De sua parte Bowlby (2005) diz-nos que a criança não tem a certeza se o seu cuidador vai estar disponível ou se vai responder ou ajudar quando ela precisar. Devido a esta incerteza, a criança vai estar sempre com ansiedade de separação, tende a ficar agarrada ao seu cuidador e fica ansiosa quando pensa em explorar o mundo. Este padrão, onde o conflito interno está em evidência, é promovido quando o cuidador está disponível umas vezes, mas não em outras, assim como devido às separações (afastamento) desse cuidador e também devido a ele usar ameaças de abandono como medida de controlar a criança (Bowlby, 2005).
O terceiro padrão é o apego ansioso evitante ou inseguro evitante (Grupo A). As crianças deste grupo apresentam pouco ou nenhum estresse quando da separação do cuidador e ignoram ou evitam o cuidador quando ele regressa (Landa & Duschinsky, 2013). No
entanto, Landa e Duschinsky (2013) falam-nos de uma carta de Ainsworth para Bowlby onde esta referia o fato de ter muitas evidencias de que as mães das crianças do grupo A (ansioso
evitante) não gostavam de contato físico e que era através do seu comportamento de contato que elas expressavam a rejeição. A sua teoria era que isso colocava as crianças num vínculo duplo uma vez que eles estavam programados para obterem contato e eram repelidas ou pelo menos tinham experiências negativas quando o buscavam. E desta maneira a evitação e o desligamento era uma característica do comportamento defensivo que estas crianças tinham. O conflito entre o medo, a raiva e o desejo de conforto originariam comportamentos anômalos não orientados para a busca da proximidade. Este conflito não resolvido de aproximação, afastamento e raiva são as características destas crianças (Landa & Duschinsky, 2013).
No Grupo A portanto, a criança não confia nem acredita que o seu cuidador esteja disponível quando ela procurar ou precisar de ajuda. Antes pelo contrário, ela espera ser repelida. E desta maneira, a criança tenta viver a sua vida sendo emocionalmente
autossuficiente e mais tarde, pode ser diagnosticada como sendo narcisista ou como tendo um falso eu. Este padrão, no qual o conflito está mais escondido, é o resultado do cuidador repelir a criança quando esta se aproxima na busca de conforto ou proteção. E nos casos mais
extremos este padrão resulta de rejeições repetidas (Bowlby, 2005).
Além destas categorias A; B e C, o que Main e Solomon (1986) descobriram nas suas pesquisas foi que algumas crianças de 12 a 20 meses que foram deixadas com um estranho durante alguns minutos, elas não saudaram o regresso da mãe e ainda deliberadamente a evitaram. As que se aproximaram da mãe, rapidamente se afastaram dela. Outras crianças voltavam a cara durante a aproximação da mãe, enquanto outras ficavam a olhar para a parede como se estivessem sendo punidas. E quando se observou o comportamento das mães destas crianças no seu relacionamento com os seus filhos, observou-se que elas pareciam
“zangadas”, sem expressão, e não pareciam gostar do contato físico com os seus filhos. Algumas usavam tons agressivos com seus filhos, outras falavam sarcasticamente com eles ou
acerca deles. E isso leva-nos a perceber que, mantendo-se longe de uma mãe assim, é a maneira da criança evitar ser tratada de uma maneira hostil de novo (Bowlby, 1988).
E segundo as palavras de Bowlby (1988), a criança e mais tarde o adulto, vai ter medo de se ligar e relacionar, seja com quem for, com medo de voltar a ser rejeitado com toda a agonia, ansiedade e raiva que isso acaba por provocar. Desta maneira, existe e forma-se um bloco maciço que impede a pessoa de se expressar, ou mesmo de sentir o seu desejo natural de um relacionamento próximo e de confiança, de busca de carinho conforto e amor que são as manifestações do comportamento instintivo. E isto explica as razões pelas quais a pessoa se relaciona como se relaciona e porque existe tanta resistência na análise psicanalítica. E a maneira como o paciente trata o terapeuta e o outro seu semelhante, vai ser similar à maneira como ele reagiu aos seus pais quando criança.
No fundo, tudo o que a criança procura, e mais tarde também o adulto, é o conforto, a segurança, o carinho e a compreensão, seja dos pais, seja do próximo. E tal como vimos antes, o ser humano é um ser social que busca o relacionamento, e quando esse relacionamento provoca dor e sofrimento, a criança ou adulto se fecha e se afasta do mundo e dos seres humanos. Assim podemos concluir que: “All of us, from the cradle to the grave, are happiest when life is organized as a series of excursions, long or short, from the secure base provided by our attachment figure(s)” (Bowlby, 1988, pg.62).
No entanto, e se bem que estes sejam os padrões mais comuns, durante o
procedimento da situação do estranho, foram observados episódios de comportamento onde existia uma combinação dos padrões de comportamentos A e C, e onde existiam sinais de desorientação e de medo do cuidador. Porém, Egeland and Sroufe (1981) notaram que a maioria das crianças que apresentavam este tipo de comportamento se encontravam na categoria B (seguros) e a pergunta surgiu: o que poderia estar a provocar tal comportamento?
(Landa & Duschinsky, 2013).
Neste tipo de comportamento, as crianças pareciam desorientadas e ou
desorganizadas. Uma das crianças parecia atordoada, outra ficou imóvel, outra apresentou esteriótipos e outra iniciava os movimentos mas parava-os inexplicavelmente. Estes
comportamentos contraditórios de aproximação e evitação para com o cuidador indicam uma estratégia de comportamento desorganizada, o que não segue os padrões discutidos
anteriormente. Isto mostra uma incapacidade da criança para organizar uma estratégia
coerente para obter conforto junto do cuidador, estando também associada a uma libertação de hormônios de estresse (Hennighausen & Lyons-Ruth, 2011).
Este comportamento pode ocorrer em conjunto com os outros tipos de
comportamentos de apego. Main e Solomon (1986) concluíram que esta forma peculiar de comportamento ocorria em crianças que exibiam uma versão desorganizada do padrão de ansiedade resistente. Algumas destas crianças tinham sido fisicamente abusadas ou
negligenciadas, enquanto outras tinham uma mãe que era bipolar e tratava a criança de uma maneira errática e imprevisível, e outras mães tinham sofrido abuso sexual em criança (Bowlby, 2005).
Outra situação que também emergiu acerca destas crianças com comportamento desorganizado foi o fato de os seus pais terem perdido uma importante figura de vinculação e de não terem conseguido ultrapassar essa perda. A morte da figura de apego e a sua
incapacidade de resolver esse luto, que esses pais viveram quando jovens, estaria assim na gênese do comportamento desorganizado de seus filhos (Landa & Duschinsky, 2013). Segundo estes autores, esta situação levou Ainsworth, numa carta que escreveu a Bowlby, a colocar a hipótese, que foi mais tarde confirmada, de que o padrão desorganizado das crianças estaria relacionado com o medo inconsciente da perda que ainda existiria no comportamento
parental. No entanto, nem todos os casos se deviam a lutos não resolvidos da sua mãe. Em alguns casos as crianças tinham elas mesmas também vivido alguma situação traumática (Landa & Duschinsky, 2013).
De acordo com Bowlby (2005), uma das diferenças entre as mães de crianças seguras e as mães de crianças inseguras, é que a mãe de uma criança com apego seguro fala dos sentimentos que teve na sua infância, enquanto a mãe de uma criança insegura é incapaz de falar abertamente dos seus sentimentos de infância. Nesta sequência, nós podemos reportar- nos a George e Solomon (1996), que nos dizem que as mães que têm avaliações de si mesmas como sendo incapazes de ajudar, estão associadas a um comportamento de cuidar
desorganizado. Estas autoras também nos dizem que as mães que têm representações negativas de si mesmas, tendem a criar estereótipos acerca do que é “real” e “ideal” como forma de evitarem olhar e confrontar as suas experiências passadas, deturpando a realidade e a maneira delas lidarem com os seus filhos.
O trabalho de Main destacou-se porque ela não apenas descobriu o padrão de apego desorganizado, mas percebeu a que ele se devia. Como resultado das suas entrevistas com as mães, Main encontrou profundas correlações entre aquilo que elas descreviam como tendo sido o relacionamento com os seus pais durante a sua infância e o padrão de apego que agora os seus filhos exibiam com ela (Main, Kaplan, & Cassidy, 1985). E esta situação mostra-nos a existência da transmissão intergeracional que trataremos mais tarde no Capítulo 4.
Em todo este assunto acerca dos tipos de apego, nós podemos ver a importância da mãe e do cuidador para o desenvolvimento saudável dos seus filhos. Porém, a mãe e/ou cuidador, como qualquer ser humano, também já teve uma infância com os seus problemas, limitações e assuntos não resolvidos, podendo estar presa no passado, em traumas ou lutos não resolvidos, tendo criado os seus modelos internos. Estas situações, certamente de uma
maneira ou de outra, continuam hoje a moldar e a controlar o seu relacionamento com os outros, inclusive com os seus filhos.
São vários os pesquisadores que nos dizem que os problemas dos pais e os problemas nas famílias se traduzem em problemas para os filhos, perpetuando-se também ao longo das gerações. Por exemplo, Cohn, Matias, Tronick, Connell e Lyons-Ruth (1986) dizem-nos que as crianças de mães deprimidas têm um maior risco de problemas de desenvolvimento, que vão desde problemas de regulação do afeto à incapacidade de terem um apego seguro assim como outros comportamentos e problemas sócio emocionais, ou mesmo acabam por terem uma baixa performance na capacidade intelectual ou desempenho acadêmico.
E no caso de mães deprimidas, elas tendem a estar indisponíveis emocionalmente e a se afastarem, afetando assim o desenvolvimento dos seus filhos. Uma vez que a criança reage e responde de acordo com a interação que recebe, mães deprimidas vão interagir menos e em pior qualidade do que mães não depressivas. E com o tempo, as reações emocionais da criança vão sendo internalizadas e irão servir para futuras avaliações e reações a novas situações (Cohn et al., 1986).
Sendo a interação social uma aquisição comportamental, as primeiras interações com o cuidador passam a ser determinantes na aquisição dessas capacidades sociais e relacionais. Desta maneira, as relações com a mãe, assim como o comportamento e reação dela, afeta as respostas e interações da criança. E como não podia deixar de ser, as emoções e
comportamentos da mãe para com a criança tornam-se assim determinantes para a interação da criança, uma vez que ela interioriza não apenas os comportamentos da mãe, mas também as suas respostas e reações. Assim sendo, o que os estudos mostram é que uma interação alegre com a criança provoca nela padrões alegres e confiantes, enquanto as interações com pessoas tristes ou deprimidas provoca situações de choro, de confusão, afastamento ou de um
olhar estranho para com a mãe (Cohn et al., 1986).
No entanto, Cohn et al. (1986) descobriram que as mães deprimidas não tinham um comportamento nem emoções uniformes com os seus filhos, e muitas delas acabavam por ter um comportamento intrusivo e muitas vezes, mostraram raiva para com os seus filhos.
E como já vimos anteriormente, o padrão de apego desorganizado costuma ser um padrão comum em crianças maltratadas. Também Carlson, Cicchetti, Barnett, e Braunwald (1989), no seu estudo com crianças maltratadas, encontraram 82% de crianças com padrão de apego desorganizado num grupo de 43 pares mãe crianças. E neste estudo, eles também verificaram que o padrão desorganizado era maior em meninos do que nas meninas (67% contra 36%).
Podemos então concluir que a interação e as reações e comportamentos do adulto em relação à criança são os responsáveis pelo seu padrão de apego e pelo seu padrão relacional, assim como pela formação dos modelos internos da criança acerca de si e acerca do outro.