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Memory acquisition flow chart from Case and Walters (2014c)

Uma das situações que é sempre bom relembrar, é que o comportamento de apego se forma na interação com o cuidador. No entanto, e uma vez que qualquer criança interage com diversos cuidadores, certamente que ela vai criar e desenvolver diferentes comportamentos de acordo com a sua interação com eles: “Em um outro estudo, de Main e Weston (1981), foi constatado que durante os primeiros dezoito meses uma criança pode apresentar padrões diferentes com cada um de seus pais” (Bowlby 1990, pg 387/388).

Por sua vez Cassidy (1994) diz-nos que a criança desenvolve estratégias de regulação como um meio de responder e de reagir ao seu cuidador, sendo que essas estratégias regulam o comportamento, a cognição, os sentimentos, a memória, a percepção e a atenção. No

entanto, toda esta regulação emocional e cognitiva é influenciada pela relação de apego que a criança tem, assim como pelas expectativas que a criança tem acerca do comportamento dos seus pais para com ela (Cassidy, 1994). E da mesma maneira, também Ainsworth et al., (1978) mostraram que as crianças que tinham um apego seguro também tinham mães que tinham maior sensibilidade e que respondiam prontamente aos seus sinais e necessidades.

Por exemplo, McElwain e Booth-LaForce (2006) mostraram que a sensibilidade materna e a sua responsividade à criança durante o primeiro ano de sua vida eram importantes para que ela desenvolvesse um apego seguro. Por outro lado, Easterbrooks e Goldberg (1984) afirmaram que o envolvimento paterno estava relacionado com o desenvolvimento da criança, assim como estava associado ao comportamento de resolução de problemas da criança, demonstrando que o relacionamento paterno está mais associado com o desempenho sócio cognitivo do que com o desenvolvimento sócio emocional. Estes autores também verificaram que o papel do pai era mais importante como companheiro de brincadeira do que como cuidador. Ou seja, as características maternas estavam associadas a um apego seguro enquanto as características paternas estavam associadas ao desenvolvimento e relacionamento da criança.

No entanto, e apesar de Easterbrooks e Goldberg (1984) terem demonstrado as diferenças e importância de ambos os pais para o desenvolvimento saudável das crianças, Borsa e Nunes (2011) verificaram que existem muito mais estudos sobre a relação mãe e filhos do que estudos sobre a relação pais e filhos, mostrando que, mesmo na literatura especializada, existem concepções quanto ao lugar dos homens e das mulheres nas relações familiares e na interação parental, sendo que as mulheres acabam sendo vistas como as principais cuidadoras dos filhos e do lar. A falta de estudos acerca da relação pai filho também já tinha sido referida por Diener, Mangelsdorf, McHale, e Frosch (2002) chamando a atenção

dos diversos estudos que abordaram a importância do papel do pai para a regulação emocional da criança, tal como acontece com a mãe, e mostrando que quer a mãe quer o pai têm a mesma importância no que toca à regulação emocional da criança.

Também Cabrera, Shannon, e Tamis-LeMonda (2007) mostraram que o envolvimento paterno tinha importantes efeitos na cognição e linguagem das crianças de 24 e 36 meses, assim como sobre o seu desenvolvimento social e emocional. Em contraste com as mães, eles verificaram que o apoio dos pais é importante para a parte cognitiva, para o desenvolvimento da linguagem da criança e para a regulação emocional dela. Eles também verificaram que os pais eram menos intrusivos e forneciam maior apoio à criança. E nas situações em que os pais eram intrusivos, essa intrusão apenas tinha um pequeno impacto no desenvolvimento da linguagem, não tendo qualquer efeito na regulação sócio emocional (Cabrera et al., 2007).

Por outro lado, a intrusão materna estava negativamente associada com a regulação emocional e com o desenvolvimento da linguagem, levando os autores a concluírem que programas que visem um aumento da educação paternal e que encorajem os pais a terem um cuidado positivo seria benéfico para as crianças. Segundo os autores, estas descobertas são importantes no sentido em que elas mostram que são apenas os pais que contribuem para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças e que isso está acima dos efeitos do envolvimento materno (Cabrera et al., 2007).

As observações dos autores também revelaram a importância dos pais e também que mesmo em relação a pais de baixa renda, eles conseguem ter e fazer contribuições

significativas no desenvolvimento dos seus filhos. Cabrera et al., (2007) também verificaram que os pais são tão sensíveis quanto as mães na sua relação para com a criança, o que coloca de lado a crença de que os pais são distantes e que não se envolvem. Ou seja, eles observaram que a qualidade do cuidar da criança é muito semelhante, quer pelos pais quer pelas mães. Os

autores salientam que o estudo foi feito através da observação dos pais com os seus filhos, e não através de metodologias que confiam nas mães como respondentes acerca do

comportamento dos pais (Cabrera et al., 2007).

Na obra The Importance of Fathers in the Healthy Development of Children

(Rosenberg & Wilcox, 2006), podemos observar que nos EUA, e das crianças vítimas, cerca de 60,9% foram vítimas de negligência (incluindo a médica), 18,9% foram fisicamente abusadas, 9,9% foram sexualmente abusadas e 4,9% foram emocionalmente e

psicologicamente abusadas. Aproximadamente 40,8% das crianças vítimas foram maltratadas apenas pelas mães, outros 18,8% foram maltratadas apenas pelos pais e 16,9% foram

abusadas por ambos os pais. Apesar da percentagem dos pais e de ambos os pais contarem para cerca de 36,8% dos maus-tratos à criança, quando olhamos o contributo da mãe e de ambos os pais nos maus-tratos à criança, essa percentagem é de cerca de 64%. Por outro lado, vemos que a presença dos pais em casa baixa os níveis de maus-tratos à criança. Para além disto, a presença de figuras masculinas e de padrastos em casa tende a criar um ambiente mais abusivo do que a presença de pais biológicos. E também aqui verificamos que a relação entre a mãe e o pai têm um papel importante na diminuição dos maus-tratos à criança.

A este respeito, os autores dizem que a influência do pai sobre a criança é indireta e tem a ver com a qualidade da relação que esse pai tem com a mãe (esposa). Ou seja, quando a relação do casal é boa, esse pai tende a passar mais tempo com a criança e dessa maneira, ela cresce mais saudável emocional e psicologicamente. Da mesma maneira, a mãe que se sente mais apoiada pelo marido, sente-se mais feliz e torna-se uma melhor mãe. Assim, o casal torna-se mais responsivo, mais afetivo, mais confiante, mais auto controlado ao lidar com os filhos, e melhores confidentes dos seus filhos, fornecendo mais e melhor apoio e suporte emocional (Rosenberg & Wilcox, 2006).

Também as crianças que têm pais (como) cuidadores têm melhores resultados escolares, têm QI’s mais elevados, assim como melhores capacidades linguísticas e cognitivas. Estas crianças também são mais pacientes e lidam melhor com situações e frustrações de estresse escolar do que crianças em que os pais são mais ausentes. Esta influência paterna no desempenho acadêmico estende-se pela adolescência e início da idade adulta. Desde o nascimento, as crianças que têm um pai presente e envolvido, acabam por serem emocionalmente mais seguras, mais confiantes na exploração do ambiente e quando crescem, têm melhores relações com os seus pares, tendo menos tendências a terem

problemas em casa, na escola e no bairro onde residem. De uma maneira geral, os pais tendem a promover a independência e orientação para o mundo exterior, enquanto as mães tendem a promover o cuidado e atenção para com o outro, o que no conjunto se torna importante para o desenvolvimento saudável da criança (Rosenberg & Wilcox, 2006).

Em suma, podemos observar que ambos os pais são importantes e têm papéis complementares, os quais são importantes para o desenvolvimento saudável da criança. Também podemos referir-nos a Pruett (2010), quando aborda as diferenças de casal e que nos diz que “diferenças não são deficiências” e que “as relações são a solução e não o

problema”, numa alusão clara à maneira como precisamos ver e compreender as relações de casal quando queremos que as nossas crianças cresçam felizes e saudáveis.

2.5. Figuras de Apego: Figura Principal e Substituta ou Complementar

Bowlby (1990) e Ainsworth (1989) discorrem sobre a importância das relações para o apego que a criança apresenta e desenvolve. No entanto, estes mesmos autores também tratam das vinculações que a criança desenvolve com outras pessoas que não o seu cuidador,

chamar de apegos secundários ou de vinculações secundárias. Ou seja, o bebê deixa de estar dependente de apenas um cuidador, mas passa a poder escolher algum outro cuidador de acordo com as suas necessidades e de acordo com as expectativas que precisam ser

preenchidas. Desta maneira, o bebê não só se apega ao seu cuidador principal, mas também ao cuidador que lhe preenche as suas expectativas no momento.

São estas expectativas que ao serem internamente organizadas, formam aquilo a que se chamam os modelos internos que indicam a disponibilidade e reação do cuidador e do outro e servem para lidar e prever o comportamento desse outro ou desse cuidador. E é dessa forma que a criança, ao lidar com as suas expectativas acerca do ambiente, do outro e mesmo dela mesma, vai acabar formando modelos internos para lidar com o outro e com as situações com que se depara no seu dia-a-dia (Ainsworth, 1989).

Embora a maioria dos estudos se tenham debruçado sobre o apego do bebê a sua mãe, outros estudos mostraram que as crianças podem se apegar a uma hierarquia de figuras, incluindo os pais, os avós e os irmãos (Schaffer & Emerson, 1964), assim como a outros cuidadores, como por exemplo babás e professores (Howes, Rodning, Galluzzo, & Myers, 1988). Nessa linha, em Schaffer e Emerson (1964) podemos ler:

While an infant may show attachment towards a number of different individuals at any given time, it is unlikely that these attachments will all be of the same intensity. There will commonly be found, in other words, a hierarchy of objects, and the individual at the top of this hierarchy to whom the most intense attachment is shown may be regarded as the infant's principal object (p.32).

No entanto, e tal como Howes et al. (1988) discorrem acerca das diversas figuras de apego, percebemos que essas figuras podem compensar e preencher as falhas das relações com o cuidador principal:

If, as Main and Weston (1981) suggest, alternative and nonconcordant attachment relationships may compensate for insecure maternal attachment relationships, then it is possible for a child to be both classified as insecurely attached to the mother and appear socially competent within a child care setting (p. 404).

No seu estudo, Howes et al. (1988) encontraram o mesmo tipo de apego entre a mãe e o outro cuidador em 45% da amostra e 55% de divergência entre a mãe e o outro cuidador. Noutro estudo, que estes mesmos autores apresentam, eles obtiveram 70% de convergência entre o apego à mãe e o outro cuidador, e uma divergência de 30%. Estes resultados mostram- nos que a criança pode ter diferentes tipos de apego de acordo com o cuidador com quem se encontra, mostrando que as relações e expectativas, assim como os seus modelos internos, passam a ser importantes no tipo de apego que elas apresentam.

Os autores também dizem:

This suggests that one secure attachment relationship may at least partly compensate for an insecure attachment relationship. However, it must be noted that in both studies, and significantly so in study two, children categorized as insecure with their mothers engaged in lower levels of play with the caregiver regardless of their ratings of attachment security with the caregiver (Howes et al., 1988, p. 413).

E nós podemos também perceber aqui uma influência de um tipo de apego quer nas ações relacionais, quer mesmo no tipo de apego que a criança acaba por desenvolver com o outro cuidador. No entanto, e talvez um pouco contrário ao que seria de esperar, os autores verificaram que o apego a outro cuidador tinha mais influência nas relações que a criança tinha com os seus pares do que o apego que a criança tinha com a sua mãe. Os autores, porém anotam que este tipo de comportamento pode ter a ver com a quantidade de tempo que a criança passava com o outro cuidador, ao invés do pouco tempo com a sua mãe e dessa

maneira, o outro cuidador poderia ser o exemplo a seguir, ao invés do exemplo materno. Por tudo o que acabamos de ver, percebe-se que a criança consegue vincular-se com o outro que não a sua figura de apego principal e isso também foi verificado por Salvaterra (2007) ao confirmar que não existiam diferenças entre crianças adotadas e crianças não adotadas, o que mostra que a criança consegue estabelecer laços de apego ou relações

significativas com outras pessoas significativas, que não os seus pais biológicos, ao longo dos primeiros anos de vida. Este estudo também salienta o papel fundamental de uma figura estável para a promoção e o desenvolvimento de laços afetivos.

Também Bowlby (1990) já tinha observado que a criança tende a desenvolver um apego compensatório com outra pessoa, ou eventualmente com um boneco ou objeto com a finalidade de obter o conforto e a segurança. No fundo, podemos aqui reportar-nos a Harlow e aos seus macacos, que buscavam o conforto e segurança no boneco de pelo.

Percebemos assim a importância das relações iniciais quer elas sejam com o cuidador quer com alguém que de alguma maneira seja importante para a criança, mostrando que esta se relaciona e cria modelos relacionais com os seus pares de acordo com as aprendizagens efetuadas com uma pessoa importante para ela.

Capitulo 3 – Modelos internos