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Em 2012, quando o grupo de pepjê chegou ao local onde se reuniu o Grupo do Pátio Xe-pré, ao qual pertencia o 1º Mamkjehti, foi entregue aos dois pepjê que se destacaram como bons cantadores o maracá, que havia sido feito por seus tios maternos. Ese ato inicia o processo de instituição dos novos cantadores.

Dali, o grupo seguiu pelo krĩcape, no sentido anti-horário, até a frente da casa da Wè?tè da metade Kojkatejê. Durante todo o percurso, o grupo cantou sob o comando do maracá de Tep Hot, auxiliado pelos dois recém-instituídos cantadores do grupo pepjê. Atrás desses, seguiam as quatro Mekujxwj e, também, três moças que foram presenteadas com o

kralé pelas Mekujxwj.

Enquanto percorriam o caminho cantando, alguns homens, em posse do puré (varas) de algum dos reclusos, corriam à frente, tomando certa distância do grupo, onde faziam movimentos de lançamento da vara, como se quisessem acertar algum alvo. Da casa da Wè?tè retornaram para o pátio, onde cantaram mais uma vez, depois foram recolhidos os

puré dos pepjê e colocados numa armação de madeira no pátio, no lugar onde aquela mais nova Classe de Idade havia de se reunir dali em diante.

A legitimação dos cantadores da nova Classe de Idade ocorre pela entrega dos seus respectivos maracás. Sua apresentação pública, acompanhados das quatro Mekujxwj, consagra-os como cantadores.

Observei em 2012, que os novos cantadores e as duas Moças de Festa do Pepjê foram, primeiramente, ornamentados na casa da Wè?tè da metade Kojkatejê, com pulseiras e com tecidos enrolados no corpo e na cabeça. As duas Mekujxwj antecessoras, também foram ornamentadas com tecidos.

Terminada a ornamentação dos novos cantadores e das Mekujxwj, o grupo seguiu até o pátio cantando, liderados por Tep Hot. As Moças de Festa receberam ainda seus Kojkel, um adorno feito de miçangas com unhas de veado nas pontas. Esse adorno foi pendurado no pescoço, pendendo nas costas, e ao ser balançado emitia sons que se misturavam ao balanço do maracá e às vozes de Tep Hot e dos dois pepjê, bem como ao coro formado pelas

Mekujxwj.

O grupo seguiu lentamente cantando, pelo caminho radial, a primeira música do

Avaitipó (Kačére hi-poktowé = a estrela ela incendeia), enquanto um homem mais velho, de posse da lança cerimonial (kruwaxwa) dos pepjê, correu ao encontro do grupo de cantadores onde, apoiado na lança cantou o Iyeó e logo retornou ao meio do pátio, onde novamente

entoou o Iyeó. Essa corrida e a cantoria foram repetidas até a chegada do grupo de cantadores ao pátio.

Ao chegarem ao pátio, Tep Hot, os dois novos cantadores e as Mekujxwj, formaram um pequeno círculo e, logo em seguida, as parentas dos dois pepjê e das garotas lhes ornamentaram com mais tecidos. Nem o Mekapónkate-péy, no fim de sua reclusão, havia recebido tantas voltas de tecido ao corpo, como esses pepjê. Terminada a colocação dos tecidos, ainda em círculo, em volta da lança cerimonial fincada ao chão, o grupo cantou, a música Avaitipó e Ipéy-re. Para cada uma dessas músicas foi executada uma dança diferente, realizada somente nesse rito (Figura 34).

Figura 34 – Apresentação pública dos novos cantadores, juntamente com as Mekujxwj. Foto: Josinelma Rolande, 2012.

No dia subsequente ao primeiro ajuntamento dos pepjê no pátio, por volta das 7h da manhã, os homens pertencentes às metades Kojkatejê e Harãkatejê, ambos nas respectivas casas de suas Wè?tè, preparavam-se para uma grande corrida de tora. Na casa da Wè?tè da metade Kojkatejê, estavam sentados ao chão os pepjê, vigiados pelos Côtum-ré, enquanto em cadeiras estavam as Mekujxwj, os Mamkjehti, o Mekapónkate-kahák e o Mekapónkate-péy, que observavam a preparação dos corredores e a cantoria de um homem anunciando a corrida.

O cay (pajé) Zé Pereira esfregou folhas de araçá nas costas, peito e pernas de cada um dos corredores, até mesmo dos pepjê. Um Canela informou que essa ação visava fortificar os corredores e protegê-los. Os corredores estavam ornamentados com pinturas, e uma grande maioria tinha pinturas, de carvão, nos cantos da boca, que faziam suas bocas parecerem maiores (Figura 35).

Figura 35 – Corredores de tora. Foto: Josinelma Rolande, 2012.

Esta pintura, segundo os Canelas, protege-os de mekarõ durante a corrida, pois os

mekarõ se assustam ao ver os corredores assim pintados, pois parecem, aos olhos dos mekarõ, pessoas muito bravas. Utilizam estes corredores, também, o kraká (adorno de fibra de buriti utilizado na cabeça) e alguns outros adornos de corrida (apitos, buzinas e chocalhos).

O mesmo preparativo se deu com os corredores da metade Harãkatejê, na casa de sua respectiva Wè?tè. Como a metade Harãkatejê estava no comando do ritual, sabia onde estava a tora, e foram à frente, sendo seguidos pelos corredores da outra metade e um grande número de mulheres que carregavam água em garrafas para seus parentes corredores. Os

pepjê também acompanharam os membros da sua metade (Kojkatejê) em direção ao local onde estavam as toras. E, uma vez já instituídos como Classe de Idade, utilizavam adornos de corrida, que no momento de reclusão lhes eram proibidos.

Ao longo do percurso da corrida ouviam-se gritos dos corredores e o som dos chocalhos feitos com unhas de veado. O primeiro grupo a chegar à aldeia foi o Harãkatejê, seguido, alguns minutos depois, pelo Kojkatejê. Ao chegarem ao pátio, receberam socos nas pernas, na altura das coxas, como os pepjê haviam recebido em sua primeira corrida de porfia. Em nenhum momento da corrida observei pepjê carregando a tora, apenas acompanhavam os corredores da sua metade ritual (Kojkatejê). Na corrida descrita por Nimuendajú (1944), os pepjê correm com a tora, recebendo a ajuda dos membros da Classe de Idade do mesmo partido, o que possibilitou que o seu grupo tivesse chegado primeiro à aldeia. Acredito que o grande tamanho e peso da tora (aproximadamente 1,20m de comprimento e quase 200kg) e uma reclusão que não segue mais os rigores da iniciação descrita por Nimuendajú, faz com que estes novos reclusos não tenham força suficiente para carrega-la.

O penúltimo dia de finalização do rito Pepjê foi marcado pelo krõõ jõ pi, como ao final do Ketuwajê. Durante esta cerimônia os pepjê recebem uma nova pintura, elaborada com tinta vermelha da semente do urucu.

Na manhã do dia seguinte, último dia do ritual, os pepjê foram pintados com pau- de-leite em um local fora da aldeia. A pintura aqui realizada foi a mesma efetivada ao final do

Ketuwajê, onde somente a fidalguia cerimonial “é bem pintadinha, o resto é palhaçada!”. Após a pintura, os pepjê retornaram à tarde para a aldeia, onde adentraram fazendo bastante barulho, batendo em panela... E assim, deu-se por encerrada a instituição desta nova Classe de Idade, que é legitimada no momento em que cada pepjê tem o corpo ornamentado com a pintura específica dos Grupos do Pátio, denominada hõ-krã-króro. É a partir dessa pintura que papéis sociais são colocados em destaque, institui-se o cantador, o corredor, o caçador... Nesse momento a nova ‘tribo de animais’ passa a ter lugar no pátio, sendo legitimada como Classe de Idade.

Antes de serem consagrados como Classe de Idade, os pepjê, ao entrarem em reclusão individualmente, aprendem a perder o medo, uma vez solitários em seus quartos de reclusão. Porém, depois de soltos e passando a dormir juntos e dividir a mesma comida, seus corpos vão sendo construídos solidariamente. O rito Pepjê é a conclusão de um processo de fabricação de corpos, no qual, como diria Nimuendajú (1944, p.128), intentam construir “moços feitos e, segundo o conceito Canela, moços bonitos”.

Ao final do Pepjê os Hamrén, ao receberem uma pintura mais elaborada, são consagrados enquanto fidalguia cerimonial e para os restos de suas vidas receberão tratamentos diferenciados, os quais correspondem ao papel que assumem, seja de Wè?tè,

ao serem construídos de forma diferenciada, requerem uma ornamentação também diferenciada, destacando-os como Hamrén. Logo, não é por acaso que em alguns momentos do Pepjê, somente os Hamrén são ornamentados com tecidos e exclusivamente os Mamkjehti são emplumados com penas de gavião. E como veremos a seguir, ornamentos diferenciados também fazem parte do contexto dos ritos funerários, legitimando corpos mortos.