5.2 Comparing the power functions under the alternative hypothesis
5.2.3 Plots of the empirical cumulative difference functions
Antes de tudo, gostaríamos de tecer alguns comentários sobre os objetivos específicos do presente capítulo. Se nos Capítulos I e II as nossas preocupações se voltaram, sobretudo, para a articulação dos pilares formadores da temática escolhida por nós, ou seja, discorrermos sobre as ONGs e os percursos feitos por elas para se engendrarem ao Estado e a questões como a educação, neste Capítulo III os enfoques são outros.
Nossos principais objetivos com a realização deste capítulo são: relacionarmos os momentos de surgimento das entidades elencadas por nós com os percursos históricos feitos pelas ONGs brasileiras (e já apontadas no Capítulo II); análise dos perfis dos representantes das instituições contempladas por este estudo, visando o entendimento da coleção de fatores responsáveis pela inserção desses agentes em cada entidade; comparação dos respectivos perfis desses representantes com as propostas educacionais de cada instituição; mapeamento das semelhanças e disparidades entre as entidades pesquisadas; apreender a proposta educacional de cada uma das três ONGs.
Sublinhamos que, sim, os objetivos específicos deste Capítulo III são mais numerosos do que os fatores os quais buscamos apreender com os capítulos anteriores. Porém, esse era um dos nossos objetivos, ou seja, situarmos o terreno teórico-metodológico da temática abordada – ONGs educacionais – nos capítulos precedentes para, então, trazermos o enfoque para os estudos de caso das ONGs escolhidas.
Buscando o atendimento de nossos objetivos, começaremos a seguir a discorrer sobre os memoriais históricos de cada instituição para compararmos suas trajetórias de criação com os momentos de maior destaque das ONGs brasileiras. Vale destacarmos que neste primeiro tópico do Capítulo III o objetivo é mostrarmos como as entidades estudadas se enxergam no que concerne ao percurso histórico que percorreram e, assim, na parte citada ainda não esboçaremos os perfis que empreendemos das ONGs pesquisadas com o devido apoio sociológico; são apenas as visões das mesmas ou, simplificando, como as organizações citadas divulgam seu trabalho.
Iniciamos, então, com a ONG mais antiga dentre as três que escolhemos pesquisar, a qual seja a Legião da Boa Vontade ou, simplesmente, LBV. A entidade citada foi fundada em
São Luís em vinte e oito de fevereiro de 1982, então, a mesma possui um pouco mais de trinta anos de atuação na presente cidade.
No que tange ao país, a LBV fora fundada em 1950, na cidade do Rio de Janeiro, pelo jornalista e escritor Alziro Zarur (194-1979) e possui como principal premissa, segundo seu próprio histórico, o ideal do ecumenismo. As raízes religiosas da entidade citada são profundas e encontram suas bases no chamado Kardecismo. Nos seus primórdios, a LBV atuava em situações emergenciais “voltadas para os mais carentes”, mas sempre usou a educação como pano de fundo de suas iniciativas. Devido a isso, recebeu o título de instituição de utilidade pública e federal, em 1956, concedido pelo então presidente da República, Juscelino Kubitscheck (1902-1976).
A educação perpassa pela LBV, segundo seus representantes, pela questão da tolerância religiosa e, assim, educar torna-se uma “missão social e religiosa” para quem integra seus quadros de funcionários no país. Em 1961, surge a chamada “Juventude Ecumênica Militante da Boa Vontade de Deus”, criada pelo hoje presidente da instituição, José de Paiva Netto. Essa “juventude” buscava intervir de forma militante na sociedade e empreendia ações que eram consideradas por seus integrantes missões maiores. Uma delas era a ronda que faziam para a distribuição de alimentos a bordo de um jipe do exército e visava não só minorar o problema emblemático da fome no Brasil, mas integrar a sociedade através do senso de “solidariedade”.
Nos anos de 1970 e 1980, segundo dados históricos da própria LBV, a instituição deu prosseguimento a seus projetos anteriores, mas buscou incluir o esporte como outro pilar importante da aquisição da chamada cidadania, juntamente à educação. Também começou o processo de expansão dos projetos da entidade pelo país. Em 1984, houve a mudança de sua sede central do Rio de Janeiro para São Paulo.
Já em São Paulo, houve a mudança mais significante no que tange ao desejo de intervenção da LBV na educação, pois na cidade citada a instituição criou seu primeiro centro educacional. Nas palavras do histórico da instituição “para o educador Paiva Netto, o local deveria unir eficiência no ensino e o ambiente mais propício ao aprendizado, contando com área verde, à época uma preocupação pouco existente na acinzentada paisagem paulistana”. O local de oferta de educação, promovido pela LBV, busca empreender atos educativos desde a chamada educação infantil e as crianças atendidas pelo seu projeto educacional são chamadas de “soldadinhos de Deus”.
A partir da década de 1980, a LBV passa a ofertar seu modelo de educação em todo o país, e seus centros educacionais oferecem ensino regular, supletivos, educação para jovens
e adultos e cursos profissionalizantes. A demanda da instituição é atendida nos seus chamados “centros comunitários de assistência social”.
De lá para cá a LBV disseminou sua atuação através dos mais diversificados meios. Hoje a instituição conta com gravadora, gráfica, rádio, portal na Internet e emissoras de televisão como formas de divulgação de seus projetos, trabalhos e como forma, igualmente, de angariar recursos e doações para dar consecução aos seus objetivos. Segundo o site da entidade
“[...] todos esses importantes veículos de comunicação prestam contas das realizações da LBV e levam ao público a mensagem de Fé Realizante e Esperança, sob o lema: Educação e Cultura com Espiritualidade, para que haja Consciência Socioambiental, Alimentação, Segurança, Saúde e Trabalho para todos, na formação do Cidadão Ecumênico” (LBV, 2012). Na cidade de São Luís, a Legião da Boa Vontade mantém uma sede a qual chama de “Centro Comunitário de Assistência Social da LBV”, onde mantém atividades e de onde articula iniciativas as quais são congregadas a comunidades distintas. Apesar de sua sede – e centro comunitário – estar localizado no bairro da Madre Deus, em São Luís, segundo a instituição a mesma promove e/ou articula ações sociais tanto no bairro citado como nos bairros do Coroadinho, Sá Viana, Goiabal, Areinha e adjacências.
A LBV escolhendo o bairro da Madre Deus para empreender a sua sede na presente cidade pode elencar alguns fatores para a consecução de seus objetivos como, por exemplo, fortalecimento da instituição. O bairro citado é considerado, historicamente, como “o bairro da cultura maranhense”, visto que reúne inúmeras manifestações culturais ao longo do ano. O folclore encontra algumas de suas bases na Madre Deus, pois o carnaval e as festas juninas são costumeiros na região citada. No passado, agregou fábricas voltadas para a produção têxtil no Maranhão e uma das antigas sedes dessas fábricas hoje abriga projetos da Prefeitura de São Luís, bem como a Associação de Catadores de Material Reciclável do Maranhão, ou simplesmente ASCAMAR. A região faz parte do Centro antigo de São Luís e encontra-se a mercê da ação do tempo e do descaso.
Assim, com esse breve material histórico sobre o bairro da Madre Deus fica evidente a visão estratégica da organização aqui estudada – a qual seja a Legião da Boa Vontade – já que o bairro citado congrega fatores como herança cultural, manifestações populares e folclóricas e está situado na região central da capital do Maranhão, próximo a comunidades consideradas “carentes” que rodeiam a região citada. Então, público-alvo para a instituição,
bem como demanda dos moradores por algum tipo de melhoria entram no jogo da escolha do bairro sede da entidade.
Em outubro de 2005, a LBV foi eleita a “representante da sociedade civil” no Conselho Gestor de Saúde da Madre Deus. Já realizou mutirões de saúde no bairro citado e, assim, consegue se institucionalizar na cidade de São Luís, preconizando que auxilia na situação de “vulnerabilidade” em que se encontra a cidade mencionada.
A LBV conta hoje com mais de quarenta parcerias dentre elas grandes empresas, rádios, governos estaduais, Governo Federal, jornais e etc. Também conta com o reconhecimento da Organização das ações Unidas – ONU- “[...] tornou-se, em 1994, a primeira organização civil brasileira a associar-se ao Departamento de Informação Pública das Nações Unidas (DPI/UN)”. A entidade também já procurou se aproximar mais de canais de mídia mais modernos, como as chamadas redes sociais, da mesma forma como possui um canal para postagens de vídeos sobre a instituição no site Youtube. A entidade também possui em seu site um link para a suas prestações de contas sobre suas ações chamadas de socioeducativas.
A Legião da Boa Vontade também menciona inúmeras vezes em seu histórico o reconhecimento da ONU no que tange à sua chamada “pedagogia inovadora”. Sobre o assunto discorrem o seguinte:
“[...] em 2000, a Instituição passou a integrar a Conferência das ONGs com Relações Consultivas para as Nações Unidas (Congo), em Viena, na Áustria; nesta última década, cresceu a participação de instituições da sociedade civil nas principais conferências promovidas e apoiadas pela ONU, principalmente tendo em vista o cumprimento dos desafios globais, atualmente resumidos na descrição dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs)”.
“[...] a Pedagogia do Afeto (direcionada às crianças de até os 10 anos de idade) e Pedagogia do Cidadão Ecumênico (que contempla a aprendizagem para a faixa etária a partir dos 11 anos), inovadora linha ensino criada pelo educador Paiva Netto, chamou a atenção pelos resultados alcançados nas escolas e nas unidades socioassistenciais da Obra, que propiciam ambiente favorável à Cultura de Paz e índice de evasão escolar zero” (LBV, 2012). A LBV ainda conta com congressos de educação que a própria instituição promove e onde busca a chamada capacitação de educadores, nos moldes do que a instituição preconiza, bem como a disseminação dos valores pedagógicos nos quais acredita.
Passando para outra instituição, elencaremos a seguir os percursos históricos feitos pela Formação. A entidade citada é, hoje, uma organização social – OS – e se chama
“Formação Centro de Apoio à Educação Básica” e fora fundada no ano de 1999, na cidade de São Luís, pela assistente social com especializações na área de educação, Regina Cabral.
A instituição foi criada por um grupo de educadores os quais se consideravam militantes da “causa educacional” e buscavam de início elaborar propostas de políticas públicas, produzir materiais didáticos, desenvolver projetos educativos, qualificar jovens e capacitar professores. Todos já participaram de ONGs e fóruns sobre educação, segundo dados da própria organização.
No que concerne aos aspectos organizacionais da Formação, o site da própria entidade informa que
“[...] o Formação tem uma administração colegiada constituída por: Coordenação Geral, Coordenação Financeira, Secretaria Executiva; o trabalho de coordenação não é remunerado; as linhas de ação, projetos e propostas pedagógicas e de gestão são deliberados em assembleias dos associados, realizadas, ordinariamente, duas vezes por ano; o trabalho dos projetos é desenvolvido por especialistas contratados para fins específicos, que realizam o planejamento de suas ações no âmbito do coletivo de profissionais” (FORMAÇÃO, 2012).
A Formação tem sua sede no bairro do Renascença I, em São Luís, em uma casa localizada em rua residencial. A ONG citada produz e disponibiliza artigos sobre educação e sobre a chamada inclusão social; promove encontros e fóruns para discussões no que tange às políticas públicas; desenvolve relatórios e projetos de pesquisa sobre perfis dos profissionais mais diversos; a entidade também disponibiliza, inclusive em seu site, as suas publicações, revistas e boletins.
No que se refere às parcerias que estabelece, a Formação divide as mesmas em “apoiadores/financiadores” e “aliados”. Dentre os dois segmentos, encontramos desde a CAIXA, passando pela FIFA e chegando até a UNICEF e ao Governo Federal. A entidade citada também conta, como meios de divulgação de projetos e articulações, com blogs e links sobre ambos.
Não encontramos críticas na esfera midiática acerca dos trabalhos desenvolvidos pela ONG Formação, na verdade, conseguimos localizar alguns eixos de suas parcerias e matérias com enfoques nos projetos realizados pela entidade citada. Segundo Camilo (2008), a iniciativa da ONG mencionada em relação à chamada inclusão digital é fundamental
“[...] apontado pelo Comitê Gestor da Internet (CGI) como o 2º estado no país com menor índice de inclusão digital (7,7%), o Maranhão depende de iniciativas de um par de ONGs (organizações não governamentais) e de uma
parte ainda tímida do poder público para tentar mudar essa realidade; as ONGs Formação e Comitê para a Democratização da Informática (CDI) e a Prefeitura de São Luís (que procura ampliar sua rede de telecentros) são raros oásis num deserto de falta de iniciativas visando à inclusão digital”. Também mapeamos por meio de pesquisa on line uma notícia referente a uma parceria entre a Formação e a UNICEF a qual nos diz, resumidamente, que “[...] o UNICEF e a ONG Formação promovem o I Encontro dos Centros de Ensino Médio Profissionalizante (Cemps) para aprofundar a discussão sobre essa inovadora experiência que hoje contribui com o desenvolvimento da Baixada Maranhense – Campos e Lagos”.
Desta forma, apesar de não ter um memorial histórico muito detalhado e abrangente, a Formação disponibiliza bastantes materiais informativos sobre suas ações e é uma das maiores ONGs em voga na cidade, já que a mesma possui repercussão de projetos em outras cidades fora do Maranhão, tal como ensejou, com isto, o estabelecimento de parcerias com importantes órgãos nacionais e internacionais. E o diferencial dela em relação às outras duas ONGs que analisamos é que a Formação é a única com sede de fundação primordialmente estabelecida na cidade.
Já a terceira, e mais recente instituição, que analisamos foi a Central Única das Favelas, ou simplesmente CUFA. A mesma foi fundada, na cidade de São Luís, em 2008, ou seja, o tempo de vida da instituição até o momento é de apenas quatro anos. Desta forma, acho que fica evidente o critério que escolhemos para dividirmos as trajetórias de criação de cada entidade, o qual seja o tempo de vida da instituição até o momento na presente cidade.
Em São Luís, a CUFA é coordenada pelo seu fundador local, o produtor de eventos Billy Wesley Freire. Billy também é o coordenador estadual da entidade, já que a mesma estende seus projetos para diversos interiores do Maranhão. A missão preconizada pela CUFA em São Luís é a de ser um
“[...] pólo de produção cultural e de distribuição de oportunidades para os jovens, particularmente, negros e residentes em favelas através de projetos e ações promovidos nos campos da educação, esporte, cultura, cidadania e desenvolvimento humano” (CUFA, 2012).
A CUFA possui ações, no Maranhão, que se estendem de São Luís e passam pelas cidades de Balsas, Coroatá, Governador Nunes Freire, Imperatriz, Miranda do Norte, Raposa, Riachão e Vargem Grande. A organização mencionada centra suas ações em atividades ligadas à chamada cultura de rua entre as quais podemos sublinhar o grafitti, a escolinha de
futebol de rua, o break, o basquete de rua, igualmente como outras ações nas áreas cultural e educacional.
A Central Única das Favelas possui como seus principais fundadores e divulgadores o rapper MV Bill e a Nega Gizza e tem seu marco de fundação no ano de 1999 no que tange ao Brasil. A entidade foi criada a partir da união entre jovens moradores de várias favelas no Rio de Janeiro e hoje já atua em dezenove estados do país.
A CUFA em São Luís conta com parcerias da esfera privada, mas, pontualmente, estabelece parcerias com o Poder Público, igualmente. Segundo o seu coordenador local, a “marca” CUFA foi liberada pela entidade de mesmo nome no Rio de Janeiro, mas os projetos sociais são elaborados na presente cidade visando os interesses e objetivos preconizados pela CUFA nacional, mas adequados à realidade local.
Como mencionamos no inicio do Capítulo III, o histórico das ONGs fora realizado com base nos discursos empreendidos pelas mesmas, seja em publicações desenvolvidas pelas entidades, seja através de materiais disponibilizados nos sítios eletrônicos. No tópico dedicado à formação dos perfis das instituições, elencaremos, então, os materiais oriundos das entrevistas que realizamos, da mesma maneira que elementos sociológicos para a consecução do comparativo dos referidos perfis.
Segundo nos orienta Coutinho (2011), as ONGs podem ser alocadas em esboços de classificações. Segundo a autora, as entidades podem ser classificadas – de acordo com nomeações estabelecidas por alguns autores – como: “neoliberais” as quais seriam as que possuem uma perspectiva assistencialista e recebem colaborações de ordem imperial, sejam estas ultimas vindas de agencias e/ou organismos nacionais e internacionais; “reformistas” seriam as ONGs as quais visam reformar e corrigir excessos advindos do chamado mercado livre, do mesmo modo que tentariam mediar reformas para que estas sejam compatíveis com os lucros mercadológicos e com os interesses sociais e ambientais; e “radicais” que seriam aquelas voltadas para movimentos contra a globalização e tem a autogestão como enfoque.
Além dessa classificação empreendida por Petras (2002), Coutinho (2011) também nos aponta outras classificações de ONGs empreendidas por outros autores. Assim, as entidades citadas podem ser “históricas” as quais seriam as instituições surgidas nas décadas de 1970 e 1980 e que buscavam a autonomia em relação às chamadas Organizações Internacionais, embora reconheçam a dependência em relação a elas segundo Coraggio (1996); “militantes cidadãs” as quais possuíam como objetivos a participação popular para a efetivação da democracia e de disseminação da chamada cultura da cidadania no que tange ao
pensamento de Gohn (1997); e as ONGs “cívico republicanas” as quais preconizariam as lutas pela defesa de direitos, que é o que nos afirma Oliveira (2001).
De posse do conhecimento destas possíveis classificações16 em relação às ONGs, dos materiais disponibilizados pelas mesmas e do que fora apreendido nas entrevistas da presente pesquisa, podemos dar prosseguimento à formação dos perfis das entidades analisadas e das correlações teóricas possíveis a partir deles a partir de nossas próprias classificações sociológicas.