4.4 Calculations of the different p values introduced in Section 4.1.2 and
4.4.2 Evaluating the power functions
Depois do que considerei uma encenação de uma caçada, os grupos retornaram, em fila, para uma estrada ao leste, bem próxima ao cajueiro onde ficaram acampados. Ali aconteceu uma corrida que se assemelhava à descrita acima por Nimuendajú. Esse momento caracteriza-se como a segunda demonstração de aprendizagem dos pepjê. Esta é a primeira vez que correm em público e, logo nessa corrida destacam-se os bons corredores.
Nas margens da estrada de corrida, no seu início, havia uma multidão de mulheres e ahkraré, enquanto o grupo de reclusos ia sendo levado para um lugar bem distante, na estrada. No início da estrada permaneceram apenas as quatro Mekujxwj76 posicionadas de
frente para duas bacias de alumínio com água e galhos de pau-de-leite. As Mekujxwj indicavam o local de chegada aos corredores. Os reclusos mais novos foram poupados, e retornaram andando de uma pequena distância até às garotas associadas, onde receberam batidas na cabeça com galhos de pau-de-leite molhados, mesmo procedimento que ocorreu no ritual Ketuwajê (Figuras 26 e 27).
Figura 26 – Mekujxwj colocando água na cabeça de um pepjê. Foto: Josinelma Rolande, 2012.
Figura 27 – Mulheres a espera dos pepjê. Foto: Josinelma Rolande, 2012.
Cerca de 30 minutos depois de saírem andando apressadamente até o local de partida da corrida, chegaram até as Mekujxwj os primeiros reclusos, esbaforidos de tanto correr. Na sua chegada, as Mekujxwj, apressadamente, triscavam nas suas cabeças com os galhos de pau-de-leite molhados com água. Os reclusos chegavam tão cansados que logo eram segurados pelos braços por alguma parenta, que começava a esfregar as mãos por todo o
seu corpo. Pouquíssimos eram os que conseguiam ficar de pé, a maioria era massageada sentada e alguns quase desmaiaram, sendo então massageados por um pajé.
De acordo com os Canelas, os reclusos que chegam muito cansados, a ponto de deitar no chão e prestes a desmaiar, são castigados por mekarõ, o que indica a quebra de alguma regra durante sua reclusão. Segundo Jôjô, os reclusos não podem ficar para trás na corrida, porque podem ser pegos por mekarõ. Como forma de espantar os mekarõ para longe dos reclusos, ao longo do caminho de corrida ficam posicionados homens da metade
Kojkatejê, com galhos de pau-de-leite, para açoitar os pepjê durante a corrida.
Depois de massageados, os reclusos foram posicionando-se, em fila, à frente de um pajé que lhes deu socos nas pernas, na altura das coxas, seguidos de um pulo pelos reclusos. Segundo um informante, esta prática é para que não sintam dores nas pernas após a corrida.
Terminada a corrida, as mulheres retiraram-se para o preparo dos berubu e os reclusos, acompanhados pelo Apanhador, seguiram em fila para o brejo. Ali, alguns reclusos estabeleceram relação de solidariedade (masc.: Hapín e fem.: Pinxwyj) enquanto outros instituíram relação de camaradagem (Kwuhnõ77), mas antes, o Apanhador, em longa fala, explicou o significado dessas relações, aconselhando os pepjê e enfatizando a seriedade dessa etapa do ritual. Os reclusos, apoiados nos ombros um do outro, geralmente em dupla ou trio, se jogavam no brejo. Outros engatavam os braços ficando de costas um para o outro e assim, de lado se jogavam no brejo.
Na observação de 1933, Nimuendajú assim descreveu essa etapa:
Dois Pepyé que ainda não estão em relação de Hapín pelos seus nomes pessoais, desejando estabelecer entre si esta alliança, põem-se, costas com costas dentro d’agua do ribeirão simultaneamente mergulham e nadam em direção oposta debaixo d’agua, virando-se um para o outro, assim que emergem. A relação de Hapín estabelecida desta maneira não é porém, quanto a seriedade das obrigações mútuas, equivalente a que se baseia nos nomes.
A relação de Kwu/nõ só pode ser estabelecida por membros da mesma Classe de Idade por ocasião do Pepyé. Os dois candidatos collocam-se, lado a lado e abraçados, dentro do ribeirão, mergulham nesta posição e nadam, abraçados, um pedaço debaixo d’agua (1944, p. 155).
Nimuendajú descreveu, ainda, que nessa mesma manhã os pepjê foram levados até uma árvore, onde um de cada vez subiu até a altura de uns 10 metros, “para cantar lá de
77 Conforme Nimuendajú, “a relação de Kwu/nõ nada mais é senão uma união formalmente reforçada de
camaradagem alegre, entre gente moça da mesma Classe de Idade”, sendo permitidas conversas e brincadeiras entre estes, não possuindo qualquer tipo de restrições nessa relação.
cima o Iyeó ‘como o gavião grita sentado na árvore’. Depois, as duas Moças de Festa cantaram e dançaram com dois dos seus colegas as três cantigas de Avaitipó” (1944, p. 156).
A cantiga de Iyeó78 presenciei apenas duas vezes, mas nessas ocasiões não subiram em árvore. A primeira aprendizagem do Iyeó aconteceu no dia seguinte ao final da reclusão, quando, em frente à casa de farinha, um de cada vez, segurando um bastão apoiado no chão, teve que cantar bem alto o Iyeó, recebendo instruções do cantador Tep Hot. Eram vigiados por dois dos Côtum-ré, que batiam com varinhas, levemente, nas costas dos pepjê que não cantavam de acordo com as instruções de Tep Hot.
No Pepjê observado por Nimuendajú, a aprendizagem dessa música também acontece em outros momentos, logo após o fim da reclusão. Acredito que o mesmo aconteceu entre os Canelas no Pepjê de 2012, pois em outras ocasiões os reclusos também aprenderam tal cantoria, especialmente as Mekujxwj e dois dos reclusos que se destacaram como bons cantadores. Estes últimos (Mekujxwj e dois pepjê) tiveram ainda que aprender “três cantigas que também só se cantam nesta fase de iniciação e que tem o nome comum de Avaitipó” (1944, p. 154).
Após estabelecerem relações de solidariedade e camaradagem, os reclusos continuaram nas proximidades do brejo, acampados no pátio da escola e me foi informado que lá passariam o dia. No entanto, observei que nem todos permaneceram, e por volta das 15h30 muitos reclusos vinham da aldeia, em direção à escola, para dali sair em busca de comida. Por volta das 17h, já estavam circulando pelo krĩcape, carregando seus alimentos e retornando dessa vez para a escola e não para o acampamento nas proximidades do cajueiro. Enquanto os reclusos seguiam para a escola, nas portas das casas que beiravam o krĩcape foram preparados os caj (cestos), conforme descrito por Nimuendajú (1944, p. 157):
Ao pôr do sol collocou-se em frente às casas maternas de todos os Pepyé cestos de carregar (kái) novos, feitos especialmente para isto e carregados até a altura de um homem com produtos da roça, o que se tornava possível prolongando as paredes do cesto por meio de folhas de palmeira mettidas verticalmente nellas e com os folíolos entrelaçados. O conjunto formava um funil pontudo, mantido na sua forma certa por meio de anéis de envira de buriti. Para não cahir o cesto era amarrado a um quadro vertical de varas, fincado no chão. Até muito acima da boca estavam esses cestos sobrecarregados de uma maneira exagerada com milho, macaxeira, batatas,
inhames etc, o que constituía o pagamento chamado “po” que as parentes do Pepyé prestaram aos Grupos do Pateo pelo trabalho da construção dos compartimentos de
78 Iyeó Iyeó! Marére rererét hi-koikwá-kam! ? ? ? beija-flor no céu dele.
Iyeó Iyeó! Marére ritere ame hi-krãtúm,
reclusão. Deante de cada casa havia tantos cestos como Pepyé tinham estado nella em reclusão.
Com o crescimento da aldeia, os cestos não são todos colocados em frente às casas maternas dos pepjê. Aqueles que moram distantes do caminho circular colocam os cestos em frente à casa de uma parenta materna, de modo que todos os cestos fiquem posicionados em frente às casas localizadas no krĩcape, podendo ser visualizados por quem caminhe pela rua circular. Outra diferença encontrada nesta cerimônia é em relação aos produtos colocados nos cestos. Atualmente são poucos os produtos oriundos da roça. Raramente se observa alguém colocando batatas, pois colocam muito arroz, bastante salgadinho e refrigerante, bananas, laranjas, biscoitos, garrafa térmica para café e até mesmo panelas de alumínio. Todo o krĩcape fica tomado por estes cestos (Figura 28).
Figura 28 – Os caj (cestos). Foto: Josinelma Rolande, 2012.
O caminho circular foi novamente limpo, sendo preparado para uma das cerimônias mais aguardadas no ritual Pepjê, a saída do Mekapónkate-péy de sua casa de reclusão. O fim da reclusão do Mekapónkate-péy ocorreu por volta das 20h, depois de receber várias visitas dos krahlé (garotos de recado), que indagavam quando sairia do quarto de reclusão, e respondia apenas que não o incomodassem. A essa hora, todos os pepjê já estavam acampados nas proximidades do krĩcape, sentados à porta de uma casa localizada na estrada que dá acesso à enfermaria. Ali aguardavam a chegada do Mekapónkate-péy, que apareceu de repente segurando uma vara com a qual ia batendo em suas costas, pois até então não haviam percebido a sua presença, mas logo todos os pepjê já haviam se dispersado pela aldeia.
Em seguida, o Mekapónkate-péy retornou pelo caminho circular, ficando em direção à sua casa materna, que se localizava distante do krĩcape. Ali já estavam a sua espera
os seus parentes, bem como uma multidão de curiosos que se amontoavam para ver se o Comandante havia engordado e crescido. As transformações em seu corpo eram visíveis, ao ponto de não ser reconhecido. Em abril me havia sido dada a permissão para fotografá-lo e então estava magro, com cabelos muito curtos e não tinha a orelha furada. Em junho, além de ter crescido e engordado bastante, já utilizava um pequeno disco no lóbulo da orelha.
Nas descrições de Nimuendajú o Mekapónkate-péy foi assim ornamentado logo após sair da reclusão:
Amarraram-lhe dois pannos dobrados em forma de fitas pelo meio do corpo e um terceiro ao redor da cabeça. Das costas lhe pendia um cordão de missangas com
um pequeno espelho. Puseram-lhe um cinto grosso de cordões brancos de algodão e peitorais entrecruzados do mesmo material. Em cada um destes peitorais
estava amarrada uma corda de 30 metros de comprimento que era mantida estendida lateralmente, cada uma por 10 pessoas de ambos os sexos. Immediatamente junto delle achavam-se de cada lado um seu Hapín, segurando com umas das mãos a corda e sustentando com a outra o braço estendido do Instrutuctor (NIMUENDAJÚ, 1944, p.158).
Nas minhas observações, o Mekapónkate-péy foi igualmente enfeitado com tecidos, que ultrapassavam a média de dois (Figura 29).
Figura 29 – Mekapónkate-péy ornamentado com tecidos.
Foto: Josinelma Rolande, 2012.
Suas parentas amarraram uma média de oito tecidos em volta da sua cintura e dois entrecruzados nos peitos, ficando por cima dos peitorais brancos de algodão. Havia também um tecido envolto em sua cabeça. Em seguida, sua Pinxwyj retirou os tecidos, ficando com eles para si. O Mekapónkate-pé ficou apenas com o tecido em volta da cabeça e os peitorais
com as cordas. Não foi colocado o cordão de miçangas referido por Nimuendajú e, sobre a presença de pessoas na corda, não existia uma quantidade predeterminada, pois ao longo da cantoria do Mekapónkate-péy pelo krĩcape, em frente aos cestos, os homens iam puxando as
moças pelos braços, até uma das extremidades da corda. Do mesmo modo, as mulheres pegavam os rapazes e os conduziam até a corda. O rolo de cordas ia sendo desenrolado e crescendo ao longo da cantoria pelo caminho circular, que durou até por volta das 4h horas da manhã.
Por volta das 5 horas da manhã, enquanto algumas mulheres ficavam próximas aos cestos vigiando-os, outro grupo de mulheres, sob o comando de um dos cantadores, alegrava o pátio com suas cantorias. Em seguida, foi dado início a distribuição dos caj (cestos). Uma multidão de homens, alguns acompanhados de suas esposas, filhas, cunhadas ou algum outro parente, corriam em direção ao caj que lhes competia. Pelo tamanho dos cestos e a fragilidade dos mesmos, era impossível ser carregado apenas por uma pessoa, por isso a necessidade da companhia das mulheres da família. Ao mesmo tempo em que se apossavam dos caj, um grupo de corredores, bem como o grupo de reclusos mais velhos, dirigia-se para a estrada que dá acesso à enfermaria, ficando no pátio os reclusos menores e as quatro Mekujxwj, segurando, cada uma, um galho de pau-de-leite e posicionadas de frente para duas bacias com água.
No mesmo local da estrada que dá acesso à enfermaria, foi dada a partida para a corrida de pàràre, como aconteceu no Ketuwajê de 2005, aqui já descrito. Mas, desta vez, apenas os Mamkjehti tiveram o corpo emplumado e enfeitado com tecidos e com o panjapў. E, novamente foram carregados nos ombros pelos seus Hapín e levemente açoitados com galhos de janaúba pelas Mekujxwj. Conforme havia destacado no capítulo anterior, em situações de destaque os hamrén têm seus corpos emplumados.
Terminada a divisão dos caj, cada recluso foi pego pelo braço, por seu tio materno, que segurava na outra mão o puré (varas de buriti de aproximadamente uns 4 metros de altura) e conduzido até sua respectiva casa materna. Ali, a mãe do recluso o recebia e dava início aos preparativos a sua ornamentação, conforme descreverei a seguir.