O fato de a possível autoria dos Relatos pertencer a vários peregrinos confirma a presença histórica deles na Rússia. M. Evdokimov, no seu Peregrinos Russos e Andarilhos
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Disponível em: http://secretsdutarot.blogspot.com.br/2012/10/le-fou-arcane-sans-nombre.html. Acesso em fev. de 2018.
Místicos (1990), fez um levantamento historiográfico acerca do conceito de nomadismo e das peregrinações na Bíblia enquanto livro histórico sem desconsiderar o seu lado espiritual. De
acordo com a etimologia apresentada por M. Evdokimov da palavra peregrino, ele ressalta a sua origem latina, a saber, per-egrinus. Segundo ele, nesta palavra ―acha-se contida a idéia de atravessar um campo (ager = campo; per = através de, por), um território, uma fronteira‖ (EVDOKIMOV, 1990, p. 19). Em seguida, o autor trata do nomadismo e do seu caráter expiatório, a começar por Adão e Eva na ocasião da sua expulsão do Jardim do Éden, de acordo com o relato presente no Pentateuco. Além de Adão e Eva, o autor ressalta o nomadismo de Caim, as peregrinações de Abraão e do povo Israel durante período anterior e posterior ao exílio da Babilônia.
Com relação aos inícios da peregrinação na tradição judaico-cristã, Evdokimov afirma que ―os patriarcas – Abraão e Isaac no sul, Jacó ao norte – fundaram lugares de culto, erigiram altares de pedras brutas consagradas para comemorar alguma manifestação epifânica‖ (idem, p. 25). Tais locais marcam a caminhada do povo judeu em busca das origens da fé. O altar que Abraão ergueu sob o carvalho de Mambré depois da misteriosa visita de três peregrinos, a escada batizada como Betel na qual Jacó viu anjos subindo e descendo são, de acordo com Evdokimov, ―lugares onde se manifestou a presença divina, e muitos outros ainda, marcam a grande epopeia espiritual do povo judeu.‖ (ibidem, p. 25). Em seguida, ele discorre sobre as peregrinações até Jerusalém depois do nascimento, morte e ressurreição do Cristo e a posterior incorporação litúrgica das evocações espirituais das peregrinações até os locais por onde o Cristo esteve.
Mais adiante, Evdokimov faz um breve levantamento histórico sobre as peregrinações nos povos eslavos antigos, antepassados dos russos de hoje. Entre os contadores de bylinas33, Evdokimov ressalta a presença dos peregrinos mendicantes e dos próprios peregrinos no Império Russo. O autor afirma que grande era o desejo dos peregrinos piedosos de estar na presença dos locais sagrados, a saber, Jerusalém e a antiga Constantinopla.
Tais peregrinos são identificados por Evdokimov com os ―loucos por Cristo‖. No capítulo dedicado a tal identificação, o autor apresenta uma breve pesquisa acerca da loucura ao longo da história, da sua presença na Bíblia e, por fim, da sua presença na Rússia. O autor frisa que há, na Bíblia, uma distinção entre a loucura segundo os valores deste mundo e a
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Para Evdokimov, os contadores de bylinas eram os contadores de histórias do período imperial da Rússia. (1990, p. 37).
loucura divina, seria representada primordialmente pelo próprio Cristo. Evdokimov afirma dizendo:
Ora, enfim, a loucura, desde os tempos do Antigo Testamento, aparece misteriosamente relacionada com a vinda do Messias, pressentida como o modelo arquetípico de toda loucura em Deus. Em Cristo vai ocorrer uma radical subversão de todos os valores costumeiros: esperava-se o ―Ungido‖ real que deveria reinar sobre o mundo, mas o Senhor se deixa prender, esbofetear, maltratar, pregar numa cruz de infâmia; (EVDOKIMOV, 1990, p. 56).
Além de frustrar as expectativas daqueles que esperavam um Messias que viesse para libertá-los da opressão do Império Romano, o Cristo frequentemente colocava contra a parede os valores morais dos fariseus, uma vez que o Cristo ―se põe a servir aos outros, toma a refeição com marginais e gente considerada de má vida, lava os pés dos discípulos.‖ (idem,, p. 56). Este novo paradigma é confirmado pelos discípulos que, de acordo com Evdokimov, se sentiram impelidos pelo exemplo do Cristo: ―abalados pela figura luminosa de Cristo, traspassados pela força de sua palavra, os discípulos que O cercam são levados a cometer atos de verdadeira loucura, a formular perguntas insensatas aos olhos da sabedoria deste mundo.‖ (ibidem, p. 57). Dentre os numerosos exemplos que se pode tirar dos Evangelhos acerca da loucura inspirada por Cristo, o que parece ser o mais impactante é a cena na qual uma das discípulas do Cristo, Maria de Betânia, que ungiu com nardo os pés do Cristo e os enxuga com os cabelos. Tal ação chocou, de acordo com o relato bíblico, a Judas Iscariotes, aquele que guardava a bolsa com a qual era feita a coleta para se ajudar os mais pobres.
Porém, de acordo com M. Evdokimov:
Entre todos os Apóstolos, quem mais longamente medita sobre a loucura divina e a loucura humana é São Paulo, o antigo perseguidor dos discípulos de Jesus, em nome da política terrena. Para sacudir do torpor os coríntios, fascinados pela sabedoria deste mundo, Paulo prega a loucura de Deus e se apresenta como um exemplo: nós,
loucos por amor de Cristo; vós, sábios em Cristo; nós, fracos; vós, fortes; vós, ilustres; nós, vis (1Cor 4, 10). (idem, p. 58, grifos do autor).
Os ―loucos por Cristo‖ no decorrer da história, para Evdokimov, ―imitam a loucura dos homens para imitar a loucura daquele Deus‖ (ibidem, p. 59). O uso do humor e da loucura como instrumento de subversão dos valores morais é uma maneira de se estabelecer uma procura pelo sentido real do mundo; ―São Basílio o Bem-Aventurado gostava de atirar pedras sobre as janelas dos ricaços e beijar a soleira das casas das prostitutas, porque nas primeiras via demônios pousados nos muros, e no teto das últimas via um anjo a chorar.‖ (ibidem, p. 59).
Para Evdokimov os ―loucos por Cristo‖ – em russo, юродивый (jurodivje) – estiveram presentes na Rússia desde o século XVI até os dias atuais, suportando as perseguições religiosas nos períodos anteriores e posteriores à Revolução Bolchevique. Desde os primórdios, os ―loucos por Cristo‖ sempre tiveram consciência das mazelas sociais das épocas. Sendo assim, sempre houve quase sempre houve a possibilidade da utilização dessa maneira de vida como forma de se denunciar, à maneira deles, as injustiças de um poder político pois, para Evdokimov, ―O louco de Deus pôde então assumir o papel de consciência íntima do monarca‖. (EVDOKIMOV, 1990, p. 60).
Evdokimov, então, narra um episódio no qual um ―louco por Cristo‖
chamado Nicolau, convidou Ivã o Terríval a passar em sua casa e lhe ofereceu um prato de carne crua. O augusto hóspede lhe objetou que era tempo de quaresma e não poderia comer carne. Mas o bem-aventurado lhe disse: ―Mas o sangue dos cristãos... por que o está bebendo?‖ E o czar caiu em si.‖ (idem, p. 60).
Com relação à presença deles na Rússia do século XX, M. Evdokimov apresenta os depoimentos dos exilados russos acerca da presença dos ―loucos por Cristo‖ na Rússia pós- revolucionária. Tais depoimentos foram colhidos, conforme M.Evdokimov, por Irina Goraïnoff. E em um desses depoimentos, chegou até nós o depoimento de uma monja errante que não tinha teto, nem mosteiro e nem dinheiro.
Apesar do peregrino dos Relatos não apresentar as características dos ―loucos por Cristo‖ conforme são descritas por M. Evdokimov, é possível ver que o peregrino fazia jus ao seu título, uma vez que ele dizia que era um ―peregrino sem lar da mais humilde origem, sempre errando de lugar em lugar‖. (ANÔNIMO DO SÉCULO XIX, 2008, p. 33).