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Case: Bergen municipality – Public Health Authority

In document Health and Social Affairs (sider 65-70)

Se Gramsci aponta que “o velho morre e o novo não consegue nascer” (Gramsci, 2017: 18), ao descrever

interregno, fica evidente que o velho não é o novo, o que não quer dizer que ele não possa parecer como

uma grande novidade, ou melhor, uma velha novidade.

Se formos pinçar dos 13 candidatos a presidente da república que disputaram o pleito eleitoral de 2018, aqueles que pudessem ser entendidos, literalmente, como novidades na política brasileira (estabelecendo como critérios: não ter ainda ocupado algum cargo eletivo, não ter integrado ministérios ou secretarias em governos e não ter vínculos familiares diretos com alguém que se enquadre nos dois critérios anteriores), teríamos apenas João Amoedo (Novo), no espectro das direitas, e Guilherme Boulos (PSOL) e Vera Lúcia Salgado (PSTU), nas esquerdas.

Já Jair Bolsonaro (PSL), apesar de não ter composto ministérios ou secretarias em governos, teve um mandato de vereador no Rio de Janeiro e sete mandatos como deputado federal, tendo passado por oito partidos ao longo da sua trajetória política. Além disso, três dos seus filhos ocupam cargos eletivos: Eduardo Bolsonaro (PSL) está em seu segundo mandato como deputado federal; Flávio Bolsonaro (PSL) foi deputado estadual do Rio de Janeiro por quatro mandatos e é Senador da República e Carlos Bolsonaro (PSC) é pela quarta vez vereador do Rio de Janeiro. Este quadro, por si, já demonstra que Bolsonaro (aqui especificamente o pai) não pode ser interpretado exatamente como o novo. No entanto, não podemos afirmar que Bolsonaro não traz novidades neste processo eleitoral, do ponto de vista da prática discursiva, ainda que sejam velhas novidades.

Como vimos no capítulo 1 desta dissertação, Sargentini (2017) considera que houve, ao longo dos processos eleitorais após o retorno da democracia ao Brasil, um processo de homogeneização nas características performáticas expressas no discurso político das candidaturas presidenciais, notadamente por três aspectos: segmentação, docilização e estetização. Podemos apontar que o discurso de Bolsonaro, publicado em sua conta de Twitter, rompe com estes três aspectos deste processo de homogeneização.

Entendendo o processo de segmentação como o direcionamento do discurso a grupos específicos e não mais a uma unidade abstrata de povo, podemos indicar que Jair Bolsonaro busca retomar esta unidade, ainda que ocasionalmente recorra ao direcionamento específico em alguns discursos. Este apelo unitário

86 corresponde ao próprio programa político e ideológico do candidato, já que seria parte da tática política dos governos da esquerda dividir os brasileiros a partir de pautas identitárias, como observamos no capítulo 3 desta dissertação. À lógica unitária no direcionamento do discurso também corresponde a característica populista descrita por Müller (2017) na representação exclusiva de “povo” distintamente moral, como forma de afirmação identitária, e também na perspectiva militar e dualista de construção do inimigo interno, a ser combatido na “guerra cultural”.

A seguinte publicação é exemplar neste apelo à unidade de “povo”:

“Ontem propôs combate às notícias falsas, hoje espalha mentiras descaradas a meu respeito.

Quem está a favor do povo (grifo nosso) faz política com a verdade, não trabalha a serviço de um

corrupto preso, nem faz parte da quadrilha que assaltou os brasileiros e colocou o país na lama.

Canalha!” (publicada no dia 09/10/2018 às 20h:52min

http://twitter.com/jairbolsonaro/status/1049749448493031425)

Já a docilização, vimos que é a postura assumida de evitar o embate direto entre os oradores, afirmando o próprio programa, sem precisar de forma ativa desqualificar o projeto do adversário, passando uma sensação de harmonia consensual. Sargentini (2017) também aponta que é característico no discurso docilizado a expressão de uma fala compreensiva, doce, que acaba por apagar o confronto de ideias que seria, em tese, próprio do discurso político.

Ora, esta é a postura oposta ao discurso de Jair Bolsonaro, que não só deixa de evitar o embate como parece estimulá-lo de forma permanente, sem qualquer brandura na sua expressão, apelando, inclusive, a um tom violento e desrespeitoso:

“Pergunto ao pau mandado do corrupto preso: você aceitaria que o crime organizado continuasse sendo comandado de dentro dos presídios?” (publicada no dia 08/10/2018 às 18h:14min

http://twitter.com/jairbolsonaro/status/1050796770949812225)

Vale destacar que Sargentini (2017) aponta que estas mutações no discurso político se consolidaram a partir das eleições de 2002; já em Chiari e Sargentini (2017) se discute os insultos na campanha eleitoral de 2014, demonstrando um deslocamento da docilização à agressividade.

Chiari e Sargentini (2017) consideram que o uso intensivo da redes sociais, o aprimoramento dos sítios virtuais de campanha e a mudança no formato dos debates televisivos foram fatores que colaboraram para o crescimento do “dizer agressivo” na campanha de 2014, diversificando as ferramentas para agredir o oponente.

As autoras consideram que os insultos verbais e imagéticos nas redes sociais permite a identificação de determinados grupos a partir da oposição de outros, reforçados a partir de compartilhamentos e “curtidas”, aumentando a chance de efeitos agressivos pela possibilidade dos internautas poderem se esconder em um suposto anonimato, a partir de perfis fictícios, e se afastar de punições individuais a partir

87 da ação coletiva de partilha do dito agressivo, sem que se possa atribuir a um agente específico a autoria do material veiculado.

Ao comentar a agressividade nos debates televisivos, comparando-a com a agressividade nas redes sociais, as pesquisadoras apontam que “a agressividade passa a ser vigiada, seus efeitos são mais contidos, em decorrência da posição ocupada pelos sujeitos enunciadores, os quais enunciam a partir de um lugar oficial, o que os permite dizer algumas coisas, silenciando outras” (Chiari e Sargentini, 2017: 137). Nota-se então que a agressividade explicitada nas redes sociais online é potencializada pelo anonimato, sendo protagonizada por quem se identifica com a candidatura em oposição ao adversário, enquanto a agressividade nos debates televisivos é contida, justamente pela oficialidade dos sujeitos enunciadores.

Assim, mesmo considerando este deslocamento da docilização à agressividade, já percebido nas eleições de 2014, há diferenças da agressividade praticada por Jair Bolsonaro, já que ela é explícita a partir de um lugar oficial, que é a sua conta oficial no Twitter, e não ocultada por um pseudônimo virtual. O candidato, ao buscar o conflito, não só se desloca de uma caraterística que até então parecia predominante no discurso político em campanhas presidenciais, a docilização, como também renuncia à possibilidade de uma agressividade encoberta ou controlada, assumindo-a, a própria agressividade, como uma característica de seu discurso oficial.

Por fim vale observar o aspecto da estetização do discurso político: Sargentini (2017a) considera que a estetização seria a preocupação com a estética do homem político, construindo a imagem de como ele quer ser visto e o que ele representa na sociedade, o que está marcado tanto pela sua expressão física ( a partir de sua aparência, construção gestual, forma de se vestir e etc.), como por sua forma de dizer revelando o ethos do político. Nesta estetização, costumava-se aproximar o político de uma imagem relacionada à ideia de confiável, amigo e compreensivo, distanciando-o da imagem de impaciente, arrogante e intolerante. Sargentini (2017a) aponta que, ao final do século XX, início do século XXI, a polidez passa a ser uma exigência ao candidato, pois não se admite mais a expressão da violência, seja na fala, na gestualidade ou na imagem. Esta polidez é articulada com a gentileza que se estende a expressões linguísticas e gestos de benevolência, bondade, complacência, etc.

Há um processo de estetização no discurso de Bolsonaro, no entanto ele não se articula com os aspectos que seriam típicos da estética do discurso político brasileiro no século XXI. O discurso do candidato não se preocupa com a polidez ou por ser marcado por gestos de gentileza; ele expressa abertamente a violência, utilizando-se de xingamentos e deboches contra adversários ou mesmo aos medias, demonstrando pouca preocupação em ser visto como impaciente, arrogante ou intolerante:

(Segunda Volta) “Haddad diz que sou responsável pela campanha mais baixa da história. Logo

ele, que é orientado por um presidiário, esconde as cores do partido, finge ser religioso, joga bíblia no lixo, esconde apoio à ditadura venezuelana e espalha um monte de porcaria mentirosa

88 ao meu respeito” (publicada no dia 26/10/2018 às 14h:33min

http://twitter.com/jairbolsonaro/status/1055814639957803010)

Não nos parece, no entanto, que o discurso de Bolsonaro seja apenas a expressão natural do sujeito; ele tem o sentido estético de se opor ao próprio discurso do político tradicional, caracterizando-se como uma espécie de antipolítico, o que é convergente com as escolhas temáticas adotadas em suas publicações no Twitter, demonstrando que este elemento também faz parte de sua estratégia discursiva.

Como vimos no capítulo quatro, além de uma larga predominância de publicações enquadradas no MaT “temas morais e socialmente conflitantes”, dentro deste observamos a frequência considerável dos MiT “antiestablishment” e “fakenews e crítica aos media” e que estes, por vezes, estavam articulados com a narrativa de que Bolsonaro seria o candidato contra o sistema corrupto e de esquerda e que as demais candidaturas, assim como alguns órgãos de impressa, estariam unidos para a sua manutenção.

Desta forma, dentro da estratégia discursiva de estabelecimento de um conflito permanente, a partir da lógica de construção do inimigo interno que detém o controle do sistema político, Bolsonaro precisa estar fora da própria política. Para tanto não basta criticá-la, é preciso se expressar e, principalmente, ser visto como o antagônico dela; assim a estética de seu discurso, agressiva e debochada, adquire um importante papel nesta construção.

In document Health and Social Affairs (sider 65-70)