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In document Health and Social Affairs (sider 103-170)

Na proposta de identificar o arquétipo do Velho Sábio na figura do Stárets dos Relatos

de um Peregrino Russo, será feito um estudo acerca do simbolismo do arcano do Eremita

conforme Anônimo (1989), Marteau (1990) e Nichols (1992). E na meditação dedicada ao arcano do Eremita, que é o nono arcano do Tarô de Marselha, Valentin Tomberg (1989) refere-se ao arcano do Eremita enquanto representante de um grande arquétipo do velho sábio principalmente por causa de toda a simbologia presente na lâmina. A lâmina representaria um velho encapuzado andando com o auxílio de um bastão e segurando uma lanterna, ainda que, de acordo com a representação da lâmina, o dia ainda esteja claro.

O Eremita! Alegro-me por ter chegado, na série dessas cartas meditações, à figura venerável e misteriosa do itinerante solitário, vestido com roupa vermelha sob o manto azul, com lanterna alternativamente amarela e vermelha em sua mão direita e apoiado num bastão. Porque o Eremita venerável e misterioso foi o mestre dos sonhos íntimos e agradáveis de minha juventude, como foi, aliás, em todos os países, o mestre dos sonhos da juventude desejosa de procurar a porta estreita e o caminho apertado do Divino. Dize-me um país ou uma época nos quais a juventude verdadeiramente ‗jovem‘, isto é, que vive pelo Ideal, não teve sua imaginação dominada pela figura de um Pai sábio e bom, de um Pai espiritual, do Eremita enfim, que passou pela porta estreita e segue pelo caminho apertado. De um pai no qual possa confiar sem reserva e ao qual possa venerar e amar sem limites! Qual o jovem russo, por exemplo, que não faria uma viagem, por mais longa que fosse, para encontrar um Stárets, isto é, um Pai sábio e bom, um Pai espiritual, o Eremita enfim? (TOMBERG, 1989, p. 209-210).

O fato do autor acima ter mencionado o jovem russo à procura de um Stárets é bastante significativo, pois indica uma identificação do Stárets com o arquétipo do velho sábio representado pelo arcano do Eremita. Mais adiante, o autor interpreta alguns dos elementos presentes na lâmina, a saber: a lâmpada, o bastão e o manto. A lâmpada, de acordo com Tomberg, simbolizaria a faculdade inteligência, enquanto o manto simbolizaria a harmonia que deveria existir entre o todo e as partes através do método da analogia. Por fim, o bastão

simbolizaria a experiência autêntica ou a experiência acumulada no domínio da vida espiritual.

Figura 1 – Arcano do Eremita.

Fonte: Blog Le Secrets du Tarot.27

No Dicionário de símbolos, acerca da parafernália do Eremita, Chevalier & Gheerbrant afirmam, quanto à lanterna que:

―Essa lanterna [...] lembra a de Diógenes, que buscava à luz do dia um homem em Atenas e só encontrava imbecis. Mas simboliza também, como a lâmpada de Hermes Trismegisto, a luz velada da sabedoria, a que o Eremita cobre com seu manto azul de iniciado. A iluminação deve permanecer interior, e é inútil cegar ou ofuscar aquele a quem não se destina‖ (CHEVALIER & GHEERBRANT, op. cit., p. 376).

No mesmo Dicionário, o bastão do Eremita aponta para a sua ―longa peregrinação‖, enquanto que o seu manto significaria o seu afastamento do mundo e a proteção da sua iluminação espiritual. As representações imagéticas tradicionais do Stárets quase sempre o figuram como se fosse um ancião que caminha com a ajuda de um bastão, vestindo roupas próprias de um monge e segurando, numa das mãos, um rosário.

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Disponível em: http://secretsdutarot.blogspot.com.br/2012/09/lhermite-arcane-9.html. Acesso em fevereiro de 2018.

Figura 2 – Monge ortodoxo em oração com um rosário.

Fonte: Blog sobre a espiritualidade russa.28

Nos Relatos, vê-se como o Stárets possuía todas estas características, o que torna possível afirmar que ele materializou o arquétipo do velho sábio. No primeiro diálogo que há entre o peregrino e o Stárets, este lhe pergunta: ―Que tipo de ensinamento você procura e o que você busca compreender melhor? Venha, querido irmão, junte-se a nós! Temos, entre nós, alguns startsi que poderão guiar sua alma e indicar-lhe a verdadeira via à luz da palavra de Deus e dos ensinamentos dos Santos Padres‖ (ANÔNIMO DO SÉCULO XIX, 2008, p. 37- 38).

Ademais, M. Evdokimov ressalta que o Stárets sabia da necessidade de se transmitir uma experiência vivida em vez de um tratado racional acerca da oração incessante que o peregrino tão ardentemente buscava: ―Como religioso experiente, o Stárets não se contenta em pregar por palavras a necessidade de rezar. Vai transmitir não uma especulação intelectual sobre os estados de oração, mas uma experiência existencial alimentada com sua própria oração.‖ (EVDOKIMOV, 1990, p. 165).

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Sendo assim, fica claro que o Stárets encarnaria a figura do velho sábio, figura de extrema importância nas grandes tradições religiosas. Ademais, os comentários de Olivier Clément acerca da necessidade de um guia, na tradição espiritual do cristianismo, são extremamente pertinentes:

Para se escalar uma montanha, não é suficiente ter um mapa. Um guia é necessário. Eis a necessidade de um ―pai espiritual‖ na tradição com a qual nos ocupamos. [...] O pai espiritual é, acima de tudo, uma pessoa espiritual, na qual o Espírito habita. E o Espírito faz dele um ícone da paternidade divina. [...] O pai espiritual é, acima de tudo, um homem manso, bondoso e caridoso. Dessa forma ele pode confortar o perturbado. [...] O pai espiritual é apto para ser um diretor porque ele conhece os caminhos. (CLÉMENT, 1993, p. 145).

Além disso, Leloup escreve sobre a necessidade de um guia espiritual, de forma mais específica, na tradição hesicasta, de onde o Stárets surge como figura imponente:

É chegado um momento na nossa vida onde não nos contentamos mais com ideias gerais, temos necessidade de sermos guiados concretamente, acompanhados no desenrolar das nos sas experiências. Na tradição hesicasta, assim como em todas as grandes tradições, insistimos nessa transmissão de pessoa a pessoa, ‗do meu coração ao seu coração‘. O espelho no qual podemos discernir a qualidade ou a ilusão de nossos atos não é uma lei ou uma regra, mas uma pessoa. A inteligência e o amor de Deus se medem no olhar do Stárets, cuja ciência nos ilumina e a experiência nos reconforta. (LELOUP, 2003, p. 12).

O trecho acima parece fazer eco àquela interpretação dos símbolos presentes na lâmina do Eremita (bastão: experiência; lâmpada: ciência; manto: amor). E a necessidade de um guia é também confirmada por John Chryssavgis. No seu livro intitulado In the Heart of the Desert (2003), há todo um capítulo dedicado ao acompanhamento espiritual. Dentre os inúmeros motivos, Chryssavgis afirma, baseando-se nos padres e madres do deserto, que é necessária a presença de pelo menos outra pessoa em se tratando do conhecimento de si mesmo. Além disso, ele ressalta o efeito terapêutico que há no simples ato de expressar verbalmente aquilo que pesa na consciência.

Não é possível conceber uma tradição sem a figura do ancião sábio. No hesicasmo, tal figura é de suma importância. Tendo sido herdada dos padres do deserto (e encontrada em outras religiões, sem dúvidas), tal figura consiste numa pessoa que, através da sua experiência na vida espiritual, adquiriu uma série de carismas que a possibilita ser um guia para aqueles que o quiserem. Tal autoridade viria, de acordo com Chryssavgis, da experiência do deserto pela qual passou o velho sábio. ―O diretor espiritual é aquele que sobreviveu ao deserto e,

portanto, pode falar tanto com confidência quanto com compaixão, tanto com autoridade quanto com caridade‖ (CHRYSSAVGIS, 2003, p.64, tradução nossa)29

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Ademais, Jung frisou a constante aparição do arquétipo do velho sábio na figura da busca por um conhecimento espiritual. Pois ―o velho sempre aparece quando o herói se encontra numa situação desesperadora e sem saída, da qual só pode salvá-lo uma reflexão profunda ou uma ideia feliz [...]‖ (JUNG, 2008, p. 214). No caso dos Relatos, o velho aparecera quando o peregrino estava no ápice da sua procura pelo conhecimento do mundo espiritual.

Ademais, para Marteau, ―o EREMITA representa o Homem em busca da Verdade, na calma e na paciência, através do apoio da sua lógica e da luz, semivelada, que ele projeta com prudência‖. (MARTEAU, 1991, p. 70). Sendo assim, o Stárets materializa o arquétipo do velho sábio conforme representado no arcano do eremita, uma vez que este projetava com prudência a luz do seu conhecimento espiritual tornando o caminho para si, portanto, luminoso apenas para aqueles que o procurassem, como foi o caso do peregrino.

No Dicionário de Mística, compilado por Borriello (2003), há um verbete dedicado à

mística russa escrito por Tomaš Špidlik. No verbete, há uma explicação do significado da

palavra Stárets de acordo com a sua origem etimológica. Vindo do eslavo antigo, o vocábulo

Stárets significaria simplesmente ancião. E há, na mesma seção, uma explicação acerca da

presença e a importância dos startzy no cristianismo russo. De acordo com o dicionário, eles seriam anciãos dotados do ―conhecimento dos mistérios de Deus, das intenções da providência, a diakrisis, ou a capacidade de discernir os pensamentos e os desejos segundo a respectiva bondade moral, e a cardiognosia, conhecimento espiritual dos corações humanos‖ (ŠPIDLÍK, T. in: BORRIELLO, L. 2003, p. 744)

No caso do cristianismo, o Mestre seria o próprio Cristo, como foi afirmado por Clemént. Porém, como todos os cristãos – homens e mulheres – seriam chamados a realizar uma imitação do Cristo – ou, conforme a nomenclatura oriental, uma vivência no Cristo – o pai espiritual (ou mãe espiritual) teria o papel de indicar o caminho para tal realização, uma vez que o pai espiritual seria capaz de plasmar algumas das características do Cristo. E como forma de demonstrar esta identificação com o Cristo, o autor das Meditações sobre os 22

Arcanos Maiores do Tarô citou o exemplo de Santo Antão, o Grande, tal qual fora contado

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―The spiritual director is the one who has survived the desert and, therefore, can speak both with confidence and with compassion, with authority and with charity alike‖ (CHRYSSA VGIS, 2003, p.64).

por Santo Atanásio. No trecho seguinte, é possível perceber que todos os monges que Santo Antão encontrou procuravam ter uma profunda veneração pelo Cristo, por mais que cada um destes monges focava no desenvolvimento principal de uma virtude em particular:

Se submetia de boa vontade aos zelosos (ascetas) que ia visitar e se instruía junto deles na virtude e na ascese de cada um. Contemplava em um a amabilidade, em outro a assiduidade à oração; neste via a paciência, naquele o amor ao próximo; em um observava as vigílias, em outro a aplicação à leitura; admirava um pela sua constância, a outro por seus jejuns e por seu sono sobre a terra nua. Observava a mansidão de um e a magnanimidade de outro; em todos notava a devoção a Cristo e o amor mútuo. Assim, satisfeito, voltava para seu eremitério, condensando e se esforçando por exprimir em si mesmo as virtudes de todos... (Vida de santo Antão por santo Atanásio, op. cit., 4 APUD TOMBERG, 1989, p. 22-23, grifo nosso).

Quanto à experiência do Stárets do Peregrino Russo no campo da oração incessante, Leloup afirma que ―apesar de ter experimentado e vivenciado essa prática, ele não a inventou, ele somente transmite aquilo que recebeu‖. (LELOUP, 2008, p. 13)

A transmissão espiritual, no caso do hesicasmo, ocorre de coração a coração. O Stárets transmite ao discípulo tanto a sua experiência quanto a sua ignorância. Além disso, tal paternidade está fundamentada sob dois pilares, a saber: a da humildade e a da certeza. Para Leloup, a característica da humildade estaria relacionada ao desconhecimento da realidade acerca da natureza de Deus, ou apófase. Já a característica da certeza estaria mais relacionada ao alto grau de realismo presente na união mística do ser humano com Deus. Se, por um lado, a realidade da experiência de Deus é impensável e inimaginável, por outro lado, como ressalta Leloup, ela não deixa de ser ―fonte de paz e de alegria‖ (LELOUP, 2003, p. 110).

No entanto, P. Evdokimov diz, ao comentar um relato do Apophtegmata Patrum30, que:

―um pai espiritual jamais é um ‗diretor de consciência‘. Jamais gera ‗seu‘ filho espiritual; ele gera um filho de Deus, adulto e livre. O discípulo recebe o carisma de ser voz do Espírito Santo. Aqui, toda obediência é obediência à vontade do Pai celeste, participando nos atos de Cristo obediente‖ (EVDOKIMOV apud LELOUP, op. cit., p. 111).

Chryssavgis ressalta que sempre há um perigo em idealizar uma direção espiritual, esperando que ela poderá resolver todos os problemas do discípulo. Chryssavgis também aponta para as seguintes características presentes numa relação entre um mestre e um discípulo: honestidade, obediência, silêncio, atenção e amor.

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Os Apophthegmata Patrum (Ditos dos padres) são uma compilação dos aforismos e histórias curtas atribuídas aos padres e madres do deserto. Cf. Benedicta Ward. The Sayings of the Desert Fathers. Kalamazoo: Cistercian Publications, 1975.

Tal relação, de acordo com Leloup, seria uma analogia da relação entre as Pessoas Divinas na Trindade. Para ele, ―obediência, humildade e dom mútuo não são apenas virtudes, mas imitação da vida divina‖ (LELOUP, op. cit., p. 111).

A experiência de um Stárets seria essencial no cuidado daqueles que o elegem como pai espiritual. Evdokimov (1990) ressalta tal importância devido os riscos de dimensão psicossomática que circundam aqueles que procuram praticar o hesicasmo sem a presença de um guia. Além disso, o Stárets transmitiria a sua experiência da oração em vez de transmitir meras especulações sob os diversos graus da união mística.

O Stárets teria uma percepção clara do estado da alma do ser humano decaído que se impregnou a nível ontológico da pior das mazelas psíquicas, que é a desintegração. Para Evdokimov, a prática da oração serviria reintegrar as partes da alma que se separaram devido às diversas preocupações. Para Evdokimov, o homem da época moderna vive num dilema: ―prefere fugir para a ação por não se suportar e sentir-se dentro de si mesmo em condição insuportável‖ (EVDOKIMOV, 1990, p. 165). O Peregrino, no século XIX já constatara isto:

O que acontece é que estamos longe de nós mesmos e não nos interessa aproximarmo-nos, estamos sempre fugindo para não nos encontrarmos face a face com nós mesmos, preferimos ninharias à verdade e pensamos: bem que eu gostaria de ter uma vida espiritual, passar mais tempo orando, mas não tenho tempo, os negócios e os problemas impedem-me de realmente dedicar-me a isso. Mas o que é mais importante e necessário? A vida eterna da alma santificada ou a vida passageira do corpo que tanto nos faz sofrer? Isso pode levar as pessoas à sabedoria ou à estupidez. (ANÔNIMO DO SÉCULO XIX, 2008, p. 113).

In document Health and Social Affairs (sider 103-170)