6. Application case studies
7.3. Summary
Esse item apresenta e discute a idade e a escolaridade de produtores de leite e de seus filhos, relacionando essas duas variáveis com as rendas dos FA e FNA. Idade, escolaridade e renda são relacionadas, em seguida, às características do trabalho e da residência, de maneira a trazer informações sobre as estratégias de reprodução socioeconômica das famílias investigadas.
Dos 32 produtores participantes da pesquisa, 17 eram de Guiricema (oito “perto” e nove “longe”) e 15 de Ubá (quatro “perto” e 11 “longe”). A idade média destes produtores foi de 55,7 anos em Guiricema e 59,4 em Ubá, o que não representa diferença estatística entre municípios ou a procedência “perto” e “longe” das cidades-sede46.
Entre os 105 filhos47 verifica-se que a média de idade dos FA foi de 34,7 anos e dos FNA foi de 32,2 anos. Com relação à idade desses filhos não há diferença entre FA e FNA, entre a procedência de Guiricema e Ubá ou “perto” e “longe”48.
46
Comparação das idades de produtores entre municípios, t(30) = -1,182, p = 0,246 e entre a procedência “perto” e “longe” das cidades-sede municipais, t(30) = -0,871, p = 0,391.
47
Consideram-se aqui não apenas os 49 filhos que responderam os questionários (11 FA e 38 FNA), mas todos os 105 filhos registrados nos 32 questionários dos produtores (Tabela 1).
Analisando apenas a idade dos FNA, verifica-se que não há diferença estatística no grupo de procedência de Guiricema e Ubá ou no grupo de “perto” e “longe” das cidades-sede49. Em função da idade similar deste último grupo, o item 5.7 indicou que o maior tempo de saída (em anos) da casa dos pais pelos FNA de “longe” significa que estes filhos haviam saído da casa dos pais há mais tempo com o objetivo de estudar e trabalhar.
Com respeito à escolaridade dos produtores, não se observa diferença estatística entre a procedência de Guiricema e Ubá ou entre “perto” e “longe”50. Na Tabela 34 percebe-se que a maioria dos produtores (66%) havia estudado até a 4a série do ensino fundamental, no máximo. Este nível de escolaridade pode limitar, por exemplo, a leitura e compreensão de cartilhas ou de textos técnicos mais elaborados pela extensão rural.
Tabela 34. Escolaridade dos produtores, FA e FNA.
Produtor FA FNA
Escolaridade máxima
No % No % No %
Não alfabetizado 3 9,4 0 0,0 0 0,0
Da 1ª a 4ª série do ensino fundamental 18 56,3 4 23,5 16 20,3
Da 5ª a 8ª série do ensino fundamental 8 25,0 8 47,0 9 11,4
Da 1ª a 3ª série do ensino médio 3 9,4 5 29,5 30 38,0
Ensino superior completo ou em andamento 0 0,0 0 0,0 24 30,4
Total 32 100,0 17 100,0 79 100,0
Fonte: Dados dessa pesquisa.
Examinando a escolaridade dos filhos, observa-se que os FNA possuem maior média que os FA e que os procedentes de “longe” possuem maior média que os de “perto”51. No entanto, não há diferença entre a escolaridade dos filhos procedentes de Guiricema e Ubá52. FA possuem maior escolaridade que os pais
48
Comparação entre idades dos FA e FNA, t(105) = 1,166, p = 0,246; entre filhos procedentes de Guiricema e de Ubá, t(105) = -1,072, p = 0,286; entre filhos procedentes de “perto” e “longe” das cidades-sede, p(107) = 0,044, p = 0,965.
49
Comparação entre idades somente entre os FNA: entre Guiricema e Ubá t(77) = -1,720, p = 0,089 e entre “perto” e “longe” das cidades-sede t(77) = -0,873, p = 0,385.
50
Comparação da escolaridade dos produtores entre Guiricema e Ubá, t(30) = 1,953, p = 0,060, e entre produtores “perto” e “longe”, t(30) = -0,570; p = 0,955.
51
Comparação de escolaridade dos filhos: entre FA e FNA, t(105) = -4,290, p < 0,001, e entre filhos (FA e FNA) procedentes de “longe” e “perto”, t(105) = -4,221; p < 0,001.
52
produtores, assim como os FNA são superiores aos produtores53. Analisando dentro apenas do grupo dos FNA, a escolaridade é maior entre aqueles procedentes de “longe” que aqueles residentes “perto” das cidades-sede de Guiricema e Ubá54.
Os FNA procedentes de propriedades “longe” da cidade-sede são impulsionados a alcançar maior escolaridade segundo uma estratégia formulada e estimulada na família (subitem 5.8) como alternativa ao ‘isolamento’ (subitem 6.2), à precariedade de infraestrutura (subitem 6.4) e às escassas oportunidades de trabalho destes locais distantes (subitem 6.2). Apesar de FNA de “perto” e de “longe” possuírem a mesma idade, aqueles de “longe” saem da casa dos pais mais cedo, fixam residência em locais mais distantes da propriedade dos pais (na cidade-sede ou em ‘outra cidade’) e alcançam maior escolaridade (subitem 5.7). Apesar de a escolaridade não ter promovido a maior renda, a educação dá acesso a maior número de trabalhos, segundo depoimento de filhos (subitem 5.7). Neste sentido, a ‘desvantagem’ entre produtores de origem “longe” da cidade-sede, em relação àqueles procedentes de “perto”, parece ter se revertido em uma vantagem na geração seguinte – de seus filhos – em função das estratégias familiares utilizadas.
Para conhecer se a escolaridade afeta a renda dos filhos de produtores de leite, verifica-se que há correlação entre escolaridade e renda para o grupo de todos os filhos (FA e FNA), mas não há essa correlação dentro apenas do grupo dos FNA55. Ou seja, a escolaridade é fator que provoca aumento de renda quando se analisam todos os filhos (FA e FNA). No entanto, quando se analisa apenas dentro dos FNA, a escolaridade não interfere no aumento da renda.
Uma análise mais detalhada a respeito da relação entre escolaridade e renda mostra que no caso de todos os filhos (FA e FNA) há diferença estatística – a escolaridade afeta a renda – em três casos (quarta coluna da Tabela 35): i) entre a categoria de 1a a 4a série e a de ensino superior; ii) entre a de 5a a 8a série e a de ensino médio, e; iii) entre a de 5a a 8a série e a de ensino superior56. Nas demais
53
Comparação da escolaridade do produtor com o FA, t(58) = 2,365, p = 0,021, e do produtor com o FNA, t(109) = 6,768, p < 0,001.
54
Comparação da escolaridade no grupo dos FNA residentes “longe” daqueles residentes “perto”: t(77) = -4,168, p < 0,001.
55
Correlação entre escolaridade e renda para o grupo de todos os filhos, r = 0,243, p = 0,012, e apenas dentro do grupo dos FNA, r = 0,133, p = 0,243.
56
Comparação entre rendas em função da escolaridade: i) entre 1a a 4a série e ensino superior, t(49) = -2,511, p = 0,015; ii) entre 5a a 8a série e ensino médio, t(54) = -2,155, p = 0,036; iii) entre a de 5a a 8a série e ensino superior, t(42) = -3,171, p = 0,003.
comparações nesse grupo não há diferença estatística entre as rendas. Quando se comparam as rendas em função da escolaridade apenas entre os FNA (terceira coluna da Tabela 35), não se percebe diferença estatística entre as categorias de escolaridade. Ou seja, entre os FNA a escolaridade não é suficiente para imprimir maior renda, corroborando o que foi ilustrado pela Figura 23 do subitem 5.7. Entre os FA (segunda coluna da Tabela 35) não há diferença estatística entre as rendas em função da escolaridade.
Quando se comparam as rendas dos FA com as rendas dos FNA em função da escolaridade (Tabela 35), identifica-se diferença estatística significativa nas rendas daqueles com escolaridade entre 1a e 4a série, assim como daqueles com escolaridade entre 5a e 8a série do ensino fundamental. No entanto, não há diferença estatística entre filhos agrícolas e filhos não-agrícolas com escolaridade entre 1a e 3a série do ensino médio57.
Tabela 35. Renda mensal dos filhos em função da escolaridade.
Escolaridade FA (R$) FNA (R$) FA e FNA (R$) Entre 1a e 4a série do ensino fundamental 326,31 880,21 668,21 Entre 5a e 8a série do ensino fundamental 204,55 837,04 449,44 Entre 1a e 3a série do ensino médio 417,13 1.207,67 1.037,95 Ensino superior completo ou em andamento --- 1.126,94 1.126,94
Observação: Valores médios de rendas excluídos os dados extremos (outliers) entre os 107 filhos de produtores. Fonte: Dados dessa pesquisa.
Conclusões do subitem
Os resultados aqui apresentados permitem fazer algumas inferências. Os FA apresentam escolaridade maior que os pais, o que deve facilitar o uso de métodos mais elaborados de extensão rural nos processos de intervenção, assim como a proposição de tecnologias agropecuárias mais complexas.
A segunda inferência se dá pela evidência de maior escolaridade dos FNA em comparação aos FA. Estes dados sugerem que o trabalho não-agrícola (geralmente localizado nas cidades) exige maior escolaridade. Se por um lado a maior escolaridade é fator que facilita a obtenção de trabalho não-agrícola pelos FNA, de forma inversa, a baixa escolaridade dos FA limita as possibilidades de mudanças na
57
Comparação de rendas entre FA e FNA para a escolaridade 1ª a 4ª série, Z(25) = -3,015, p = 0,003; para 5ª a 8ª série, Z(18) = -2,978, p = 0,003; para a escolaridade 1ª a 3ª série do
carreira pelo exercício de ofício não-agrícola, e a chance de alcançar maior renda (não-agrícola).
Como em Guiricema não há faculdades (ao contrário de Ubá, onde há três), a busca por escolarização de nível superior implica na mudança de residência, opção que constitui obstáculo para famílias com menores rendas. As vagas de trabalho para os maiores níveis de escolaridade sendo pouco numerosas e de baixa remuneração em Guiricema (subitem 6.2), os FNA que saem para obter maior escolaridade não mais retornam para trabalhar no município. A escolha dos FNA pela residência distante os afasta da família, da chance de reforçar periodicamente suas identidades agrícolas e de construir projetos ligados à continuidade da produção agropecuária.
E para tentar melhor entender algumas lógicas que definem o percurso destes filhos de produtores de leite, o tópico seguinte apresenta certos componentes considerados por eles como importantes para tomar suas decisões com relação ao trabalho e ao local de residência.