É neste ponto que a retórica identitária destilada na revista da Casa de Goa se distancia da concepção oitocentista de «cultura», portada pela Ciência do Folklore (essencializante, enraízada nas Origens, imutável, museologizável, ritualizável, e destilada numa essência objectivável, neste caso a «Goanidade» que poderá, num círculo vicioso, ser a posteriori, folclorizável e industrializada turisticamente, dando
origem à (re)invenção da Tradição (Hobsbawn e Ranger, 1983). Aproxima-se então das concepções mais próximas da actualidade, todas elas configuradas depois da Segunda Guerra Mundial, numa altura em que o mundo descolonizado (em grande parte) processou dois fluxos contraditórios: por um lado, a globalização capitalista e liberal das periferias do sistema-mundo e, por outro lado, a colonização reversa da Europa e suas extensões civilizacionais pelos seus ex-colonizados africanos, asiáticos e sul- americanos bem como o reaparecimento na cena histórica do «Nativismo» e dos
«Nativos» que o período anterior dera por exterminados ou museologizados em reservas
folclóricas.
Nesta «viragem subjectivista» que dá o primado aos processos identitários, à sua articulação com as emoções identitárias (a vergonha e a honra, ou respeito mútuo, o ressentimento e a reconciliação, a admiração e a competição identitária, etc.) ao trabalho da memória e da imaginação, começa a ser claro, com que as Nações não são entes materiais mas «comunidades imaginadas» (Anderson, 1983), uma perspectiva que nos afasta da sociologia e do direito e pede novos instrumentos, vindos da psicanálise, da psicologia social e da antropologia da etnicidade e dos processos identitários.
Com Tajfel (1981), é focalizado que as identidades colectivas se fundam no processo cognitivo-emocional de categorização (Allport, 1954), dando origem a categorias (políticas, étnicas, mas também religiosas, regionais, intergeracionais e de género, positivadas e negativizadas) mobilizadas em processos de «comparação» (e, portanto, de competição identitária), para produzir a imagem de «identidades positivas» a favor do grupo enunciativo (teoria C-I-C). São deste modo retomadas questões por um tempo «apagadas», como a percepção que as identidades colectivas são sustentadas por processos (o nacionalismo, a etnicidade) que os racionalistas sentem como «vexatórios» (Weber, 1922), como o «etnocentrismo» (Sumner, 1906) e o «egocentrismo» que conduz ao «narcisismo das pequenas diferenças», subjacente à rivalidade entre grupos nacionais ou étnicos (Freud, 1930), processos predominantemente «emocionais», o que conduz a uma transformação da sociologia clássica na direcção da assumpção integrativa que «as emoções constituem as dimensões psicológicas das relações sociais assim como as relações são os aspectos sociais das emoções.” (Scheff, "Emotions and Identity: a theory of interethnic relation", in C. Calhoun, Social Theory and the Politics of Identity, 1996: 298), fundamento epistemológico do estudo das «representações sociais» (Moscovici, 1989) e das «estratégias identitárias» mobilizadas pelas minorias étnicas em contextos migratórios (Camilleri et all., 1990).
Na antropologia da etnicidade é Barth (1969, 1998) que vem formalizar estes processos imateriais que articulam os actores sociais com os seus grupos de pertença, contestando a visão sócio-antropológica clássica que «o mundo pode ser descrito de modo útil como uma série de entidades chamadas sociedades», em que cada destas entidades deveria ser analisada a partir de um paradigma estrutural-funcional para evidenciar a sua ordem sistemática e integração funcional» (1998: 5), de um modo que conduz à produção de reificações retóricas presentes na discursividade popular com que as pessoas interpretam a sua experiência bem como na retórica política dos activistas étnicos. A ruptura de Barth tem a ver com a passagem de concepções estáticas (atomísticas, organicistas e mecanicistas, formalizantes, isto é, «descritivas de formas manifestas», essencializantes) para concepções dinâmicas, baseadas na detecção dos «processos pelos quais grupos étnicos são formados e tornados relevantes na vida social». A ruptura com a antropologia estruturo-funcionalista e museológica é radical, na sua proposição de uma «concepção pós-moderna da cultura»:
To do so, we were looking for something like mechanisms, not for descriptions of manifest forms. We were trying to see social organization as emergent and contested, culture as something characterized by variation and flux, and to think of cases of relative stability in ethnic and other social relations as being a much in need of explanation as cases of change. (Barth, 1998: 5)
O projecto de Barth é claro. Trata-se de enfatizar que:
- "a etnicidade é uma questão de organização social, acima e para além de questões de diferenças culturais empíricas: trata-se da «organização social da diferença cultural»
- a identidade étnica é uma questão de auto-adscrição e de adscrição feita por outros e
não um constructo do analista baseada na sua construção da «cultura» grupal
- que as características culturais mais relevantes são as que estão conectadas com as fronteiras: os elementos diacríticos pelos quais os membros são sinalizados e os padrões culturais que os próprios actores usam para avaliar e julgar as acções dos seus co- membros étnicos, implicando que estes se vêem a si próprios como «jogando o mesmo jogo»." (idem: 6; t. n)
No terreno, há que prestar atenção:
- «não ao «recheio cultural», (...) mas aos materiais culturais que os próprios actores posicionam para construirem as suas identidades e acções e não aos materiais culturais seleccionados pelo analista para caracterizar diferenças culturais que possam persistir entre duas populações;
- em «contextos de conflito étnico há que focalizar o nível meta-étnico, questionando como é que os conflictos podem ser manipulados para reforçar posições de liderança, não apenas as questões culturais substantivamente referenciadas no discurso;
- ao analizar o activismo político, optamos por perpectivar esses grupos como envolvidos numa luta social orientada pra mudanças significtivas e não para a revitalização de uma herança inalterada de traços culturais originários.(idem: 6-7)
Enquanto que Barth enfatiza os processos de «dicotomização sistemática» entre
grupal, bem como a entrada de estrangeiros e a saída pragmática de indivíduos e famílias, como acontece na emigração que origina as «diásporas de esperança», bem como as «diásporas de terror» (Appadurai, 1998), Erikon enfatizara, a partir da psicossociologia psicanalítica, a importância dos processos de reconhecimento mútuo
intergeracional, entre as gerações mais velhas e os adolescentes, sem os quais se
formam identidades negativas em membros não-reconhecidos (Erikson, 1968), e Roosens (1994) complexificará os debates entre essencialistas e constructivistas salientando, para complementar Barth, que a identidade tem duas raízes, uma virada para fora, para dicotomização sistemática com grupos visinhos ou rivais e uma outra genealógica, vinda de dentro, apoiada nas redes familiares e na sucessão das gerações.
Em Portugal, Bastos (2001, 2009), promovendo uma antropologia post-estruturo- funcionalista, estrutural-dinâmica, tem vindo a salientar que a «identidade», um processo simultâneamente instável nos indivíduos e estabilizador na construção de identidades colectivas, através dos processos de dicotomização sistemática que conduzem á formação das fronteiras identitárias, pode ser melhor definida, tanto nos indivíduos como nos grupos, como «o processo, e o seu resultado acumulado, de luta pela vida, orientado para o futuro», isto é, para a sobrevivência, a competição e a auto- realização promotora da auto-estima. O que faz com que os interesses dos indivíduos só parcialmente convirjam com os de outros indivíduos e com os interesses do seu grupo de pertença,10 segmentados pela organização interna de diversas sub-identidades em competição. E que o interesse do grupo de pertença seja perspectivado de forma diferente em função de experiências de vida diferentes, o que dá origem a organizações identitárias segmentárias e a «debates identitários» externos (Bastos e Bastos, 2001, 2005, 2007) e internos, como no caso vertente, orientados para a auto-confirmação, para o estabelecimento de alianças identitárias diversificadas e para a afirmação de uma superioridade imaginária, isto é, identitária.
10 Bastos (1996, 2000, 2002) demonstrou a existência de uma percentagem variável de indivíduos desidentificados com a sua identidade nacional atribuída juridicamente. No caso português, cerca de 10% dos 1.043 entrevistados, constituindo um amostra sociológica representativa. No entanto, a emigração e a competição identitária em contextos inter-étnicos parecem reforçar discursos «patrióticos» eminentemente 'luso-tropicalistas', na medida em que insistem na grande diferença entre valores e tipos de carácter dos norte-europeus (ingleses) e dos portugueses, colectivamente considerados (Bastos e Bastos, 2001, 2005, 2007).