A primeira intervenção efectuada no espaço da Praça da Figueira teve lugar no ano de 1957, na área do subsolo do estabelecimento comercial Irmãos Unidos, onde Irisalva Moita realizou um registo fotográfico de uma parte conservada da escadaria da Igreja do Hospital Real de Todos-Os-Santos. (MOITA, 1993).
Uma segunda intervenção arqueológica ocorreu entre 22 e 24 de Agosto de 1960, igualmente por parte de Irisalva Moita, que realizou a que é considerada a primeira escavação de carácter preventivo na cidade de Lisboa, onde exumou uma área correspondente a parte da estrutura do Hospital, assim como parte do antigo Convento de São Domingos e a antiga capela da Nossa Senhora do Amparo, que estavam sob ameaça de destruição com a construção do primeiro troço da rede de Metropolitano da cidade de Lisboa (MOITA, 1964-66, 1993, 1994 apud SILVA, 2005, p.7).
Em 18 de Abril de 1961, foram recolhidos artefactos de três sepulturas de incineração romanas, na Praça da Figueira, durante a obra do Metropolitano, analisados por Irisalva Moita, que foi chamada ao local. Após este achado, outras sepulturas foram surgindo na Praça da Figueira, ao longo do ano de 1961. Só após a recolha destes
materiais é que surge a hipótese de uma intervenção sistemática, o que veio a acontecer em Fevereiro de 1962. .
No total, da sua actividade de peritagem e intervenção na Praça da Figueira, Moita referenciou vinte e cinco sepulturas e um conjunto de estruturas que interpretou como associadas. (MOITA, 1968, pl.III apud SILVA, 2005, p.7).
A interpretação dos resultados obtidos durante todo este processo de intervenção por parte de Irisalva Moita encontram-se muito desarticuladas, não se tendo a noção do espaço da necrópole romana, devido ás condicionantes apresentadas ao longo de todo o processo.
A 11 de Fevereiro de 1962, dá-se início ao processo de escavação por parte de Bandeira Ferreira, após Irisalva Moita ter saído do espaço da necrópole. A área intervencionada foi muito limitada, devido à afectação feita pela obra do Metropolitano. Apenas foi escavada uma zona que corresponde a um trecho do terço central da Praça da Figueira, onde se iria implantar a estação do Metropolitano do Rossio. Nessa área, Ferreira identificou um troço de via romana, que não tinha sido detectada por Irisalva Moita.
Em 1970, durante a colocação da estátua equestre de D. João I, no centro da Praça da Figueira, Irisalva Moita voltou à Praça da Figueira, onde efectuou a recolha de elementos epigráficos e arquitectónicos da estrutura do Hospital Real (SILVA, 2005, p.8).
6.2. A campanha de 1999/2001
Foi apenas no final da década de 90 que a Praça da Figueira voltou a ser intervencionada arqueologicamente, e mais uma vez com um carácter preventivo. Foi o resultado de um programa camarário, para a reabilitação e requalificação daquele local e do espaço envolvente, incluindo a construção de parque de estacionamento subterrâneo (SILVA, 2005, p.14).
Apesar do Museu da Cidade ter ficado encarregue da nova intervenção preventiva do espaço, já tinha sido definida pela Câmara Municipal de Lisboa e pelo Instituto Português de Arqueologia (I.P.A.) a construção do parque de estacionamento, independentemente do património arqueológico que surgisse no subsolo da Praça. Deu- se privilegio ao princípio da preservação pelo registo ulteriormente consagrado na Lei de Bases do Património Cultural (Dec.Lei 107/2001).(SILVA, 2005, p.14).
A intervenção arqueológica foi executada em três fases distintas, com períodos temporais diferentes e metodologias adaptadas a cada uma das fases de trabalho:
Numa primeira fase, foi efectuada uma peritagem durante a obra, entre Fevereiro e Junho de 1999, onde se efectuaram sondagens geotécnicas; a segunda fase consistiu no acompanhamento da construção da estrutura primária de contenção, entre Setembro e Dezembro de 1999; a terceira fase, caracterizou-se pela escavação arqueológica em si, da área a ser afectada, e ocorreu entre Dezembro de 1999 e Março de 2001;
Devido ao facto de todo o trabalho da equipa de arqueologia ser realizado em simultâneo com a evolução da obra apenas a área do Hospital Real de Todos-Os-Santos foi estudada de forma mais aprofundada, enquanto que os momentos anteriores ficaram aquém dos resultados pretendidos, nomeadamente o período romano.
6.3. A importância da Praça da Figueira no contexto urbanístico da cidade romana de Olisipo
Mesmo após a intervenção executada em 1999-2001, não se tem conhecimento de toda a extensão da necrópole Noroeste de Olisipo. Conseguiu-se concluir que o limite a Sul vai para além da Praça da Figueira, pois foram encontradas estruturas funerárias até ao limite da Praça. Mas para Norte, o limite parece ser demonstrado por achados efectuados no Largo de São Domingos (SILVA, 2005, p.31). Desenvolvia-se ao longo da Via Norte, confirmada pela presença de sepulturas atribuídas aos séculos I e II descobertos na Encosta de Sant’Ana, associadas a uma via fóssil romana (MURALHA et al. 2002 apud SILVA, 2005, p.31).
A necrópole parece apresentar uma hierarquização de acordo com a proximidade ou não da Via Norte (SILVA, 2005, p.32). Estas diferenças são demonstradas pelas tipologias das estruturas exumadas, e analisando as presentes na Praça da Figueira e na Encosta de Sant’Ana. No caso do subsolo da Praça da Figueira, surgiram um conjunto de estruturas monumentalizadas dos séculos I e II, erguidas em alvenaria e argamassa, no caso da Encosta de Sant’Ana, existem poucas estruturas construtivas associadas aos sepultamentos (idem, p.32), e as que surgem, são edificadas em pedra seca com um ligante argiloso. Estas diferenças mostram assim uma distinção hierárquica associada ao investimento aplicado nas construções funerárias.
A articulação dos dados de todas as intervenções realizadas neste espaço, foi elaborada por Rodrigo Banha da Silva, arqueólogo do Museu da Cidade, que dirigiu a
intervenção de 1999/2001 na sua dissertação de Mestrado (SILVA, 2005). Teve como base os elementos mais seguros fornecidos pela intervenção de 1961/62, nomeadamente achados documentados e bem descritos e registo gráficos mais coerentes e os dados que recolheu juntamente com a equipa que participou na intervenção de 1999/2001.
Optámos por apresentar apenas as interpretações propostas para as diferentes fases cronológicas identificadas para o período de ocupação romana do espaço da Praça da Figueira, mais relevantes para a temática desta dissertação, deixando de fora as fases correspondentes às ocupações posteriores, nomeadamente o período medieval islâmico e o Hospital Real de Todos-Os-Santos.
Sendo assim, analisando a dinâmica estratigráfica, os materiais recolhidos e as estruturas exumadas, Banha da Silva definiu um conjunto de cinco momentos que será seguidamente apresentado de forma cronológica, da mais ancestral até ao momento final de abandono:
Fase I – Evidências de Época romana anteriores à instalação do primeiro urbanismo alto-imperial (Fig.8).
A este momento correspondem níveis deposicionais com uma cronologia apresentada que é indicada por alguns fragmentos com uma diacronia abrangente, que se inicia na Idade do Bronze Final passando pela Idade do Ferro, mas incluindo igualmente já, alguns escassos fragmentos de cerâmica campaniense A, com uma datação pertencente ao século II a.C. ou segundo terço do século I a.C.
Fase II - Evidências correspondentes à instalação do primeiro urbanismo alto-