C.7 Cardboard Estimation
C.7.1 Product Type: Oboy, Experiment: Picking from Distribution
“Cansada de tudo que começa. Hoje eu queria alguma coisa que continuasse.”
Tati Bernardi
Na discussão acima, já foi adiantado que há certa congruência em dizer que o ideal de relacionamento dos entrevistados apresenta características mais tradicionais. Pode-se chegar a essa conclusão ao se pensar que ele é diretamente proporcional à visão negativa atribuída aos relacionamentos amorosos que acontecem na prática. Pois, se eu declaro que não estou satisfeito com determinado comportamento, é provável que o comportamento contrário seja para mim um modo mais compatível com meus ideais e desejos.
Neste sentido, surgiu a necessidade de entender como essas expectativas são elaboradas e demonstradas pelos atores sociais desta pesquisa. A partir desta ideia, deu- se a tentativa de responder como se configuram as expectativas amorosas dos usuários do Badoo através de três perguntas-problema: 1) O que as pessoas estão à procura na Rede Social Badoo? 2) O que as pessoas encontram na Rede Social Badoo? 3) A flecha do consumo perpassa as relações na Rede Social Badoo? Dado isto, os próximos subtópicos, deter-se-ão a estas preocupações.
2.1) As expectativas: o que se procura no Badoo?
Com o objetivo de obter tal resposta elaborou-se a seguinte questão: “Quais são
as suas expectativas no Badoo? Como seria o relacionamento perfeito para você?” foi
proposta aos entrevistados para que houvesse a possibilidade de associação entre a visão que as pessoas têm sobre os relacionamentos contemporâneos, explicitada acima, com o que elas dizem ter como modelo ideal de relacionamento para si.
58 De acordo com Bauman (2004), a racionalidade moderna recomenda os mantos leves e condena as caixas de aço e por causa disto os compromissos duradouros seriam enxergados atualmente como opressores, não teriam necessidade ou usos justificáveis pela líquida racionalidade moderna e seus consumidores. Tal afirmação exerce uma função que possui bastante sentido quando se trata de uma análise mais abrangente e contextualizada do problema. Porém, necessita fazer-se mais clara quando se trata de uma análise mais pontual, visto que, os relacionamentos duradouros ainda aparecem como referência e intuito principais nos pronunciamentos individuais.
Nos trechos de entrevistas a seguir, demonstra-se claramente o desejo por encontrar a “relação especial”. Eloize, por exemplo, enuncia com todas as letras: “Não
procuro aventuras”; o outro entrevistado também afirma estar à procura de um
relacionamento sério, mesmo que o próprio admita que na prática isso não se consolide tão facilmente, e, por consequência, as relações casuais prevaleçam muito mais. Segue os depoimentos em reposta à pergunta já enunciada acima:
Eloize — Conhecer uma pessoa bacana... com papo legal...de respeito
e com boas intenções, se vai rolar um namoro ou algo mais vai depender dos dois, da química, da atração e etc. Não procuro aventuras. 39
Roberto— O que mais procuro seria relacionamento sério, mas nunca
da certo porque as vezes as características não se combinam, acaba ficando só como amigos ou ficando por algum tempo. 40
Giddens (1993) explica que atualmente os ideais de amor romântico tendem a se fragmentar diante da pressão de fatores como a emancipação e a autonomia sexual feminina. O conflito entre amor romântico e relacionamento puro seria resultado de uma crescente reflexividade institucional, pois o amor romântico depende da identificação projetiva. A projeção criaria uma sensação de totalidade com o outro, intensificada pelas diferenças entre masculinidade e feminilidade, definidos em termos de uma antítese. Já o amor confluente é um amor ativo, contingente, e por isso entra em choque com as categorias “para sempre” e “único” da ideia de amor romântico. O amor confluente se afasta da busca da “pessoa especial” e o que mais conta é o “relacionamento especial”. O amor confluente presume igualdade na doação e no recebimento emocional, nesse
39 Entrevista realizada no Badoo em 28 nov. 2013. 40 Entrevista realizada no Badoo em 13 ago. 2013.
59 sentido se aproxima muito mais do protótipo do relacionamento puro. Giddens (1993) esclarece sobre o relacionamento puro:
Diferentemente do amor romântico, o amor confluente não é necessariamente no sentido de exclusividade sexual. O que mantém o relacionamento puro é a aceitação, por parte de cada um dos parceiros, ‘até segunda ordem’, de que cada um obtenha da relação benefício suficiente que justifique a continuidade. A exclusividade sexual tem um papel no relacionamento até o ponto em que os parceiros a considerem desejável ou essencial. (Giddens, 1993, p.74).
No entanto, no relacionamento puro também existe uma contradição estrutural centralizada no compromisso. Para criar um compromisso e desenvolver uma história compartilhada, uma pessoa deve dar algum tipo de garantia à outra de que o relacionamento pode ser mantido por período indeterminado, seja por meio de palavras e/ou atos. A contradição se dá porque essa promessa não pode ser assumida como certa, atualmente o casamento para a vida toda não aparece mais como “condição natural”. A característica do relacionamento, que nos interessa, é que ele pode ser terminado a qualquer momento, de acordo com a vontade de qualquer um dos parceiros. A contradição está presente porque para um relacionamento ter a probabilidade de vir a durar é preciso que haja compromisso, mas isto também significa se colocar em risco de sofrer, no caso do relacionamento vir a se dissolver. (Giddens, 1993).
Diante destas afirmações pode-se dizer que Bauman (2004) também enuncia que há um mistério tanto no sentimento de insegurança que a fragilidade dos laços humanos inspira, quanto nos desejos conflitantes resultantes deste sentimento. Em resumo, estar comprometido supõe demandas e riscos e por isso tenta-se resolver a contradição de desejar infinitamente o que se pressupõe a ser finito. No caso do Badoo, isto aparece quando as pessoas dizem estar à procura de relações duradouras, ainda que na prática isto não se concretize.
Em uma tentativa de evidenciar as expectativas apresentadas e o modo como os entrevistados anseiam por ligações, segue trechos de depoimentos recolhidos no Badoo sobre o tipo de relacionamento ideal para cada um dos entrevistados:
Jéssica — Ideal, ou melhor perfeito... assim, seria uma relação sem
mentiras, isso é difícil, mas acho que a principio é importante que a verdade sempre seja dita na relação. qual tipo de relação mais se
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encaixa no meu perfil, essa pergunta confesso que não sei te responder. 41
Mikaela — Não sei dizer ao certo que tipo de relação gosto de viver,
me dou muito e gosto que a pessoa também se doe para mim. Já percebi também que aquela coisa de “os opostos se atrai” comigo não dá certo. 42
Samara — O relacionamento ideal seria com um cara legal q curtisse
a vida tanto quanto eu com mesmos valores se eh q você me entende educação... cultura.. princípios. Mas... procuro amizades mesmo não espero muito não... vejo quem eh interessante e se tiver um bom papo add43 no Whatsapp. 4445
Nataly — Olha, sinceramente, eu já estive aqui à procura de alguém
legal pra ter coisas sérias. Já tive até! Dois relacionamentos que foi muito bom enquanto durou. Criei várias amizades, não apenas com homens, mas mulheres também. 46
Alice — Por enquanto só quero conhecer gente nova. O ideal seria um
relacionamento calmo, com companheirismo amizade e etc.47
Nas declarações acima, pode-se ver que o modelo de relacionamento que as pessoas asseveram estar em busca não se configura como o de relações fluidas, mas sim, o de relações sólidas no sentido atribuído por Bauman (2004). Diante deste dado surge então a dúvida: se o autor atesta que os relacionamentos contemporâneos são líquidos, por que as pessoas ainda afirmam desejar relacionamentos sólidos? Em resposta Bauman (2004) articula que os habitantes do líquido mundo moderno estão preocupados com uma coisa e falando de outra. De acordo com este ponto de vista o autor questiona,
Eles garantem que seu desejo, paixão, objetivo ou sonho é “relacionar- se”. Mas será que na verdade não estão apenas preocupados principalmente em evitar que suas relações acabem congeladas ou coaguladas? Estão mesmo procurando relacionamentos duradouros, como dizem, ou seu maior desejo é que eles sejam leves e frouxos, de tal modo que, (...) possam “ser postos de lado a qualquer momento?” (Bauman, 2004, p.11).
41 Entrevista realizada no Badoo em 05 ago. 2013. 42 Entrevista realizada no Badoo em 15 ago. 2013. 43 Linguagem de internet: add = adicionar. 44 Entrevista realizada no Badoo em 13 nov. 2013.
45 Whatsapp é um aplicativo de mensagens para smartphones. 46 Entrevista realizada no Badoo em 13 nov. 2013.
61 Bauman (2004) ainda questiona se as pessoas querem ser aconselhadas sobre como estabelecer relacionamentos ou sobre como rompê-los sem dor e com a consciência limpa? O autor admite não existir uma resposta fácil para essa pergunta e que ela continuará sendo feita à medida que as pessoas do líquido mundo moderno continuarem sofrendo com o peso esmagador da mais ambivalente das tarefas do dia a dia, a de se relacionar.
Na entrevista a seguir, Elisângela resume as expectativas que os indivíduos atribuem a si mesmo, nesta pesquisa, ao dizer que as estas não mudaram, caso isso tivesse acontecido o site não teria tanta audiência e atribui essa mudança, então, às formas de procurar e de se relacionar com outros.
Elisângela — O relacionamento é o mesmo. Todos, no fundo,
procuram "sua cara metade", as possibilidades de encontrar é que mudaram, ou melhor, as formas de procurar mudaram. 48
Pesquisadora – As expectativas mudaram?
Elisângela — Não, se tivesse mudado mesmo, esse site não teria tanto
público, no fundo todos querem achar alguém especial... eu sinto sim um conflito de gerações, onde o sexo é um ponto de partida não uma consequência.
Isto apresenta algum sentido, pois de acordo com a pesquisa, o Badoo está cheio de pessoas em busca de ligar-se ou de estabelecer uma conexão com outra, sempre na tentativa de encontrar alguém que faça correspondência às suas expectativas de relacionamento. Contudo, surge uma reflexão importante: se todos alegam procurar um relacionamento duradouro ao mesmo tempo em que dizem não encontrar quem queira a mesma coisa, então seria possível assegurar que há uma lacuna entre a expectativa e a prática nas relações desenvolvidas no Badoo. Para Bauman (2004), talvez a noção de “relacionamento” 49 colabore para essa confusão de entendimento. O autor explica que apesar das tentativas de busca por relações apresentarem firmeza,
Essa noção resiste a ser plena e verdadeiramente purgada de suas conotações perturbadoras e preocupantes, pois permanece cheia de ameaças vagas e premonições sombrias; fala ao mesmo tempo dos prazeres do convívio e dos horrores da clausura. Talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experiências e expectativas utilizando
48 Entrevista realizada no Badoo em 29 nov. 2013. 49 Grifo do autor.
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termos como ‘relacionar-se’ e ‘relacionamentos’, as pessoas falem cada vez mais (...) em conexões, ou ‘conectar-se’ e ser ‘conectado’. Em vez de parceiros preferem falar em ‘redes’. (Bauman, 2004, p.12).
Quando Elisângela diz acima que “as possibilidades de encontrar é que
mudaram, ou melhor, as formas de procurar mudaram” e remete a isto a grande
audiência do Badoo, a entrevistada está destacando o papel desempenhado pela rede nas relações contemporâneas. Portanto, pode-se afirmar que à conectividade são atribuídos méritos que estão ausentes nos relacionamentos. Bauman (2004) explicita,
Diferentemente de ‘relações’, ‘ parentescos’, ‘parcerias’ e noções similares – que ressaltam o engajamento mútuo ao mesmo tempo em que silenciosamente excluem ou omitem o seu oposto, a falta de compromisso –, uma ‘rede’ serve de matriz tanto para conectar quanto para desconectar; não é possível imaginá-la sem as duas possibilidades. Na rede, elas são igualmente legítimas, gozam do mesmo status e têm importância idêntica. (Bauman, 2004, p.12).
O autor continua o raciocínio esclarecendo que a palavra “rede” sugere momentos nos quais “se está em contato” intercalados por períodos de movimentação a esmo. Na rede as conexões são estabelecidas e cortadas por escolha. Ao associar esta perspectiva à anterior, poder-se-ia afirmar que as relações desenvolvidas no Badoo têm, de fato, características líquidas, nos termos defendidos por Bauman (2004).
Neste sentido, também haveria coerência ao asseverar que esta “liquidez” prevalece muito mais no instante do acontecimento, no momento que as relações se desencadeiam na prática. O que não significa dizer que os atores sociais concordem, procurem ou intentem por esses modelos de caso pensado e/ou refletido anteriormente.
As práticas das relações casuais têm características fluidas, consequência de um cenário líquido social mais abrangente. Cenário este que não é ditatorial e que permite a coexistência entre líquidos e sólidos. Por isto, entende-se que as expectativas por relações duradouras acontecem de forma legítima, ainda que não sejam combinadas com tais práticas. A contradição está presente e não se resolve. É uma constante.
Para Bauman (2004), esse fenômeno seria gerado por meio de uma desconfiança sobre a condição de “estar ligado” 50, particularmente, de “estar ligado” 51 em estado
50 Grifo do autor.
63 permanente, para não dizer eternamente. Pois, o que se teme é que tal condição possa trazer encargos e tensões as quais não se estaria apto ou disposto a suportar, o que também limitaria a liberdade necessitada para relacionar-se. Tal afirmação parece ser contraditória à primeira vista, mas é exatamente nisto que se encontra a chave de entendimento da questão, pois essa contradição está no cerne das expectativas amorosas contemporâneas. No sentido de que o receio de manter relações duradouras advém do receio de não possuir liberdade suficiente para manter relações.
É desta contradição, intrínseca ao cenário líquido da modernidade, que se pressupõe vir à ideia de que “o próximo amor será uma experiência ainda mais estimulante do que estamos vivendo atualmente, embora não tão emocionante ou excitante quanto a que virá depois.” (Bauman, 2004, p.19). Ideia esta que está presente na Rede Social analisada, como se explica a seguir.
A prova empírica que a ideia da rotatividade, apresentada na citação acima, está presente no Badoo pode ser demonstrada através da ferramenta denominada Encontros. Como já mencionado anteriormente, esta sessão permite escolher as pessoas as quais se gostaria de conhecer. Diante das muitas opções possíveis, é necessário apenas responder
sim, não ou talvez. Neste ponto, a liquidez explicitada por Bauman (2004) aparece de
maneira bastante clara na Rede Social; esta ferramenta também aparece como exemplo prático da discrepância existente entre a expectativa e a prática nos relacionamentos do Badoo.
Em resumo, isto gera duas possíveis conclusões sobre a visão e expectativa dos entrevistados. A primeira é a admissão de que os relacionamentos amorosos atuais apresentam problemas para iniciar-se e manter-se, mas que isto não é considerado algo positivo. E a segunda é que ainda existe uma clara expectativa por se constituir relacionamentos sólidos e duradouros.
No entanto, a prática apresenta outra perspectiva, visto que as ações desencadeadas dentro da Rede Social Badoo são claramente remetidas ao modelo de relacionamento entendido aqui como líquido. É possível afirmar que há expectativa para os relacionamentos duradouros, mas não há ações práticas que levem a eles.
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2.2) As expectativas: o que se encontra no Badoo?
Como dito, repetidas vezes, a reflexão sobre este fenômeno sugere pensar que o mais provável é que esteja havendo uma discrepância generalizada entre o modo como os atores sociais pensam e o modo como agem em suas relações afetivas, causada pelo cenário de liquidez no qual estão inseridos. A seguir nos debruçaremos sobre o que os entrevistados alegam encontrar em suas tentativas de conhecer alguém especial no Badoo, desse modo, o assunto agora gira em torno de quais as expectativas dos outros na Rede Social em questão.
A partir desta fase, a pesquisa começará a demonstrar o porquê dos relacionamentos duradouros não serem mais tão fáceis e comuns, dado que já se demonstrou que ainda são almejados. A busca por este por que, na verdade, foi o motor que impulsionou a pesquisa aqui presente. Intentava-se saber quais causas eram responsáveis pelo declínio aparente dos relacionamentos sólidos e duradouros, esta dúvida gerada no senso comum despertou o interesse sociológico pelo modo como os relacionamentos amorosos contemporâneos têm se desenvolvido. Faz-se necessário, então, pensar quais fatores são responsáveis por ocasionar mudanças de comportamento nos indivíduos contemporâneos e consequentemente nos seus modos de se relacionar.
Neste ponto, já se constata que as causas são sociais, mas é necessário discutir quais especificidades inerentes à modernidade líquida são causas reveladoras deste fenômeno. Ao se pensar sobre a visão dos atores sobre os relacionamentos atuais, atrelada a uma reflexão sobre a cultura vigente da modernidade líquida, é possível supor que assim como sugerem Bauman (2004), Illouz (2011) e Turkle (2011), a individualização, as interferências do consumo e a tecnologia são fortes interventores na disposição das relações amorosas atuais. Deste modo, estes autores e seus conceitos são aqui as vias de acesso para entender as relações apresentadas e analisadas neste trabalho.
Pode-se começar afirmando que tanto a reflexão dos entrevistados quanto as descrições proporcionadas por eles refletem o ensaio de Bauman (2004), no qual há o pressuposto de que a insatisfação generalizada da sociedade de consumo é um dos
65 meios para entender esta questão. De acordo com o autor a repetida frustração dos desejos, faz com que a demanda pelo consumo não se esvazie; porquanto o que caracteriza o consumismo não é a acumulação de bens, mas o uso seguido do descarte, diante da necessidade de se abrir espaço para outros bens e usos. (Bauman, 2004, 2007).
O quadro a seguir traz um resumo esclarecedor sobre como se mostram as relações no Badoo, amizade e relações casuais são itens citados com mais frequência em detrimento dos relacionamentos sérios. Como já esclarecido anteriormente, a metodologia desta pesquisa não contém aspectos quantitativos, mas o quadro tem o intuito de esclarecer o porquê de se acreditar que os relacionamentos líquidos aparentam ser mais frequentemente encontrados no Badoo.
— Em sua opinião, quais os tipos de relacionamento mais comuns no Badoo?
Samara “Sexo casual e amizade”
Eloize “Diversão, conhecer, sair... transar e pronto”
Liliane “Sexo sem compromisso, amizades também”
Alice “Acho q amizade e sexo casual”
Roberta “Amizade e relacionamento sério”
Quadro 1: (Opinião) relacionamentos mais comuns no Badoo
Através das opiniões demonstradas acima, pode-se ter uma ideia sobre o quanto o sexo casual prevalece em detrimento do relacionamento duradouro, segundo as entrevistadas. Uma explicação possível seria porque o padrão que prevalece em nossa época é o do “sexo em si”. Este fenômeno refere-se ao desejo, demasiadamente
66 humano, de “fusão total” 52 por meio de uma “ilusão de união” 53. Bauman (2004) explicita:
União – porque é exatamente o que homens e mulheres procuram em seu desespero para escapar da solidão que já sofrem ou temem sofrer. Ilusão – porque a união alcançada no breve instante do clímax orgástico “deixa os estranhos tão distante distantes um do outro como estavam antes”, de modo que “eles sentem seu estranhamento de maneira ainda mais acentuada”. Nesse papel, o orgasmo sexual “assume uma função que o torna não muito diferente do alcoolismo e do vício em drogas”. Tal como estes, ele é intenso – mas “transitório e periódico”. A união é ilusória e, no final, a experiência tende a ser frustrante. (Bauman, 2004, p.62).
O sexo é a própria síntese, talvez o silencioso e secreto arquétipo, daquele “relacionamento puro” que como indica Anthony Giddens 54, se tornou o modelo ideal predominante da parceria humana. O que se espera do sexo hoje é que ele seja autossustentável e autossuficiente, que “se mantenha sobre os próprios pés”, para ser julgado unicamente pela satisfação que possa trazer por si mesmo. No entanto, esta expectativa aduba sua capacidade de gerar frustração e exacerba a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. (Bauman, 2004) O ideal cultivado seria o de “um relacionamento mais puro que a pureza, um encontro que não servia a outro propósito senão o prazer e a alegria. Uma felicidade de sonho, sem restrições, sem medo de efeitos colaterais, do tipo ‘satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. ’” (Bauman, 2004, p.63).
No entanto, para Bauman (2004) é possível afirmar que todas as formas de relacionamento íntimo atualmente em voga usam a mesma máscara de falsa felicidade que foi usada pelo amor conjugal e mais tarde pelo amor livre. Ao ser afastada, a máscara revela que por trás dela há anseios não realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados, sofrimentos, medos, solidão, egoísmo e compulsão à repetição. Quando o sexo se apresenta como um evento fisiológico de corpo e a palavra “sensualidade” pouco evoca senão uma prazerosa sensação física, ele não está liberado de fardos supérfluos, avulsos, inúteis, incômodos e restritivos. Está, ao contrário,