Chapter 4 The Cases
4.1 Procurement of Ambulance Helicopter Services
No tópico anterior, mostramos que as representações sociais são uma forma de conhecimento elaborada e partilhada socialmente que serve de guia para uma leitura consensual de mundo e para as práticas de indivíduos e grupos. O seu processo de elaboração se dá nas interações sociais, nos acontecimentos cotidianos que nos chamam a atenção:
Uma frase, um enigma, uma teoria, apanhados no ar, aguçam nossa curiosidade, prendem a atenção. Fragmentos de diálogo, leituras descontínuas, expressões ouvidas [...] misturam-se às suas expressões; brotam as recordações, as experiências comuns apossam-se delas. Graças a esses falatórios, não só as informações são transmitidas e os hábitos do grupo confirmados, mas cada um adquire uma competência enciclopédica acerca do que é o objeto da discussão. À medida que a conversa coletiva progride, a elocução regulariza-se, as expressões ganham em precisão. As atitudes ordenam-se, os valores tomam seus lugares, a sociedade passa a ser habitada por novas frases e visões. (MOSCOVICI, 1978, p. 53).
Vimos também que as representações sociais surgem a partir da necessidade que temos de compreender esses acontecimentos, de torná-los familiares. “A finalidade de todas as representações é tornar familiar algo não-familiar, ou a própria não-familiaridade”. (MOSCOVICI, 2003, p. 54). Mas de onde surge esta não-familiaridade das coisas? De onde vêm as idéias ao redor das quais as representações sociais são formadas ou geradas?
Segundo Moscovici (2003), a maioria das informações provindas da ciência, da arte, da economia diferem, de muitas maneiras, das opiniões familiares, das experiências práticas dos indivíduos e dos boatos e, assim, constituem-se, para estes indivíduos, como irreais. Contudo, quando estas informações emergem com toda a sua concretude, os limites entre o irreal e o real se tornam confusos, aquilo que era visto como imaginação se torna
realidade, porém uma realidade distante e, portanto, não-familiar, problemática. “A presença real de algo ausente, a exatidão relativa de um objeto é o que caracteriza a não-familiaridade”. (MOSCOVICI, 2003, p. 56). Esta não familiaridade, por sua vez, incomoda, amedronta as pessoas e a coletividade e as obriga a transferi-la para um contexto comum:
As representações sociais que nós fabricamos de uma teoria científica, de uma nação, de um objeto, etc. – são sempre o resultado de um esforço constante de tornar comum e real algo que é incomum (não-familiar), ou que nos dá um sentimento de não familiaridade. E através delas nós superamos o problema e o integramos em nosso mundo mental e físico, que é, com isso, enriquecido e transformado. (MOSCOVICI, 2003, p. 58).
Conforme foi abordado, embora Moscovici (1978, p. 207) tenha apontado as representações sociais como um conhecimento - elaborado e partilhado coletivamente – resultante da popularização daquilo que foi produzido no campo das ciências e da filosofia, não restringiu a gênese desse conhecimento a estes campos, mas, substancialmente, à necessidade de estabelecer um elo entre o estranho e o familiar, seja de que natureza for este objeto:
Toda violação das regras existentes, um fenômeno ou uma idéia extraordinários [...] eventos anormais que perturbem o que pareça ser o curso normal e estável das coisas, tudo isso nos fascina, ao mesmo tempo em que nos alarma. Todo desvio do familiar, toda ruptura da experiência ordinária, qualquer coisa para a qual a explicação não é óbvia, cria um sentido suplementar e coloca em ação uma procura pelo sentido e explicação do que nos afeta como estranho e perturbador.
um acontecimento surge no horizonte social, que não se pode mostrar indiferente: mobiliza medo, atenção e uma atividade cognitiva para apreendê-lo, dominá-lo e dele se defender. A falta de informação e a incerteza da ciência favorecem o surgimento de representações que vão circular de boca em boca ou pular de um veículo de comunicação a outro.
A autora acrescenta que o ato de construir representações sociais corresponde sempre a um pensamento que se reporta a um objeto, independente da sua natureza:
Este pode ser tanto uma pessoa, quanto uma coisa, um acontecimento material, psíquico ou social, um fenômeno natural, uma idéia, uma teoria, etc.; pode ser tanto real quanto imaginário ou mítico, mas é sempre necessário. Não há representação sem objeto. (JODELET, 2001, p. 22).
Ao se referir às representações sociais enquanto forma de conhecimento prático orientado para a comunicação social, Jodelet (2001) explica, porém, que elas emergem a partir de conteúdos que circulam na sociedade provenientes de diferentes origens: das produções culturais mais remotas, constituintes do imaginário cultural; das produções culturais mais atuais que abarcam o processo de socialização do indivíduo, isto é, o território do habitus, das disposições adquiridas em função da pertença a determinados grupos sociais; e da interação social.
Wagner (1998) também corrobora com a idéia de que os objetos que dão origem às representações sociais são muitos e diversificados, entretanto, argumenta que esta diversidade de origem traz implicações na constituição das representações sociais, tanto nos aspectos relacionados às suas características como às suas funções. Segundo ele, os objetos sociais nascem, evoluem, adquirem determinadas características e funções de acordo com suas origens e implicações, nesse sentido, a sociogênese das representações sociais necessita ser considerada nos estudos realizados neste campo.
Ao elaborar a teoria sobre a sociogênese das representações sociais, Wagner (1998) identifica três tipos de representação social:
1) A representação social da ciência popularizada que tem como origem as idéias científicas e filosóficas e que se caracteriza como um discurso circulante da ciência no universo consensual. Este domínio se refere à abordagem original das representações sociais estudada por Moscovici sobre a Psicanálise e pode ser identificada em outros estudos, como por exemplo os desenvolvidos por nós acerca da teoria construtivista.
2) A representação social da imaginação cultural que se refere às representações de objetos culturais construídos ao longo da história, compartilhados desde a infância e, por isto, mais estáveis e duradouras, como por exemplo, a representação social de mãe, de esposo, de tuberculoso, de loucura, etc.
3) A representação social de estruturas sociais e eventos específicos que se referem às representações polêmicas, oriundas de situações ímpares e conflituosas que mudam a rotina estabelecida e abarcam um grupo mais restrito, com significados menos persistentes na interação social. Elas são mais recentes na história e possuem validade limitada, ou seja, são menos estáveis e menos válidas, pois são compartilhadas por grupos menores de indivíduos. A representação social de grevista é um bom exemplo deste tipo.
Complementando as idéias de Wagner, Carvalho, M. (2003) toma como elemento definidor do tipo e das características de determinada representação social não apenas a origem dos objetos, mas a sua destinação. Para a autora, a representação social da imaginação cultural tem como origem o universo do senso comum, o dia-a-dia das pessoas e aí são elaborados e veiculados. São representações arraigadas nos grupos. A representação social de estruturas e eventos sociais pode, segundo ela, apresentar uma trajetória semelhante, tendo como origem o interior dos grupos aos quais pertencem os representantes. São representações mais transitórias e mais restritas, uma vez que duram menos tempo e abarcam grupos
específicos. A representação social da ciência popularizada tem sua origem no universo científico, visto que os objetos partem das academias, laboratórios ou centros de pesquisa e seguem para o universo do senso comum, através da veiculação efetuada pelos meios de comunicação, de publicações instrucionais e até de conversas cotidianas.
Partindo desse pressuposto e considerando que a popularização das teorias científicas resulta em um processo de construção de representações sociais, as quais têm na comunicação sua gênese e veiculação, sentimos a necessidade de apresentarmos alguns comentários sobre as representações sociais e a comunicação social, especialmente a comunicação midiática. Discorrer sobre essa temática é a tarefa que cumprimos a seguir.