Chapter 5 The relationship between price and quality
5.1 The Price element
Considerando que as representações sociais não são sistemas cognitivos isolados, mas contextualizados, que concorrem para a pertença e a participação dos sujeitos no mundo em que vive; considerando que o mundo cultural é organizado a partir de signos que adquirem valor para determinados grupos sociais, tornando-se legítimos, hegemônicos, onde a ideologia tem papel central nessa construção social, pressupomos que existe uma relação entre representações sociais, ideologia e poder simbólico. Em face disso, apresentamos algumas considerações a respeito.
Iniciaremos abordando que, embora a representação social constitua um conhecimento diferente da ideologia, como define Moscovici (1978), a presença da dimensão ideológica nestas estruturas simbólicas é bastante reconhecida entre os teóricos das representações sociais, independente da concepção de ideologia adotada: seja como um conjunto de idéias, valores, filosofia de uma pessoa ou grupo; como idéias distorcidas, enganadoras que expressam interesses dominantes e sustentam relações de dominação; como modo e estratégia em que as formas simbólicas passam a servir para manter as relações sociais entre as pessoas, ou seja, uma maneira de se criar, produzir ou manter determinadas relações sociais e subjetividades; etc.
Numa concepção mais geral de ideologia, Guareschi (2002, 2003) comenta a respeito da relação existente entre ela e a representação social. Ao se reportar ao conceito de representação social, afirma que este envolve várias dimensões, tanto no que se refere a seu conteúdo, como à sua gênese e a seus efeitos, sendo, portanto, um conceito dinâmico, social e político-ideológico (valorativo).
Guareschi (2002) explica que, embora Moscovici tenha deixado clara a dimensão ideológica da representação social apenas na fase onde ela é apropriada por um grupo ou instituição, tornando-se discurso estruturado e estruturante e impondo uma ordem estabelecida6, essa dimensão ideológica está presente, ainda que implicitamente, nas idéias do pesquisador sobre os processos de constituição da representação social: a objetivação e a ancoragem, visto que a ação de ancorar, de trazer para categorias e imagens conhecidas o que ainda não está classificado implica numa opção valorativa; por sua vez, o ato de classificar e nomear – objetivar – também não é neutro, mas serve de mediação nas relações de dominação e exploração socioeconômica. Logo, as representações (enquanto estruturas sociais emergentes a partir desses dois processos) não são neutras.
Para Guareschi (2002, p. 200), a dimensão valorativa, jamais pode ser separada das ações, e por isso, de uma maneira ou outra, “ela está presente tanto no processo de construção das representações sociais, como em sua estrutura. Perder a dimensão de não- neutralidade dos processos e representações é empobrecer e mistificar tanto a uns, como a outras”. O pesquisador cita alguns estudos que comprovam esta dimensão ideológica das representações sociais, entre eles, o realizado por Joffe (2002). Esta autora explica que as diferenças nas representações sociais que vários grupos sustentam podem ser atribuídas às diferentes posições sociais de cada indivíduo, mas que a ideologia dominante tende a propagar imagens de alguns grupos específicos. Nesse estudo, ela mostra como as representações sociais da AIDS se fundamentam em ideologias dominantes, tais como: o individualismo, o colonialismo e o heterosexualismo. Sobre o assunto, Guareschi acrescenta: “Se as representações sociais se fundamentam sobre essas ideologias, irão, necessariamente, conservar também essa dimensão mistificadora”. (GUARESCHI, 2002, p. 200-201).
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Esta fase se refere à terceira etapa evolutiva do processo de popularização da ciência apresentada por Moscovici. No terceiro capítulo desse trabalho, intitulado “Refletindo sobre a popularização das teorias científicas”, explicamos, de forma mais detalhada, esse assunto.
Tomando a ideologia numa concepção mais específica, baseada nas idéias de Thompson (1995), em que ela é vista como o emprego de modos e estratégias de criação e de manutenção da dominação, através do uso de formas simbólicas, Guareschi apresenta alguns estudos que demonstram como a sociedade capitalista explora as representações sociais da população. O estudo realizado por Guareschi (2002) sobre as seitas religiosas constitui um exemplo fundamental da prática ideológica de empregar as formas simbólicas para criar e manter as relações de dominação. Analisando as práticas de cultos de diferentes igrejas neopentecostais, os discursos de pastores e fiéis destas igrejas e os seus programas exibidos na TV e nas rádios, o pesquisador denuncia a manipulação das estruturas simbólicas e os perigos que advêm desta manipulação. Ele mostra como, através da manipulação de imagens, mitos, valores, significados, em suma, das representações sociais da população, estas seitas se perpetuam e mantêm seu vínculo com a população, ou seja, como as estruturas simbólicas são ideologicamente utilizadas para manutenção da dominação.
Ainda sobre a questão, temos a discussão realizada por Spink (1992) no seu artigo sobre representações sociais e ideologia. A autora defende que as representações sociais são sempre ideológicas. Primeiro porque, enquanto uma forma de conhecimento elaborada pelos indivíduos, elas se constituem como uma atividade sócio-cognitiva que é construída em condições sócio-históricas. Segundo porque, enquanto conhecimentos que têm como finalidade instauração ou manutenção de práticas sociais, possibilitam a emergência da ideologia como representações hegemônicas a serviço das relações de poder.
Jodelet (2001) também reconhece o papel da ideologia na construção das representações: “Certamente, há representações sociais que cabem em nós como uma luva ou as que atravessam os indivíduos: as impostas pela ideologia dominante ou as que estão ligadas a uma condição definida no seio da estrutura social”. Segundo Jodelet (2001, p. 32-34), a inserção social do indivíduo tem relação com o caráter das representações sociais, visto que o
lugar e a posição social que eles ocupam e as funções que desenvolvem determinam não somente os conteúdos representacionais, mas também a sua organização, “por meio da relação ideológica que mantém com o mundo social, as normas institucionais e os modelos ideológicos aos quais obedecem”. A autora acrescenta que mesmo nos casos de determinação, em que a partilha das representações é um dado pré-existente da comunicação, podem-se observar fenômenos de aderência às formas de pensamento da classe, do meio ou do grupo social a que se pertence, por causa da solidariedade e das afiliações sociais, uma vez que partilhar uma idéia significa afirmar um vínculo social e uma identidade. “A partilha serve à afirmação simbólica de uma unidade e de uma pertença. A adesão coletiva contribui para o estabelecimento e o reforço do vínculo social” (JODELET, 2001, p. 34).
Considerando que os sujeitos cognoscentes se inserem em contextos sociais nos quais se desenrolam as disputas simbólicas pela imposição da verdade sobre as coisas e sobre o mundo; considerando ainda as representações sociais como forma de interpretação e atribuição de significados, Domingos Sobrinho (2002) corrobora com a idéia de que a representação social pressupõe uma dimensão ideológica, por entender que as representações sociais dos indivíduos e grupos são construídas a partir das formas dominantes presentes no seu mundo, das suas experiências passadas e presentes. Isso não significa dizer que as representações sociais sejam uma reprodução destas formas dominantes, mas uma ressignificação de um sentido primeiro, que é hegemônico, legítimo:
O objeto real não existe em si mesmo, porquanto resulta sempre de uma construção compartilhada de sentido. Assim, se a realidade é formada por um conjunto de relações de forças, estas devem influenciar, do mesmo modo, a construção dos sentidos dos diferentes objetos do mundo social. (DOMINGOS SOBRINHO, 2002, p. 65-66).
Baseado na concepção de cultura, elaborada por Bourdieu, que inclui não apenas a construção de sentidos, mas a disputa pelos sentidos legitimados, Domingos Sobrinho (2002) discute a relação entre a construção das representações sociais e o poder simbólico. Segundo ele, essa legitimação dos sentidos se dá por um poder que atua não pela força física ou coercitiva, mas pela magia despertada pelos próprios signos hegemônicos.
Os signos hegemônicos, diz o autor, fazem parte das crenças, opiniões estabelecidas, aceitas como verdades e se constituem o fundamento da dominação política. No processo de definição dos signos hegemônicos, ou seja, do que é legítimo, as instituições operam no sentido de estabelecer relações sociais, as quais podem impor determinadas definições legítimas e excluir as adversas. Nesse processo, a linguagem tem um papel crucial: o de nomear e atribuir valor aos seres e objetos do mundo. Fundamentados em Pierce e Bourdieu, Domingos Sobrinho (2002, p. 68) afirma que o signo hegemônico, enquanto veículo de informação do poder simbólico, influencia a estrutura imagética da representação que a torna guia de leitura e teoria de referência para a compreensão da realidade:
As representações sociais de Educação, da família, da língua, do corpo, da raça, da casa, do bairro, construídas a partir dos signos legítimos e dentro de um espaço social concreto no qual se desenrolam as relações de dominação simbólica, possuem forte tendência a circunscrever os sujeitos e suas ações nos marcos dos movimentos reprodutivos societários.
Exatamente por isso, para Domingos Sobrinho (2002, p. 64) o estudo das representações sociais apresenta-se como “uma ferramenta extremamente útil para desmistificar as ilusões homogeneizadoras da realidade social”. A reflexão sobre a relação entre poder simbólico e o processo de construção das representações sociais é de suma importância para buscarmos “decifrar/denunciar os sentidos hegemônicos atribuídos a muitos
objetos do mundo social, que estão na base das crenças na naturalização das coisas e das relações e na imposição da violência simbólica que causa tanto sofrimento simbólico”.7 (DOMINGOS SOBRINHO, 2002, p. 64).
É importante ressaltar que a ruptura com as relações de cumplicidade a qual estão submetidas as vítimas da violência simbólica só poderá ocorrer com a transformação “das condições sociais de produção das tendências que levam os dominados a adotar, sobre os dominantes e sobre si mesmo, o próprio ponto de vista dos dominantes” (BOURDIEU, 1999, p. 54). Assim, a mudança nas relações de subordinação depende da perpetuação ou transformação das estruturas que originam essas disposições, como por exemplo, a estrutura de um determinado mercado de bens simbólicos responsável pela organização e hierarquização dos bens circulantes. A respeito, Domingos Sobrinho (2002, p. 68) defende:
As representações sociais são uma importante via para a desconstrução da eficácia do poder simbólico, na medida em que permite ao pesquisador, interventor ou trabalhador social, entre outros, conhecer nas suas múltiplas dimensões, as condições concretas de produção das ressignificações dos signos hegemônicos, assim como a organização interna das mesmas, fruto da dinâmica que caracteriza a formação das representações sociais.
Esta discussão sobre a relação entre ideologia, representações sociais e poder simbólico nos ajuda no entendimento das questões referentes ao objeto de estudo, visto que a teoria construtivista tem-se constituído num signo hegemônico da nossa sociedade, numa das maiores referências teóricas da nossa cultura pedagógica e escolar, signo este que tem se
7 O autor define “sofrimento simbólico” como uma forma de sofrimento que não é fruto nem de causa orgânica
(doenças, envelhecimento), nem de causas psicológicas, nem de causas diretamente sociais (fome, desemprego, falta de moradia), mas fruto da posição social em que ocupam, dos choques de interesses, necessidades e funções que exercem e vivenciam nas relações como o seu meio e as diferentes pessoas e da violência simbólica a que são submetidos. Como exemplo, ele cita: as vítimas do fracasso escolar, dos adolescentes vestibulandos, os homossexuais e “todos aqueles que não estão de acordo com as normas e padrões legitimados” (DOMINGOS SOBRINHOS, 2002, p. 64).
consolidado e se legitimado nos discursos e práticas das autoridades educativas e, principalmente, nos discursos veiculados pela mídia. Reconhecendo a mídia como um dos meios construtores e divulgadores dos signos hegemônicos da sociedade de um modo geral - e da teoria construtivista de um modo específico - e como formadores e veiculadores de representações sociais, faremos, em seguida, uma discussão sobre a mídia na sociedade contemporânea, sua relação com as representações sociais, seus aspectos ideológicos e seu poder simbólico.
2. ENTENDENDO A MÍDIA NA ATUALIDADE: UM OLHAR A PARTIR DAS