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4 Methodology

4.7 Procedure

Fazendo uma análise no biênio pesquisado é possível perceber a importância do olhar atento do professor para as situações de excepcionalidade e fragilidade dos alunos. Infelizmente, considerando-se que a Faculdade possui mais de 35037 professores, há um número pequeno dentre esses que têm procurado a Escuta Acadêmica ou o Colegiado para tratar de assuntos relacionados à seus alunos, sendo geralmente os mesmos professores que procuram.

Acredita-se, contudo, que muitas vezes nem o professor nem o aluno chegam ao serviço, mas ocorre essa interlocução entre eles com soluções possíveis a partir dessa relação. Relação essa que deve ser valorizada pela instituição, que precisa incentivar e instrumentalizar os professores para tal.

Em um dos anos pesquisados, houve o registro de 14 professores que procuraram ou foram procurados pela Escuta Acadêmica para diálogo sobre seus alunos e possibilidades de abordagem. Foram seis professores do Departamento de Clínica Médica, quatro do Departamento de Pediatria, dois do Departamento de Saúde Mental, um da Tutoria e um do Departamento de Medicina Preventiva e Social. Em nove desses atendimentos, as questões se relacionavam a alunos infrequentes, desinteressados, com indícios de adoecimento psíquico ou suposto uso abusivo de drogas. Em duas situações, os professores é que foram chamados para dialogar sobre dificuldades de alunos seus. Uma professora veio relatar queixas de alunos sobre situações antiéticas e desrespeitosas de outro professor; uma professora veio acompanhar aluno com queixa de ter sido ofendido por um

36 Original publicado em 1933.

37 Baseado em dados publicados nas páginas eletrônicas dos departamentos da Faculdade de

colega; uma professora com angústia em reprovar por infrequência um aluno que considerava bom acadêmico.

No outro ano pesquisado, foram 16 professores, sendo oito do Departamento de Clínica Médica, três do Departamento de Pediatria e uma professora do Departamento de Saúde Mental. Informam adoecimento psiquiátrico de alunos, risco de suicídio, situações de perdas familiares, desinteresse, descompromisso, infrequência, queixa de aluno com condutas antiéticas, aluno com dificuldades de socialização e agressividade. Três professores do Departamento de Medicina Preventiva e Social e um do departamento de Anatomia e Imagem vieram a nosso pedido para diálogo sobre alunos seus que apresentaram transtornos psiquiátricos e não estavam em tratamento.

Embora ainda em uma porcentagem tímida, existe a ocorrência de um aumento no número de professores que se ocupam desse cuidado e procuram a instituição para dialogar a questão. Como a situação em que um professor que busca o serviço para relatar sua percepção a respeito de uma aluna com dificuldades na afetividade e socialização com colegas e pacientes, e outro que traz a preocupação com aluno com excesso de faltas às atividades acadêmicas e dificuldades em acompanhar o ritmo da turma. Aponta para uma atenção singularizada que pode ser fundamental para o aluno. Destaca-se também um número crescente de alunos que vêm procurar o serviço com a indicação de professores que perceberam alguma necessidade naquele aluno.

“Sinto-me inferior ao nível dos colegas e que eu tinha que ser o melhor! Fico muito mal quando recebo minhas notas, fico sem saber para onde ir... Gostaria de me cobrar menos... Não vejo resultados na terapia, mas sei que preciso de ajuda.” (aluno que foi chamado devido a pedido de professor)

Autores como Arruda (1999) argumentam sobre uma boa relação professor- aluno como um fator de atenuação para as crises vivenciadas pelos estudantes durante a graduação e oportunidade de desenvolvimento das potencialidades. Na faculdade em estudo percebem-se professores disponíveis para essa acolhida e muitas vezes há o relato do bom resultado dessa relação:

“Ele conversou comigo e vendo o envolvimento dele para atender os pacientes tive certeza que não quero ser médico, aquilo que ele faz é medicina, isso não é para mim!” (aluno do 5º. período, com insatisfação na

escolha profissional)

“O professor „Y‟ me mostrou que posso ser médico e também fazer outras coisas, não preciso somente ser médico. Vou continuar o curso.” (aluno com

manifestação de dúvida na escolha profissional)

Freud (1996a)38 considera a influência que o professor exerce sobre os seus

alunos, apontando que é por meio dos sentimentos ambivalentes que existem nessa relação que o caminho do conhecimento pode se tornar possível ou interditado. Esta visão é também compartilhada por Garcia, Ferreira e Ferronato (2012) que percebem o professor como o modelo pedagógico mais enfatizado pelos estudantes como instrumento de aprendizado.

É por meio da confiança e afeição do aluno ao seu professor que se torna possível, muitas vezes, o acesso e intervenção no sofrimento psíquico. Assim, surgem diversas procuras pelo atendimento e por tratamento após uma conversa com um professor que se interessou em ouvir o aluno.

“A professora „Z‟ me falou para procurar o Napem... para vir aqui... disse que minha tristeza não é normal.” (fala de aluna)

Tempski e Martins (2012) percebem os professores como modelos para o jovem graduando, já que é no exemplo desses que seus aprendizes irão se espelhar. Enfatizam que a melhora na qualidade de vida dos estudantes passa por investimentos em desenvolvimento pessoal e também institucional.

Nessa linha de pensamento, pode-se almejar que seja uma utopia possível alcançar que boa parte dos professores da Faculdade de Medicina da UFMG possa ser bons modelos para os estudantes, o que trará benefícios para a saúde da comunidade acadêmica e da população. Investimento em espaços e momentos para o diálogo a respeito do assunto e para treinamentos podem favorecer o alcance desse objetivo.

“Aqui tem professores nos quais quero me espelhar para o resto da vida!”

(fala de aluno no semestre da formatura)