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5 Findings and Discussion

5.1 Analysis of KEYS’ scales

5.1.1 Organizational encouragement to creativity

A inserção da família na procura por atendimentos na Escuta Acadêmica é algo que merece destaque. Não foi encontrada na literatura estudada referências a esse tipo de procura em instituições de ensino superior. Parece não ser uma atitude muito comum entre familiares de estudantes universitários, ou pelo menos, é pouco referenciada. Entretanto, tem apontado um pedido de socorro à Universidade por familiares na busca de soluções para os impasses do sofrimento psíquico, e também se apresentado como uma via para ampliar as possibilidades de auxílio e cuidado ao aluno. Comumente é canal para um diálogo, mediado pela instituição, de conflitos das relações familiares, como por exemplo, a imposição do desejo dos pais na escolha profissional e a falta de apoio sentida pelo estudante em suas dificuldades.

“Quero que você saiba que eu te amo, quero ajudá-lo, não quero te ver sofrer assim, mas eu não sei como fazer!” (fala da mãe para o aluno em

reunião com a instituição)

“Ele não se abre, não sabíamos que estava com dificuldades!”

(fala de mãe de aluno)

“Gostei da oportunidade de vir conversar aqui!” (fala de mãe de aluno) “Sei dos problemas vivenciados por ele, das notas ruins na faculdade... tento ajudá-lo, mas sei que tenho limites, ele precisa dar conta de ultrapassar as dificuldades...” (fala de mãe de aluno)

Observa-se, contudo, em algumas situações em que a Escuta Acadêmica procura a família que há um desinteresse e desatenção da família para com um membro doente, um isolamento desse do seio da familiar:

“O que você quer? (...) A família já está avisada!” (fala de um familiar após

algumas tentativas de diálogo a respeito de aluno com sofrimento psíquico grave)

Mas também a percepção de uma parceria e amparo:

“Achei muito bom vocês me procurarem. Já não sabemos mais como ajudá- lo, ele não nos dá acesso e estamos vendo ele piorar!” (mãe de aluno)

Nas tentativas de diálogo com o aluno, por vezes, percebe-se que a família precisaria participar, seja para uma maior acolhida, uma menor pressão, encaminhamento e acompanhamento médico e também para que o colegiado conheça o que pensa aquela família a respeito da gravidade da situação e para que ela saiba que pode contar com a instituição. São momentos em que se percebe como imprescindível que a família seja inserida no contexto e sua presença é esperada. Ás vezes, diante da sugestão ao aluno de convidar a família para uma conversa conjunta, a proposta se torna surpreendente, apresenta um alívio:

“Chamar minha família? Seria ótimo! Chama minha mãe! Eu venho com ela!”

Há também momentos em que a presença da família causa estranhamento. É comum que familiares procurem o serviço pedindo que o aluno não seja avisado desse contato. Dizem querer ajudar, mas sem que o aluno saiba. Geralmente trazem subjacentes relações de controle, relacionamentos familiares conflitantes e de infantilização do sujeito. O pacto proposto não é aceito. O diálogo precisa ser conjunto.

“Quero saber se ele está frequentando as aulas, tenho medo que ele desista do curso. Vim orientar vocês sobre como abordá-lo, pois ele tem questões psiquiátricas graves! Quero que nossa conversa seja sigilosa, ele não pode saber.” (mãe de aluno)

“Queria ver o boletim dele, a frequência, sou mãe e tenho direito, me preocupo com meu filho.”

Nos dois anos analisados, foram registrados 33 familiares que vieram (sozinhos ou com o aluno), alguns repetidas vezes, conversar sobre um aluno. Tias,

pais e mães preocupados com o não desenvolvimento acadêmico dos filhos, a tristeza e apatia. Alunos com infrequência, reprovações, excesso de perfeccionismo, em surto, com tentativas ou pensamento sobre suicídio causam alerta em seus familiares, que procuram a instituição geralmente querendo saber o que fazer. O convite é feito para o diálogo conjunto com o filho.

Uma mãe relatou que quando o filho soube que ela havia procurado a Escuta Acadêmica lhe disse:

“Que bom que a senhora agora está se preocupando comigo!”

Trouxe então sua angústia de morar em outra cidade, revelando uma relação com necessidade de reatar os laços entre ela e o filho. Já em outras situações ocorre de haver uma intolerância com o adoecimento psíquico do filho e um adoecimento familiar que aponta para o abandono e culpabilização. Como exemplo, a fala da mãe em uma situação de aluna com tentativa de suicídio:

“Eu não posso ficar aqui (em Belo Horizonte) olhando ela, tenho outro filho e minha vida, ela precisa melhorar disso.”

Em outra perspectiva: uma aluna muito fragilizada, com episódio de tentativa de suicídio e morando longe da família, após diversas intervenções da Escuta Acadêmica, desabafa:

“Após o contato de vocês com minha mãe ela me procurou e disse que me ama... ela nunca havia falado isso antes... Eu não sabia disso... me fez bem! Ela disse que vai ficar mais perto de mim!”

Ocorreram também casos em que outros profissionais vinculados à UFMG, por exemplo, por meio da FUMP e do Departamento de Relações Internacionais, participaram da interlocução no sentido de encontrar caminhos para impasses

graves vivenciados com os alunos. Com certa frequência houve a necessidade de acionar psicólogos e psiquiatras que eram os profissionais de referência em casos com gravidade preocupante.

“Surpreende-me e alegra saber que a faculdade está interessada no adoecimento de seu aluno. Ele precisa de uma rede de apoio!” (fala de

psicóloga de aluno, que foi abordada com o consentimento dele)

É acertada a colocação de Millan et al (1999) a respeito da importância da família nos momentos de crise durante a graduação. A família pode ser um porto seguro de apoio e cuidado, mas também pode ser o fator mais agressivo no desencadeamento do sofrimento. A falta de compreensão do sofrimento psíquico em que o familiar está passando e a pressão para resultados, inclusive com ameaças, pode ser um entrave à melhora do aluno. Millan et al (1999) e Arruda (1999), reforçam que as crises vivenciadas pelos estudantes possuem um melhor prognóstico quando há apoio da família, inclusive buscando ajuda psicológica quando necessário.

Situação comum de ser vivenciada nos atendimentos, que é também citada por Millan e Arruda (2008), é a dificuldade encontrada na negação da família a respeito da gravidade do sofrimento do aluno/filho que na maioria das vezes é muito idealizado pelos familiares, como um filho brilhante com o qual não é possível que esteja ocorrendo algum impasse psicológico.

“Ela não tem problemas em casa... é muito dedicada ao estudo e não reclama sobre o curso ou os colegas.” (fala de pai, em reunião com aluna

da qual havia recorrência de queixas de colegas e professores com relação ao seu comportamento antissocial)

“Ele sempre foi muito agitado, mas é muito inteligente! Registre aí no papel que eu o amo incondicionalmente e que ele pode contar comigo.” (fala da

mãe em reunião com o aluno do qual havia recorrência de queixas de colegas e professores com relação ao seu comportamento)

Fica bem evidente que a presença da família é por vezes desejada na instituição e por vezes estranhada. Os relatos dos alunos marcam a importância do vínculo familiar no auxílio diante das vivências de sofrimento psíquico e também o acirramento desse diante da ausência da família. Nota-se uma boa receptividade na maior parte dos casos quando a família é convidada ao diálogo junto com o aluno. Algumas vezes há um não saber da família a respeito do aluno. Certa estranheza se apresenta ao considerar chamar os pais para discutir assunto de um aluno universitário. Estranheza que logo aponta para gravidade e delicadeza de situações em que o aluno sozinho não esteja conseguindo direcionar. Estranheza maior quando a família procura com intenção de policiar o filho, quando o diálogo familiar não parece ser possível.