A conceituação do meio ambiente é importante para entender o cenário ambiental e sua crise atual, enraizada nas políticas antropocêntricas e androcêntricas18 dominantes, que
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Para Giddens, reflexividade é uma característica da ação humana, que ficou mais importante desde a modernidade e a ruptura com as normas tradicionais relativamente estáveis (1979 apud Cassell, 1993).
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Antropocentrismo é o ser humano como o centro do mundo, deixando a natureza não-humana ser um objeto ou instrumento sem valor em si mesma, podendo e devendo ser usada para o bem-estar do ser humano, sem que se pense eticamente nas conseqüências. Androcentrismo é a dominação sistemática de homens por instituições, comportamentos e modos de pensar, que nomeiam valor mais alto, privilégio e poder aos homens, em comparação àqueles determinados para as mulheres (WARREN, 2000, p. 64).
contribuem para a degradação dos recursos humanos e a construção de opressões e desigualdades entres os seres humanos. Portanto, apontamos, como uma das dificuldades para a educação ambiental, o reconhecimento, pela sociedade, da complexidade do tema meio ambiente.
Ferreira (1986, p. 1113) define meio ambiente como o “o conjunto de condições naturais e de influências que atuam sobre os organismos vivos e os seres humanos”. Tal definição é insatisfatória ao ver o meio ambiente como algo que cerca as pessoas, e, portanto, não necessariamente incluir os seres humanos como parte do ambiente. Essa definição perpetua a tendência de haver uma percepção de meio ambiente no singular, como sinônimo da natureza não-humana. Por essa razão, sugerimos uma conceituação do meio ambiente como um conjunto de inter-relações e interdependências da natureza humana com a natureza não- humana e a natureza construída (figura I). Pensamos que essa conceituação é importante no processo de sensibilização sobre as raízes dos problemas ambientais e a necessidade de união e participação para solucioná-los e construir uma sociedade sustentável em conjunto.
A divisão das três naturezas é para explicar que cada uma existe em si e tem seu valor intrínseco, mas na realidade elas não podem ser pensadas separadamente, pois existem dentro de uma teia de retroação ou em inter-relações e interdependências. Assim, não estamos oferecendo uma definição fechada, mas tentando mostrar as interfaces entre as três naturezas, que são baseadas no paradigma emergente (CAPRA, 1982, 1996; MARIOTTI, 2000; MORIN; LE MOIGNE, 2000; WARREN, 2000) pelas seguintes razões:
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A natureza não-humana inclui os ecossistemas com suas características bióticas (fauna e flora) e abióticas (água, terra e atmosfera). É uma entidade que existe em si mesma, como Leopold explicou na sua “ética da Terra”, em que tudo é interligado como um organismo, ecossistema (1977 apud WARREN 2000, p. 160). O problema é que a natureza não- humana recebe impactos da natureza humana e da natureza construída e é representada sócio-culturalmente pela primeira. Tais representações sociais possuem uma tendência a serem antropocêntricas ou androcêntricas, o que influencia a construção de dualismos entre a natureza e a cultura, sendo a segunda normalmente vista como superior. Historicamente, estes dualismos não só afastaram os seres humanos da natureza não-humana, mas também, legitimaram a superioridade dos homens sobre as mulheres e dos homens sobre outros homens, em função da sua identidade diferente. Ou seja, as pessoas de cor, as economicamente desfavorecidas, as que têm identidades sexuais diferentes, as doentes como as portadoras do vírus HIV, ou aquelas com habilidades (mentais ou físicas) diferentes, são marginalizadas.• A natureza humana não é universal ou imutável, mas diversa e flexível. Os seres humanos são agentes culturais, “racionais”, inovadores e comunicativos. Isto os distingue, mas não os separa de outras espécies, pois os seres humanos fazem parte do meio ambiente. Dentro da natureza humana o raciocino e a comunicação são mediados pelas representações sociais, que são culturalmente específicas e que mantêm e constroem as interpretações de meio ambiente. Portanto, o ser humano tem a capacidade de construir e transformar o meio em que vive, mas, devido à socialização estrutural e à promessa de bens materiais, há uma tendência a se socializar cidadãos e cidadãs consumistas e estatizantes (BOAVENTURA SANTOS, 2001). Segundo BOFF (2000), esta forma de cidadania torna alguns seres humanos passivos, no sentido de serem indiferentes à necessidade de protestar e agir contra as desigualdades que são evidentes na sociedade e em prol de uma igualdade biocêntrica. Esta problemática não é fácil de resolver, pois nas inter-relações e interdependências os seres humanos também estão produzindo a sociedade que os socializa, já que a estrutura influencia a produção das representações sociais
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• A natureza construída é a estrutura social, incluindo-se todos os espaços onde haja interferência humana, de forma abstrata ou concreta, que engloba a tecnologia, a ciência, a política, o estado, a economia etc.. A natureza não-humana pode dificultar sua construção, pelas condições ambientais oferecidas, e a natureza humana determina sua construção pelas suas políticas, que tendem a ser antiéticas e a provocar impactos negativos nas três naturezas.
Portanto, essa contextualização de meio ambiente envolve vários ecossistemas, nos quais existem ordem, desordem e organização. O que, segundo Soffiati (2002), é um estágio aceitável, em que se precisa, entretanto, promover relações dinâmicas e complementares, mas não de exclusão. Por isso, são necessárias novas alianças éticas, para desviar da fragmentação fundamentada na marginalização existente, e estabelecer interconexões dialógicas que cheguem às representações sociais ambientais. No entanto, segundo Leff (2001), isso se torna uma tarefa complicada, considerando que as entidades estruturais tendem a marginalizar a natureza não-humana do domínio humano, e a separar os grupos humanos dentro de seu próprio domínio. Mariotti (2000) consolida esse pensamento e explica que é difícil aceitar os pensamentos complexos, pois necessitam de um questionamento do que o autor descreve como o “antiquado” paradigma cartesiano, com seus dualismos e certezas inerentes.
Na sua proposta Mariotti recomenda que a sociedade considere a teoria da complexidade não somente como uma teoria, mas também como uma realidade de vida, pois na vida os elementos são interdependentes, nem sempre podendo ser reduzidos aos pensamentos lineares (dualistas) ou sistêmicos. Para Mariotti (ibidem., p. 42) a postura sistêmica, com suas dimensões mitológicas/simbólicas/mágicas, é matriarcal, e a postura linear, com suas dimensões racionais/lógicas/empíricos, é patriarcal. Isso não é no sentido de classificar homens e mulheres dentro das duas posturas, pois como o autor explica, existem mulheres com tendências patriarcais e vise versa. Sendo assim, o autor conclui que a teoria da complexidade pode fornecer um elo entre as polaridades e, desta forma, permitir que os ecossistemas sejam examinados de todos os ângulos. Na educação ambiental, isso pode fomentar um entendimento da complexidade dos problemas ambientais, questionando as atitudes e ações humanas e promovendo a noção de que a responsabilidade é de todos.
O quadro apresentado por Leff e Mariotti é importante para uma interpretação que questiona a ideologia dominante. Podemos comparar a educação ambiental a uma ervilha verde flutuando em um caldeirão enorme de caldo de carne vermelha, ou seja, podemos vê-la, mas, para que seja saboreada, entendida e multiplique-se, seriam necessárias mudanças19 na consistência estrutural e nos ingredientes. A consistência representa a estrutura da nossa sociedade, que promove o individualismo, o alto-consumismo e o egocentrismo, ou seja, éticas não ambientais. Os ingredientes são os seres humanos, que constroem sabor da consistência. Nesta situação para conseguir mudanças ambientalmente amigáveis, precisamos trabalhar os dualismo e os poderes estruturais e privados, mencionados na introdução deste textos. Sugerimos que o ecofeminismo pode ajudar a educação ambiental com estes dois pontos problemáticos. Para explorar essa posição, abordaremos a seguir a teoria e a prática do ecofeminismo.