2 Metodisk tilnærming og gjennomføring
2.2 Problemstilling 2: I hvilken grad er virkemidlene Klima- og
Tendo justificado o nível de análise escolhido para o estudo dos processos de auto-organização e mudança no Self Dialógico, falta apresentar a conceptualização da unidade de análise – a Posição do Eu (I-position).
As noções de posição do Eu e de voz, enquanto conceitos centrais no self dialógico, têm sido trabalhadas pelos autores de diversas formas. Tal como alguns têm reflectido, existem múltiplas vozes acerca do que são as vozes (cf. Ferreira, Salgado, Cunha, Meira & Konopka, 2005). Isto faz com que o carácter polissémico da noção de voz ou de posição do Eu origine alguma ambiguidade que necessita de ser ultrapassada e clarificada em cada estudo. Por isso, a pergunta de Salgado (2007) faz todo o sentido: “... o que é exactamente uma voz neste contexto?” (p. 61).
Salgado (2007) chama a atenção para o facto de existirem algumas aplicações empíricas da noção de voz que nos remetem para uma conceptualização demasiado estática, como algo que não muda ao longo do tempo ou que é mais ou menos uniforme
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entre as pessoas (aparecendo quase como um traço, um papel social ou um discurso colectivo uniforme). Em nítida oposição a essa concepção, neste trabalho, concordamos com Josephs (2002) relativamente à concepção de uma voz como um foco no aqui e no agora, em que um Eu – enquanto centro experiencial – expressa uma construção particular de significados, dependente do seu posicionamento actual e associado a uma carga afectiva específica. Desta forma, qualquer voz terá de ser analisada de acordo com uma natureza idiossincrásica e um significado pessoal que poderá variar ao longo do tempo.
Além disso, muitos estudos debruçam-se sobre metodologias de avaliação que, apesar de qualitativas e idiossincráticas, captam as posições do Eu através de macro- narrativas que são algo distanciadas da experiência subjectiva vivida e transformada momento a momento. M. Gonçalves e Salgado (2001) mencionam o Método de Auto- confrontação (MAC – Self Confrontation Method) e o Repertório de Posições Pessoais (Personal Position Repertoire – PPR) como os métodos mais utilizados neste campo de estudos. Estes métodos (da autoria de Hubert Hermans), apesar de serem capazes de suscitar narrativas pessoais de uma forma muito interessante para a Teoria do Self Dialógico, infelizmente só nos fornecem duas imagens de um antes e depois da mudança terapêutica ou reorganização do self, escapando-nos precisamente o que se passa durante esse processo. M. Gonçalves e Salgado (2001) salientam esta omissão relativamente aos processos recorrendo a uma metáfora: “Seria como tentar prever o clima através de uma única fotografia do céu, perdendo as mudanças que estão continuamente a ocorrer.” (p. 371). Estes autores realçam ainda a importância de conhecermos como as pessoas se vão organizando e de reconhecermos diferentes tipos de organização que nos permitam, enquanto psicólogos e particularmente psicoterapeutas, compreender melhor os nossos clientes de forma a intencionalizar a mudança terapêutica.
Deste modo, neste trabalho, assumimos explicitamente o movimento ao longo do tempo como um importante objectivo a ter em conta e a desenvolver (teoricamente e empiricamente) neste campo de estudos. Ora, este intuito conduz-nos para a necessidade de especificar a noção de posição do Eu a um nível que nos permita acompanhar a sua evolução no tempo. Assim, tal como Valsiner (2002a) defende o ponto de partida de uma posição subjectiva é o “Eu no Aqui e no Agora” (Here-and-Now-I-System), que une três vectores simultâneos: o espaço (aqui), o tempo (agora) e o agente comunicacional (Eu). A definição de uma posição específica implica imediatamente
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uma relação com a alteridade: o Outro (que não Eu), o ali distinto do aqui e o antes e o depois distinto do agora (Valsiner, 2002a).
Por um lado, a outridade aparece como intrínseca aos processos dinâmicos do self na sua trajectória temporal e de organização de sentido (Salgado & Hermans, 2005) e tem de ser tomada em conta na análise do fenómeno. Por outro lado, captar o que o self é – i.e., a construção (inter)subjectiva de se ser/ter um self – implica uma centração no momento presente da experiência. Assim, consideramos necessário fazer uma aproximação fenomenológica à noção de posição do Eu e às micronarrativas veiculadas pelas vozes que se sucedem momento a momento na atribuição de sentido à experiência vivida e simbolizada.
Nesta procura do acesso psicológico ao outro – que é o objectivo da ciência psicológica – tentando seguir com o nosso olhar o seu movimento desenvolvimental, consideramos a noção de “momento presente” da experiência subjectiva, de Daniel Stern (2004), como particularmente interessante. Por isso, procuraremos reflectir no seu contributo para o presente trabalho.
Segundo Daniel Stern (2004), o “momento-presente” da experiência subjectiva corresponde ao sentimento do que me acontece num dado momento de consciência fenomenológica e experiencial – o sentimento de si, no agora (de acordo com a terminologia de A. Damásio, 1999). Esta consciência de uma determinada experiência presente implica o reconhecimento do self enquanto centro experiencial e o estarmos “cientes de” uma determinada experiência que acontece agora. A experiência subjectiva do “presente” corresponde a uma gestalt, uma experiência holística, que é usualmente breve na sua duração, mas sentida com um princípio, meio e fim, na medida em que é uma unidade de sentido e de significado. Esta unidade, enquanto experiência fenomenológica holística, faz-se acompanhar da dinâmica afectiva da nossa subjectividade e muda constantemente de acordo com o fluir da nossa experiência. O sujeito poderá estar mais ou menos envolvido no “momento-presente”, na medida em que se pode distanciar da experiência sentida e até avaliar e apreciar, no momento seguinte, o que está a acontecer num dado momento presente (iniciando um processo de auto-reflexão, que é já distinto do momento experiencial que é seu objecto de reflexão). Uma razão adicional para o nosso interesse por esta conceptualização sobre a experiência humana prende-se com a ligação teórica que poderá ser realizada entre o conceito de “momento-presente”, a noção bakhtiniana de “posicionamento” e a noção dialógica de posição do Eu (Hermans, Kempen & van Loon, 1992). Na medida em que
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tudo é experienciado e significado a partir de uma posição existencial específica e, sendo a existência humana uma existência de endereçamento a outros, o momento- presente da experiência concretiza-se, comunicacionalmente, na noção dialógica de utterance (traduzida por elocução ou fala) como unidade de sentido e significado – assumida neste estudo como a unidade de análise. Este conceito de elocução, já considerado por Bakhtin como a unidade linguística básica, tem suscitado interesse de vários autores numa aplicação à arena psicológica. Podemos mencionar, a esse respeito, a correspondência entre elocução (i.e. utterance) e: a) um evento do self (segundo Holquist, 1990); b) um estado do self (na terminologia de M. Leiman, 2004); e, c) um evento fenomenal (segundo Dop, 2000).
Por outras palavras, sendo a elocução a ponte entre o agente comunicacional e a sua audiência (real ou imaginária), é a partir da análise da própria elocução que seremos capazes de discernir o posicionamento do Eu momento a momento. “Uma elocução, um acto, um gesto – todos estes são exemplos das muitas formas que uma voz pode ter, pelo menos quando olhamos para as suas qualidades objectivas.” (Salgado, 2007, p. 61). Como tal, a elocução, enquanto unidade de análise, constitui-se como a voz de uma posição do Eu no aqui e no agora (momento-presente).
Deste modo, munidos do conceito de elocução e encarando-se a experiência do momento como endereçamento comunicacional, a fenomenologia do presente passa a ser lida como uma experiência de relação com o mundo e com os outros. Deste modo, no dialogismo, consciência passa a ser indissociável de outridade, ou seja, é lida como um epifenómeno relacional (Holquist, 1990). Conforme refere Jacques (1991), a consciência passa a ser considerada como um elemento ou habitante do processo comunicacional. Concebemos, assim, o momento-presente a partir desta leitura dialógica do experienciar humano enquanto elemento participante do endereçamento a outrém (por oposição a uma consciência fenomenológica idealista e enclausurada no sujeito).
Concretizando melhor o conceito de elocução, Shotter (1992) refere que esta noção, enquanto unidade responsiva–interactiva: a) marca os limites entre diferentes interlocutores no fluir da conversação; e, b) toma em consideração um contexto (social e linguístico) preexistente, posicionando-se perante este. Segundo este autor:
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“… qualquer elocução real é uma ligação na cadeia de comunicação discursiva dentro de uma esfera particular, um grupo social particular, possível ou real, onde as fronteiras entre as elocuções são determinadas por uma mudança dos sujeitos discursivos. (…)
A elocução é assim uma verdadeira unidade psicológica e social no sentido de demarcar as fronteiras (ou hiatos) no fluir do discurso entre diferentes ‘vozes’, entre diferentes ‘posições semânticas’ – quer entre as pessoas quer dentro delas.” (Shotter, 1992, p. 14)
A elocução demarca, assim, um posicionamento (inter)subjectivo, na medida em que o agente comunicacional se vai posicionar simultaneamente perante o seu interlocutor e perante um enquadramento social que contrasta com o que diz. Este conceito corresponde àquilo que Bakhtin designava por dupla direccionalidade do acto comunicativo (ver capítulo 1, ponto 2.2). Assim, o autor comunicacional é um autor multiposicionado, na medida em que se vai transformando num movimento de posicionamento e reposicionamento ao longo do tempo (Leiman, 2004). Por isso, faz sentido perguntar, numa análise dialógica, momento a momento: Quem fala?
Por outro lado, o que o agente comunicacional diz é também território partilhado: é formatado tanto por aquele que diz como por aquele que escuta, um outro real ou imaginado (Shotter, 1997a). O acto de endereçamento revela-se, então, crucial e complexo, pois podemos ter múltiplos endereçamentos: “Qualquer posição do falante está intrinsecamente ligada ao receptor directo da elocução e aos mais ou menos implícitos endereçados adicionais para quem a elocução está a ser dirigida.” (Leiman, 2002, p. 228). Em qualquer acto comunicacional teremos sempre dois movimentos em simultâneo: um movimento hetero-referencial (em relação a um outro – real ou imaginado, presente ou ausente) e um movimento auto-referencial (também denominado como retro-referencial, segundo Jacques (1991): ou seja, de endereçamento a si próprio). Neste sentido, para responder à pergunta: Quem está a ser endereçado? teremos que tomar em conta, como Salgado e Ferreira (2005) acentuam, o interlocutor directo e as audiências internas e potenciais que possam ser imaginariamente convocadas.
Consideramos, também, numa convergência com a tradição narrativa e com a análise do discurso, o conteúdo referencial – o que é dito – como um dos parâmetros importantes de análise de uma posição do Eu. Assim, uma qualquer elocução veicula uma determinada mensagem discursiva ou uma imagem específica que o agente comunicacional pretende comunicar (Leiman, 2004). Além disso, implícita a esta imagem comunicada estará sempre uma intenção (relativamente a uma identificação ou uma oposição relativamente ao que está a ser dito) – o porquê de ser dito no aqui e
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agora; e uma forma de comunicação que nos remete para modos específicos de apresentação da mensagem comunicacional – um como a mensagem está a ser apresentada.
Consideramos que este tipo de análise, ao ter em conta os diferentes parâmetros constituintes do diálogo, tenta ir mais longe que uma análise do conteúdo ou do discurso tradicional. A maior parte das análises de conteúdo ou temáticas não exploram este múltiplo endereçamento de um autor poliposicionado (Skinner, Valsiner & Holland, 2001). Ambicionamos, com esta conceptualização prévia, a tentativa de um acesso psicológico mais complexo ao sujeito dialógico no seu movimento temporal. Mais concretamente, pretende-se obter uma imagem que transcende o mero conteúdo narrado procurando ter sempre em perspectiva o sujeito-em-relação.