4. Handlingskompetanser som et didaktisk begrep eller som kategori i undervisningen
4.6. Problem- og praksisbaserte studiemodeller
4.6.1. Problembasert læring
231
“Se se quiser medir o pensar em seu ardor imediato e apaixonado pelos seus resultados, acontecerá o mesmo que ocorreu com o manto de Penélope – o que se fiou durante o dia a cada vez é inexoravelmente desfeito à noite, para poder ser recomeçado no dia seguinte”. (LET, p. 154/225).
232 Adriano Correia, após citar parte da epigrafe de A Vida do Espírito -“o pensamento não nos dota
diretamente como o poder de agir” (Heidegger) –, interpreta que: “a compreensão, de fato, é um processo interminável que não produz resultados finais... por isso também ele [o pensamento] começa sempre de novo”. (CORREIA, 2002, p. 154; grifo meu)
133 Após tratar do pensar segundo sua intratividade,233em que caracterizei alguns
dos seus traços definidores e a diferença em relação à atividade do conhecer, passo a lidar com a atividade dialógica do pensamento e sua relação com o agir moral.
O pensar é uma atividade livre porque não é condicionada à obtenção de nenhum fim, resultado ou produto, mas dada a relação do pensar com o agir moral, o pensamento pode ter consequências práticas. “O pensamento é uma atividade que tem certos resultados morais”. (RJ, p. 105/171).
Em Algumas Questões de Filosofia Moral, Arendt enfrenta a questão de pensar a moralidade a partir do seu colapso.234 Os tempos sombrios revelam como a moralidade vivida é, de fato, regida pelo ethos, isto é, um conjunto de costumes que mudam como a moda a cada estação. A crise da moralidade refere-se, então, à constante mudança de padrões de juízo e de avaliação do que é certo e errado, do que é bem e mal. Face a crise, a tarefa do pensamento é estatuir os novos padrões da moralidade, assim como outrora Platão o fizera? Arendt recusa esse caminho:
Todo o pensamento como processo é um processo da fala, nunca encontraremos uma regra de ferro rígida pela qual poderemos determinar o que é certo e o que é errado com a mesma certeza com que determinamos... o que é pequeno e grande pelo número, o que é pesado e leve pelo peso, quando o padrão ou medição é sempre o mesmo. A doutrina platônica das Ideias introduziu esses padrões e medições na filosofia, e todo o problema de como distinguir o certo do errado ficou então reduzido a se possuo ou não o padrão ou a “ideia” que devo aplicar em cada caso particular. (RJ, p. 86-7/151).
O pensamento é uma atividade mental interior em que se dá um processo de diálogo do eu consigo mesmo. Arendt reflete sobre a dimensão dialógica do pensamento porque a depender do êxito ou do fracasso desse diálogo o mal pode irromper no mundo. O pensar não leva a praticar o bem, mas pode evitar a prática do mal. O pensar não tem relação direta com a ação, mas tem relação com o agir moral
233 Tomo esse termo de Young-Bruehl, quando considera a autonomia das faculdades mentais na
filosofia de Arendt. “Cada faculdade, além do mais é auto motivadora ou espontânea e cada uma “se recolhe em si mesma”, cada faculdade é intra-ativa”. (YOUNG-BRUEHL, 1994, p. 338-9).
234 “A moralidade desmoronou e transformou-se num mero conjunto de costumes – maneiras, usos,
convenções a serem trocadas à vontade – não entre os criminosos, mas entre as pessoas comuns que, desde que os padrões morais fossem socialmente aceitos, jamais sonhariam em duvidar daquilo em que tinham sido ensinadas a acreditar”. (RJ, p. 54/118).
134 por uma via negativa.235 Diferentemente da atividade do querer, o pensar não ordena o
que fazer, nem mesmo em se tratando de fazer o bem.
Com base na compreensão do pensar como atividade dialógica constante que acompanha o ser humano no arco da sua existência, Arendt articula o perigo da interrupção desta atividade para a vida moral. Pensar é viver, é uma atividade incessante e constante na vida humana. Interromper esse movimento é a própria „morte‟ para o ser humano, que, por definição, é um ser pensante. O diálogo interior do eu consigo mesmo corre risco de paralização quando os dialogantes entram em conflito, quando o eu não conversa consigo mesmo. Não se trata do conflito interior como acontece na atividade da vontade, entre o eu que quer e o eu que não quer, mas de uma contradição que se instaura entre fazer o certo e fazer o errado. Assim, a moralidade diz respeito não à definição do certo e do errado segundo o ethos, mas ao discernimento em relação ao bem e ao mal que provem da atividade dialógica do pensar:
A conduta moral, até onde se sabe, parece depender primeiramente do relacionamento do homem consigo mesmo. Ele não deve se contradizer abrindo uma exceção a seu favor, ele não deve se colocar numa posição em que teria de desprezar a si mesmo. Em termos morais, isso deveria bastar, não só para torná-lo capaz de distinguir o certo do errado, mas também para fazer o certo e evitar o errado. (RJ, p. 67/131).
Arendt identifica em Sócrates o modelo do exercício do diálogo do pensamento. A desarmonia interior e a contradição devem ser evitadas, e a harmonia interior e o diálogo devem ser exercitados, pois fazem do indivíduo uma pessoa. A integridade interior da pessoa que se dedica ao diálogo consigo própria é o ponto que elucida porque é preferível sofrer o mal do que praticá-lo. A contradição interior é gerada pela prática do mal quando o amigo com quem o eu dialoga torna-se um criminoso, com o qual não é possível a convivência.
235 A recomendação de não entrar em autocontradição para evitar a desavença consigo próprio, é
“inteiramente negativa. Ela nunca lhe dirá o que fazer, apenas impedirá que faça certas coisas, mesmo que elas sejam feitas por todos ao seu redor”. (RJ, p. 105/170).
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Mesmo que eu seja um só, não sou simplesmente um só, tenho um eu e estou relacionado com esse eu como o meu próprio corpo. Esse eu não é de modo algum uma ilusão; faz-se ouvir falando para mim – falo comigo mesmo, não estou apenas ciente de mim mesmo – e, nesse sentido, embora eu seja um só, sou dois-em-um, e pode haver harmonia e desarmonia com o eu... é melhor sofrer o mal do que fazer o mal: se faço o mal, sou condenado a viver junto com um malfeitor numa intimidade insuportável; nunca posso me ver livre dele... assim como sou meu parceiro quando estou pensando, sou minha própria testemunha quando estou agindo. Conheço o agente e estou condenado a viver junto com ele... se estou em desavença com meu eu, é como se eu fosse forçada a viver e interagir diariamente com o meu próprio inimigo... se pratico o mal, vivo junto com um malfeitor. (LM, p. 90-1/154-55).
O pensamento é um diálogo interior, um processo de pergunta e resposta no qual o eu dirige-se a si mesmo. A condição para que ocorra é que ambos os dialogantes sejam amigos e parceiros. Mas se essa conversa é interrompida, o processo do pensamento se esvanece. A interrupção se dá quando as partes não estão de acordo. No entanto, se há desacordo no eu, que não é mais uno e sim diviso, é porque há uma consciência que distingue o certo do errado. Mas não parece ser esse o caminho seguido por Arendt, porque não há uma consciência inata no ser humano. O discernimento, então, não é operado por uma faculdade inata, algum dom ou talento do indivíduo, mas decorre da capacidade de julgar e pensar por si próprio. O discernimento é feito pela pessoa moral.
O fluxo incessante de perguntas e respostas no diálogo interior constitui a pessoa.236 Assim, a questão do certo e do errado, do bem e do mal não diz respeito à uma consciência inata que separa o joio do trigo. A delimitação do certo e do errado em relação a um ato depende da reflexão individual da pessoa, e é na atividade do pensar que a pessoa se constitui:
E o pensamento, em contraposição à contemplação, com a qual é muito frequentemente equiparado, é realmente uma atividade e, além disso, uma atividade que tem certos resultados morais, isto é, uma atividade
236 “Nesse processo de pensamento em que realizo a diferença especificamente humana da fala eu me
constituo de modo explícito como uma pessoa, e vou continuar a ser uma pessoa na medida em que seja capaz dessa constituição repetidas vezes... o que comumente chamamos de personalidade... é o simples resultado, quase automático, do pleno exercício da capacidade de pensar (thoughtfulness)”. (RJ, p. 95/160).
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em que aquele que pensa se constitui em alguém, em uma pessoa ou personalidade. (RJ, p. 105/171).
A recusa de se dedicar ao pensar implica na “perda de integridade” (RJ, p. 97/162) porque significa a renúncia a se constituir como uma pessoa. Arendt quando analisa essa renúncia por parte dos nazistas indica o processo em que o indivíduo não se torna alguém (uma pessoa), mas se torna ninguém, isto é, a pura impessoalidade que resta por trás de atos cometidos.237
Portanto, à luz destas considerações pode-se dizer que, para evitar fazer o mal, é preciso que o indivíduo seja uma pessoa, e ser uma pessoa resulta da atividade do pensamento, esse é o „efeito‟ prático moral da atividade do pensar. O pensamento tem relação com a ação, mas não no sentido de que o pensamento nos leva a agir, mas no sentido de que evita o agir, quando se trata de praticar o mal. Contudo, não se trata de uma inação, mas de uma afirmação derivada da consciência do eu de que não pode fazer o mal porque, ao fazê-lo, se desfaz. O desfazer-se é a derrota moral da pessoa, da sua integridade.238
Além da „consequência‟ do pensar para a ação, no sentido moral, qual o efeito político desta atividade? O que Arendt deixa claro é que a atividade do pensar se distingue da ação política porque o pensar é individual e solitário, enquanto que a ação política é coletiva.
A principal distinção, em termos políticos, entre Pensamento e Ação reside no fato de que, quando estou pensando, estou apenas com o meu próprio eu ou com o eu de outra pessoa, ao passo que estou na companhia de muitos assim que começo a agir. Para os seres humanos, que não são onipotentes, o poder só pode residir numa das muitas
237 “O problema com os criminosos nazistas foi precisamente que eles renunciaram voluntariamente a
todas as qualidades pessoais, como se não restasse ninguém a ser punido ou perdoado. Eles protestaram repetidas vezes, dizendo que nunca tinham feito nada por sua própria iniciativa, que não tinha tido nenhuma intenção, boa ou má, e que apenas obedeceram a ordens. Em outras palavras: o maior mal perpetrado é o mal cometido por Ninguém, isto é, por um ser humano que se recusa a ser uma pessoa”. (RJ, p. 111/177).
238 Adriano Correia se debruça sobre a relevância do pensar para a moralidade no pensamento
arendtiano, e enfatiza que a questão moral fundamental é ser consistente consigo mesmo. “A questão moral fundamental é, desse modo, não a obediência a uma lei externa, mas o interesse em ser consistente comigo mesmo, o que é possível somente se se instaura o diálogo sem som de mim comigo mesmo”. (CORREIA, 2002, p. 154).
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formas de pluralidade humana, enquanto todo modo de singularidade humana é impotente por definição. (RJ, p. 106/171).
A distinção entre as duas atividades é essencial para manter a liberdade de cada uma, mas mesmo sendo duas atividades livres, é possível uma relação entre ambas. Arendt não nega que o pensar tenha alguma influência na ação, já que o mesmo ser humano que pensa é o que age239. Mas Arendt reprova nos filósofos o modo como
resolvem a tensão entre o pensar e o agir, dissolvendo a distinção e a tensão240 entre
as duas atividades, identificado o pensar com o agir.241 Pensar não é agir, nem tampouco uma preparação para a ação.
No entanto, Arendt apresenta Sócrates como um exemplo de pensador que passava do pensar ao agir e do agir ao pensar com facilidade. Sentia-se, em casa, tanto numa esfera quanto na outra. Sócrates uniu o pensar com o agir, sem subordinar e hierarquizar uma atividade à outra:
Essa união não deve ser entendida como a ânsia de aplicar seus pensamentos ou estabelecer padrões teóricos para a ação, mas tem o sentido muito mais relevante do estar à vontade nas duas esferas e ser capaz de passar de uma à outra aparentemente com a maior facilidade, do mesmo modo como nós avançamos e recuamos constantemente entre o mundo das aparências e a necessidade de refletir sobre ele. (LM, p. 167/126).
Sócrates, era “um cidadão entre os cidadãos”, que não cedeu à tentação comum aos filósofos de “... virar as costas para o mundo e caminhar em direção ao eu”. (LM, p. 157/119). Sócrates pensava de frente para o mundo, levava uma vida mundana e, por causa da atividade do pensar, soube se orientar entre os homens, preferindo sofrer do
239 Arendt expressou sua compreensão da relação entre as duas atividades numa conferência sobre sua
obra em 1972, no Canadá. “Eu realmente acredito que pensar tem alguma influência sobre a ação. Mas sobre o homem que age. Porque é o mesmo eu que pensa e o mesmo eu que age... Eu realmente acredito que se pode agir somente em concerto e realmente acredito que se pode pensar somente por si mesmo”. (OnA, p. 304-5).
240 “Há mais do que uma mera distinção entre pensar e agir. Existe uma tensão inerente entre esses dois
tipos de atividade.” (RJ, p. 105/170).
241 “Ele (Hegel) estava convencido de que “pensar é agir” – exatamente o que essa ocupação
eminentemente solitária nunca pode fazer, já que só podemos agir “em conjunto”, em companhia de e em concordância como nossos pares, e, portanto, em uma situação existencial que efetivamente impede o pensamento”. (LM, p. 91/71).
138 que praticar o mal. Sócrates, nesta leitura de Arendt, mostra a possibilidade de uma existência moral para além do ethos porque o comportamento não é ditado por padrões de conduta aceitos acriticamente; pelo contrário, Sócrates exerce o pensar crítico e dissolve as verdades cristalizadas dos costumes sociais, mas não dissolve a si mesmo, não cai em contradição, não é incoerente consigo. Essa coerência do ser pensante que vive o que diz e diz o que vive revela que o pensamento é uma retirada do mundo que qualifica a vida mundana.