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Problem formulation

Se a Escola Livre de Sociologia e Política remete diretamente à figura de Roberto Simonsen, sua importância, contudo, é compartilhada com Cyro Berlinck, seu secretário e idealizador inicial da instituição.

A Escola de Sociologia e Política foi criada para explicar por que São Paulo perdeu a Revolução de 1932. São Paulo era o Estado mais rico, a chamada locomotiva do Brasil, e, de repente, perdeu a guerra. Era necessário entender a derrota de São Paulo. Esses intelectuais diziam: “Mas não é São Paulo que nós não entendemos, nós não entendemos o Brasil!”. Na busca de uma compreensão por essa crise, essa catástrofe que foi a derrota paulista, meu pai, Cyro Berlinck, pensou em criar um centro de estudos voltados para a questão de compreender o Brasil52

(BERLINCK, 2009, p.163).

Segundo o relato de Manoel Berlinck (2009), seu pai, Cyro Berlinck, ao expressar seu desejo de criar um centro de estudos a Simonsen, recebeu deste um catálogo da Sorbonne que ganhou de Lévy-Bruhl onde constava o termo “sociologia”. Apesar de ler pela primeira vez sobre o que era “sociologia”, convenceu seu patrão de que esta disciplina seria o meio para “explicar por que o Brasil era desse jeito” (p. 163-4).

Deste modo, teve início o primeiro movimento para a implantação da Escola, que se instalou no segundo andar do prédio da Escola de Comércio Álvares Penteado, sob o financiamento de Roberto Simonsen. Apesar da estrutura pequena, a instituição logo recebeu seus primeiros alunos, oriundos da elite paulistana:

52 Esta citação, assim como as demais, é referente à entrevista que Manoel Tosta Berlinck deu para Sônia

No começo, a Escola funcionava à noite, porque era para pessoas mais velhas, não para jovens. Vieram intelectuais que tinham participado da Revolução de 1932 e estavam completamente desentendidos a respeito da realidade brasileira. Desde o início, a Escola tinha alunos por curso. Iam e vinham assistir o curso (...) era muito flexível isso. Por isso, chamava-se “Escola Livre” (BERLINCK, 2009, p.164). Simonsen assumiu de imediato a cadeira de História Econômica do Brasil (que se tornou o título do seu livro publicado posteriormente e resultante de suas aulas). Os outros professores, em sua maioria, eram docentes da recém-fundada Universidade de São Paulo, tais como Emílio Willems, Noemy Silveira Rudolfer, Robert Mange, Alberto Americano. Foi neste contexto que surgiu, dentre os nomes selecionados, a figura de Raul Briquet:

Raul Briquet era obstetra e professor da Faculdade de Medicina; foi também da antiga Faculdade de Higiene, que virou Saúde Pública. Ele também era interessado em psicologia social, que sempre foi uma área muito importante na Escola.

Nessa época, não havia separação entre as profissões de ciências humanas ou ciências sociais. Com exceção de medicina, engenharia e direito, que eram profissões que exigiam um saber especializado, nas demais havia uma enorme liberdade. Psicologia, filosofia, sociologia, economia, tudo isso era praticado por pessoas que se interessavam por esses assuntos (BERLINCK, 2009, p.165)

A Psicologia, sequer reconhecida institucionalmente neste momento no Brasil, limitou-se a ser ensinada por outros profissionais de áreas diversas como parte de disciplinas de outros cursos, tal como a disciplina de Psicologia Social no bacharelado do curso de Sociologia na Escola Livre de Sociologia e Política. Contudo, a despeito de seu interesse pelo tema, outra característica tornou Briquet uma figura de desejo daquela instituição: o fato de ser médico-sanitarista.

Quando estudante, meu pai trabalhou com um químico suíço que era professor na Escola Politécnica e que inventou o filtro Salus. Por meio desse químico é que conheceu Raul Briquet, via a questão da saúde pública. A saúde pública era uma enorme preocupação da classe dominante brasileira nessa época; o saneamento das cidades era um problema complicado e sério. Quando se criou a Escola de Sociologia, a idéia de trazer um sanitarista para ajudar a compreender a realidade brasileira era da maior importância (BERLINCK, p. 165-6).

Deste modo, o primeiro curso de Psicologia Social idealizado no Brasil, estava sob o pano de fundo do desejo da elite paulistana em compreender a realidade brasileira após o amargo fracasso na Revolução de 1932, como também pelo olhar do sanitarismo, que na época entrelaçava-se com a política eugênica, donde se lograva a máxima “sanear é eugenizar” (KOBAYASHI; FARIA & COSTA, 2009, p. 314).

Além das doações do próprio bolso - como também daquelas provenientes dos seus patronos, os quais viviam em torno daquele círculo intelectual - Simonsen também obteve

doações de fundações que instalavam um audacioso projeto imperialista na América Latina, tal como a Rockfeller Foundation e a Carnegie Corporation of New York. Ambas as instituições foram acusadas de realizar pesquisas científicas que visavam à limpeza étnica na população dos Estados Unidos, antecipando o projeto da busca por uma “raça superior” encabeçado pelo nazismo alemão anos depois (KOBAYASHI; FARIA & COSTA, 2009). Dos recursos provenientes destas fundações, a Escola Livre de Sociologia e Política saiu de uma posição de baixos recursos53 para a sua segunda fase - liderada por Donald Pierson - com

uma intensa produção de pesquisas de campo e publicações, somada ao intercâmbio de alunos com universidades norte-americanas.

Simonsen, abertamente avesso ao comunismo – inclusive sendo responsável pela demissão de Horace Davis após ficar ciente de sua ligação com o Partido Comunista dos Estados Unidos – viu sua instituição perder seu grande líder, Donald Pierson em 1952, como também seus recursos de origem norte-americana como efeito da política macarthista imperialista (SIMÕES, 2009, p. 41-42), levando a Escola anos depois a perder sua posição de prestígio como centro de uma elite intelectual no país.