• No results found

Roberto Cochrane Simonsen, engenheiro, político e industrial de renome, é considerado o grande mentor da Escola Livre de Sociologia Política. Em seu discurso inaugural na fundação da Escola, compilado depois no ensaio nomeado Rumo à Verdade (1933), o mesmo traz a missão de desenvolver a Sociologia no país evitando a doutrinação e o academicismo, voltada para a realidade prática e para a verdade objetiva, o que lhe elevaria ao patamar das outras ciências, tal como a Biologia (VECCHIO, 2009, p. 14).

Neste ensaio, Simonsen também argumenta sobre a “necessidade de formação de lideranças no Brasil”, partindo da interpretação de que a crise mundial49 de sua época era

reflexo de um desenvolvimento “desarmonioso” da civilização como um todo, que não foi capaz de “justapor às conquistas inigualáveis obtidas no campo da ciência, uma estrutura econômica-política baseada no estudo profundo do organismo social, dotada de sentimentos

de voto favorável à reeleição de Lula: “Eu não tenho o menor interesse na opinião do povo. Quase sempre ele está errado. Aliás, a opinião de muito pouca gente me interessa. A democracia sempre foi salva pelas elites e posta em risco justamente pelo “povo”, essa entidade. Vai acontecer de novo. Lula, reeleito, tende a levar o país para o buraco. E uma elite política terá de ser convocada para impedir o desastre (...) O “povo”, nos assuntos realmente importantes, não apita nada. É uma sorte! Aqui e no mundo inteiro. Não apitou quando se fez o Plano Real. Ou nas privatizações. Teria votado contra a venda da Telebrás ou da Embraer. Junto com Lula. Estaríamos sem telefones e sem produzir aviões. Os petralhas sabem: fico aqui queimando as pestanas, tentando achar um jeito de eliminar o povo da democracia. Ainda não consegui. Quando encontrar, darei sumiço no dito-cujo em silêncio. Ninguém nem vai perceber… Povo pra quê?” (AZEVEDO, R. É Lula de novo com a culpa do povo. Editora Abril Veja, São Paulo, 29 out.. 2006. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula- novo-com-culpa-povo/. Acesso em: 13 abr. 2015).

espirituais e morais em perfeita harmonia com o desenvolvimento da técnica” (SIMONSEN, 1973, p. 463).

Logo em seguida, questiona quanto o desenvolvimento material do mundo, a despeito de outras esferas, não criou na verdade uma “sociedade sem alma”. Partindo de uma visão claramente ancorada no positivismo comtiano, concebe este desequilíbrio como um desvio na unidade dos povos, em sua harmonia:

Durante o curso dessa civilização conseguiu-se um relativo estado de equilíbrio para a maioria dos povos e um aumento considerável do seu bem-estar pelos grandes progressos da ciência. A discordância, porém, da evolução econômica, em face da evolução política e social e o esquecimento do princípio da unidade do mundo decorrente da interdependência sempre crescente entre os povos, conduziu-nos ao estado atual em que assistimos (SIMONSEN, 1973, p. 463-464)

No caso, quanto maior o grau de desenvolvimento da civilização, maior seria o efeito desse desequilíbrio. Desta maneira, Simonsen afirma que no caso do Brasil, por seu pequeno avanço civilizatório, pouco se avançou, e em conseqüência, pouco também “se errou”. Deste modo, caberia ao país apreender de forma científica a crise mundial naquele momento, para assim, pensar em si-mesmo:

No entanto, para os que sabem observar, o mundo oferece neste instante uma extraordinária demonstração experimental para os estudos sociais, políticos e econômicos. A revolução brasileira veio provar como é minguado o nosso contingente de homens de Estado e salientar a profunda ignorância em que vivemos da nossa verdadeira situação social (SIMONSEN, 1973, p.464).

Segundo este ponto de vista, a Escola idealizada por Simonsen seria responsável por dar uma base à ação das instituições brasileiras, tendo por fim último, a evolução social do nosso meio e da nossa raça.

Ora, uma escola como a que aqui imaginamos, visa promover e sistematizar no Brasil o estudo da sociologia nacional, em harmonia com pesquisas orientadoras das instituições políticas, jurídicas e econômicas mais adequadas ao nosso meio e à nossa raça. A ação dos técnicos especializados saídos das nossas escolas, já é hoje insuficiente, se não for inspirada por uma orientação segura e zeladora de uma sadia evolução social (SIMONSEN, 1973, p.464).

Esta evolução teria como ponta de lança as elites, representantes da intelectualidade e do pensamento científico. No caso, quanto maior o nível de complexidade das sociedades, maior seriam os “atributos sociais” exigidos para sua reprodução e seu progresso. Desta maneira, maior seria a exigência do povo quanto a seus representantes, levando assim o autor à discussão sobre a atual “tarefa das elites” na época:

...Se assim é para seus membros, estes, agindo em conjunto, deverão ser mais exigentes na escolha dos elementos de consulta, de direção e de orientação; cada vez precisam, portanto, ser mais numerosas e mais preparadas as elites das sociedades que querem guardar uma posição de vanguarda.

A formação das elites deve pois constituir uma das preocupações primaciais das sociedades modernas. Qualquer instituição social, qualquer escola doutrinária que aspire ser adotada, qualquer associação industrial ou comercial para colimar seus objetivos, todas, necessitam e exigem, cada vez mais, elementos de elite na sua direção. Possuindo escolas superiores de incontestável valor, São Paulo precisa agora formar as suas elites, educadas nas ciências sociais50 e no conhecimento das

verdadeiras condições em que evolui a nossa sociedade, como meio de mais facilmente se aparelhar à conveniente escolha de seus homens de governo

(SIMONSEN, 1973, p.465).

Seria a missão desta elite científica, destes homens de sciencia que aparelhariam as instituições públicas, a compreensão do movimento natural da sociedade, de suas leis51, para

assim apreender as condições de evolução e modernização da sociedade. A evolução social, acompanhada de progresso material e humano, não implicaria necessariamente em igualdade social. Daí que Simonsen debate, em novo tópico, aquilo que considera “a ilusão da igualdade”:

Não cultivemos a ilusão de uma possível igualdade social e material entre os homens. A hierarquia social, que se estabelece em função da capacidade dos valores individuais, nunca poderá desaparecer, em harmonia, aliás, com tudo quanto se

observa na natureza.

Podemos apenas influir para que, cada vez mais, essa hierarquia promane, principalmente, dos valores reais dos indivíduos, e não dos bens materiais que possuam. Essa hierarquia, que quase se apresenta como necessária, nas sociedades, para a formação de sua própria estrutura, não implica, de forma alguma, a ausência de uma rigorosa justiça social, o desconhecimento da paridade entre os homens perante a lei e sob o ponto de vista antropológico, e quanto ao conceito de dignidade, dos direitos políticos e dos sentimentos religiosos (SIMONSEN,

1973, p.466).

A igualdade social e material seria uma ilusão. A hierarquia social uma necessidade na formação da estrutura que compõe o organismo social e de suas partes funcionais. Sob a mesma lógica da natureza, esta hierarquia necessária teria como princípio os valores individuais de cada um, seus méritos, o que permitiria que qualquer indivíduo, independente

50 É inevitável a comparação do pensamento da elite na década de 30 com a atual. Enquanto Simonsen defendia

o ensino e a pesquisa em Sociologia neste momento de entrada do país no capitalismo industrial, hoje o que se vê, na nova onda neoliberal no Brasil, é um certo repúdio à pesquisa sociológica, como uma dimensão “inútil” do conhecimento: em reunião com sua equipe em abril de 2016, o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, criticou a Fapesp por supostamente gastar em demasia com o financiamento de pesquisas de base sem “utilidade prática”, tais como a da Sociologia, e não incentivar mais as pesquisas na área da saúde, tais como as destinadas ao estudo do zika vírus. (ARBEX, T. Alckmin critica Fapesp por pesquisas 'sem utilidade prática'. Folha de São Paulo, São Paulo. 27 abr 2016 Disponível em:www1.folha.uol.com.br/ciencia/2016/04/1765028- alckmin-critica-fapesp-por-pesquisas-sem-utilidade-pratica.shtml Acesso em: 30 abr 2016)

51 Raul Briquet, no livro Psicologia Social, atribuirá este papel também ao “psicossociólogo”, ancorado nos

de sua origem social, ascendesse ao topo da pirâmide social. Todos podem ser iguais, contanto, que apenas formalmente em lei. A justiça social poderia ser alcançada com a condição de não pôr em questão a desigualdade estrutural entre as classes.

Deste modo, Simonsen traz o típico pensamento humanista e liberal de sua década, presente sobretudo no discurso dos defensores da Escola Nova, que buscavam um tipo de justiça social com base no mérito, onde supostamente a pirâmide social seria composta segundo os dons naturais de cada indivíduo, e não por sua raça, privilégio de sangue ou qualquer outro fator externo.

Para o desenvolvimento de uma nação à modernidade, seria pressuposto os dons naturais desses indivíduos, que exerceriam determinada função na estrutura social conforme a sua harmonia. Todavia, esta responsabilidade não se daria apenas na esfera da individualidade, mas numa totalidade específica, em nível nacional:

Vimos que os níveis de vida, dentro das sociedades normalmente desenvolvidas, estão em íntima ligação com as funções sociais, que aí se registram. Por outro lado, o exercício do trabalho depende não só da capacidade e dos dons naturais dos indivíduos, como também da prosperidade geral. Influem, portanto, nos níveis de vida das populações causas individuais e causas nacionais (SIMONSEN, 1973,

p.466).

Esta responsabilidade nacional sobre a prosperidade da sociedade e dos indivíduos se daria, sobretudo, no âmbito do trabalho. Caberia ao Estado dar a garantia e formar uma consciência coletiva da função social do trabalho, da sua importância, para a evolução social:

À medida que melhor se esclarecem os fenômenos sociais, mais evidente se torna a responsabilidade dos Estados modernos na promoção da prosperidade econômica, pela ação política interna e externa, e pela ampliação, em seus domínios, das

possibilidades de trabalho.

Os Estados, que assim agem, criam dentro das suas fronteiras, a consciência da função social do trabalho como elemento básico na formação da economia nacional.

Propiciam um ambiente favorável, enfim, um harmonioso entrelaçamento entre as forças espirituais, morais e materiais, sem o que jamais se poderia alcançar uma evolução social de longo e pacífico processo (SIMONSEN, 1973, p. 467-8).

Desta maneira, Roberto Simonsen traçou o que seriam as linhas de base do pensamento que motivou a criação da Escola Livre de Sociologia e Política. A instrução popular seria importante, contanto que não mais do que a formação de uma elite intelectual que levasse a nação à um nível superior de civilização. A justiça social seria importante, contanto que não modificasse o organismo social que se estrutura em partes funcionais desiguais necessariamente. A dignidade humana e os direitos políticos seriam garantias

universais, assim como – a despeito da contradição - a ascensão social baseada no mérito conforme a lógica da natureza. Por fim, a apologia do trabalho, como base da prosperidade de uma nação, deveria ser realizada pelo Estado. Este deveria garantir possibilidades de trabalho a todas as partes funcionais do organismo social, tanto das relativas ao trabalho manual, quanto do intelectual. Esta última classe, a elite intelectual, seria a vanguarda que lideraria o avanço civilizatório a partir da análise científica da realidade social e pela condução das instituições políticas, sociais e econômicas. Pelo consenso e pela harmonia entre as esferas espirituais, morais e materiais que constituem o todo social, a evolução do meio e da raça estariam garantidos.