6. Prognoser 2021 – 2031
6.1 Inntjening
6.1.4 Prispremie
A psicanálise winnicottiana também pode trazer algumas contribuições em relação à delinquência enquanto processo psicossocial.
Winnicott, entre 1939 e 1964, trabalhou com crianças e adolescentes em situação de asilamento e com suas experiências e observações escreveu sobre a violência e a agressividade de crianças e adolescentes e sua relação com a delinquência e a tendência anti-social. Ele conta que,
(...) de todas as tendências humanas, a agressividade, em especial, é escondida, disfarçada, desviada, atribuída a agentes externos, e quando se manifesta é sempre uma tarefa difícil identificar suas origens” (Winnicott, 1987, p.89).
A agressão, segundo ele, possui dois significados: é uma reação à frustração e também uma das muitas fontes de energia do individuo (ibidem, p.97). Seja física ou psíquica, a agressão é uma das energias constitutivas da infração cometida pelo adolescente. Para Winnicott, a agressão é uma das formas com as quais o indivíduo pode se apresentar como uma pessoa real e viva, sendo a tendência antissocial objeto de estudo como ele coloca na sua conferência intitulada “A tendência anti-social”, proferida em junho de 1956.
Para ele, a tendência antissocial não é um diagnóstico e não há como se comparar com a neurose e a psicose. “A tendência antissocial pode ser encontrada num indivíduo normal ou num indivíduo neurótico ou psicótico” (ibidem, p.129). Uma das características da tendência antissocial é o fato do meio ambiente ser relevante na origem das atitudes anti-sociais manifestas do indivíduo, sendo que, um dos focos para o entendimento desse potencial anti-social é a questão da privação no meio ambiente herdado pelo indivíduo logo ao nascer.
A privação é a qualidade de ausência de características imprescindíveis da vida em família. É por meio dessa privação, que o individuo tornará manifesto “certo grau do que poderia ser chamado de complexo de privação”. A manifestação do comportamento antissocial será realizada no ambiente doméstico ou até mesmo em esferas correlatas de convívio humano.
A tendência antissocial poderá tomar dois rumos: um é na direção caracterizada pelo roubo e, o outro, pela destrutividade.
Numa direção, a criança procura alguma coisa, em algum lugar, e não a encontrando, quando ainda tem esperança, vai buscá-la em outro lugar. Na outra, a criança está procurando aquele montante de estabilidade ambiental que suporte a tensão resultante do comportamento impulsivo. (Winnicott, 1987, p. 132)
Por conta dessa segunda perspectiva é que a criança provoca reações no seu ambiente.
Winnicott (1987, p.135) mostra que a tendência antissocial manifesta-se por meio do roubo, mentira, incontinência e por um comportamento caótico. O furto está no centro da tendência antissocial, associado à mentira e que, em sua base, está a perda de uma boa experiência inicial, isto é, uma experiência bem sucedida de cuidado para com o indivíduo realizada pela mãe ou substituta da mãe.
Ao tratarmos dos estágios iniciais do desenvolvimento emocional do ser humano, somos capazes de orientar nossa observação e cuidado em relação aos adolescentes. Portanto, para o pesquisador inglês, o cuidado inicial nos primeiros anos de vida do bebê por uma mãe suficientemente boa será o sustentáculo para o não-desenvolvimento de atitudes antissociais pela criança e, posteriormente, pelo adolescente.
Os cuidados maternos para que haja uma integração do indivíduo ou uma constituição do si-mesmo como identidade são específicos. Tratam-se do holding, que é sustentar, segurar, realizar o acolhimento; handling, manejo físico do bebê, ou seja, são os cuidados com o asseio, alimentação; e, o object-presenting, apresentação de objetos pela mãe ao bebê. Elza Dias expõe em seu “A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott” que ao mesmo tempo em que a mãe facilita cada uma das tarefas do bebê, “o primeiro mundo em que o bebê habita é necessariamente um mundo subjetivo, cuja característica central é ser confiável” (2003, p. 168).
Para Winnicott (1990, p.29) todo ser humano “é uma amostra-no-tempo”, tendo uma tendência inata ao amadurecimento. Mesmo não sendo linear, este amadurecer só ocorre a partir de determinadas etapas cumpridas e por meio de um ambiente suficientemente bom.
Por meio de um ambiente facilitador, dar-se-á a criatividade originária, outro conceito determinante na teoria winnicottiana, fazendo parte do desenvolvimento do ser humano rumo à sua plenitude, à sua integração.
A criatividade originária, segundo o pediatra, é como o seu próprio nome diz: está desde o início, está na origem do início da vida. Esta função é parte do modo com que o ser humano se coloca e se relaciona no mundo, ou seja, é uma criatividade referente ao
(...) modo como o indivíduo se relaciona com o sentido de realidade que caracteriza um dado momento do amadurecimento: a isto se acresce, com o tempo, a capacidade de transitar pelos vários
sentidos de realidade sem perder o contato com o seu mundo pessoal e imaginativo. (Dias, 2003, p. 169-170)
O bebê dotado de criatividade originária, provido dos cuidados de uma mãe suficientemente boa e com seu organismo físico em pleno funcionamento, por meio da sua primeira mamada, é que vai criar o “mundo”. O gesto espontâneo da mãe ao oferecer o peito ao bebê por conta de seu choro, na verdade, está fazendo com que o bebê crie “aquilo que encontrou” (Dias, 2003,p.170). Assim, a mãe introduz esse bebê na ilusão da onipotência. Sem essa atividade primária e primordial, o mundo não existe, não tem significado.
Em seu devido tempo, pelo trajeto do próprio amadurecer, o bebê, aos poucos, criará seu mundo exterior, estando capacitado para interagir com essa realidade externa, “sem que isto represente ameaça para o si-mesmo pessoal” (ibidem, p.174). Ou como Winnicott menciona, “a criatividade é o fazer que, gerado a partir do ser, indica que é, está vivo” (1989, p.31).
Não se trata de uma qualidade ou característica a ser adquirida, mas sim de um processo que se dá por meio de um ambiente facilitador junto às questões orgânicas do desenvolvimento humano: a criatividade é intrínseca à vida. Para o pediatra, criatividade não se apreende por meio de cursos ou programas específicos, pois é uma situação dada ao humano quando ele vive o seu ser e, assim, consegue estar no mundo. Respirar, limpar o chão, escrever uma carta são atos criativos, por exemplo, porque se trata da “capacidade de criar o mundo” (Winnicott, 1989, p.32).
Da onipotência primária do bebê ao ato criativo do adolescente há algo que perpassa ambos: a ilusão. Nesse sentido, a mãe suficientemente boa “conduz” o bebê às pequenas frustrações e, assim, ele adquire uma espécie de resistência ao mesmo tempo em que elabora os objetos externos e internos ao seu “eu”. Com o adolescente, a ruptura ou o “deixar-se ir” do mundo infantil provoca um estado tensionado, onde é preciso tempo para que ocorra uma homeostase psíquica.
Segundo o psicanalista inglês, a criança saudável ao chegar na fase da adolescência estará instrumentalizada por seus próprios métodos pessoais para o atendimento ou aversão aos novos sentimentos e situações com as quais a adolescência está envolvida. O adolescente é um indivíduo essencialmente isolado
(Winnicott,1987, p.152) e a partir desta posição de isolamento é que ele se lançará ao mundo e poderá criar relações. Ou seja,
(...) são as relações individuais, uma por uma, que levam finalmente à socialização. O adolescente está repetindo uma fase essencial da infância, pois o bebê também é um isolado, pelo menos até que seja capaz de estabelecer a capacidade de relacionamento com objetos que estão fora de seu controle mágico. O bebê torna-se apto a reconhecer e a acolher com satisfação os objetos que não são parte integrante dele, mas isso é uma grande façanha. O adolescente repete essa batalha. (...) As relações devem ser primeiramente ensaiadas com coisas subjetivas. (id., ibid., p.153).
É por isso, que muitas vezes, observamos jovens agrupados por conta de seus modos de expressão, seja artístico-cultural, seja ideológico-político. É por meio do agrupamento desses interesses que os adolescentes ensaiam uma nova forma de viver a vida. O jovem está empenhado em descobrir o próprio eu para que lhe possa ser fiel, ou seja, “transita por uma zona de alto risco vital, alternando atitudes e modelos até lograr a integração, a criação de compromissos e o descobrimento da própria identidade” (Abadi, 1998).
No entanto, um adolescente que sofreu privação em sua infância possivelmente herdará, como resultado dessa ausência de cuidado, uma tendência antissocial.
Ainda de acordo com o autor, um jovem com tendência anti-social e, consequentemente, com atos delinquentes não deve ter um tratamento baseado somente em psicanálise, mas a internação especializada, ou o tratamento psicanalítico coadjuvante da assistência ambiental especializada (Winnicott, 1987, p.128).
Os adolescentes da Fundação CASA de São Paulo estão privados de sua liberdade devido a uma atitude antissocial realizada anteriormente à sua internação. O jovem foi julgado e conforme a gravidade da infração cometida lhe foi dada uma medida socioeducativa.
Ao mesmo tempo em que se produz um ato social, Winnicott (1987, p.130) vê o mesmo ato como um sinal de esperança no tratamento desses mesmos indivíduos. Os testes referentes à própria capacidade em realizar atos – sejam
antissociais ou não- e o cuidado exigido pelo adolescente são as atividades que farão com que ele possa redescobrir novamente os impulsos do inconsciente, inclusive, para testá-los. Para o autor (1987, p.137), é a estabilidade do novo suprimento ambiental que dá a terapêutica. Isto é, por meio da experimentação desses impulsos e do cuidado realizado pelo ambiente é que se poderá dar uma nova oportunidade à ligação egóica que, no passado, foi rompida ou que não existiu, e que resultou na tendência antissocial.
O psicanalista inglês, em suas obras, não menciona uma escala linear do desenvolvimento humano. Porém, observa uma tendência inata ao amadurecimento. Da dependência absoluta, quando bebê, às dependências relativas e independência, quando do alcance da maturidade, o adolescente, em conflito com a lei ou não, só pode ser avaliado se considerarmos o meio ambiente na qual esteve inserido.
Para Winnicott, o adolescente é um ser isolado em suas angústias e em seus afetos. “O que aponta para o fato de que o adolescente repete os padrões dos estágios primitivos28 é que ele padece do sentimento de irrealidade, e sua principal luta diz respeito a sentir-se real” (Dias, 2003, p.293). Atingir a maturidade significa: manter-se vivo; aceitar a impotência e a imperfeição e, poder envelhecer e morrer. Com a morte conclui-se o ciclo.
A dificuldade em conceber e aceitar diversas situações e conflitos internos é próprio da natureza humana. Harmonizar ou criar um equilíbrio entre as realidades internas e externas e criar métodos onde o individuo possa assumir seus impulsos destrutivos é o desafio do terapeuta ou cuidador do indivíduo antissocial.
Estudos com o intuito de entender a psicopatologia do crime praticado por adolescentes têm sido crescentes, tamanha a exposição da singularidade, e, muitas vezes, da crueldade com que os adolescentes são expostos e, ao mesmo tempo em que a sociedade sente-se ameaçada.
Nessa perspectiva, Spagnol (2005) observa uma crescente onda de atos infracionais cometidos por jovens de classe média e alta. O crime que, antes, era visto como uma reação do binômio pobreza-falta de estrutura, atravessa as classes sociais, demonstrando que há mais que uma razão estritamente econômica para se aventurar em um caminho desviante da norma. Segundo o autor e suas impressões
28 Onipotência, afastamento da família e fortalecimento do eu são alguns pontos colocados nos estágios primitivos da Teoria do Amadurecimento de D. W. Winnicott.
durante a coleta de dados de sua pesquisa, para o adolescente há uma espécie de aura de herói até mesmo quando se mata:
Em diversos momentos da pesquisa pude constatar que os jovens se sentiam eufóricos em relatar com riqueza de detalhes os assaltos, as mortes, as ações. Era praticamente impossível anotar tudo o que falavam: as entradas nas casas, as fugas, as mortes das pessoas como se tivessem cometido atos heróicos e a aceitação por parte dos outros, tudo reafirmava esse heroísmo. Apesar de internados na Febem, o relato possuía a mesma emoção. A internação era apenas um detalhe, como se houvesse a necessidade de reafirmar na negação. Há momentos esparsos de resignação, de solidão, mas que são rapidamente suplantados pelas descrições de seus crimes e pela esperança de sair da instituição. São momentos em que esses jovens transcendem um dilema existencial que é relacional e interno (o que sentem) à identidade exterior (o que pensam dele) (Spagnol, 2005, p.289).
O sentir-se abandonado não é exclusivo do adolescente da periferia, alerta Spagnol. A imagem negativa que o jovem tem de si acompanha o seu sentimento de abandono. Os relatos e o modo de expressão e sentimentos tanto do jovem da classe média quanto àquele da periferia são os mesmos. Daí, demonstrarem “(...) num discurso misto de revolta e orgulho: revolta por estarem “abandonados” nessa situação e orgulho pela tentativa de impor-se por esse negativismo” (2005, p.289- 290).
A ocorrência do abandono, maus tratos, abuso sexual, uso de drogas, repetência escolar, desemprego, morte de familiares são também fatores de risco apontados por Dell´Aglio et al (2005) para a violência presente na trajetória de desenvolvimento de 50 adolescentes do sexo feminino, antes que elas praticassem ato infracional.
Apesar de o risco ser considerado uma característica eminentemente moderna (Mendola, 2005), constatamos que o cuidado é de grande importância no desenvolvimento psíquico e emocional do indivíduo e sua falta acarreta prejuízos no sujeito como um todo, inclusive, no que concerne à própria liberdade.
Mizrahi (2010) em seu livro “A vida criativa em Winnicott: um contraponto ao biopoder e ao desamparo no contexto contemporâneo” observa que a falta do
cuidado ambiental é o que ocasiona a tendência antissocial e a delinquência. Por outro lado, é o cuidado externo que possibilita a internalização de “um ego capaz de cuidar de si” (Mizrahi, 2010, p.133), isto é, um ego fortificado que tenha a possibilidade de se desviar de circunstâncias frustrantes que podem levar o sujeito a atitudes delinquentes e anti-sociais.
A autora esmiúça que a ambivalência entre segurança e risco nas quais convivemos permeia todo nosso modus operandi, unindo amor e ódio. Porém, para que isso se manifeste de forma socialmente aceitável é preciso espaços onde se possa expressar a agressividade, sem que o ambiente rompa com o indivíduo, tratando este sujeito de modo espontâneo, acolhedor e, ao mesmo tempo, verdadeiro.
Aproximar Foucault e Winnicott, nessa seara, se deve à
necessidade de pensar as implicações políticas desse novo modo de compreender as relações humanas, onde a ênfase está no acolhimento à vitalidade e não no confronto coercitivo com a norma e o desamparo. (id., ibid., p.134).
A psicanalista constata que Winnicott propõe um olhar distinto ao Outro, apresentado-o como uma “alteridade transicional que satisfaz, ao mesmo tempo, os anseios criativos internos” (Mizrahi, 2010, p.135). Isso quer dizer que este outro constitui também a criatividade que é inerente ao indivíduo na medida em que é responsável pelo ambiente facilitador.
Mizrahi percebe que Winnicott é cauteloso na apresentação dos saberes médicos e pedagógicos e sua intrínseca relação com a vida humana em si quando expõe conceitos como “desenvolvimento”, “preocupação materna”, “imaturidade”. Estes são conceitos que possuem relação direta com o aspecto emocional das pessoas e, que são necessidades preenchidas pelo ambiente suficientemente bom. A questão é que Winnicott não explicitou os desdobramentos políticos dessa responsabilidade conferida ao outro. Quem faz essa ponte é Foucault quando desenvolve seus estudos a partir das técnicas de si e de cuidado de si, colocando a amizade como uma das bases de alicerce para a “execução” deste cuidado, vendo
(...) na amizade uma troca intersubjetiva que abre espaço para a criação, contrapondo-se assim ao empobrecimento afetivo daquelas relações normatizadas – encontradas na família, nas instituições
socioeducativas ou na atual obediência cega aos imperativos econômicos. (Mizrahi, 2010, p.135)
Se é o ambiente facilitador que oferece a possibilidade do outro ser um indivíduo integrado, por sua vez, o ambiente suficientemente bom está imerso nas relações de poder, seja na sociedade disciplinar como por meio das ações do biopoder em si.
Assim,
se é preciso, com Foucault, admitir que a criatividade pode ser prejudicada pela rigidez das identidades universais, que negam nosso potencial de transformação pessoal nas relações sociais, Winnicott parece nos mostrar, por outro lado, que a exigência de uma total abertura para a mudança e a reinvenção torna-se um risco normativo toda vez que negamos ao corpo vivido certos limites e pontos de parada na abertura para o outro e para a sociabilidade. (Mizrahi, 2010, p.136).
Foucault (2006, p.158) inclusive afirma que a sustentação oferecida pelo outro por meio do mestre é indispensável na prática de si.
Outro ponto bastante interessante apresentada por Mizrahi refere-se à dupla mãe/bebê, modelo cultural contemporâneo, que segundo Winnicott oferece a condição de ser possível um prazer criativo, para ambos, sem que se imponha a individualidade de um sobre o outro. Foucault, por sua vez, vai buscar entre os gregos, por meio da amizade, esta mesma possibilidade de relação.
Trata-se, para os dois autores, de um tipo de relação em que o outro nem é inteiramente igualado ao indivíduo, pois resiste a ele e mantém a sua própria vitalidade e poder, nem o confronta frustrando seus anseios internos (Foucault, 2010, p.143).
Nestes dois casos, poderemos notar que as resistências externas promovidas pelo ambiente são o veículo onde a própria subjetividade pode se manifestar de forma plena, sendo traduzidas como cuidado. A amizade e sua função política, provenientes dos estudos de Foucault, seria um conceito paralelo ao de facilitação ambiental proposta por Winnicott.
Deste modo, em ambos os autores, tem-se segundo Mizrahi (2010, p.162) “uma concepção que não pretende incutir de fora a moralidade, mas sim oferecer ao indivíduo um ambiente relacional de base, capaz de equipá-lo para as eventuais armadilhas que encontrará no mundo externo”. A amizade seria o holding necessário para o ser criativo.
1.5. Yoga como cuidado de si
Ao nos depararmos com o termo “yoga”, uma das primeiras imagens que nos vêm é a de uma pessoa realizando exercícios físicos quase que, em uma espécie de alongamento. Porém, muito mais que uma atividade com o corpo, o yoga tem uma íntima ligação com a aquietação da mente, tornando seu propósito muito mais mental e psicológico do que físico (Eliade, 1996; Kuvalayananda, 2005: 2008; Taimni, 2004; Souto, 2004).
De origem indiana, yoga é uma palavra do sânscrito, língua clássica criada há cerca de 1500 a.C, descendente da raiz “yug” que significa “ligar”, “manter unido”, “atrelar”, ‘unido”, “compartilhamento”. Inclusive foi a raiz sânscrita que originou o termo latino jungere (libertar-se do jugo). Portanto, yoga é, libertar-se do jugo da mente e do corpo e, para alguns estudiosos e mestres, a ligação do microcosmo (o ser humano) ao macrocosmo (o universo). Mircea Eliade (1996, p.20) informa que “o vocábulo yoga serve em geral para designar toda técnica de ascese e todo método de meditação”.
Anterior à nomeação da técnica, nas ruínas de Mohenjo Daro, um sítio arqueológico de cerca de quatro mil anos no norte do subcontinente indiano, atual Paquistão, foram encontradas figuras humanas em posturas yóguicas. Com isso, pode-se inferir que a prática da meditação e/ou do yoga já fizesse parte do cotidiano das pessoas ali presentes.
Acredita-se que, entre o século 1 a.C e 1. d.C,, Patanjali tenha sido o primeiro sistematizador do que nós conhecemos como yoga hoje. Segundo Eliade, yoga é um dos seis sistemas de filosofia indianos ortodoxos, reconhecido pelo bramanismo, sendo prático e ao mesmo tempo iniciático, já que se utiliza de um saber passado de mestre (guru) a discípulo.
O médico, gramático e também filósofo indiano, Patanjali, foi quem organizou e escreveu em forma de sutras – uma espécie de fórmula, onde poucas palavras condensam um enorme conhecimento - todas as informações que eram passadas de mestre para discípulo pela forma oral. Ele revisou a teoria e a prática do yoga, indicando as práticas relativas à técnica ascética e contemplativa. É por sua obra que o yoga passou de tradição “mística” a um “sistema de filosofia” (Eliade, 1996, p.22), já que também é oriunda do Sankhya, o mais antigo darshana29 indiano.
O Sankhya, como vocábulo, significa “discriminação” e tem como foco principal decompor o espírito da matéria. O yoga se parece bastante com a tradição Sankhya, porém, há algumas diferenças entre ambas, por exemplo: o Sankhya é ateísta e acredita que a única via de salvação é o conhecimento metafísico, já o yoga é teísta (postula a existência de um deus supremo30) e vê as técnicas meditativas como instrumentos importantes para a libertação (Eliade, 1996, p.22).
É importante dizer que para o yoga e para outras técnicas soteriológicas, tudo é sofrimento. Eliade (1996, p.25) informa que “o corpo é dor porque ele é o lugar da dor; os sentidos, os objetos, as percepções são sofrimento, porque conduzem ao sofrimento; o próprio prazer é sofrimento, porque é seguido pelo sofrimento”.
Porém, apesar de tudo ser dor, a filosofia indiana não pressupõe o desespero. Ao contrário, é pela dor que se pode libertar-se. Parafraseando Winnicott, se a