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Pesquisar exige paixão e energia, além dos requisitos intelectuais para a tarefa. Um trajeto interdisciplinar prescinde comprometimento com o objeto de pesquisa para não se perder em labirintos mágicos. Exige tempo de contato. As representações sociais da prática de yoga junto a adolescentes internos da Fundação Casa, tema título deste estudo, é o resultado de meu interesse em entender o trabalho que ali realizava, desde 2006.
Quando se discute um tema sob determinado referencial teórico, é como se estivéssemos enxergando o nosso entorno, por meio de suas lentes. Utilizar Foucault para observar e estudar as relações dentro da Fundação CASA é um ato político, de minha parte enquanto pesquisadora. Trabalhar a autonomia junto aos jovens foi também contar com parâmetros winnicottianos em minha conduta enquanto instrutora.
Durante este longo período desde a primeira aula narrada e que também, inaugura esta investigação, até o presente momento, houve paisagens distintas dentro e fora de mim. Escrever é um ato íntimo.
Esses cenários foram de alegria, de tristeza, motivacionais e desprezíveis. Fui do céu ao inferno, inúmeras vezes. Há que se ter um bom sistema digestivo diria Nietzsche. E eu sempre procurei me esforçar na resistência gástrica.
Se por um lado foi preciso ter a clareza e a objetividade com que se quer pesquisar, por outro, havia sempre o risco de escorregar e cair em discursos subjetivos desnecessários ou até mesmo petulantes. A dose arisca da autocrítica é o desmesurado prazer dos masoquistas. Como tratar o tema de forma justa e crítica, sem cair em projetos salvacionistas, dando-lhe a humanidade necessária para prosseguir? Membrana porosa esta que delimita o sujeito que pesquisa do sujeito provocador da ação da pesquisa.
A imparcialidade em uma pesquisa qualitativa é possivelmente observada pelos referencias metodológicos. Na interdisciplinaridade, os limites são mais esgarçados e transparentes. Contudo, é possível criar uma espiral como forma de ancoragem de referenciais, como foi sendo apresentado nesta dissertação.
Inocentemente, as mudanças ocorridas com todos, de certa forma, também afetaram a mim. As transformações foram se dando na medida em que eu tomava contato com o campo como parte de todo o processo. A aula se realizava em um
meio ambiente que também se instaurava, na medida em que a aula acontecia. E eu, também me constituía enquanto instrutora de yoga.
Ao início desta peregrinação à Ítaca, minha representação social da prática de yoga era salvacionista. Ou seja, tinha em mente que, com mais professores de yoga dentro da Fundação CASA, percursos antes limitados somente à violência poderiam ser alterados por completos estados de consciência e em paz. Ledo engano e ingenuidade de alguém bastante otimista. Os obstáculos são muitos para quem trabalha na Fundação, seja voluntário, seja assalariado. A infra-estrutura material e de recursos humanos é sempre um ponto crítico em instituições de sequestro.
A maior limitação deste estudo foi o número reduzido de participantes e em condições também restritas de expressão. Limitações essas que a microfísica do poder e a biopolítica também estabelecem e fazem parte do jogo das próprias representações sociais que circulam. Não há como dizer que o desconhecimento seja um limitador, mas sim que o preconceito gerado pelo desconhecimento o é.
Contar com um grupo pequeno não nos dá a possibilidade de afirmar que determinadas representações sociais sejam a máxima representação de toda uma sociedade. Contudo, esta investigação possibilita alguns olhares pormenorizados sobre as potencialidades e desvios da prática de yoga, enquanto um contínuo-vir-a- ser.
Por conta das restrições, não cabe dizer que os elementos e núcleos encontrados possam ser generalizados para outras instituições mesmo com características semelhantes como prisões e hospitais.
Assim, surgem novas questões a se pensar na prática de yoga em espaços de ortopedia social: Quais seriam as vivências com o corpo se fossem adolescentes do sexo feminino que praticassem yoga em uma unidade de internação? Ou se o projeto se realizasse em uma clínica para dependentes químicos, haveria os mesmos conflitos? Como se daria a percepção do yoga frente à sua vulnerabilidade? As representações sociais da prática de yoga de quem cuida/ vigia e de quem é cuidado/ vigiado são sempre as mesmas, independente de instituição? Local, gênero e idade fazem diferença? Quais? Se os funcionários praticassem yoga como se estabeleceriam as relações entre os grupos? Que representações seriam desveladas? Mais tempo em contato com a prática traria respostas distintas? Aulas de yoga feitas por funcionários da CASA trariam novas apreensões da realidade?
Mesmo com novos questionamentos, vale salientar que esta investigação atendeu os objetivos propostos e pôde caracterizar os sujeitos do estudo, com as devidas ressalvas priorizadas pela lei quanto à integridade dos jovens, além de contextualizar e analisar a atividade de yoga dentro da unidade pesquisada. Foi possível constatar repercussões da prática no cotidiano do jovem interno e suas conseqüências no ambiente, assim como desvelaram-se algumas dificuldades para a elaboração de um estado possível de paz e bem-estar interiores. Dilatou-se a discussão além das muralhas da Vila Maria.
Neste estudo trilhas foram abertas para se pensar nas relações de controle e autonomia, do poder e da liberdade em um ambiente disciplinar. A pesquisa forneceu algumas direções para ampliar a discussão de técnicas de si como instrumento de equilíbrio e bioascese, além de contribuir para uma possível desmistificação e crítica da prática de yoga, principalmente, em instituições com foco na normalização.
Ainda é preciso que se encontrem meios e espaços adequados para alargar as perspectivas no uso de técnicas corporais com foco no controle de si e se amplie o conhecimento já existente da própria prática de yoga. Não se trata de uma técnica impossível ao simples mortal, tampouco tremendamente divino para o ser humano vulnerável. Yoga não faz milagre. Yoga é resistência, é processo vivo. Por isso a ênfase na vivência. Contato corporal por meio da prática física, não da observação.
Além disso, como não poderia ser diferente, há dúvidas que me atingem por conta da relação mestre-discípulo, da relação parresista em sala, pela possível disponibilidade de novas formas de existência. Talvez as representações sociais sejam apenas um reflexo dos processos que eu também vivi enquanto instrutora.
Assim, para que ouroboros encontrasse seu próprio rabo e se complementasse, era imprescindível que se desse voz a todos os sujeitos a fim de que todos se pudessem reconhecer enquanto parte da imensa engrenagem da qual fazemos parte, distinguindo possíveis efeitos para cada ângulo do pêndulo.
Nesta dissertação, tratou-se de caracterizar estes membros como sujeitos de direitos, com transparência e ética, a fim de encontrar o menor número possível de ruídos de linguagem tanto para quem lê, como para o participante deste estudo.
Há, porém, muito a percorrer para entender os meandros da subjetividade humana. Qual o limite da sujeição? Que corpos são esses que resistem e pelo quê se resiste? Temos o controle de algo? A qual poder-saber legitimamos enquanto
instrutores de yoga? Quais são as relações implícitas desta troca de saberes- poderes ocidentais e orientais? Como cada um se apropria deste conhecimento e se trama uma nova colcha? Tem-se um prisma a desvelar seja pela genealogia, seja pela teoria das representações sociais.
Coube neste processo de reflexão profunda, onde só talvez as Musas, para nos atermos aos gregos, uma poesia que conceda o valor de todos os gestos narrados enquanto personagens da trama, enquanto seres que vivem seus dramas corriqueiros e diários. Todos tornamo-nos gente de experiência, para chegar em Ítaca.
Ítaca
Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo, Repleto de aventuras, repleto de saber. Nem Lestrigões nem os Ciclopes Nem o colérico Posídon te intimidem; Eles no teu caminho jamais encontrarás Se altivo for teu pensamento, se sutil Emoção teu corpo e teu espírito tocar. Nem Lestrigões nem os Cíclopes Nem o bravio Posídon hás de ver,
Se tu mesmo não os levares dentro da alma, Se tua alma não os puser diante de ti. Faz votos de que o caminho seja longo. Numerosas serão as manhãs de verão Nas quais, com que prazer, com que alegria, Tu hás de entrar pela primeira vez um porto Para correr as lojas dos fenícios
E belas mercadorias adquirir:
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, E perfumes sensuais de toda espécie, Quanto houver de aromas deleitosos
A muitas cidades do Egito peregrina Para aprender, para aprender dos doutos. Tem todo o tempo Itaca na mente.
Estas predestinado a ali chegar. Mas não apresses a viagem nunca. Melhor muitos anos levares de jornada E fundeares na ilha velho enfim, Rico de quanto ganhaste no caminho, Sem esperar riquezas que Itaca te desse. Uma bela viagem deu-te Itaca.
Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. Itaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, E agora sabes o que significam Itacas.