5. Kostnadsanalyse
5.8 Andre driftskostnader
Segundo Foucault (2007, p.119), os métodos disciplinares empregados numa sociedade disciplinar são diferentes do controle exercido nos períodos de escravidão, vassalidade e ascetismo. Ele destaca, inclusive, que as disciplinas de tipo monástico têm por função realizar mais renúncias que aumentos de utilidade, além de possuírem um referencial de obediência ao outro, com o propósito de um aumento do domínio de cada um sobre seu próprio corpo. As práticas de ascese na Antiguidade eram constituídas por práticas focadas na liberdade e não no “assujeitamento” e disciplinamento. O indivíduo optava pela ascese por uma questão de escolha e possibilidade.
Em sua obra “Hermenêutica do sujeito”, curso dado no Collège de France entre 1981 e 1982, Foucault fará uma extensa explanação sobre as práticas de si, isto é, faz uma articulação entre os discursos e as condições sociais, econômicas, políticas, culturais etc, do período socrático até os séculos I e II de nossa era.
Ao descrever todos os comportamentos, condutas e práticas de si, Foucault interessa-se em observar como foram sendo criando modos de subjetivação e, consequentemente, como os indivíduos tornaram-se sujeitos.
Para Frédéric Gros, neste material pode-se observar o quanto Foucault acredita em um eu ético a priori de um sujeito de conhecimento. Nesse curso,
21 Função-sujeito é um conceito que aparece na obra “O Poder Psiquiátrico” de Michel Foucault. Grosso modo, trata-se do corpo já normalizado, assujeitado, destinado a uma função assujeitada em relações de poder.
observa Gros (2009, p.128), serão contadas as histórias dos exercícios pelas quais se constitui como sujeito, a história das técnicas de subjetivação e a história do olhar a partir do qual também se constitui o sujeito. Ou como se deu a história do cuidado de si por meio deste “lugar, e das transformações em nossa cultura das “relações consigo mesmo”, com seu esqueleto técnico e seus efeitos de saber” (Foucault, 2010, p.908). Sendo possível pensar, assim, “sob outro ângulo, a questão da “governamentalidade”: o governo de si por um mesmo em sua articulação com as relações efetuadas com algum outro (altrui) (segundo o encontramos na pedagogia, nos conselhos de conduta, na direção espiritual, na prescrição de modelos de vida” (ibidem). Ou simplificando ainda mais, “a confluência entre as técnicas de dominação exercidas sobre os outros e as técnicas de si mesmo” (Foucault, 2010, p.1071).
É com a filosofia antiga que Foucault irá percorrer esses labirintos. Seja por meio de histórias, seja por meio de conceituações.
“Epiméleia heatoû” é o primeiro conceito esmiuçado por Foucault e que a cultura grega vai definir como cuidado de si, isto é, o “fato de ocupar-se consigo, de preocupar-se consigo, etc” (Foucault, 2006 (d), p. 4). Vale ressaltar que, epimeleia designa qualquer atividade, seja esta atividade realizada pelo dono da casa ou por um príncipe incluindo, inclusive, as obrigações aos deuses e aos mortos. Epimeleia acarreta sempre uma tarefa (id., 2005, p. 56).
Já “gnôthi seautón” é o conhece-te a ti mesmo, termo mais próximo de nós desde os oráculos délficos. Para o filósofo, é no terreno do cuidado de si que se “justifica o imperativo do “conhece-te a ti mesmo”” (id.,ib., p.11). Porém, toda a cultura grega, helenística e romana perseguiu os preceitos do cuidado de si. Até mesmo Epicuro trabalhará sob a efígie de que o homem, dia e noite, deve ocupar-se da própria alma, sendo o termo utilizado para “ocupar” “therapeúein”. Terapêutico, ainda nos dias atuais, relaciona-se com o cuidado de si.
Da noção de epiméleia heatôu, cuidado de si, Foucault observa três pontos significativos: é um modo de estar no mundo, de praticar ações, de ter relações com o outro; é um modo de olhar, isto é, na medida em que se observa o eu e atenta-se ao que se pensa, realiza-se um cuidado de si e, por fim, as ações exercidas de si para consigo nas quais se assume, se modifica, se purifica e se transforma (ibid., p. 14-15). Neste último caso, podemos citar as diversas técnicas de meditação como o exercício estóico de presumir os males antecipadamente, técnicas de escrita de si e
de memorização como as Hypomnémata22, a dos exames de consciência, entre
outros.
Para tratar do surgimento da epiméleia heatôu na reflexão filosófica, Foucault utilizar-se-á do diálogo chamado “Alcibíades”, diálogo entre Sócrates e o personagem-título. A importância desse texto deve-se ao fato de ser um dos primeiros materiais ocidentais referentes a “cuidado de si” e porque se justifica cuidar de si.
Alcibíades é um homem rico e belo, mas já está na idade “crítica” dos rapazes, isto é, tem a idade pela qual já não se pode mais amá-lo como jovem mancebo23. Sócrates já o observava de longa data, contudo, será a primeira vez que irá falar-lhe.
A questão é que Alcibíades quer governar a cidade e Sócrates lhe questiona sobre sua potencialidade. Recorda-o sobre sua educação e o faz pensar sobre a educação espartana e a do rei da Pérsia, por exemplo. Faz comparações e lhe diz “queres entrar na vida política, queres tomar nas mãos o destino da cidade, mas não tens a mesma riqueza que teus rivais e não tens, principalmente, a mesma educação. É preciso que reflitas um pouco sobre ti mesmo” (Foucault, 2006 (d), p. 46). Lembremo-nos que Alcibíades havia sido educado por seu escravo e, portanto, para aquela cultura e momento histórico, ter sido educado por Péricles e, posteriormente, pelo escravo deste, lhe deixava um déficit pedagógico em relação aos outros.
A pergunta “como governar bem aos outros se não se está ocupado consigo próprio?” que Sócrates coloca a Alcibíades, mostra que a necessidade de olhar para si está ligada ao exercício do poder. E, consequentemente, questiona-se “qual é o eu de que se deve ocupar “a fim de poder, como convém, ocupar-me com os outros a quem devo governar ?”” (Foucault, 2006 (d), p.51). No fim das contas, “o que interessa a Foucault neste cuidado de si é a maneira como ele se integra num tecido social e constitui um motor da ação política” (Gross, 2009, p. 131).
Etimologicamente “epimeleîsthai heatôu” - ocupar-se consigo mesmo, preocupar-se consigo, cuidar de si -, remete a palavras como melestân, meléte, melétai, etc. Meletân gymnazéin é exercitar-se e treinar, enquanto melétai é
22 As Hypomnémata constituem-se “de um material e um marco para exercícios que tem-se que efetuar com freqüência : ler, reler, meditar, conversar consigo mesmo e com outros, etc” (Foucault, 2010, p. 941)
exercícios de ginástica. “Assim, toda a série de palavras meletân, meléte, epimelêisthai, epimeleia, designa um conjunto de práticas”, (Foucault, 2006 (d), p.105).
Há uma série de tecnologias à disposição do indivíduo para que ele possa realizar suas próprias experiências de cuidado. Entre elas há: os ritos de purificação, as técnicas de concentração da alma, técnicas de retiro e a prática da resistência. Todas essas técnicas foram utilizadas na civilização helenística e grega arcaica.
Além disso, o cuidado de Sócrates para com Alcibíades está em como Alcibíades vai cuidar de si mesmo. Daí a importância dada ao mestre. “Não se pode cuidar de si sem passar pelo mestre, não há cuidado de si sem a presença de um mestre” (2006 (d), p.73). Sócrates será aquele que cuida do “cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no amor que tem pelo seu discípulo, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio” (ibid.,p.73-74).
Foucault mostra que o cuidado para consigo a partir de Platão referir-se-á a um cuidado permanente. Jovens ou velhos devem cuidar da alma e isso prescinde filosofar. Mesmo os estóicos que crêem no cuidado de si como a salvação da alma, “ocupar-se consigo, portanto, é ocupação de toda uma vida, de toda a vida” (Foucault, 2006 (d), p. 107-108), ao contrário que se possa pensar, ocupar-se de si é uma função, uma atividade, uma prática de homens no meio da idade adulta.
A mudança de público pelos filósofos em relação aos ensinamentos das práticas de si, para Foucault, vai significar uma transformação da crítica à pedagogia (o caso do Alcibíades) à preparação do indivíduo, “de formá-lo para que possa suportar, como convém, todos os eventuais acidentes, todos os infortúnios possíveis, todas as desgraças e todos os reveses que possam atingí-lo” (id.,ibid., p.115). Essa preparação é a instructio de Sêneca, é o lado constituinte da prática de si, que por sua vez, irá se aproximar, como conseqüência de seu modus operandi, da medicina, já que a prática tem “como função maior, ou como uma de suas funções maiores, corrigir, reparar, restabelecer um estado que nunca talvez tenha existido” (ibid., p.119).
Nota-se uma alteração no cuidado de si para uma prática que visa um cuidado de si e visa reformar, mais que instruir. Foucault menciona alguns itens prioritários na prática de si:
- a existência de um mestre, podendo ser um mestre de exemplo, um mestre de competência e um mestre socrático;
- eliminação da ignorância e da estultícia.
Para atingir essas “metas”, Foucault (2006 (d). p.310) observa a sobreposição de importância do conhecimento de si (gnôthi seautón) ao cuidado de si (epiméleia heâutou), ao mesmo tempo em que observa a circularidade dos conceitos de conhecimento de si, conhecimento da verdade e cuidado de si.
Interessante notar a áskesis, técnica de si realizada pelos estóicos, como “um conjunto de práticas mediante aos quais o indivíduo pode adquirir, assimilar a verdade e transformá-las em um princípio de ação permanente. (...) [Trata-se de] um processo de intensificação da subjetividade” (Foucault, 2010, p. 1084).
Constituída por dois pólos de exercícios, na áskesis, o indivíduo se coloca à prova por meio da mélete e da gymnasía. Mélete significa “meditação”, de acordo com a tradição latina. É pela mélete que o individuo poderá, por exemplo, observar que tipo de reações haveria em determinada circunstância. Esse “modelo” de pensamento, de antecipação ao acontecimento e de julgamento a esse raciocínio é o que os gregos davam o nome de meditação. Lembrando que o exercício consistia em uma experiência imaginária (ibidem) como é o caso da famosa praemeditatio malorum, uma meditação sobre o porvir de forma pessimista.
Já a gymnasía é o treinamento posto em prática na vida real. Por trás dessa, há a tradição da abstinência sexual, privação física e outros rituais de purificação. Ou seja, pela áskesis, o individuo, optava por aquela situação e vivência a fim de se tornar um outro que ainda não era.
Se “moral” comporta os códigos de comportamento e maneiras de subjetivação, vale dizer “não há ação moral particular que não se refira à unidade de uma conduta moral: não há conduta moral que não exija a constituição de si mesmo sem “modos de subjetivação” e sem uma “ascética” ou “práticas de si” que os fundamentem” (Foucault, 2006 (c), p.214).
Referindo-se a essa cultura de si, ou seja, esse período onde foram intensificadas e destacadas as relações de si para consigo (idem, 2005, p. 49), Foucault observa que é em Epicteto que se desenrola a mais alta elaboração sobre o cuidado de si. Segundo o filósofo helenista, os homens necessitam apreender este cuidado de si porque não vieram prontos, deus o dotou apenas de razão. “É na
medida em que é livre e racional – e livre de ser racional – que o homem é na natureza o ser que foi encarregado do cuidado de si próprio” (Foucault, 2005, p.53).
Mesmo com suas particularidades, Foucault formaliza que o objetivo comum dessas práticas de si é a conversão a si, quer dizer, “manter em mente que o fim principal a ser proposto para si próprio deve ser buscado no próprio sujeito , na relação de si para consigo (2005, p.69).
Essa conversão a si refere-se a um domínio de si, a um governo de si, antes de mais nada. Por ser política e jurídica, Foucault esclarece que a relação consigo “permite gozar de si como que de uma coisa que ao mesmo tempo se mantém em posse e sob as vistas” (ibid., p.70).
É por meio das práticas de si encontradas nos domínios da Dietética24, da Econômica e da Erótica, que dar-se-á o conhecimento de si. O ocupar-se de si culmina em um conhecimento de si. É durante esse ápice da cultura helenística que há um entrelaçamento entre um e outro domínio (Foucault, 2006, (d), p. 200).
Para a cultura greco-romana, o conhecimento de si é resultado do cuidado de si. De Descartes a Husserl, o conhecimento de si assume a prevalência sobre o ocupar-se de si. “No mundo moderno, o conhecimento de si constitui o princípio fundamental” (Foucault, 2010, p. 1074).
Na medida em que se cria um conhecimento de si, cria-se um sujeito de um ethos25 preciso. As práticas de si serviam aos homens livres e tinham em sua ontologia a autonomia necessária para se recriar a autotransformação no espaço do indivíduo. Busca-se adquirir aptidões, assim como atitudes.
Se pensarmos que o cuidado de si implica um cuidado do outro, isso implica em uma ética, e sendo ético, se é, portanto, para com o outro. Foucault explica, na entrevista realizada para a revista Concordia26, que, para os gregos, o cuidado de si
é ético em si mesmo. Ser livre na Grécia é ter uma existência política. Sendo assim, o modo de se comportar em casa, com a esposa, filhos é também considerada uma arte de governar. Para Foucault (2010, p.1032), “o ethos implica, assim mesmo, uma relação com os outros na medida em que o cuidado de si é capaz de ocupar, na cidade, na comunidade ou nas relações interindividuais, o lugar adequado”. Por isso,
24 Modos de viver a vida a partir do cuidado para com o corpo (dietética), com os bens (econômica), e cuidado do amor (erótica).
25 O ethos acarreta em um modo de ser e de proceder para com os outros.
26 Entrevista intitulada “ L´etique du souci comme pratique de la liberte”, feita por H. Becker, R. Fornet-Betancourt, A. Gómez-Müller, 20 de janeiro de 1984.
é preciso exercer o poder sobre si mesmo para que se possa exercer o poder sobre o outro. Não ser escravo de seus apetites e de seus desejos é exercer o domínio sobre si próprio. É cuidar de si e, ao mesmo tempo, em que se circunscreve o conhecimento de limites de si.
Sob essa perspectiva, por exemplo, é que, posteriormente, o Cristianismo e sua doutrina também irão se utilizar de técnicas de si semelhantes àquelas utilizadas pelos gregos e romanos. Colocando os saberes propostos pelo uso das respectivas técnicas de si como as verdades e os seus jogos de saber-poder como sendo os que devem ser seguidos, Foucault (2010, p.1070) quer, ao estudar as técnicas de si, “analisar as pretendidas ciências como “jogos de verdade” que estão ligadas a técnicas específicas que os homens utilizam para compreender quem são” .
Frédéric Gross, em um texto recente chamado “Da morte do sujeito à invenção de si”, retoma os estudos filosóficos sobre as práticas de si a partir de Foucault, assim como observa e entende essas técnicas como “experiências de pensamento”. Ele esclarece que o “fato de pensar isso ou aquilo, de efetuar dentro de nós mesmos determinada operação mental, de nos dar determinada representação, transforma o modo de ser do sujeito pensante, levando-o a proceder na sua vida a mudanças de comportamento ou de hábitos. (...) É por meio de exercícios que o sujeito se constrói e se inventa” (Gross, 2010, p.177-179).
Gross acredita que as experiências dos pensamentos, as tais “técnicas de si” dos antigos, são justamente a possibilidade de resistência em relação à deriva na qual a sociedade moderna se encontra. Esse movimento para ‘voltar-se para si’ é também prática de si. Segundo Araújo (2008, p. 150), a prática de si
(...) leva a obter uma conduta mais sábia, comparando com a qualidade das representações, distinguindo-as, não para punir-se ou ser punido, mas para melhor conhecê-las ou rejeitá-las, em um exercício da liberdade.
Se Foucault coloca que onde há (relações de) poder, há resistência, quando há cuidado de si, cria-se resistência, observa Gross. Ao considerarmos que estamos privilegiando a morosidade, a perseverança, a paciência, a constância, a repetição, a memória, “trata-se de manifestar uma capacidade de retiro dentro de si mesmo” (Gross, 2010, p.193).
Todas estas qualidades não fazem parte das características valorizadas pelo nosso atual modo de viver. Sendo a experiência do pensamento um cuidado para
com si, há novamente a possibilidade de um apreender ético, um ‘construir” do sujeito sólido, como bem coloca Gross, ao apreender o conceito de vida líquida27 de Bauman, ou um sujeito ético, se nos atermos ao referencial greco-romano.
Trata-se, finalmente, de um sujeito que apropria-se de si, “pois a única posse autêntica é a propriedade de si por si” (Foucault, 2006 (d), p.653), e não à renúncia de si, pregada pelos exercícios cristãos (Gross, 2008, p.138).
A respeito da conduta ascética, Francisco Ortega (2008) nos apresenta pontos substanciais desse modus operandi. Para ele, a ascese é uma prática social que implica em um processo de subjetivação. “O asceta oscila entre uma identidade a ser recusada e outra a ser alcançada. A subjetividade desejada representa para o asceta a verdadeira identidade para o qual se orienta o trabalho ascético” (Ortega, 2008, p.20-21). A delimitação e a reestruturação das relações sociais, originadas a partir do conjunto de práticas e disciplinas austeras, constroem um sistema simbólico alternativo vinculado à vontade do sujeito. Ou como menciona Deleuze (2005, p.113) ao perscrutar a obra de Foucault, “a luta pela subjetividade se apresenta então como direito à diferença e direito à variação, à metamorfose”.
Assim, podemos perceber que há uma grande diferença entre o controle de si exercido com objetivos ascéticos e o controle de si exercido pelas disciplinas criadas na Idade Moderna. O controle total do corpo do homem será feito com a inserção da disciplina no “modo de viver” do sujeito moderno.
Ao retomarmos o poder como referência nas relações poderia se pensar a inexistência de possibilidades fora do circuito do próprio poder, isto é, uma vez constituídas as relações, haveria a impossibilidade de mudança. Ou como diria Deleuze “o que é que sobra para a nossa subjetividade?” (2005, p.113). Afinal, quem quer perder o poder?
Para Foucault, como dissemos, onde há relação de poder, há resistência. Em miúdos, o que é o atrito se não a resistência de um corpo em contato com o outro. Para que um veículo ande é preciso uma superfície que friccione com o veículo. É só assim que o automóvel anda. Nas relações de poder ocorre o mesmo. Como tratam-se de relações em rede, nem verticais, nem horizontais, “jamais eles [os indivíduos] são o alvo inerte ou consentidos do poder, são sempre seus intermediários” (Foucault, 1999, p.35). Ou, ainda sabendo que o corpo faz parte de
27 ‘Vida líquida” é um conceito criado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na qual a vida é precária e está imersa em condições de instabilidade e incerteza constantes (Bittencourt, 2010)
um processo civilizatório e conta com seus processos fisiológicos, regimes de trabalho, repouso, ele é “intoxicado por venenos – alimentos ou valores, hábitos alimentares e leis morais simultaneamente; ele cria resistências” (Foucault, 1984, p.27).
Nessa perspectiva, a título de reforço de sua própria teoria, é que Foucault, em 1971, vai montar o GIP – Grupo de Informação sobre as Prisões. Esse coletivo produzirá pesquisas sobre a vida prisional de forma subliminar, além de panfletagem sobre as condições reais dos presos com o objetivo de mobilizar também a opinião pública. O que se pretende manifestar, de acordo com o pesquisador-ativista são os direitos humanos, “trata-se de dar aos detentos das diferentes prisões o meio de tomar a palavra, no mesmo momento, sobre as condições de detenção, de encarceramento, de saída (Foucault, 2006, p.30). Ou como coloca Artières (200, p.138), “permitir a emergência de um discurso próprio dos detentos para empreender uma luta local”.
Desse modo, a resistência pode ser vislumbrada como a existência de algo, como aponta Vicentim (2005, p.279),
(...) no corpo social, nas classes, nos grupos, nos próprios indivíduos, que escapa de uma certa maneira às relações de poder; algo que não é matéria-prima mais ou menos dócil ou renitente, mas que é o movimento centrífugo, a energia inversa, a escapada.