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Em Uberaba, no ano de 1942, foi fundada uma Associação de Cegos que posteriormente, em 1947, ao tornar-se Instituto, passou a receber alunos, ou seja, era uma escola residência (internato). A partir desse ano, João Tomé passou a colaborar com a educação desses jovens60 aplicando os seus conhecimentos de multi-instrumentista e líder de regional.

Apesar de João ter como instrumento principal o violão, ele ensinava vários instrumentos das várias famílias: cordas dedilhadas (bandolim, cavaquinho), sopros (flauta, trompete, saxofone), percussão (pandeiro, bateria) e instrumentos de teclado (piano e acordeom).

Segundo Mata Machado Filho (1931, p. 68), o ensino da música, aos cegos, é de fundamental importância, devendo ser iniciado ainda no jardim de infância. Ele afirma o prazer que a música traz e as possibilidades que surgem através do curso de música, dando ao aluno um desenvolvimento completo. Isso não significa “fornecer ao ‘pobre cego’ um doce derivativo, uma distração inocente destinada a minorar a ‘dor da cegueira’” (p. 68).

Outra ideia mostrada pelo autor é a do senso comum de “que todo cego dá para a música e de que os cegos não dão senão para música” (p.69). Ele complementa:

Entretanto, corre por aí, a guisa de axioma, certa afirmativa que devo contraditar. [...] Como entre os videntes, é vário o pendor dos que não veem. Na música, o preconceito lhe tolhe menos o progresso, e menos intensa é a

concorrência. Vem daí o falso pressuposto. Posta a questão em seus devidos termos, é muito para desejar que particulares e governantes facilitem aos cegos o exercício de profissões em que a música prevaleça, ensejando-lhes, por exemplo, o ingresso ao magistério, como professores de música em estabelecimentos públicos (MATA MACHADO Filho, 1931, p. 70).

José Marquez, cantor conhecido posteriormente com o nome artístico de Paulo Marquez, era amigo de João Tomé que conviveu com ele nessa época trabalhando, entre os anos de 1947 e 1950, no Instituto dos Cegos do Brasil Central (ICBC).

E eu trabalhei durante uns três anos ou mais na secretaria do Instituto dos Cegos de Uberaba. Foi criado pelo Cléver Novais, nosso amigo. Eu tive contato com João que lecionava para os alunos cegos regional, música com cavaquinho, violão, e formou um regional. Eu cantei com esse regional de cegos. Bacana! Durante três anos tivemos contato ali no Instituto de Cegos (Paulo Marquez).

A atuação docente de João Tomé foi registrada em diversos jornais com matérias destinadas à divulgação das atividades culturais realizadas em datas especiais, em eventos com intuito de angariar ajuda financeira à instituição ou a favor da efetivação docente do professor.

A participação do grupo musical, formado por alunos do professor João Tomé, tendo ele estado sempre à frente do conjunto, em eventos diversos foi noticiada pela imprensa local.

Realizou-se domingo passado o primeiro piquenique das Escolas Dominicais do Centro Espírita Uberabense e do Grupo Espírita Agostinho, ao presente ano. [...] O conjunto musical do Instituto dos Cegos, dirigido pelo confrade João Tomé, emprestou uma nota de grande contentamento a este passeio. Após cada prova esportiva e, às vezes, durante a realização das mesmas, o maestro fazia executar alguns números de música (A Flama, Uberaba, Escola Dominical, sem data).

Em alguns casos, João viajava para outras cidades com os objetivos de divulgar o seu trabalho ou buscar donativos para a instituição de ensino em que atuava: o Instituto dos Cegos.

Esteve em visita a nossa redação, em dias dessa semana, o professor João Tomé, cego, professor do Instituto de Cegos do Brasil Central, de Uberaba, e funcionário da PRE-5, estação radiofônica daquela cidade mineira. O professor João Tomé, que veio acompanhado do sr. Miguel Angelo Pucci, manteve conosco cordial palestra durante a qual ficamos sabendo que muito tem feito pelo cegos do Brasil Central, além de ser um poeta destacado e musicista apreciado. A visita do professor João Tomé a esta cidade prende-

se ao fato de colher fundos para o Instituto dos Cegos [...] (Diário da Tarde, Franca, Prof. João Tomé, 10 dez. 1949).

Outra nota, em jornal de Uberaba, anuncia a visita do professor semanalmente à cidade de Uberlândia. “O consagrado artista uberabense Prof. João Tomé, vem se apresentando, todas as segundas-feiras, na vizinha cidade de Uberlândia, atuando ao microfone da PRC-6, Rádio Difusora Brasileira.” (O Triângulo, Uberaba, Sociedade, Coluna do Rádio, João Tomé em Uberlândia, Marçal Costa, sem data).

Determinado evento, noticiado pelo jornal O Triângulo, foi a apresentação do tenor Servolino Reis, professor de canto no Instituto São Rafael de Belo Horizonte. O evento ocorreu no auditório da Rádio P.R.E.5, no dia 2 de fevereiro de 1953 e, em homenagem ao compositor e professor João Tomé, o tenor interpretou uma de suas composições. A venda dos ingressos foi destinada ao Instituto dos Cegos de Uberaba.

Está anunciado para a próxima segunda-feira, no auditório da PRE-5, uma interessante audição artística a cargo do tenor belorizontino Servolino Reis. [...] Durante o seu recital, o tenor Servolino Reis prestará uma homenagem ao compositor uberabense João Tomé, executando a melodia de sua autoria intitulada Meditação (O Triângulo, Uberaba, 28 jan. 1953).

Em dezembro de 1955, a imprensa noticiou um evento de final de ano em homenagem ao Instituto dos Cegos. Em jornal local foi divulgado o acontecimento: “O Grêmio Lítero Musical Hellen Keller, do Instituto dos Cegos do Brasil Central, prestou uma homenagem ao prefeito. [...] Nomeação de Professor. Na oportunidade foi comunicada a nomeação do sr. João Tomé como professor municipal à disposição do ICBC” (Correio Católico, Uberaba, Saguão da Prefeitura, Homenagem do Instituto dos Cegos, 06 dez. 1955). A contratação do professor foi assinada no dia 2 de fevereiro de 195661. No dia seguinte, uma nota foi divulgada no jornal Lavoura e Comércio. “O professor João Tomé foi contratado pela Prefeitura para prestar seus serviços técnicos junto ao Instituto dos Cegos” (Lavoura e Comércio, Uberaba, Governo, 3 fev. 1956).

O Correio Católico de Uberaba, de junho de 1959, registrou a atuação de uma turma de alunos de música orientada pelo professor João Tomé. “O MUSICISTA João Tomé formou um conjunto de ritmos integrado unicamente de alunos seus no Instituto dos Cegos. Todos são privados da visão. Isto, todavia, não impede que seu conjunto seja excelente.” (Correio Católico, Uberaba, Coluna Coisas da Cidade, 26 jun. 1959).