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5.1 Facies Descriptions

5.1.1 Facies A: Red sandstones with bleaching along with fractures 36

O marco da maior individualização do trabalho de criação do arquiteto remonta ao Renascimento e situa bem o pioneirismo de Felippo Brunelleschi (1377-1446) e de Leone Battista Alberti (1404-1472).

Em um tempo de profundas mudanças, a conquista construtiva e arquitetônica de Brunelleschi implicou, no caso das obras mais ousadas, a alteração do antigo modo de construção de edifícios, quando da realização da cúpula da Catedral de Florença; nessa ocasião, houve a moderna “instituição do projeto e do comando do arquiteto”. Essa conquista representou uma ruptura com as Corporações dos Pedreiros, expondo a perda de contemporaneidade do papel e do lugar dessa instituição, tradicionalmente forte e excepcionalmente competente na Idade Média. Naquela exata ocasião, ano de 1420, essa guilda apresentou claros sinais de obsolescência, ao não corresponder, à instituição do projeto pelo arquiteto e ao respectivo comando, com a mudança de tecnologia e a decorrente viabilização da uma passagem metodológica social e prática, quanto ao modo de se produzir um projeto. O lugar do arquiteto como mestre-canteiro – no trabalho conjunto com os demais artesãos e artífices – passou a ser ocupado pelo arquiteto mais diferenciado, centralizando cada vez mais suas determinações e responsabilidades. Foi a conquista da capacidade de se poder conceber o projeto como um todo, não mais à maneira do seu lugar anterior, absolutamente integrado com os demais e com eles partilhando vários níveis de autoria e a própria formação. Agora, o seu era um modo outro de desenhar “como designo”, isto é, fazendo por inteiro, de sua mente para o papel; um fazer individualizado, porém muito mais global. Brunelleschi, com essa insurgente mudança, foi portador de um novo projetar, devido às várias instâncias próprias ao Quattrocento, que trazia, em seu bojo, o significado amplo de um nascente outro “olhar o mundo.”22

Desde então, avançando muito no tempo e na história, observa-se que, com a expansão do capitalismo e após os acontecimentos de 1848 na França, a burguesia dos países modernizados, cada vez mais, voltou-se para os estudos em diversas carreiras. Assim, passou a ocupar um leque de cargos-chave e lugares sociais produtivos, principalmente através dos

bacheliers, numa troca de incentivos com o desenvolvimento industrial e comercial. Foi a ampliação permanente da escolaridade inicial, básica, secundária, técnica e universitária que proporcionou um contínuo desenvolvimento científico e técnico.

No Brasil, por volta de 1930, deu-se a ascensão da classe média ao palco político e social, com a reivindicação, quando possível, das profissões liberais, por elas se constituírem em um novo espaço de trabalho, melhor classificado para aquele meio social. Vários de seus

22 ARGAN, Giulio Carlo. Brunelleschi. Paris: Macula, 1981. WALTER, Ernesto Guilherme. Um diálogo

protagonistas logo se transformaram em “homens de sua profissão”, para usar uma expressão de Sérgio Buarque de Holanda.23

As transformações - como ruptura e criação, renovações profundas a partir das mudanças do modo artesanal para o modo industrial de produção - atingiram radicalmente a dimensão da tecnologia e da linguagem na arte da Arquitetura, inseridas no quadro de profundos questionamentos, anseios e expectativas, sobretudo sociais.

Artigas tinha a convicção de que era preciso se chegar, na modernidade brasileira, à responsabilidade como uma construção social e cultural mais justa e avançada. Para os arquitetos, fazia-se necessária a “recusa do artesanato do mestre-de-obras”, sendo a tarefa desse de competência e responsabilidade dos que são arquitetos. Nesse empenho, situa-se a retomada da “instituição do projeto e do comando que o arquiteto tinha que ter de sua própria obra”24, como já dito.

Com a Revolução Industrial - e a densificação das áreas urbanas -, a retomada da cultura arquitetônica só se fez ao longo de um tempo de mudanças, percalços, buscas e acertos, tanto em relação ao surgimento de materiais - ferro, vidro, concreto armado e aço - e de tecnologias, quanto frente a novas demandas e especificidades. Trata-se de uma travessia que se deu a partir do academicismo historicista, no qual se explicitava o afastamento do profissional da Arquitetura de uma atuação no sentido do “projeto como desígnio”.25 Diante disso, foi exatamente essa questão que Artigas, tal como os modernistas, propôs-se a enfrentar e a resgatar: a reconstituição da “instituição do projeto” como cultura arquitetônica, explicitando- se ao modo de uma linguagem.

Por outro lado, com a já referida oferta de prédios comerciais para escritórios, os edifícios passaram a ter um valor real de compra e venda, o que podia comprometer a competência da Arquitetura de dotar a obra do verdadeiro conteúdo cultural, ao se voltar indiscriminadamente para o gosto mercadológico vigente.

Vilanova Artigas, escolhendo ser arquiteto e com formação de engenheiro-arquiteto, julgou não poder prescindir, especialmente naquele momento, da parcela dos conhecimentos técnicos necessários à sua futura atuação. Essa formação marcou para sempre sua obra e, sem dúvida, autorizou-o, como criador, a contribuir com o ensino, como professor universitário, na construção de uma verdadeira capacitação profissional, que propiciasse ao “comando do

23 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973, p.115. 24 ARTIGAS. Sexta entrevista, em 14 de julho de 1983.

arquiteto”, na produção do seu trabalho, o lugar cultural e social merecido, como pessoa da profissão.

Em uma das entrevistas, Artigas lembrou Auguste Perret (1874-1954) que, como arquiteto, foi um dos pioneiros renovadores do uso estrutural e formal explícito do concreto armado e “(…) manteve o seu diploma somente fazendo projetos”. Artigas comentou:

− Ver esses exemplos para fazer a luta pela nossa regulamentação profissional. Isto é, para ganhar critérios de independência e valores culturais para o projeto. Todo o esforço de ir buscar e de definir o projeto

arquitetônico como um fato cultural necessário para o progresso social.

Arrancar da mão da exploração do espaço, características do apetite imobiliário da nossa classe dominante. É claro que, pela sua imaturidade, não separa uns interesses dos outros. (g.n.) 26

– Conquistas de qualidade urbana. Certas tradições alcançadas de qualidade de vida, de usufruto do urbano como um bem coletivo, não é?

Até está ligado à do Decreto 23.569 de 33, lembra? Que lá dizia: ‘as companhias e tal’, não sei o quê, que quiserem explorar a Arquitetura ou a engenharia. Então era uma exploração. Lá, o Sindicato de 33 marca o exercício da profissão de arquiteto com a exploração de recursos naturais e nunca disse da responsabilidade cultural dos arquitetos. É bem diferente. Aí eu indicaria que você tinha que mostrar, caracterizar estas estruturas, bem direitinho. Sei lá se você teria que agredir alguém por causa disso. Mas, mostra os vícios de nossa sociedade. Tem que mostrar esses vícios! Esses vícios existem até hoje

Para além dos serviços e do conforto urbano generalizados, há necessidade de locais de encontros e identidade coletiva aberta, capazes de oferecer espaço para esta espécie de vida alargada poder se desenvolver. Ao refazer uma leitura dos tempos de universidade, voltaram- me as considerações sobre os valores dos lugares públicos, através de um longo passado, o Ginásio, a Ágora, as termas, os mercados e suas praças, os largos, socialmente franqueados e vivos aos encontros e às festas populares, pois sempre “serviram para fazer progredir os valores humanos, que não medram no isolamento”.27

Conquistas de qualidade de vida a serem feitas possíveis, a partir de valores de um modelo e um teor de desenvolvimento industrial e urbano de dimensionamento nacional, tornam-se, social e culturalmente, mais francas e abrangentes, pois, universais e civilizadoras.

26 ARTIGAS. Oitava entrevista, em 28 de julho de 1983.

Os vícios atávicos alimentados no Brasil testemunham uma realidade cuja “tendência, ainda, é condicionada ideologicamente pelas classes dominantes e sua capacidade de opressão.”28

Por assumir, junto a seu talento de arquiteto, a consciência de sua responsabilidade cultural, Artigas foi capaz de, nas duas vertentes de seu trabalho - a do projetar como profissional liberal e a da docência no ateliê de projeto -, atingir um lugar permanente entre os nomes de maior nível no ensino universitário e na história da Arquitetura do país.

28 FERNANDES, Florestan. Prefácio. AMMANN, Safira B. Ideologia do desenvolvimento da comunidade no

Capítulo II

O LEMBRAR A SUA HISTÓRIA PESSOAL