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Tomé também dava aulas particulares de música, ensinando vários instrumentos. As aulas ocorriam em sua residência ou na casa do aluno. Um desses alunos era uma cega, uma das poucas alunas cegas que o professor tinha em Brasília. Uma das filhas de Tomé recorda da aluna. “Margô. Ela é professora ainda... aposentada. Ela era professora. Conviveu muito com ele. Era um dos poucos alunos cegos que ele tinha porque os alunos que ele tinha na escola de música não eram cegos” (Dolores). A aluna chama-se Margarida Pires Rodrigues, e em 1968 chamou atenção da imprensa local pelo fato de ter ficado cega já adulta e porque “conseguiu romper a barreira da desilusão” (Correio Braziliense, Brasília, 8 out. 1968). A reportagem faz menção ao dia a dia de Margô e a fotografa em tarefas do seu cotidiano, como ir à escola, fazer café ou ter aulas de piano62.

Margô tem uma vida intensa. Em casa, prepara seus deveres escolares, ajuda nos afazeres domésticos e está aprendendo a tocar piano com o professor João Tomé, um outro não vidente que se realiza em Brasília. O ensino da música está sendo ministrado através de sinais de Braille e o rápido progresso da discípula tem envaidecido o mestre, que, consciente de sua responsabilidade como educador, transforma os elogios em mensagens de incentivo (Correio Braziliense, Brasília, 8 out. 1968).

Foi concedido ao professor João Tomé, em 7 de novembro de 1967, o certificado de registro definitivo de Professor de Educação Musical para a disciplina Educação Musical, pelo Departamento Nacional de Educação e Cultura, do Ministério da Educação. Em 22 de novembro do mesmo ano foi datilografado um currículo63 atualizado do professor Tomé. As

62 Ver Anexo, seção 4. 63 Ver Anexo, seção 2.

informações sobre sua atuação no meio educacional são complementadas com o novo título concedido pelo MEC64.

A atuação instrumental do professor João Tomé foi registrada também por uma gravação em fita de rolo oito milímetros. O documento, de valor histórico, apresenta a realização de uma aula para o público de professores e alunos da rede de ensino pública do DF. Nessa aula, João Tomé apresenta o tema O violão e sua importância no repertório musical. Não foi possível precisar o ano da gravação e a turma (série escolar) participante. Ouvindo a gravação, percebemos tratar-se de uma sala de aula coletiva com a turma de uma determinada professora, que também participa em alguns momentos, repetindo os dizeres do professor ao restante da sala. Na sala de aula coletiva, o professor João apresentava-se como violonista, tocando os vários gêneros musicais (brasileiros ou não), além de mostrar as funções do instrumento; o violão solo ou violão de acompanhamento.

Os registros dessa aula encontrados já são da época de Brasília, onde os aparatos tecnológicos já faziam parte de sua vida. A aquisição de um pequeno gravador portátil possibilitou uma maior rapidez nos registros musicais, planejamento de aulas e registro das mesmas. Ainda não foi possível digitalizar todo o material deixado (65 fitas magnéticas), mesmo assim, do material já disponibilizado selecionamos alguns registros.

Na sala de aula coletiva, em escola localizada na parte sul do Plano Piloto, na quadra 909, os alunos, todos sentados em suas cadeiras, conversando uns com os outros, formando pequenos grupos: esse é o cenário da aula. Eis que chega um senhor, já com seus cabelos grisalhos, aparentando a idade de quarenta anos, com uma caixa de extremidades arredondadas e revestida por uma capa preta. O homem senta-se à frente da classe, abre a caixa e eis que aparece o instrumento musical: um violão. A professora pede silêncio. Esse senhor é o professor João Tomé, músico mineiro residente em Brasília. Já conhecido por alguns alunos cursistas das aulas de violão, coletivas ou individuais, o professor é recebido por burburinhos entusiasmados. Não é sempre que os alunos assistem a uma aula ao som de violão.65

Hoje a aula será diferente. Os alunos irão conhecer um pouco mais sobre história. Não a história da América, dos grandes heróis ou das antigas capitais do país e sim a evolução dos ritmos tocados ao violão no Brasil. O professor confere a afinação do instrumento e começa a dedilhar uma canção. Enquanto isso os alunos continuam a conversar. Passados alguns segundos, o músico palestrante toma a voz: “Então, continuando essa demonstração de ritmos

64 Ministério da Educação.

como acabamos de mostrar com vários instrumentos, nós gostaríamos de mostrar como é que o violão brasileiro era tocado nos acompanhamentos antigamente”.

O primeiro exemplo musical apresentado é a modinha. Tocada em ritmo lento é caracterizada pelo destaque da linha melódica iniciada na região grave do instrumento e a definição de duas linhas melódicas: uma faz a melodia principal e a outra o acompanhamento. O segundo exemplo apresentado é a embolada. O professor diz: “A embolada é uma música muito cantada no Norte, é feita de improviso, em que os circunstantes vão atirando versos, improvisando as poesias dentro das melodias que muitas vezes também são improvisadas”. A melodia apresenta ritmo contrastante ao primeiro exemplo.

O próximo exemplo musical tocado foi o samba antigo que mantém melodia constante no baixo. Seguindo a evolução dos ritmos (fala do professor) o violão imitava o tamborim.

O exemplo musical seguinte é o fox, ritmo americano altamente disseminado no Brasil da primeira década do século XX. Em ritmo de dança, o fox é originalmente tocado ao piano. Ao final da execução musical os alunos identificam a sequência harmônica e riem. O exemplo que segue é o boogie woogie, outro ritmo norte-americano, antecedente do rock.

Passando para o próximo ritmo é apresentada a valsa. Tocada como no piano, faz o baixo e a harmonia. O professor segue com os ritmos do samba (exemplo de dois violões tocando juntos), o samba de morro, tango argentino. Após os exemplos dados, Tomé discorre a respeito do uso do violão na música folclórica brasileira, tendo um dos seus principais representante e difusores da música fora do Brasil, o músico Dorival Caymmi. Com o tempo surge a guitarra, que é um violão elétrico. Após essa fala, o professor é interrompido pela professora da classe que repete sua fala sobre Caymmi. O som da voz falada, possivelmente, tinha dificuldades para se propagar na sala de aula.

Finalmente, Tomé chega ao ritmo do momento: a bossa nova. Para exemplificar, toca a canção Samba de uma nota só, de Tom Jobim. Ao final da execução musical, o músico recebe os aplausos dos alunos. Finalizando a apresentação-aula, Tomé toca uma canção de Noel Rosa em ritmo de bossa e um samba-canção.