Segundo o professor Walter Zanini, em seu artigo “A Arte da Comunicação telemática – a interatividade no ciberespaço”, publicado na revista Ars, o ciberespaço é um termo criado por William Gibson, em seu romance
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68 “Neuromancer”, de 1984. (2003, p.12). Essa geografia virtual tornou-se um dos pilares que estruturam as transformações e relações sociais da contemporaneidade.
O letrista da banda Gratefull Dead, também fundador da Eletronic Frontier Foundation, Jp Barlow38, foi intitulado como arquiteto do ciberespaço e, sobre esse fato, comenta em entrevista:
Decidi nomear o ciberespaço. Decidi que o espaço que você ocupa quando está ao telefone ou na rede precisava ter um sentido de lugar, ter uma identidade política. Só então se pode discutir as conseqüências econômicas e sociais dessa dimensão que a humanidade criou. (revista trip 22 maio de 2009).
A virtualização da comunicação humana, baseada nessa nova geografia, o ciberespaço, impulsionou mudanças em quase todas as esferas do comportamento humano. Pierre Lévy, em Cibercultura, descreve que:
O ciberespaço (que também chamarei de "rede") é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo "cibercultura", especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. (LÉVY, 1999, p.17)
Conectados por meio da tecnologia virtual navegamos em um espaço desterritorializado do plano físico das coordenadas de Greenwich e do Equador. Saímos do tic-tac dos ponteiros analógicos e estamos diante de um dos mais significativos fenômenos de compreensão de realidade. Diante desse ciberespaço, infinitas possibilidades se desdobram. As mudanças dentro dessa realidade possuem reflexos culturais, sociais, políticos e econômicos. Para a compreensão dessa nova geografia, que se apresenta no virtual, é necessário visualizar que
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69 mesmo em meio as variadas opiniões teóricas, o virtual agora é realidade e como tal requer um olhar desmistificado de utopias, mas ricos de possibilidades. Continuando com Lévy,
Certamente nunca antes as mudanças das técnicas, da economia e, dos costumes foram tão rápidas e desestabilizantes. Ora, a virtualização constitui justamente a essência, ou a ponta fina, da mutação em curso. Enquanto tal, ela não é boa nem má, nem neutra. Ela se apresenta com o movimento mesmo do “devir do outro” – ou heterogênese – do humano. Antes de temê-la, condená-la, ou lançar-se às cegas a ela, proponho que se faça o esforço de aprender, de pensar, compreender em toda a sua amplitude e virtualização. (LÉVY, 1996, p.12)
Lévy descreve esse momento histórico como uma mutação em curso e o aprofundamento nesse espaço nos leva as mais diferentes experiências diante dos meios virtuais. A compreensão desses acontecimentos transita entre a esfera do real concreto e virtual, devido à desmaterialização do processo de comunicação, dos conteúdos e dos signos. Mesmo com a utilização dos meios físicos e tecnológicos para se acessar essa geografia, o ciberespaço existe em potência e não em presença. Para o autor, o virtual
tem somente uma pequena afinidade com o falso, o ilusório ou o imaginário. Trata- se, ao contrário, de um modo de ser fecundo e poderoso, que põe em jogo processos de criação, abre futuros, perfura poços de sentido sob a platitude da presença física imediata. (LÉVY, 1996, p.12).
Por se tratar de um fenômeno atual e pelas diversas formas de concebê-los e interpretá-los, a percepção dessa virtualização ainda é passível de muitos questionamentos. Alguns autores tem visões totalmente diferentes diante da cibercultura. A escolha por Pierre Lévy se deu pelo seu otimismo diante dessa geografia. A respeito desse posicionamento o autor aponta:
Estão certos. Meu otimismo, contudo, não promete que a Internet resolverá, em um passe de mágica, todos os problemas culturais e sociais do planeta. Consiste apenas em reconhecer dois fatos. Em primeiro lugar, que o crescimento do
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ciberespaço resulta de um movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem. Em segundo lugar, que estamos vivendo a abertura de um novo espaço de comunicação, e cabe apenas a nós explorar as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural e humano. (LÉVY,1999, p.11)
Diante da reflexão otimista de Lévy sobre esse espaço, cabe perceber que estamos conectados com redes mundiais de indivíduos plurais e as possibilidades de comunicação são infinitas e criadoras de experiências de relacionamentos e de produção de cultura. Mesmo assim não podemos esquecer que nem todos estão conectados na rede, e que o acesso requer desenvolvimento tecnológico, recursos financeiros e principalmente interesse por parte das grandes corporações que usam a rede como forma de bombardeio de publicidades e de ideologias capitalistas. O ciberespaço também já está na era comercial e não podemos ser “inocentes” ao ponto de não perceber que por trás das plataformas virtuais, empresas como Microsoft, IBM, Aple, Google, Yahoo! trabalham numa perspectiva dos valores hegemônicos de controle de mercado financeiro e de poder. Pierre Lévy descreve também que existe um grande “abismo entre os bens-nascidos e os excluídos, entre os países do Norte e as regiões pobres” (1999, p.??), onde sequer existem os meios tecnológicos para comunicação.
Cabe ressaltar que a questão da exclusão é evidentemente crucial, pois o acesso à rede depende, a princípio, de meios físicos e financeiros. Porém, Lévy levanta uma questão relevante a respeito da exclusão. Para o autor, não basta apenas a redução dos custos de conexão, mensurados por valores financeiros e tecnológicos. Posicionar-se diante da tela do computador e acessar as interfaces de interatividade e relacionamento não é suficiente para superar as situações de inferioridade e exclusão. O maior desafio é realmente estar em condições de “participar ativamente dos processos de inteligência coletiva que representa o principal interesse do ciberespaço. (1999, p.238).
Outro questionamento vindo de Lévy é que não são os pobres que se opõem à internet, mas são aqueles se sentem ameaçados de perder o monopólio,
71 o poder e os privilégios, sejam eles econômicos, políticos ou culturais, que procuram limitar o acesso total ou parcial das informações e relacionamentos em rede. Vide os exemplos de Cuba e da China com políticas de censuras dos conteúdos que fogem a “ordem” das ideologias e estrutura de poder dominante.
Na visão do autor, esses novos instrumentos deveriam servir para priorizar a valorização da cultura, os projetos locais, de forma a ajudar a participação de coletivos de ajuda mútua, grupos de aprendizagem cooperativa, em suma, visa o ganho em autonomia. (LÉVY, 1999, p.238). Autonomia vem a ser uma das palavras-chave para a abordagem da internet como produtora cultural a partir dos sujeitos plurais conectados dialogando seus hipertextos. Os meios digitais atuais nos permitem expressar nossas subjetividades e experimentarmos uma comunicação global, diante da não necessidade de utilização dos meios de comunicação em massa, criando grandes espaços de proliferação de fluxos de informações alternativos e independentes.
Contudo, a massificação da informação, a globalização das culturas neoliberalistas, a manipulação das redes para apelos e interesses comerciais transformam também a rede em uma “armadilha” com risco da “americanização” das culturas locais por meio da manipulação dos conteúdos e imposição dos valores, tornando o condutor não aquele que clica e abre as janelas, mas àqueles que o conduzem ao mergulho.
Mesmo dentro desse cenário que nos faz “apóstolos” trabalhadores e consumidores dessas grandes corporações hegemônicas, a relevância maior não está em ser contra ou a favor, mas em entender que o ciberespaço se mostra como a nova face da informação. Se por um lado, estamos a “serviço” das Microsoft, por outro, ela também nos “serve” e somos capazes de burlar regras, de piratear dados, de trabalhar em rede, de sermos ativistas e protagonistas políticos de nós mesmos. Devido à potencialização dos signos nesse novo ambiente, a comunicação por meio dos hipertextos digitais, promove mudanças na maneira de interação, de relacionamento e da percepção da realidade.
72 Porém, para entender essa maneira de agir no ciberespaço, é necessária uma compreensão desse território, mesmo que parcial, que nessa pesquisa em particular se apresenta dentro de um ponto de vista “otimista” e “LÉVYano”.
Para refletir sobre as mudanças e transformações, o Prof. Dr. Walter Zanini apresenta o artista, teórico e educador inglês Roy Ascott (1991), um dos
fundadores da arte telemática39, que afirma:
“estamos reescrevendo e reconstruindo o mundo através da percepção, memória, inteligência e comunicação dos sistemas de mediatização do computador; habitamos cada vez mais o que é essencialmente um dataspace, um environment telemático, uma realidade virtual”. 40(apud ZANINI, 2003, p.14)
Essa realidade que se expandiu com a virtualização dos meios é fruto da comunicação humana numa rede global de informações. Estamos em processo de decifrar, e ao mesmo tempo (re)simbolizar essa justaposição dos signos em metamorfose perpétua. A comunicação e sua percepção são feitas por meio de blocos de hipertextos, onde “cada um é chamado a tornar-se um operador singular, qualitativamente diferente, na transformação do hiperdocumento universal e intotalizável”. (LÉVY, 1999, p.149).
Dessa forma, guiar, conduzir ou seguir, é de total responsabilidade do cibernauta. Depende agora dos atores sociais, ativistas culturais, artistas, dentre outros, não fazer com que esse espaço se torne uma reprodução dos meios de comunicação de massa.
Lévy aponta também que esse movimento social e cultural não aponta somente a um conteúdo em particular, mas que opera por meio de uma comunicação interativa, comunitária e transversal. Para ele, o ciberespaço atua também como uma grande ferramenta de organização de comunidades dos mais variados tamanhos, possibilitando transformá-las em coletivos inteligentes que articulam entre si e com outras comunidades. Essa interconexão é supostamente
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(a palavra telemática, cunhada na França em 1977, por Simon Nora e Alain Minc, significa a conectividade entre a tecnologia da informática e a da telecomunicação) atinge-se um dos pontos mais à frente do impulso de imaterialidade das linguagens poéticas contemporâneas. (ZANINI, 2003, p.13).
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Roy Ascott ,em artigo publicado em número especial da revista Leonardo, em 1991,no texto de Walter Zanini, na revista Ars, 2003
73 positiva na visão do autor, pois coloca em contato indivíduos, lugares e momentos diferentes, socializando seja de maneira lúdica, intelectual, ou econômica. A descentralização da informação favorecida pela rede tem como contraponto a análise, a princípio, das organizações, visando enxergar quais as finalidades e os resultados obtidos com a sinergia de recursos financeiros e intelectuais na propagação de informações e conteúdo na net. (1999, p.132-133).
Porém, para que possamos falar mais sobre esses acontecimentos, sobre os posicionamentos e as relações em comunidades, um grande esforço está em perceber de que modo a realidade virtual, ou expandida, nos afeta atualmente. A respeito da percepção humana na era do ciberespaço, Walter Zanini segue com Roy Ascott (1997) citando que:
Estamos entrando num mundo-mente (world-mind) e nossos corpos estão desenvolvendo a faculdade de cibercepção (cyberception), isto é, a amplificação tecnológica e o enriquecimento de nossos poderes de cognição e percepção. (apud ZANINI, 2003, p.15).
Acredito que seja nítido as transformações de comportamento e de recebimento das informações hipertextuais, propagadas pelos meios tecnológicos em nossa geração, se pararmos para analisar a familiaridade com que as crianças e adolescentes de hoje utilizam esses meio de comunicação, via interface digital. Não são raros os casos em que as crianças ajudam os pais a atualizarem ou manusearem um telefone celular ou uma navegação na internet.
O sociólogo Sergio Amadeu, no livro Cultura digital.br, apresenta um exemplo interessante sobre a questão do comportamento desses sujeitos contemporâneos via geração digital.
Você vê um adolescente com uma tela aqui na frente e aí ele abre uma mensagem instantânea aqui, está com 10, 15 telas abertas, está com um outro mensageiro instantâneo aqui do lado, fazendo um trabalho de escola aqui, ao mesmo tempo que ele está ouvindo uma música, ele está num site “x”ouvindo uma música que provavelmente nunca ouvirá novamente, e está baixando algo numa rede BitTorrent. Tudo ao mesmo tempo. Aí você pergunta para ele: “O que você está
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fazendo?” Aí ele vira para você e fala: “Nada. Eu não estou fazendo nada.” [Risos]. (apud CULTURA DIGITAL.BR, 2009, p.71).
Para o sociólogo, isso é uma nova cognição e de grande profundidade, pois, se voltarmos os olhares para o “pessoal da velha guarda tem dificuldade de deixar o Twitter aberto, o Gmail aberto e ir trabalhando um texto.”(apud CULTURA DIGITAL.BR, 2009, p.71). Claro que esse exemplo pode ter controversias em relação à idade e às gerações, porque essa familiaridade também se dá com o uso, acesso e recursos. Para Sérgio Amadeu, isso pode ser definido como multitarefa (termo que vem da informática), onde o cérebro humano permite que se organize, recombine e trabalhe os hipertextos de formas simultâneas à comunicação, transformando os meios e, consequentemente, modificando o modus operandi do digital e do humano.
As mudanças das relações humanas estão totalmente ligadas ao meio, tanto na tecnologia vigente quanto na maneira de nos comunicarmos. Assim, compreender os meios, a linguagem e o espaço são formas de sentir o quanto a inteligência humana e a comunicação transformaram a realidade atual. Roy Ascott (1997) relata que:
Sabemos que se trata do virtual, de uma construção telemática, e ainda assim vivemos a sua realidade. E isto porque nos damos conta de que, em toda a parte e em todas as épocas, a realidade sempre foi construída e mediada pela última tecnologia – linguagem humana - em toda a variedade de sua configuração filosófica, cultural e tecnológica. As telecomunicações interativas - a tecnologia telemática - são uma linguagem antes de qualquer outra coisa e nos falam, ou melhor, nos transmitem uma nova linguagem e, ao fazer isso, para o nosso melhor, falamos uma linguagem de cooperação, criatividade e transformação. É a tecnologia não do monólogo, mas da conversação, que alimenta fecundos fins abertos, e não uma estética fechada e conclusiva. A telecomunicação interativa é uma tecnologia que capacita o indivíduo a conectar-se com outros. (apud ZANINI, 2003, p.15)
Essa comunicação através dos meios tecnológicos virtuais possibilitou uma conexão ampla com sujeitos plurais. Dessa conexão surgiram diversas
75 plataformas de relacionamento em rede, de vivências e experiências onde os indivíduos não necessariamente estão presentes nem no tempo nem no espaço. Isso se dá, por exemplo, na comunicação feita por correio eletrônico, nas tele presenças, e nos sites de relacionamento (plataformas multiusuários) tipo Orkut e facebook. Estes espaços são transformadores de realidades, onde a presença do indivíduo se dá no acessar seu perfil, nas relações com as imagens, textos, vídeos e os links postados e também na própria imagem teletransportada em real time. Uma realidade advinda da potência do hipertexto no momento da atualização. Zanini menciona os conceitos da “Estética da Comunicação” - que Mario Costa considera o presságio de uma nova idade do espírito, baseada numa extraordinária fusão da arte, tecnologia e ciência. Assim Mario Costa (1986) atesta que:
A “estética da comunicação” - afirma - “é uma estética de eventos”. O evento é definido em suas propriedades e, sinteticamente, podemos dizer: não se reduz a uma forma; apresenta-se como um fluxo espaço-temporal, um processo interativo vivente; expande-se ilimitadamente no espaço-tempo; sua importância não reside no conteúdo permutado mas nas condições funcionais da troca; seu processo se faz em tempo real; é uma mobilização de energia que substitui forma e objeto; é o resultado de duas noções interativas temporais: o presente e a simultaneidade; consiste no emprego do espaço-tempo para criar balanços sensoriais. (apud ZANINI, 2003, p.18).
A presença dos sujeitos transitando todos os lugares da rede e ao mesmo tempo não existindo em nenhum lugar, talvez seja um desafio para entender essa percepção da realidade virtual, entretanto, atualmente vivenciamos esses exemplos quase que diariamente. Ao relacionarmos por meio das plataformas multiusuários a comunicação humana percebemos que ela não é estática. A interatividade do espectador e a percepção desses hipertextos como realidade expandida, nos leva a encarar essa interface como presencial e real. Para Lévy, a imagem perde sua exterioridade de espetáculo, abre-se para a imersão e sua representação é substituída pela virtualização interativa. (1999, p.150).
76 Walter Zanini faz referência ao pensador italiano Mario Costa (1986), para responder sobre a questão dessa representação da imagem.
Para ele, a “resposta decisiva parece ser a seguinte: a auto-geração e a auto- suficiência existencial das novas imagens é, enfim, ainda e sempre, a exposição
de parte de nós mesmos e o que nelas contemplamos é, na verdade, a colocação em cena da nossa potência” (apud ZANINI,2003,p.18).
Essa potência descrita por Mario Costa, vinda das “novas imagens”, desdobradas pelos hipertextos que postamos na rede ou então acessamos, conduzem a esse novo modelo de comunicação. A comunicação digital nos permite a protagonização de nossos “eus”, permite acesso a outros indivíduos e lugares a partir de um roteiro, ou edição daquele que comanda a “navegação”. É a mutação desse ser digital desdobrado na rede.
Walter Zanini, citando Ascott (1997), declara sobre o ser que se transforma biologicamente pela logística espacial das redes:
“Cada fibra, cada nó, cada servidor na Net é parte de mim. À medida que interajo com a rede, reconfiguro a mim mesmo. Minha extensão-rede me define exatamente como meu corpo material me definiu na velha cultura biológica. Não tenho nem peso nem dimensão em qualquer sentido exato. Sou medido pela minha conectividade. Minha paixão é plantar sementes conceituais no substrato da Net e vê-las crescer; olhar a Net atentamente numa atitude Zen à medida que novas formas emergem, à medida que a energia criativa da conectividade gera novas idéias, novas imagens, uma nova vida. Emergência (emergence) é o comportamento chave da Net.( apud ZANINI, 2003, p.15)
Em essência, é sobre esse ser tecnologicamente expandido e digitalmente sensibilizado que esta pesquisa desenha suas interrogações e exclamações. Sujeitos do aqui e agora, que propõem também as novas formas de cultura, de expressão artística, ativista, rebelde ou passiva. Zanini também aponta que
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entre outras múltiplas considerações, para as quais é preciso necessariamente remeter o leitor, Ascott realça a mente humana nesse processo tecnológico da rede (noz faz perceber) “que cada um de nós é feito de vários “eus”. (2003, p.16).
Conectados ou não somos parte dessa rede, a comunicação foi modificada pelo meio eletrônico. O virtual abriu janelas com vista para um novo território. Para Castells, a lição fundamental é que a maneira de transformar as tecnologias, seja ela qualquer tecnologia, é experimentar, apropriar, e no caso da Internet, torna-se mais verdadeira a mudanças pelo fato de ser uma tecnologia da comunicação. (2003, p.10).
2.4 Comunicação digital
A comunicação consciente (linguagem humana) é o que faz a especificidade biológica da espécie humana. Como nossa prática é baseada na comunicação, e a Internet transforma o modo como nos comunicamos, nossas vidas são profundamente afetadas por esta nova tecnologia da comunicação. Por outro lado ao usá-la nós transformamos a internet. Um novo padrão sociotécnico emerge dessa interação. (CASTELLS, 2003, p.10).
A própria mudança da comunicação induziu, consequentemente, à modificação do indivíduo. A mutação do corpo humano híbrido com a máquina parece desenvolver diferentes cognições. A interatividade faz com que o cérebro trabalhe de maneira participativa, deixando de ser espectador apenas para se tornar um ser de múltiplas percepções. Os olhos e a tela, a mão e o mouse, a boca e o teclado, agora linkados e expandidos.
Uma problemática estética absolutamente original se configura nessa relação do homem com a máquina de inteligência artificial, capaz de converter em imagens as informações ( ou a provisão de símbolos codificados) contidos em seus circuitos. A imagem torna-se “o produto de alguma forma vivente da tela e igualmente dos dedos, da retina e do pensamento do observador; ela é o produto de uma surpreendente hibridação de carne, de símbolos e de silício” , como diz Couchot, que, ao mesmo tempo, realça o fato de nos encontrarmos diante de uma “nova
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estética de distribuição”, na forma de “como a imagem é socializada”3. (ZANINI, 2003, p.12).
Socializar essas imagens é também socializar uma autorrepresentação “editada”, publicando parte de nós mesmos. Essa nova comunicação desenvolve uma sensibilidade radicalmente diferente do que já tinha ocorrido ao longo da história, como relatou o antropólogo italiano Massimo Canevacci em entrevista41. Para o pensador, a experiência de relação com as outras pessoas, em diferentes tempo/espaços possibilita uma comunicação simultânea com sujeitos “que podem morar em mais ou menos todos os lugares do mundo”, modificando intensamente a capacidade perceptiva e também cognitiva. Além do que a possibilidade de estar executando multitarefas, como ler um jornal de Nova York, mandar um email, acessar o Orkut, é uma característica contemporânea dessa comunicação digital, segundo Canevacci.