Pavis (2007, p. 133) em seu Dicionário de teatro define o espaço cênico como sendo: O espaço concretamente perceptível pelo público na ou nas cenas, ou ainda os fragmentos de cenas de todas as cenografias imagináveis [...]. O espaço cênico nos é dado aqui e agora pelo espetáculo, graças aos atores cujas evoluções circunscrevem este espaço cênico.
Desta forma, o espaço cênico, impreterivelmente delimitado pela atuação é o local onde evoluem os atores e cria-se a espacialidade para o desenvolvimento das interações entre as personagens, estabelecendo uma relação com o público.
O espaço cênico se organiza de acordo com a proposta estética, mantendo conexão com o espaço teatral – definido como o local, o edifício, a sala, a praça, a escola, o mercado, a fábrica, etc. Pode-se constatar por sua evolução, que o espaço cênico vincula-se ao universo sociocultural, se constituindo enquanto objeto de percepção para o público a parir da relação com os atores e sua abordagem.
Ao inserirmos tal discussão, que admite a presença mediada como uma forma possível de presença, como também uma possibilidade de conectar espaços distantes geograficamente e promover diálogos e encontros, propomos pensar o espaço cênico não apenas como uma representação mimética de um lugar concreto, mas sim, como espaço que reflete e dialoga com as características dos espaços sociais percebidos e vivenciados por uma parcela significativa da sociedade.
Para tanto, nos valeremos das discussões de Giddens (1991), que evidencia que todas as sociedades pré-modernas calculavam o tempo, porém, esse cálculo, que constituía a base da vida cotidiana majoritária da população, vinculava-se sempre a tempo e lugar, caracterizando-se como impreciso e variável.
Ninguém podia dizer a hora do dia sem referência a outros marcadores sócioespaciais (sic.): ―quando‖ era quase, universalmente, ou conectado a ―onde‖ ou identificado por ocorrências naturais regulares. A invenção do relógio mecânico e sua difusão entre virtualmente todos os membros da população (um fenômeno que data em seus primórdios do final do século XVIII) foram de significação-chave na separação entre o tempo e o espaço. O relógio expressava uma dimensão uniforme de tempo ―vazio‖ quantificado de uma maneira que permitisse a designação precisa de ―zonas‖ do dia (a ―jornada de trabalho‖, por exemplo). (GIDDENS, 1991, p. 25-26).
Na esteira da uniformidade de mensuração do tempo pelo relógio mecânico, advêm à uniformidade na organização social do tempo. Fenômeno que acarreta a configuração por meio da padronização em escala mundial dos calendários, apesar de diferentes calendários continuarem a coexistir, incluem-se em uma datação, que como observa Giddens (1991) tornou-se universal, a exemplo da chegada do ano 2.000. Outro aspecto é a padronização do tempo através das regiões. Anteriormente, quando o tempo estava sempre associado ao espaço, áreas distintas de uma mesma região possuía ―tempos‖ diferentes, devido às necessidades de associação ao onde e as ocorrências naturais regulares.
Com as possibilidades abertas pelo relógio mecânico, que irá dissociar o tempo do espaço, Giddens (1991, p. 26) nos proporá que:
O ―esvaziamento do tempo‖ é em grande parte a pré-condição para o ―esvaziamento do espaço‖ e tem assim prioridade causal sobre ele. Pois, [...] a coordenação através do tempo é a base do controle do espaço. O desenvolvimento de ―espaço vazio‖ pode ser compreendido em termos de separação entre espaço e lugar.
O autor nos alerta para a distinção entre espaço e lugar, muitas vezes utilizados como sinônimos. Lugar está associado à ideia de localidade, a um cenário físico situado geograficamente.
O advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre outros ―ausentes‖, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente o que esta presente na cena; a ―forma visível‖ do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza. (GIDDENS, 1991, p. 27).
O desenvolvimento de meios capazes de subdividir o espaço de forma fidedigna sempre foi mais disponível do que meios de produzir formas de mensuração de tempo uniformes. Posto isso, é importante ressaltar que o deslocamento do espaço do lugar não está associado à emergência de meios de mensurar uniformemente o tempo, mas, como nos evidencia Giddens (1991, p. 27) o desenvolvimento do espaço vazio estaria ligado a dois fatores:
Aqueles que concedem a representação do espaço sem referencia a um local privilegiado que forma um ponto favorável específico; e aqueles que tornam
possível a substituição de diferentes unidades espaciais. A ―descoberta‖ de regiões ―remotas‖ do mundo por viajantes e exploradores ocidentais foi a base necessária para ambos. O mapeamento progressivo do globo que levou à criação de mapas universais, [...], estabeleceu o espaço como ―independente‖ de qualquer lugar ou região.
Precisamos perceber a separação entre tempo e espaço como uma via de mão dupla que possui traços dialéticos e é suscetível a reversão. Todavia, tal rompimento fornece uma base recombinável em diversas atividades sociais. Tomemos como exemplo a criação de uma tabela com os horários de apresentações de diversos grupos participantes de um festival de teatro. À primeira vista, a criação de uma tabela que determine os horários e as datas das apresentações dos grupos que integram o festival estaria associada a um mapa temporal, porém, é na verdade um dispositivo de ordenação tempo-espaço, visto que irá indicar quando e onde será as apresentações, permitindo a complexa coordenação de atores, cenários, produtores e espectadores por meio de extensões de tempo-espaço.
Todas estas considerações visam objetivar a importância da separação tempo / espaço para nossas discussões vindouras, se valendo do que Giddens (1991) denomina processo de desencaixe e seus mecanismos, a saber: fichas simbólicas e sistemas peritos; e confiança.
Para o autor, a separação entre tempo e espaço é a condição principal do processo de desencaixe, pois, ―sua formulação em dimensões padronizadas, ‗vazias‘, penetram as conexões entre a atividade social e seus ‗encaixes‘ nas particularidades dos contextos de presença.‖ (GIDDENS, 1991, p. 28). As instituições desencaixadas expandem as possibilidades de distanciamento tempo/espaço, criando mecanismos de conectar o global e o local de formas impensadas anteriormente, dinâmica essa que afeta rotineiramente a vida de milhões de pessoas. O autor define o desencaixe como sendo o ―deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço‖ (GIDDENS, 1991, p. 29).
Os mecanismos de desencaixe retiram as atividades sociais de contextos localizados e as reorganiza por meio de grandes distâncias tempo-espaciais. Por um longo período, a formação da comunidade pautou-se no sentimento de pertencimento atrelado a um convívio próximo. A partir da possibilidade de desencaixar-se da localização geográfica e temporal, ampliam-se as possibilidades de experiências comunitárias, pois, o referido fenômeno não estaria mais associado ao pré-requisito anterior, derivando daí outras possibilidades de relações, que irão coexistir e se efetivarão por meio das relações interpessoais.
Fichas simbólicas – ―meios de intercâmbio que podem ser ―circulados‖ sem ter em vista as características específicas dos indivíduos ou grupos que lidam com eles em qualquer conjuntura particular‖ (GIDDENS, 1991, p. 30). Existem vários tipos de fichas simbólicas, a exemplo do dinheiro. O dinheiro propicia a realização de transações entre indivíduos que se encontram separados no tempo e no espaço, funcionando ―como um meio de vincular tempo- espaço associando instantaneidade e adiamento, presença e ausência‖. (GIDDENS, 1991, p. 33).
Sistemas peritos – ―sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje.‖ (GIDDENS, 1991, p. 35).
A internet, mecanismo de desencaixe por excelência, por possibilitar a manipulação, realização de dados, como também, a interação entre pessoas amplamente separadas no tempo e no espaço, teve seu desenvolvimento a partir de tentativas não satisfatórias desde o final da década de 1960, que visavam o surgimento de serviços públicos de informação. Porém, seu aprimoramento nas décadas seguintes serviu para demonstrar o interesse público e privado por serviços interativos de informação on-line. Todavia, é na década de 1980 que ocorre a viabilidade em escala mundial, que irá possibilitar a conexão com computadores pessoais pelo modelo da internet, tendo como idioma o protocolo TCP/IP12; tal modelo tem seu uso ampliado a partir de 1993.
Tendo em vista que os mecanismos de desencaixe se subdividem em fichas simbólicas e sistemas peritos, devido as suas características a internet configura-se enquanto um sistema perito.
Os sistemas peritos são mecanismos de desencaixe porque, em comum com as fichas simbólicas, eles removem as relações sociais das imediações do contexto. Ambos os tipos de mecanismos de desencaixe pressupõem, embora também promovam, a separação entre tempo e espaço como condição do distanciamento tempo-espaço que eles realizam. Um sistema perito desencaixa da mesma forma que uma ficha simbólica, fornecendo ―garantias‖ de expectativas através de tempo-espaço distanciados. Este ―alongamento‖ de sistemas sociais é conseguido por meio da natureza impessoal de testes aplicados para avaliar o conhecimento técnico e pela
12 Transmission Control Protocol/Internet Protocol é o idioma dos computadores na rede internet. Ele permite a divisão, endereçamento e re-direcionamento dos pacotes. É a linguagem de comunicação de base da rede. Graças a essa linguagem, todos os computadores – pequenos ou grandes – falam entre si e se compreendem, seja qual for o ponto do planeta. Com isso, além de comunicar, os computadores puderam também codificar e decodificar pacotes de dados que viajam em alta velocidade pela rede. (SANTAELLA, 2003, p. 87).
crítica pública (sobre a qual se baseia a produção do conhecimento técnico), usado para controlar sua forma. (GIDDENS, 1991, p. 36).
Ambos necessitam da confiança, que se apresenta como uma ―forma de fé na qual a segurança adquirida em resultados prováveis expressa mais um compromisso com algo do que apenas uma compreensão cognitiva‖ (GIDDENS, 1991, p. 35). Confiança requer atitude de crédito ou crença e pressupõe consciência das circunstâncias de risco. A noção de risco é recente, tendo o termo surgido na modernidade, atrelado a compreensão da imprevisibilidade de determinados eventos e ações associados à atividade humana serem socialmente criadas, e não mais advindas da natureza ou de ações da deidade.
Dessa forma, segundo Giddens (1991, p. 41), ―a confiança está basicamente vinculada, não ao risco, mas à contingência. A confiança sempre leva à conotação de credibilidade em face de resultados contingentes, digam estes respeito a ações de indivíduos ou à operação de sistemas‖.
Retomando a discussão inicial, referenciamos Ubersfeld (2007, p. 107) ao cogitar que o espaço cênico ―pode ser a transposição de uma poética textual‖. Propomos pensar que na contemporaneidade, com a gradativa desierarquização dos elementos constituintes da cena e com a desvinculação entre tempo e espaço, o inverso também pode ser afirmado. A partir de uma discussão de espaços cênicos possíveis, pode-se criar uma poética textual para operacionalização de tal proposta estética, a exemplo das proposições do GAG Phila7, que temos como objeto de estudo. Em entrevista,13 Rubens Velloso (2011), um de seus co- fundadores, admite ser necessário criar poéticas textuais para operacionalizar e conectar os espaços cênicos desterritorializados e os atores separados geograficamente; ambos chegam até a plateia por mediação tecnológica, fazendo-se necessário criar estratégias para efetivação desta proposta de construção da narrativa. Dessa forma, comungamos com a proposição de que: ―[...] no teatro, o que sempre se reproduz são as estruturas espaciais, que definem não tanto um mundo concreto, mas a imagem que os homens têm das relações espaciais na sociedade em que vivem, e dos conflitos que sustentam essas relações‖. (UBERSFELD, 2005, p. 94).
Não seria o espaço cênico criador, portador e reconfigurador da narrativa? A possibilidade de se pensar em espaços remotos e vazios, não amplia também as possibilidades de criação de outros espaços cênicos admissíveis? Não estaria o teatro se apropriando, como
13 Ver anexos. Entrevista concedida a Larissa Hobi e publicada na revista Moringa – Artes do Espetáculo, João Pessoa, Vol. 2, n. 1, 81-89, Jan./Jun. de 2011.
sempre o fez, das características do espaço social como é vivido e percebido na contemporaneidade?