4.2 Prosjektets troverdighet
4.2.3 Forskningsetisk overveielser
Nesta sessão discutimos as relações do corpo na era pós-biológica e possíveis presenças. É possível observar como desdobramentos de pesquisas desenvolvidas em outras áreas do conhecimento acabam influenciando e instigando novos processos artísticos, podendo citar como exemplo o teatro que faz uso das mídias, as artes performáticas, a arte cibernética, dentre outras, que se utilizam dos avanços tecnológicos nas áreas da biotecnologia, da robótica, engenharia molecular, nanotecnologia e tecnologias computacionais, pautando e se valendo da ciência em seus experimentos e criações artísticas que, se relacionam e tangenciam discussões contemporâneas referentes ao pós-humano; propondo reflexões e questionando que corpo é esse? Como se porta esse corpo alterado, reconfigurado, esquadrinhado, remodelado, plugado?
Na contemporaneidade quais as perspectivas em relação ao corpo? Como se porta o corpo do ator tendo a mídia que se interpõe? De que forma se apresenta esse corpo na cena contemporânea? Essas e outras questões têm se tornado uma constante em vários trabalhos artísticos, já que o corpo sempre foi requisitado nas artes, em determinados momentos com maior ou menor intensidade.
Com o advento das ―novas tecnologias‖ tem-se tornado corriqueiro discussões acerca do futuro do humano, discussões essas antes abordadas apenas pela ficção científica, que especulava de que forma o humano se configuraria no futuro. Esse gênero literário considerado por muitos como inferior, tem adquirido na contemporaneidade a expressão de uma realidade potencial que transita como ficção da ciência e ciência da ficção. Estudiosos acreditam que essa projeção no futuro está presente dentro e fora dos seres humanos, tornando-se parte da nossa realidade e auxiliando a reconfigurá-la em relação à sua percepção. Laymert Garcia dos Santos (2008, p. 45) ao citar Bracolly, nos propõe que ―a projeção no futuro, outrora o território do escritor de ficção científica, se transformou na modalidade dominante de pensamento. Esta é a influência da ficção científica no pensamento moderno‖.
Para buscar compreender melhor de que forma os avanços tecnológicos proporcionam a maquinação do homem e a humanização da máquina, provocando transformações no fazer artístico, traçamos um breve panorama acerca da mutação em relação ao futuro do humano para, em um segundo momento, adentrarmos na questão teatral em si.
Para que pudéssemos tratar do pós-humano, utilizamos dois filmes do gênero supracitado, das décadas de 1980 e 1990, nos quais o futuro do humano é abordado por vias distintas. O primeiro é Blade Runner, o caçador de andróides, de 1982, dirigido por Ridley
Scott. O filme apresenta uma visão do pós-humano por via da singularidade tecnológica – teoria que defende que um evento histórico previsto para o futuro forçará a humanidade a atravessar um vertiginoso avanço tecnológico em um curtíssimo espaço de tempo. Seus defensores argumentam que a aceleração das descobertas científicas ocorridas em diversas áreas do pensamento, como a informática, astronomia, nanotecnologia e biotecnologia, irá nos forçar a vivenciar esse momento num possível futuro imediato. Essa via é mais radical, pois entende o pós-humano como uma superação do humano pela máquina, tornando o humano como o concebemos atualmente obsoleto.
O segundo filme é Gattaca, A Experiência Genética, de 1997, dirigido por Andrew Niccol. O filme apresenta uma visão do pós-humano por via da transformação biotecnológica ou biogenética – que prevê o aperfeiçoamento da espécie humana via seleção genética e controle da reprodução, criando-se a possibilidade da abertura de uma segunda linha de evolução do humano por meio de sua transformação genética. Os teóricos consideram essa segunda via menos radical que a primeira, pois não ocorreria a obsolescência do humano, e sim o aperfeiçoamento da espécie.
Para tal proposição precisamos definir, mesmo que grosso modo, o conceito de humano mais adequado para nossa discussão. Tomamos o conceito proposto por Nietzsche, o humano não mais atrelado ao ir além na relação com o transcendente sobrenatural, ou seja, com Deus. Segundo Tugendhat (2002, p. 48):
O conceito do transcender humano, do ir além, adquire um sentido mais amplo. O conceito básico é agora o de estar dirigido a um sentido da vida e o fato de que este sentido consista em algo supra-sensível é só um conteúdo entre outros. Nietzsche estava convencido de que o homem necessita para viver de um sentido da vida e, por isso, viu a sua tarefa numa reavaliação dos valores, segundo a qual os homens deveriam ver o sentido da vida na própria vida. Ao invés de obedecer aos valores dados (valores supra-sensíveis), o homem cria seus valores. Isso significa que a transcendência para o sentido da vida voltar-se-ia para o interior do próprio homem. Poder-se-ia, então, falar de uma transcendência imanente, quer dizer, de um ir além que precisamente não seria um ir a algo além do natural, mas um ir além do ser do homem.
A palavra singularidade é utilizada na astrofísica para designar o espaço interno dos buracos negros, local esse onde todas as leis que regem a matéria entram em colapso. Já o termo singularidade tecnológica foi cunhado pelo escritor de ficção científica Venor Vinge, que se inspirou no sentido dado por John Von Neumann, na década de 1950, para designar o ponto de mutação criado pela aceleração tecnológica e as transformações radicais decorrentes
desse processo, fazendo-se necessário que nossos velhos modelos fossem descartados. Essa corrente ganhou visibilidade em 1993, quando Venor Vinge publicou um artigo acadêmico intitulado The Technological Singularity, no qual argumentava: ―estamos no limiar de uma mudança comparável ao surgimento da vida humana na terra. A causa precisa dessa mudança é a iminente criação pela tecnologia de entidades com inteligência superior à humana‖ (VINGE apud SANTOS, 2008, p. 50).
Pertence a via da singularidade tecnológica, a aposta que é feita na inteligência artificial e no desenvolvimento tecnológico que acarretaria a abertura de um outro tipo de evolução, que viria com os robôs. Para Santos (2008, p. 51), ao apropriar-se da expressão, Vinge a vincula à inteligência sobre-humana, que para ele, é a essência da singularidade:
E foi ainda Vinge quem estabeleceu uma analogia entre esse acontecimento e o surgimento do homem na perspectiva da evolução das espécies, ao afirmar que estávamos entrando num regime tão radicalmente diferente de nosso passado humano quanto foi o dos homens com relação aos animais inferiores. Assim, tal analogia, ao mesmo tempo em que anunciava a ―superação‖ da espécie, consagrava o advento da era pós-humana.
Venor Vinge (apud SANTOS, 2008, p. 51) considera que a singularidade tecnológica será inevitável, porém, argumenta que ela poderá se efetivar de uma forma não tão radical como aquela que prevê ―a superação da espécie superior por uma outra ainda mais superior, porque mais inteligente, que aconteceria por meio da Inteligência Artificial‖; o caminho por ele apontado prevê a ampliação da inteligência por meio da intensificação da relação homem- computador, ―de tal modo que a ênfase não recaísse nas máquinas, mas no acoplamento‖ (SANTOS, 2008, p. 51-52).
Por terem tornado-se recorrentes, os estudos e especulações acerca do futuro do humano levaram diversos autores a retomarem ideias e argumentos já existentes no campo das ―novas tecnologias‖, como é o caso do inventor Ray Kurzweil, autor do livro A era das
máquinas espirituais, para ele:
O termo singularidade adquire uma nova inflexão no sentido de naturalizar uma estratégia de aceleração que é sociotecnopolítica, isto é, de transformá- la numa lei da natureza. Com efeito, assim como Vinge modificara o sentido de Singularidade de Von Neumann, estabelecendo uma analogia entre o que estava por vir e o surgimento da espécie humana, agora Kurzweil se apropria da expressão de Vinge para explicar, retrospectivamente, toda a cosmologia e toda a teoria da evolução. Assim, toda a evolução do universo é lida sob a ótica de uma aceleração que vai desembocar na criação, por seres inteligentes, de seres mais inteligentes do que eles. (SANTOS, 2008, p. 52).
Kurzweil (apud SANTOS, 2008, p. 52) especula que a emergência de uma inteligência que possa competir e/ou vir a superar a inteligência que a criou será ―[...] um desenvolvimento de maior importância do que a criação da inteligência que a criou, e terá profundas implicações em todos os aspectos do esforço humano, incluindo a natureza do trabalho, o aprendizado humano, os governos, a guerra, as artes e nosso conceito de nós mesmos‖. O autor aposta na aceleração tecnológica como fator de superação do humano, pautando sua hipótese na convergência de três revoluções tecnológicas, a saber: a biotecnologia, nanotecnologia e robótica, todas essas ―[...] baseadas na cibernetização da ciência e nas tecnologias da informação digital e/ou genética.‖ (SANTOS, 2008, p. 53).
Vinge identificou a singularidade tecnológica como sendo o ponto fulcral das mudanças culturais decorrentes do avanço exponencial da tecnologia. Já Kurzweil amplia o conceito de singularidade tecnológica quando o identifica como o ponto de fusão total entre matéria e inteligência híbrida. Segundo Lemos (2008, p. 03):
Originalmente, o conceito de Singularidade tecnológica evoca o efeito de percepção que brota no homem a partir da tecnologia, não se referindo a uma mudança na realidade em si mesma, mas apenas na percepção humana da realidade. Kurzweil foi o responsável pela expansão do conceito de Singularidade tecnológica para abarcar mudanças que se efetuam não apenas na relação entre percepção humana e realidade, mas, fundamentalmente, na própria estrutura da realidade física e social.
[...] assim como um buraco negro no espaço sideral altera dramaticamente os padrões de matéria e energia que se aceleram em direção ao seu horizonte de eventos, a Singularidade tecnológica que se aproxima futuramente está progressivamente transformando cada instituição e aspecto da vida humana. Retomando a ideia de ilustrar essa perspectiva do pós-humano e da singularidade tecnológica, gostariamos de apontar que esse é o tema central do filme Blade Runner, que já na tela de abertura traz uma apresentação da problemática que norteia a trama: ―No início do século XXI a Tyrel Corporation criou os robôs da série Nexus, virtualmente idênticos aos seres humanos. Eram chamados de replicantes. Os replicantes Nexus 6 eram mais ágeis e fortes e no mínimo tão inteligentes quanto os engenheiros genéticos que os criaram. Eles eram usados fora da terra como escravos em tarefas perigosas da colonização planetária. Após motim sangrento de um grupo de Nexus 6, os replicantes foram declarados ilegais, sob pena de morte. Policiais especiais, os blade runners, tinham ordens de atirar para matar qualquer replicante. Isto não era chamado execução, mas sim ‗aposentadoria‘.‖ Em seguida é indicado o ano (2019) e local (Los Angeles – EUA), onde se passa a trama.
É nítido no filme que, com os avanços tecnológicos, tornou-se possível a criação de máquinas humanizadas (na ficção, fabricadas pela Tyrell Corporation sob a alcunha de serem "mais humanos que os humanos"). Os modelos Nexus-6, apesar de serem mais ágeis, fortes e inteligentes que qualquer ser humano, possuem apenas quatro anos de vida, o que os leva a buscar o seu criador para prolongar este tempo de vida e memória.
Em Blade Runner, os replicantes, embora não sejam do gênero humano, mas sim objetos técnicos complexos, produtos do trabalho humano, da evolução tecnológica, da engenharia genética e de seus avanços fantásticos, reivindicam um atributo elementar da hominidade: tempo de vida. É claro que a oposição entre potencialidades de desenvolvimento e tempo de vida é dilacerante. A busca por mais tempo fomenta uma estranha obsessão. Tyrel (dono da corporação que fabrica os andróides Nexus-6) reconhece tal dilema dos replicantes quando diz a Deckard (um caçador de andróides): ―[...] eles são emocionalmente inexperientes, têm poucos anos para coletar experiências que nós achamos corriqueiras. Fornecendo a eles um passado criamos um amortecedor para sua emoção e os controlamos melhor.‖
Para o sociólogo português e professor do St. Antony‘s College, de Oxford, Hermínio Martins (apud SANTOS, 2008, p. 55), o conhecimento científico pretende realizar o desejo secreto de romper definitivamente com o passado animal do humano e promover a superação de seus limites, tidos como limitações, por meio da tecnociência, que permitirá ―a um ser desanimalizado e desumanizado assumir inteiramente a condução da seleção natural e substituí-la por uma não-natural‖. Segundo Giovanni Alves11: ―Blade Runner é uma pequena odisséia de homens e mulheres, humanos e pós-humanos, em busca da sua identidade perdida‖.
No filme se efetiva a superação do humano pela máquina, que ocorre na perspectiva da singularidade tecnológica, que ―postula que a criação de uma inteligência que supere a humana é possível e desejável; mais ainda, defende que esse tipo de super-inteligência poderia possuir qualidades morais, sendo mais constante na sua atitude moral do que o ser humano. Tudo dependeria da programação‖ (ALVES, 2008, p. 59).
Em entrevista concedida ao grupo de pesquisa Conhecimento, Tecnologia e Mercado (CteMe) em 2005, Laymert Garcia dos Santos afirma que:
11 Coordenador-geral do projeto de extensão Tela Crítica - Trabalho, Técnica e Estranhamento - da UNESP Universidade Estadual Paulista - Campus de Marília. Disponível em: <http://www.telacritica.org/BladeRunner.htm>. Último acesso em: 09 fev. 2010.
Essa é uma via radical e otimista, pois acha que, se seu corpo é um hardware falho e ultrapassado, você pode fazer um download de sua mente num corpo que seja melhor. Mas a obsolescência do corpo estaria se dando aos poucos, e não de uma só vez. Ela ocorre, por um lado, através de uma necessidade aparentemente crescente de modificar o organismo mediante a incorporação de próteses para lidar com a velocidade da transformação; e, por outro, através da formulação de uma ―exigência‖ cada vez maior de que o homem precisa poder viver em ambientes que não são o seu habitat natural — como as viagens espaciais. Alguns cosmólogos, por exemplo, chegam a pensar que a vida inteligente precisa continuar no espaço, caso uma catástrofe elimine todas as condições de sobrevivência da espécie humana na terra, tentando antecipar este fim. (SANTOS, 2005, p. 164).
Já no filme Gattaca, A Experiência Genética, de 1997, dirigido por Andrew Niccol, é apresentada uma visão do pós-humano por via da transformação biotecnológica ou biogenética, que inaugura aquilo que alguns estão chamando de um novo tipo de eugenia. Esse aperfeiçoamento da espécie via seleção genética pode se dar de forma negativa e positiva. Na eugenia negativa ocorreria a eliminação dos considerados ―humanos com deficiências‖ para purificação da raça, como entre os espartanos. Já na eugenia positiva o patrimônio genético é melhorado através de transformações nas células germinativas que, no decorrer de muitas gerações, dariam origem a uma segunda linha de evolução do humano. Tal alternativa é considerada, por muitos críticos, como um problema tanto ético quanto político, que necessita de discussão e limites, pois preconiza a desconstrução da natureza humana.
Gattaca conta a história de dois irmãos, um concebido da maneira natural (taxado
oficialmente de inválido) e o outro manipulado geneticamente. O inválido possui várias doenças genéticas e, ao ter seu DNA examinado quando nasce já tem uma data prevista para sua morte. Contudo, o garoto sonha em viajar ao espaço – função impensável para alguém com seus problemas – e vai buscar todas as maneiras possíveis para superar suas limitações, ao mesmo tempo em que tem que esconder de todos a sua condição. Vincent Freeman, o protagonista da trama, nasceu do amor de seus pais sem preparos genéticos. Tem, desde pequeno, o desejo de ser um astronauta, mas tem em seu código genético predisposições a doenças que não lhe permitem nada melhor em vida que o emprego de faxineiro no laboratório espacial. Consegue, porém, um lugar de destaque em uma corporação (Gattaca), escondendo sua identidade genética verdadeira. Tudo segue perfeitamente, com muito esforço, até que um assassinato em seu emprego põe sua verdadeira identidade em risco, podendo expor seu passado.
No futuro seria gritante a dicotomia entre os que evoluem de acordo com a transformação genética e a seleção natural. Essa grande diferença é o fio condutor da trama de
Gattaca, que se passa em um futuro não muito distante, em que a manipulação genética
fomenta uma nova espécie de (pré)conceito e hierarquia racial, estando a sociedade dividida em duas ―classes sociais‖: os válidos, ―filhos da Ciência‖, produtos da engenharia genética e da eugenia social, e os inválidos, ―filhos de Deus, filhos do amor‖, submetidos ao acaso da natureza e às impurezas genéticas. Para Hermínio Martins (apud SANTOS, 2008, p. 55) é possível perceber:
[...] com clareza a existência no interior da tecnociência de dois programas distintos, que vêm se desenvolvendo paralelamente: o projeto de aceleração- para-a-Singularidade e o projeto da reprogenética, ancorado na engenharia genética e na genômica – o primeiro como a expressão de uma vontade de superar o humano, o segundo, de uma vontade de ampliar ilimitadamente os poderes naturais do homem.
Há ainda uma terceira vertente para a configuração do futuro do humano. Essa linha de pensamento ―considera que essas duas linhas constroem, ao lado da aceleração tecnocientífica e econômica, uma espécie de grande narrativa da obsolescência do humano e do futuro pós-humano. O capitalismo e a tecnociência estão apresentando a obsolescência e a passagem para o pós-humano dessa maneira‖ (SANTOS, 2005, p.165).
Santos (2005) nos propõe pensar em outros termos; levando em consideração não a técnica, mas sim as máquinas, ou seja, as maquinações. Diante dessa proposta em que ocorre uma interação do humano com as máquinas, e não apenas sua superação, levanta questões como:
Em que medida os humanos são maquinados também, em que medida eles pertencem ao mesmo terreno do pré-individual, quais relações existem entre o humano e o não-humano, no sentido do animal, no sentido da máquina? Que tipo de transformações ainda poderiam ser atualizadas no humano? Partimos, portanto, do pressuposto de que não há obsolescência do humano. Existe muita virtualidade, nem se sabe quanta, e nem é o caso de quantificar. Supor que o humano está obsoleto é fechar uma possibilidade aberta para construir a via que a tecnociência e o capital querem colocar para nós. Então esse é um problema político. Essa linha — representada por Ansell Pearson, Brian Massumi, gente inspirada em Deleuze e Guattari, o pessoal que pensa a biopolítica em termos foucaultianos — até usa uma outra palavra para se referir à questão do pós-humano. Eles falam em ―transumano‖, porque pensam essa questão tomando como referência o ―para além do humano‖ de Nietzsche, que não significa a morte do ―homem‖, mas a morte do ―Homem‖ consagrado pelo humanismo e pelo Iluminismo. (SANTOS, 2005, p. 165).
Com a virada cibernética e a aceleração tecnocientífica em curso, o humano se reconfigura, não só em relação ao eu, mas também em relação ao coletivo, o social, provocando reajustamentos e refuncionalizações como forma de tentativas em relação ao vir a ser tecnológico do mundo, que culmina com o pressuposto de que o ser humano já está inserido em uma era pós-biológica, pós-humana. Essas inquietações, geradas a partir da aceleração tecnocientífica desencadeiam questionamentos e perspectivas relativas ao ser humano na contemporaneidade, onde ocorre a fusão entre matéria (biológica) e inteligência híbrida (artificial). Temos que pensar em que medida a maquinação faz parte do humano, pois:
Apesar das diferenças, existem pontos de contato ou níveis de correspondência grandes entre nossa maneira de individuar e o processo de individuação das máquinas. Por exemplo: a máquina é, digamos, pensamento congelado, matéria concretizada. Ela já tem o humano embutido. E nós, por outro lado, também temos muito de maquínico, pelo tipo de agenciamento que fazemos em nossa relação com o lado de fora. Por esse motivo, pensar a questão em termos de oposição é muito ruim: ou se antropomorfiza a máquina, ou se mecaniza o humano. [...] Em outros termos: de que maneira, ao nos individuarmos, atualizamos uma potência virtual com as máquinas, que então também atualizam virtualidades que pertenciam ao terreno do pré-individual. [...] A maquinação faz parte do humano. Maquinação é agenciamento, ou agenciamentos moleculares a partir desse terreno pré-individual onde nos encontramos com as máquinas, assim como com os animais e o inanimado. (SANTOS, 2005, p. 166). Definido, então, a que conceito de pós-humano nos referimos – o humano relacionado com o ir além do próprio homem –, como também a vertente do pós-humano adotada, a saber, a terceira via – que prevê um híbrido entre a singularidade tecnológica e a transformação biotecnológica ou biogenética, como nos propõe Santos (2008), por meio das maquinações, onde ocorre uma interação do humano com as máquinas, e não apenas sua superação, adentraremos nas questões relativas a intersecção corpo do ator/tecnologia e as mutações possíveis nesse corpo.
A aceleração tecnológica tem promovido na contemporaneidade uma ruptura gradativa em relação a conceitos como: tempo, presença, espaço e corpo. Tal aceleração altera modelos