O mais importante material de apoio a esta pesquisa foram as entrevistas gravadas com lideranças e participantes dos movimentos, tendo como principal ferramenta o método da história oral. Daniele Voldman usa ―a expressão ‗história oral‘ para o método que consiste em utilizar palavras gravadas [...] Fonte oral designa esse material distinto, pelo suporte, da fonte escrita‖. (VOLDMAN, 1996, p. 248).
Uma das vantagens do método da história oral é que o pesquisador (historiador do tempo presente) ―é contemporâneo de seu objeto e partilha as mesmas categorias essenciais e as mesmas referências fundamentais daqueles cuja história narra‖. Este método enfrenta, entretanto, uma questão difícil para qualquer historiador, ou seja, ―a articulação entre a parte voluntária e consciente da ação humana e os fatores ignorados que a circunscrevem e limitam‖. (PASSERINI, 1996, p. 216).
Quanto à alegada subjetividade presente a esse método, tomo em conta os debates a respeito da impossibilidade de uma neutralidade absoluta, de um lado, e, por outro, a importância da recuperação da subjetividade. Partilho a convicção exposta por Passerini (1996) sobre a objetividade na ciência, já seguindo a posição de Sartre: cumpre restituí-la em toda a sua dignidade, conferindo-lhe o status de ―mito regulador‖. (PASSERINI, 1996, p. 224). Em outras palavras, a objetividade absoluta permanece para o pesquisador como um ideal a balizar seus atos e investigações.
Esse tipo de objetividade assemelha-se à utopia, aquele ponto de chegada que permanece em um horizonte que se desloca a cada instante, inalcançável, mas que cumpre o papel de nos fazer caminhar e superar obstáculos; assemelha-se à estrela-guia cujo papel é levar os navegantes aos portos, embora
ela própria jamais seja alcançada. Sendo a objetividade plena inalcançável, sua busca serve para que se faça ciência com a isenção possível. A objetividade sofreu rejeição após o auge do positivismo, movimento que lhe deu exagerada importância. Passa, agora, ao papel de ―mito regulador‖, pois subjetividade sempre haverá e esta também tem sua importância para a ciência, na incessante busca da verdade.
Objetividade e subjetividade caminham juntas, dada a complexidade do real. O raciocínio objetivo leva ao conceito, ao porquê decorrente do raciocínio lógico, isto é, implica redutibilidade, simplificação. A história oral, sem descurar da objetividade a respeito dos fatos ocorridos, leva em conta também os fatores individuais que os desencadearam e a interpretação pessoal que a fonte dá aos acontecimentos. ―As subjetividades não são problema na análise das fontes [da história oral], pelo contrário: dão margem à pluralidade de versões de diferentes narradores e das múltiplas verdades‖ presentes em um fato. (LUCENA, 1999, p. 24). Esse método adota o largo emprego do potencial da subjetividade, para dar conta da complexidade do mundo (BARBIER, 2004). Já na postura positivista, ―existe uma ilusão de querer o oceano do real com o canudinho do conceito‖. (BARBIER, 2004, p. 86).
Esta é uma pesquisa do real sob o paradigma da complexidade, em oposição, por conseguinte, ao da simplicidade (conceito). Se a perspectiva da complexidade orienta o olhar, este ora separa o que está ligado (disjunção), ora unifica o que é diferente (redução). Procurei, enquanto pesquisador, resguardar-me de todo julgamento definitivo, para traduzir continuamente a evolução do real, o que exige, igualmente, levar em conta os sujeitos. O paradigma da complexidade impõe ao pesquisador, portanto, uma visão sistêmica e aberta.
A discussão em torno da objetividade e do complexo traz à tona a dimensão do tempo. Há vantagem em estudar eventos dos quais estamos separados por até vários séculos porque o estudioso tem mais facilidade de distinguir as tendências importantes. Entretanto, ao centrar-se em fatos estáveis, constantes, ele acaba propenso a considerar irrelevantes os pequenos fatos e atitudes. Já a história do tempo presente ―é um bom remédio contra a racionalização
a posteriori, contra as ilusões de ótica que a distância e o afastamento podem
gerar‖. (RÉMOND, 1996, p. 209).
Há que se verificar, também, o tipo de texto que essa história produz. Para Roger Chartier, a história do tempo presente constitui um tipo de narrativa,
porém não se trata de uma ficção, uma vez que abrange o que realmente ocorreu. Neste sentido, ―é narrativa e saber‖. (CHARTIER, 1996, p. 217). O pressuposto de base, aqui, é: a história oral, ao envolver os fatos registrados e o sentimento, a valoração, o envolvimento dos presentes, torna-se ―praxiológica‖, como a pesquisa- ação (BARBIER, 2004, p. 80), isto é, não é mais totalmente positivista nem totalmente fenomenológica, mas uma dialética entre os fatos objetivos e os fatos subjetivos, ou seja: nela interagem ação e reflexão. Situa-se, portanto, fora dos muros da ―neutralidade axiológica‖ que se quer científica porque jamais emitiria juízos de valor. (COUTINHO, 2011, p. 11).
A história oral baseia-se principalmente no discurso do entrevistado.
O discurso é, filosoficamente, o entendimento em oposto à intuição. O discurso requer necessariamente o raciocínio e neste repousa. Isso implica conceber os seres humanos como senhores da história. O discurso relacionado ao vivido é, portando, dotado de qualidade extrema. Sua qualidade cresce, se pode ser contestado, o que significa encarar a realidade como um dado complexo e dinâmico. (BARBIER, 2004, p. 82).
Malinowski (1984, p. 18-19), em sua obra Argonautas do Pacífico Ocidental, em certa medida resume bem, a meu ver, o que aqui se discute:
Na etnografia, o autor é, ao mesmo tempo, seu próprio cronista e historiador; suas fontes de informação são, indubitavelmente, bastante acessíveis, mas também extremamente enganosas e complexas; não estão incorporadas a documentos materiais fixos, mas sim, ao comportamento e memória de seres humanos.
Este é um trabalho baseado prioritariamente na ―memória de seres humanos‖. Assim, na pesquisa de campo, entrevistei 72 pessoas entre lideranças e testemunhas das lutas de 20 movimentos sociais, membros e ex-membros do parlamento, funcionário(a)s de órgãos públicos, especialistas de diversas áreas e cientistas que são professore(a)s e pesquisadores de nossas universidades. As entrevistas ocorreram em escritórios, nas salas de visita e quintais das residências, nos locais de trabalho dessas pessoas e até em shoppings. Nas gravações transparecem as características do ambiente como o canto de pássaros, livres ou engaiolados, e de animais domésticos; o barulho do trânsito, as falas de familiares ao trazerem um cafezinho ou água, o burburinho das pessoas e as interrupções provocadas pelos onipresentes aparelhos celulares – o meu, inclusive.
As entrevistas foram marcadas com antecedência, por telefone ou via e-
mail. As pessoas ficavam sabendo com antecedência o motivo da pesquisa, o
enfoque do trabalho e os pontos a serem abordados na conversa. Recebiam previamente as perguntas para refletir e juntar documentos. A cada pessoa pedi que me fornecesse recortes de jornais e boletins, fotos, anotações, enfim, registros das campanhas e de suas repercussões, fossem positivas ou negativas.
Quase todos manifestaram vontade de colaborar com a pesquisa e de suas falas resultou um vasto registro que supera as lutas por áreas verdes, pois engloba também aspectos da economia, da urbanização, dos usos e costumes, da superação da ditadura, da consciência cidadã, dos embates entre as forças populares e o poder econômico, da junção de movimentos sociais e partidos políticos, das crenças religiosas, das características étnicas, bem como da chegada da primeira mulher brasileira ao poder como prefeita. Uns poucos, porém, negaram- se terminantemente a gravar depoimentos e a fornecer algo que eu pudesse copiar. Sua soma não perfaz os dedos da mão.