Minha experiência no movimento ambiental está presente neste trabalho como motivação pessoal para a escolha do tema. Documentos guardados, informações orais, impressões, hipóteses, conclusões, conceitos e preconceitos acumulados ao longo do tempo são dados a que recorro inevitavelmente, de modo consciente e até inconsciente. Ao fazer a pesquisa, estive em reuniões e em manifestações dos movimentos, quando conversei, pedi esclarecimentos, gravei entrevistas e fiz anotações. Este foi o período considerado de aplicação do método de observação participante.
Conforme Gil (2007), a observação direta de um objeto reduz a subjetividade, mas a presença do observador pode alterar o comportamento dos observados. Assim é que, quanto aos meios utilizados, a observação pode ser estruturada ou não estruturada. Há vários tipos de observação, do ponto de vista da participação do observador, e passo a enumerar alguns:
A observação simples é espontânea e nela o observador é um espectador, como na reportagem jornalística. Ajuda a delimitar o problema, favorece a
construção de hipóteses e facilita a coleta de dados sem querelas ou suspeitas. É apropriada para pesquisas exploratórias.
A observação participante foi usada inicialmente por antropólogos nas chamadas ―sociedades primitivas‖. Também é chamada de ―pesquisa participante‖. (BRANDÃO, 1983 apud GIL, 2007). Nela, o pesquisador assume, em maior ou menor grau, a condição de membro do grupo a ser pesquisado. Há casos em que o próprio membro natural do grupo é o observador ou um deles. Se pertence ao grupo, a pesquisa é chamada de observação participante natural; quando o pesquisador vem de fora e é admitido pelo grupo, chama-se observação participante artificial. (GIL, 2007, p. 108).
Observação sistemática. É aquela própria de situações de campo ou de laboratório, muito comum nas pesquisas experimentais. (GIL, 2007). Nesta, predomina a postura positivista a postular uma objetividade suprema advinda da razão, em detrimento da subjetividade e da sensibilidade.
As vantagens da observação participante, do tipo pesquisa participante acima, são várias: acessar dados e situações com mais facilidade; conhecer algo que o grupo pode considerar de domínio privado; e obter esclarecimentos de fatos e comportamentos observados, já que a tendência é o observador adquirir a confiança do grupo, nos casos mais frequentes em que o observador é um estranho. Entre as desvantagens, são apontadas: restrições, se o observador assume papéis; difícil acesso, se o pesquisador atua em comunidade estratificada e pertence a um dos estratos. Em tais situações, cresce a desconfiança e cai a qualidade da informação adquirida. Ainda que aceito, o pesquisador pode tomar partido, já que integra uma das classes.
O método da observação participante aqui adotado mantém frente à possibilidade de conhecimento (episteme) uma atitude praxiológica, como já registrado. Em outras palavras, ―supõe uma interação de ação e reflexão‖, como diz Barbier (2004, p. 80), a respeito da pesquisa-ação, de que falo a seguir. Mostro que, embora a pesquisa-ação não seja o método aqui adotado, ela se fundamenta nos mesmos princípios epistemológicos da observação participante, como aqui entendida.
Trago para meu comportamento de observador participante as noções próprias do método da pesquisa-ação, no que concerne à postura do pesquisador frente à realidade e de sua abertura ao conhecimento, como exposto por Barbier (2004). Realizei uma pesquisa com elementos da pesquisa-ação, porém seria impróprio classificá-la como tal, por dois motivos: (a) não houve um grupo de pesquisadores, o ―pesquisador coletivo‖ (BARBIER 2004, p. 71); (b) em decorrência, não existiu uma ação programada por esse grupo, para execução por ele e pela comunidade. Assumi, porém, os postulados da pesquisa-ação no que ela tem em comum com a observação participante.
Conforme Barbier (2004), a pesquisa-ação e a observação participante têm em comum: (a) o papel político conferido ao pesquisador, (b) considerar que o problema nasce na comunidade, (c) que há uma meta de transformação da realidade e melhoria de vida das pessoas, (d) a participação da comunidade na pesquisa, de alguma forma, portanto, (e) envolver pessoas sem poder, (f) suscitar na(s) pessoa(s) participante(s) mais conscientização dos recursos e de mobilizá-los, e (g) o fato de, nelas, o pesquisador ser alguém engajado que aprende e milita, portanto não é indiferente.
As características listadas de ―a‖ a ―g‖ acima são constatadas, em larga medida, na pesquisa aqui abordada. O pesquisador é um ser engajado, e o problema ambiental surgiu em cada comunidade que se sentiu incomodada, reagiu de diversos modos, e quis, ela mesma, transformar a realidade para a melhoria de sua qualidade de vida. A pesquisa que visa, tão-somente, registrar os passos das lutas não tem objetivo transformador.
Foi interessante notar que alguns líderes, ao responderem o questionário, falaram de passos ainda por dar, das possibilidades de a campanha continuar, sem que fossem instados a falar sobre isso. Houve casos de o líder pedir ajuda ao pesquisador para a continuidade de sua campanha, para articulações futuras de sua luta com as de outros bairros e movimentos. Este pode ser um indício de que as pessoas se envolveram na pesquisa, de que viram nela uma oportunidade de firmarem mais uma aliança, ou pode ter sido apenas uma estratégia para o ―pagamento‖ pela ajuda ao estudante, conduta frequente, segundo renomados pesquisadores. Aprendi muito no contato com aqueles militantes e com quem estuda a cidade.
Ao discorrer sobre a pesquisa-ação existencial, Barbier escreve que, aqui, ―a racionalidade consistiria em reconhecer o campo da complexidade e o do não- saber a respeito de alguns aspectos da vida‖. (BARBIER, 2004, p. 66). E acrescenta, acerca do envolvimento do pesquisador: ―Nada se pode conhecer do que nos interessa (mundo afetivo) sem que sejamos parte integrante, ‗actante‘ na pesquisa, sem que estejamos verdadeiramente envolvidos pessoalmente pela experiência, na integralidade de nossa vida emocional, imaginativa, racional‖. (BARBIER, 2004, p. 70).
Essa postura frente ao real e ao conhecimento decorre da compreensão de que a realidade que nos cerca é complexa. Para captá-la como tal, o pesquisador se orienta pelos seguintes princípios:
princípio do diálogo: admitir que da complementaridade antagônica surge a vida;
princípio do recursivo organizacional: encarar o ser humano como produto e produtor de sua existência; e
princípio hologramático: compreender que a parte está no todo e o todo, na parte (BARBIER, 2004, p. 90-91)
Imbuído desses princípios e posturas, o pesquisador mergulha em um processo de escuta sensível e multirreferencial indispensável à pesquisa participante, apoiado na empatia, que exige dele em relação ao outro ―compreender do interior‖. (BARBIER, 2004, p. 93). Isso implica conceber a pessoa como complexa, com liberdade e imaginação criadora, daí não se basear em interpretação de fatos, não julgar, para não assumir a postura de ideólogo19.
Assim, a pesquisa-ação é portadora de uma abordagem transversal, o que implica também a importância do imaginário em três dimensões: a pulsional, a social e a sacral, ultrapassando, assim, as categorias classificatórias habituais em ciências humanas. Isso significa que aqui se adota a perspectiva da complexidade com seus planos científico (academia), filosófico (popular e erudito) e poético (artes, estética, religiões, saberes ancestrais). Porque, ―para dar sentido às novas sociabilidades, o pesquisador precisa ‗reinventar uma outra sociologia da ação‘ que inclua a razão sensível‖ de Michel Maffesoli (BARBIER, 2004, p. 15), e a ―razão
19 Ideólogo é
―alguém que interpreta os fatos, um fenômeno, a partir de um posicionamento teórico supostamente rigoroso e não discutível‖. (BARBIER, 2004, p. 96).
comunicativa‖ de Habermas. Esta envolve o fazer simbólico, a busca do entendimento. (NOBRE, 2003). Ao incluir as várias perspectivas de captação do real, este saber está próximo daquele conceito segundo o qual o saber da ciência é parcial. (CAPRA, 2006).
Essa nova postura frente ao conhecimento e as diretrizes da pesquisa- ação são as mesmas adotadas nesta pesquisa, também porque aqui se usa a história de vida, um dos métodos da pesquisa-ação. As histórias abordadas nos depoimentos colhidos se afiguram para aquelas pessoas como altamente significativas, a ponto de elas se emocionarem durante suas falas. Ora, neste método, a pessoa pesquisada ―é ativa, participante e aliada do pesquisador. E ela não abre mão de seu papel de avaliação e controle, até porque tem total domínio do que fornece, seja na entrevista, seja ao disponibilizar documentos de seu acervo‖. (BARBIER, 2004, p. 120).
5.5. Observação Ativista
A postura do pesquisador no levantamento de dados aqui realizado tem traços semelhantes ao comportamento de militantes na luta por seus direitos fora de seus países, resultado dos atuais fluxos de pessoas. Aqui, como lá, há uma observação ativista, conforme a classificação de Bringel20 e de Rodolfo Stavenhagen. Maristela Svampa falmenciona o intelectual anfíbio, capaz de viver em vários territórios, mantendo sua identidade. Esses autores falam de vida e militância em ambientes internacionais e, nesse método, o observador pertence a um grupo e transita em diferentes territórios. Entretanto, como militante e pesquisador, mantém sua identidade. É esta característica da observação militante que desejo destacar.
A observação ativista, afirmou Bringel, vai nas seguintes direções: a história contada por quem sofre a exploração; o reconhecimento de sujeitos negados, como na Teologia da Libertação; a afirmação da geopolítica e corpopolítica do conhecimento: penso, logo sou. Ao mesmo tempo, busca superar o pensamento fronteiriço por espaços mais porosos, o que implica uma abertura epistemológica para romper com os padrões estabelecidos e ir além.
20 Rodolfo Stavenhagen e Maristela Svampa foram citados por Breno Bringel, da Universidade de Barcelona, na palestra a que assisti dia 06.08.2010, em Recife, sobre Movimentos Sociais e Teoria Pós-Colonial, evento promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia, da Universidade Federal de Pernambuco.
Foto 9 – A canalização transforma riachos em esgotos
Fonte: Tomada pelo autor, na pesquisa de campo. [Av. Eduardo Girão].
Nota: Lição: as casas construídas nas margens (APP) foram abandonadas. A moradia ficou
6 FORTALEZA NO MUNDO
Fortaleza ocupa uma área de 314Km2 no litoral do Ceará21, banhada ao Norte pelo Atlântico, oceano presente na paisagem de todos os estados do Nordeste brasileiro. As características que constituem as marcas registradas da cidade são suas praias de areias de neossolos quartzênicos, temperatura média de 26,6ºC, com movimentação atmosférica comandada pela Zona de Convergência Intertropical a proporcionar ventos do Sistema de Vorticidade Ciclônica, além das brisas marítimas.
Seus solos arenosos ocorrem não só nas dunas e praias, até o início da vegetação, mas também nos setores dos tabuleiros pré-litorâneos. Há também os argissolos vermelho-amarelos distróficos nos tabuleiros pré-litorâneos, nos relevos planos e suavemente ondulados da faixa de transição com a depressão sertaneja, bem como na base dos morros residuais, onde se encontram diferentes espécies vegetais.
Ao longo de seus rios Cocó, Ceará, Maranguapinho e Coaçu, encontram- se neossolos flúvicos resultantes da sedimentação fluvial. O mesmo tipo de solo é encontrado nas margens de suas lagoas Precabura, Messejana e Maraponga. As lagoas são uma constante na paisagem da cidade, formadas por afloramento do lençol freático. Na maioria delas, porém, registra-se completa destruição de sua mata ciliar original, constatação fartamente documentada nas fotos deste trabalho.
Em áreas de alta salinidade como as zonas litorâneas e pré-litorâneas, principalmente nas planícies flúvio-marinhas dos principais rios e nas margens das lagoas mais próximas ao litoral, encontram-se os gleissolos sálicos. Ali se desenvolve a vegetação de mangue. Com a intensificação de sua urbanização, a cidade praticamente eliminou algumas manchas de cerrado existentes na região centro-leste do município. Delas restam apenas 2,8ha, no bairro Cidade dos Funcionários.
Descrevi até aqui o substrato sobre o qual se ergue a ―Loura Desposada pelo Sol‖, epíteto decorrente de a intensa luminosidade ser uma marca registrada desta cidade. Nos meses de menor quantidade de horas de sol, são 148,9h em março e 152,8h em abril. Os picos de luminosidade são alcançados em outubro (296,1h) e novembro (283,2h). O mar e o sol moldaram seu povo, daí serem cantadas a bravura dos pescadores (―As velas do Mucuripe vão sair para
pescar...‖22), a beleza de suas mulheres (―Iracema, a jovem dos lábios de mel‖23), a coragem de seus homens (Dragão do Mar que enfrenta o poder constituído para libertar os escravos).
A partir da década 1980, Fortaleza dá uma guinada em sua autodefinição. Até então, fora uma cidade-polo predominantemente devotada ao comércio. Sua industrialização se mostrara incapaz de absorver significativo contingente da população e gerar efeitos de emprego e renda que a qualificassem como cidade industrial. No último quartel do século XX, os governantes da cidade e do Estado continuam com as tentativas de atrair novos empreendimentos do segundo setor, mas fazem a opção prioritária de torná-la um destino turístico nacional e global, ainda que os resultados de tal política tenham sido de pouco proveito para a maioria de seus filhos. (BERNAL, 2004). A seguir, busco a gênese desse processo na formação histórica da cidade.