• No results found

Em um artigo que se tornou clássico no debate metodológico em relações internacionais, Singer sugere que no trabalho acadêmico é crucial a escolha de modelos analíticos que ofereçam capacidade descritiva, explicação e predição de fenômenos (SINGER, 1961). Dois níveis de análise são considerados: o nível sistêmico e o nível nacional. O primeiro compreenderia a totalidade das interações existentes no sistema internacional e seu ambiente. Deste modo, as coalizões, a configuração de poder e a estabilidade poderiam ser subsumidas a partir das representações teóricas derivadas do sistema internacional. As dificuldades analíticas das abordagens sistêmicas estariam ligadas a sua baixa capacidade em compreender o impacto dos atores na estrutura internacional, e na sua tendência à uniformidade quanto a representações de política externa e as características dos Estados ao longo da história.

O nível doméstico permitiria promover a diferenciação entre Estados, porém demandaria investigação sobre os fatores internos (e externos) que explicariam o comportamento e objetivos dos Estados na esfera internacional.

Na tradição realista, a mais importante obra que busca a identificação de níveis de análise (ou imagens) para o propósito de avaliar as causas da guerra é Man, the State and War, trabalho doutoral de Waltz, publicado em 1959. Waltz aponta três níveis de análise: a natureza humana, a natureza dos Estados (e sociedades) e a natureza do sistema internacional. Desta forma, Waltz pôde diferenciar teorias reducionistas de teorias sistêmicas, em Theory of International Politics (1979). Teorias reducionistas, na visão crítica de Waltz, entendem o todo a partir dos atributos e interações de suas partes. Por este raciocínio a política internacional

45 poderia ser compreendida pelo estudo das burocracias nacionais. O autor refuta esta hipótese (WALTZ, 2002, p. 37).

A primeira imagem de Waltz (1959) está ligada ao comportamento humano: as causas da guerra poderiam ser encontradas na natureza agressiva e no comportamento egoísta dos homens. Tal explicação foi utilizada como argumento central nos trabalhos de Morgenthau (2003) ou Niebuhr (1953). A segunda imagem - estrutura interna dos Estados levaria as causas da guerra a um paroxismo aparente: a divisão entre Estados dotados de boas características (como os que defendem valores éticos e uma moralidade internacional) e Estados ruins (os produtores da guerra). A difusão de valores dos bons Estados, como a democracia, traria efeitos benignos ao sistema. Waltz rejeita tal compreensão:

Estados maus conduzem a guerra. Como havia dito anteriormente, há amplo sentido de verdade nesta frase. O inverso da frase, que Estados bons significam paz no mundo, é uma proposição extremamente duvidosa (WALTZ, 1959, p. 122, tradução nossa).

As teorias sistêmicas possuiriam um modelo explicativo situado no nível da estrutura, e não no nível das unidades (Estados). A anarquia internacional seria uma condicionante estrutural, na representação Waltziana, pois é em seu contexto que a ação estatal ocorre, restrita e orientada por considerações de custo-benefício. As capacidades militares dos Estados organizariam os posicionamentos relativos na estrutura política mundial. Waltz se aproveita da teoria econômica para entender a lógica da anarquia, em que Estados utilizam um comportamento de auto-ajuda, em função de um ambiente competitivo e profundamente descentralizado de poder. Aproxima-se da representação de agentes econômicos em mercados.

No plano liberal, autores como Putnam (1988), Bulmer (1994) e Moravcsik (1993 e 1998) utilizam conceitos que permitem o estabelecimento de jogos de duas arenas (ou dois níveis). A idéia dos jogos de dois níveis é uma metáfora para os linkages entre o nível doméstico e internacional (ROSAMOND, 2000, p. 136). Em Putnam, os jogos de dois níveis são representações teóricas da condição dos corpos executivos de governos, que simultaneamente atuam nestas duas arenas. A contribuição de Moravcsik pode ser entendida pela articulação de uma teoria liberal de política

46 internacional, que ao dissociar interesses de preferências, estabelece que o segundo conceito é formado, no plano doméstico, por grupos de interesse. Já o interesse do Estado é definido nas interações existentes entre tais grupos que competem por influência política, geram coalizões nacionais e transnacionais, produzindo alternativas políticas que são reconhecidas pelos governos (MORAVCSIK, 1993, p. 481). Então, uma vez formulados, os interesses são levados ao nível internacional, em uma ampla barganha intergovernamental. Esta arena é fortemente restritiva e aponta as dificuldades para que os arranjos regionais cooperativos possam ser eficazes. Nestas abordagens não há um nível intermediário, algo surpreendente, já que se trata de teorias voltadas para a integração e o regionalismo, especialmente os trabalhos de Moravcsik.

Mesmo no construtivismo de Wendt, as regiões não são consideradas, já que seu corte é sistêmico, dissonando na natureza da estrutura. Para Waltz, a estrutura é fruto da distribuição material das capacidades (1979), para Wendt ela seria formada por elementos ideacionais e cultura (WENDT, 1999). Por outro lado, é preciso reconhecer que no construtivismo social a idéia de regionalização possibilita o reconhecimento de uma identidade regional distinta dos Estados, porém, na sub- área do regionalismo, o construtivismo não se apresenta como teoria, mas como uma perspectiva ontológica ou uma meta-teoria (CHRISTIANSEN et ali., 1999, p. 537; RISSE 2004, p. 174;). Desta forma, a reflexão não se coloca no plano epistemológico da explicação, limitando o seu uso em assuntos teóricos aplicados à segurança ou à defesa.

Na literatura de relações internacionais, a política nas regiões tem sido estudada basicamente por dois modos:

a) Não há diferenças entre sistemas regionais e internacionais, portanto, o estudo das regiões teria dinâmicas políticas idênticas àquelas existentes no plano global. Todas as regiões, em seus aspectos políticos e de segurança seriam iguais. Desta forma, poder-se-ia extrapolar as abordagens do nível global para o regional e vice-versa. Um bom exemplo desta corrente é o trabalho de Walt (1987) que busca entender empiricamente a dinâmica de

47 alianças regionais (no Oriente Médio) para testar a teoria geral da balança de poder.

b) Uma abordagem oposta seria representada pelos estudos de área ou por parte da história diplomática. Para esta corrente toda região é distinta de qualquer outra, sob o plano da análise. Ao longo da Guerra Fria os estudiosos de área consideravam que somente ao enfatizar os aspectos ideológicos e dos matizes dos sistemas políticos distintos poder-se-ia chegar a conclusões teóricas mais profundas. Regiões foram estudadas exclusivamente, permitindo o surgimento de sovietólogos ou estudiosos da Europa, Ásia ou América Latina (LAKE e MORGAN, 1997). Brzezinski (União Soviética), Mitrany e Haas (Europa) são exemplos de scholars dedicados a áreas.

Em abordagem semelhante a Lake e Morgan (1997) e Buzan e Weaver (2003), compreende-se que o nível regional distingue-se do nível global ou do plano doméstico. Apesar da trama inter-sistêmica, da relevância do nível da estrutura internacional sobre as regiões e Estados, o nível regional pode ser entendido como nível próprio de análise, ao oferecer importantes contribuições para a análise da ordem global, segurança e economia política, especialmente em contextos pós- Guerra Fria. Assim, em casos de maior complexidade analítica, em tramas políticas ou de segurança, seria útil o uso de jogos de três níveis, acrescentando o nível regional ao jogo proposto no trabalho seminal de Putnam (1988).