A crise econômica dos Estados Unidos na década de vinte, precipitou a intensificação da diplomacia econômica e política de países como a União Soviética, a Itália, o Japão, a França e Reino Unido frente à América do Sul (MOURA, 1991; CERVO, 2001). Brasil, Argentina e Chile flertavam com adversários dos Estados Unidos no plano econômico, caso do acordo de comércio entre Argentina e Reino Unido em 1933; no plano político, como no exemplo da aproximação do Brasil com a Itália e a Alemanha no período Vargas, ou mesmo do Chile, com sua insistente relação com os países do Eixo, até sua ruptura em 1943 (CERVO, 2001, p. 49).
O isolacionismo da política externa americana, pós-crise de 30, levou a uma maior articulação regional com o interesse privado europeu, japonês e soviético. O embaixador brasileiro em Washington, Oswaldo Aranha, relatou ao Chanceler brasileiro, Macedo Soares, em 1935, seu temor pela invasão comercial do Japão na América do Sul26. Ao mesmo tempo, a região passava por um período de grande instabilidade política e nacionalismo, característica recorrente no século XX.
O nacionalismo e as grandes transformações econômicas domésticas nos Estados da América do sul proporcionaram conflitos armados, como a Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai (1932-35); as disputas entre o Peru e a Colômbia (1933- 34); e o confronto militar Peru-Equador (1941 e 1995). Com a distância americana, passaram a ser decisivos os esforços pacificadores dos países vizinhos, especialmente Brasil, Argentina e Chile.
98 Na Guerra do Chaco o interesse Boliviano era buscar uma alternativa marítima por meio do Rio Paraguai, até o Atlântico, e para isto era necessário ocupar parcelas do território Paraguaio, a região do Chaco. A descoberta de petróleo na Cordilheira dos Andes (Chaco Boreal) e os resquícios da derrota para o Chile na Guerra do Pacífico podem ter precipitado o conflito (WASSEMAN, 2004). A nova derrota, desta vez para o Paraguai, aguçou as percepções da elite boliviana que creditou o fracasso a heterogeneidade étnica, entendida como uma fraqueza originária. A resposta de amplos setores do exército as derrotas para o Chile e o Paraguai está na base da tradição nacionalista boliviana (QUIROGA, 2000). Uma conferência de paz foi criada em Buenos Aires após a trégua entre os atores, demonstrando a importância da diplomacia argentina na região, à época.
O conflito entre Peru e Colômbia teve origem numa disputa fronteiriça, na região amazônica. O Tratado Lozano-Salomon, assinado por ambos os países em 1922, definiu as demarcações entre os Estados, que previa que a região do trapézio de Letícia estivesse sob controle colombiano. Os incidentes entre Peru e Colômbia ocorreram quando o Peru se recusou a deixar que o porto fluvial de Letícia fosse ocupado pela Colômbia, levando o Peru a denunciar o acordo de 1922. Os interesses de donos de engenhos de açúcar peruanos, que tinham que pagar custos aduaneiros para exportar seus produtos para a cidade de Iquitos (único mercado, à época) fez com que o presidente do Peru, Gen. Luis Miguel Sanchez Cerro mandasse tropas para recuperar a posse do porto de Letícia. Após a campanha naval colombiana e o assassinato do presidente Sanchez Cerro, em 1933, o caso recebeu tratamento pela Liga das Nações, que assume o controle temporário da região. A solução definitiva para o problema ocorre somente com as negociações na capital brasileira, o que releva a presença brasileira para a reafirmação do acordo Lozano-Salomon (HIRST,1996).
Os conflitos entre Equador e Peru, especialmente aqueles ocorridos no início da década de quarenta, mobilizaram contingentes militares das duas partes, na região amazônica de Jaén e Maynas, área de fronteira entre os países, cercada pelos rios Marañon e Napo. O Peru alegou a ocupação, por parte do Equador, de porções de seu território, para além da demarcação estabelecida em 1936, na linha de status- quo. Em Maio de 1941, o Peru ataca frontalmente o Equador, vencendo as linhas
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equatorianas em apenas dois dias (SIMMONS, 1999). As negociações de paz, com o Equador ocupado, foram mediadas pelos Estados Unidos, Brasil e Argentina, o que redundou no Protocolo de Paz, Amizade e Limites, em 1942 (Protocolo do Rio de Janeiro).
A recusa Equatoriana em reconhecer o Protocolo do Rio de Janeiro ocorre em função de um suposto equívoco geográfico, confirmado pelo serviço aerofotogramétrico da Força Aérea dos Estados Unidos. Na confluência entre os rios Santiago e Zamora havia o Rio Cenepa, e não porções de terra, como estabelecido pelo Protocolo. Tal equívoco leva o Equador a reivindicar a revisão, e posteriormente, a nulidade do Protocolo.
As hostilidades entre Peru e Equador ocorrem novamente em Janeiro de 1995, sob governo de Fujimori, no Peru, e Durán Ballén, no Equador, em uma região localizada no Alto do Rio Cenepa. Após três anos de negociação, a paz definitiva foi assinada por meio da Ata presidencial de Brasília, fruto da participação brasileira, Argentina, Chilena e Americana no processo. O Brasil, no caso, atuou como coordenador entre os Países Garantes e da Missão de Observadores militares Peru-Equador (BIATO, 1999)27.
Alguns dos principais conflitos da América do Sul, ao longo do século XX, demonstram a distância relativa dos Estados Unidos dos assuntos políticos da região. Ao mesmo tempo, o engajamento de Argentina e Brasil indica que a ordem política entre estes Estados possuía um forte componente regional, antes que internacional ou global.
5.1.2- A AUTONOMIA ARGENTINA, A ALIANÇA BRASIL-ESTADOS UNIDOS E O