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9. Resultados y discusión

9.2. Preconcentración

As mais internacionais entre todas as estratégias de descolonização aplica- das na África foram marcadas pela exigência do emprego de aperfeiçoadas e modernas armas. A tradição guerreira (tal qual ela se manifestou na guerra dos mau -mau) podia apoiar -se principalmente em bases logísticas locais e empregar armas de fabricação artesanal. A tradição da jihad estava sobretudo ligada a forças internacionais (nesse caso, islâmicas) mas permanecia largamente circunscrita ao quadro africano. A estratégia do radicalismo cristão e da mobilização política não violenta, mesmo tendo recebido a influência de Gandhi, concretizou -se em definitivo através de processos nacionais singulares nas colônias pertinentes.

Mas, as lutas armadas mais modernas − nas colônias portuguesas, na África Austral e na Argélia − foram conflitos fortemente internacionalizados. Nume- rosos países intrometeram -se nesses confrontos de diferentes maneiras, desde suporte financeiro ao fornecimento de armas, incluindo até uma efetiva parti- cipação com o envio de tropas.

Sem a intervenção da União Soviética e dos seus aliados nas lutas da África Austral, a libertação desta região seria provavelmente ainda mais retardada, em ao menos uma geração. As armas aperfeiçoadas utilizadas pelos africanos na África Austral – especialmente os mísseis solo -ar empregados nas guerras do Zimbábue – provieram em geral de países socialistas. Quanto à intervenção das tropas cubanas na luta em defesa da soberania de Angola, tratou -se aqui do maior apoio externo já prestado em uma guerra de libertação africana.

Mas, a participação de elementos externos não beneficiou somente os com- batentes das forças de libertação; o mesmo fenômeno reproduziu -se no campo dos opressores coloniais e racistas. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) por muito tempo subvencionou, direta ou indiretamente, a repressão obstinada exercida pelos portugueses em suas colônias e o seu arma- mento foi utilizado contra combatentes das forças de libertação africanas.

Sob a ótica do apoio externo, é particularmente elucidativo comparar os respectivos engajamentos de Cuba e de Israel na África Austral, sobretudo a partir dos anos 1970. Os dois países são considerados excluídos em suas regiões − Cuba é o país marginalizado do hemisfério ocidental e Israel representa o pária do Oriente Médio. Cada um destes países encontra -se estreitamente ligado a uma superpotência − Cuba à União Soviética e Israel aos Estados Unidos da América. Cuba e Israel envolveram -se em conflitos de implicações mundiais: John F. Kennedy brandiu a ameaça de guerra nuclear por ocasião da crise dos

mísseis em Cuba, no ano de 1962; em outubro de 1973, o presidente Richard Nixon ordenou um alerta nuclear geral em defesa de Israel no momento da guerra no Oriente Médio. Cuba e Israel são, portanto, dois países aos quais o mundo inteiro dedicou atenção e, no âmbito regional, ambos foram antagonistas em conflitos com os seus vizinhos.

Contudo, embora exista certo número de traços comuns, eles desempenharam papéis rigorosamente distintos. Cuba empenhou -se na instrução dos combaten- tes negros da força de libertação; Israel formou tropas contra -revolucionárias na África do Sul. Cuba forneceu serviços de treinamento agrícola aos camponeses angolanos; Israel prestou ajuda na realização do programa nuclear sul -africano, até mesmo na construção da bomba atômica11 e manteve em outros domínios

militares uma crescente colaboração com a República Sul -Africana, em que pese a resolução das Nações Unidas proibindo o fornecimento de armas ao regime de Pretória. Para resumir essa comparação, é possível dizer que Israel se conduziu de fato na qualidade de aliado do regime de supremacia branca, ao passo que Cuba, sob a autoridade de Fidel Castro, participou do movimento de libertação negra.

Em seu conjunto a luta armada na África Austral foi até os dias atuais coroada de sucesso. Contra os portugueses ela tomou a forma de uma guerra de desgaste que finalmente provocou em Portugal o golpe de Estado de abril de 1974 − seguido prontamente pelo outono do Império português. Ela desdobrou- -se na independência do Zimbábue em 1980 e da Namíbia em 1990.

Mas poder -se -ia esperar que, uma vez obtido o “reino político”, “todo o resto” seria dado em suplemento à África do Sul? Não poderíamos pretender que em outras partes da África a soberania política conduz, com toda inelutabilidade, a outras realizações como indicado anteriormente, a independência política era uma condição necessária mas, certamente não suficiente para realizar de forma mais completa as aspirações africanas. Em países economicamente arruinados tal como Gana, e em outros politicamente devastados, como a Uganda, um princípio contrário, como já foi dito, parece verificar -se; este princípio poderia assim ser enunciado: “Procurai primeiramente o reino político e todo o resto vos será retirado.”

Contudo, é preciso concedermos um tempo para a reflexão. A liberdade de Gana, segundo Kwame Nkrumah, não tinha sentido sem a liberdade do conjunto da África. Ele compreenderia “reino político” simplesmente como a

independência de cada país africano? Ou, antes, este pan -africanista convicto referia -se à completa libertação do continente, considerado em sua globalidade?

Se considerarmos a sua filosofia política, parece -nos mais provável que ele planejava uma progressão assim articulada:

• a independência de cada país africano reforçaria a independência subse- quente, segundo uma abordagem por etapas da descolonização política; • quando toda África estivesse descolonizada, o “reino político” do conti-

nente teria a chance de ser completado por “todo o resto”.

Se é verdade que os primeiros tiros foram disparados aquando da luta na África do Sul, último bastião da ordem imposta pela minoria branca, nós devemos presentemente examinar mais de perto esta última etapa da busca pelo “reino político”, quando se configura uma transformação na relação entre racismo e capitalismo na África.