3. METODE
3.6 O PPGAVENS KVALITET
O corpus do presente trabalho é constituído por 134 produções textuais de 67 estudantes coletadas ao longo de 3 encontros, no período compreendido entre agosto e outubro de 2006. O trabalho foi realizado na Escola Municipal de Ensino Fundamental João XXIII, situada no jardim João XXIII, no distrito paulistano de Raposo Tavares, bairro do Butantã, na cidade de São Paulo.
A metrópole paulistana é palco de imensas disparidades sociais, sendo a capital do estado com maior produção de riquezas que, no entanto, não gerou melhores condições de igualdade nos últimos 40 anos. Em que pese o crescimento populacional e de atividades comerciais (movimento recorrente em todos os bairros da periferia da cidade no período de 1991 a 2000), uma série de elementos o classifica entre as regiões da cidade com graves problemas sociais. O estudo de Campos et al (2003) apresenta o quadro da exclusão social na cidade de São Paulo considerando os índices de exclusão social, pobreza, emprego formal, desigualdade social, alfabetização, escolaridade e juventude. Os índices apresentados classificam os distritos numa variação que vai de 0 (o tecido econômico e social na pior condição possível) e 1 (o tecido econômico e social na melhor condição), seguindo operações utilizadas pelo PNUD/ONU na construção do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Raposo Tavares está classificado entre 0 e 0,5 em quase1 todos os índices propostos pelo mapa da Exclusão Social2, sendo que os quesitos referentes à desigualdade social do distrito – alfabetização, escolaridade, e juventude – encontram-se na faixa de 0 a 0.4, a mais baixa, evidenciando o extremo grau de exclusão ao qual a população está submetida.
1 A única exceção é do índice de Emprego Formal, que está situado em 0.7 e 1.0 (a escala está dividida em 0.0 a 0.5; 0.5 a 0.6; 0.6 a 0.7; 0.7 a 1.0).
2 Os índices foram graduados em faixas. Como exemplo, além daquele do Emprego Formal apresentado acima, apontamos as faixas utilizadas para o quesito Exclusão Social: 0 a 0.4; 0.4 a 0.5; 0.5 a 0.6; 0.6 a 1.0.
O mapa3 a seguir mostra os dados referentes ao índice de escolaridade da cidade de São Paulo. Em destaque, a região de Raposo Tavares.
Mapa 1: Índice de escolaridade da cidade de São Paulo. Em destaque (círculo azul)
a região da Raposo Tavares (RTA)
Considerando os níveis de crescimento populacional e a presença de jovens entre a população distrital, a fundação SEADE (Sistema Estadual de Análise de Dados), vinculada ao governo do Estado de São Paulo, produziu um estudo no qual mapeou o grau de vulnerabilidade juvenil: freqüência à escola, gravidez e violência entre os adolescentes residentes no local (SEADE, 2002). O mapa produzido aponta a região de Raposo Tavares
3
Fonte: CAMPOS, A. et. al. (orgs) (2003) Atlas da exclusão social no Brasil: dinâmica e manifestação territorial. São Paulo: Cortez (vol. 2), p. 107.
entre as mais vulneráveis4, situação a qual a escola escolhida para a coleta mostra-se bastante sensível.
A escola, fundada em 1975, é freqüentada por uma clientela que, segundo seu Projeto Político Pedagógico (PPP), possui condições de vida precárias, não raro contando com alunos envolvidos com a criminalidade e drogas, informações que corroboram com os dados apresentados na caracterização sócio-econômica. Atende cerca de 1600 alunos, funcionando desde 2001 em três períodos de cinco horas cada. Desde 1994, possui uma sala SAPNE (Sala de Atendimento a Portadores de Necessidades Especiais), destacando-se seu trabalho com deficientes visuais. Há uma sala de Informática com aproximadamente 15 computadores e Sala de Leitura.
O PPP aponta que há um grande número de alunos filhos de pais desempregados, sendo que, a partir da faixa de 16 anos, os que procuram trabalho, raramente o encontram. Ainda segundo esse documento, diversos alunos terminam a escolaridade do Ensino Fundamental sem dominar a leitura e a escrita, apresentando dificuldades para lidar com a língua escrita em suas práticas sociais. Conscientes desse quadro, os esforços da equipe escolar giram em torno da promoção do desenvolvimento de habilidades e competências, focando as ações pedagógicas em projetos que favoreçam o ensino das modalidades lingüísticas da leitura e da escrita.
4 Os grupos estão classificados de acordo com a escala a seguir: Grupo 1: até 21 pontos - engloba os nove distritos menos vulneráveis do município de São Paulo: Jardim Paulista, Moema, Alto de Pinheiros, Itaim Bibi, Pinheiros, Consolação, Vila Mariana, Perdizes e Santo Amaro; Grupo 2: de 22 a 38 pontos - engloba os 21 distritos que se classificam em segundo lugar entre os menos vulneráveis: Lapa, Campo Belo, Mooca, Tatuapé, Saúde, Santa Cecília, Santana, Butantã, Morumbi, Liberdade, Bela Vista, Cambuci, Belém, Água Rasa, Vila Leopoldina, Tucuruvi, Vila Guilherme, Campo Grande, Pari, Carrão e Barra Funda; Grupo 3: de 39 a 52 pontos – engloba os 25 distritos que se posicionam em uma escala intermediária de vulnerabilidade: República, Penha, Mandaqui, Cursino, Socorro, Ipiranga, Casa Verde, Vila Matilde, Vila Formosa, Jaguara, Brás, Vila Prudente, Vila Sônia, Freguesia do Ó, Bom Retiro, São Lucas, Limão, São Domingos, Jaguaré, Rio Pequeno, Pirituba, Aricanduva, Sé, Artur Alvim e Ponte Rasa; Grupo 4: de 53 a 65 pontos - engloba os 22 distritos que se classificam em segundo lugar entre os mais vulneráveis: Sacomã, Jabaquara, Vila Medeiros, Cangaíba, Cidade Líder, Vila Andrade, Vila Maria, Tremembé, Ermelino Matarazzo, São Miguel Paulista, José Bonifácio, Jaçanã, Itaquera, Raposo Tavares, Campo Limpo, São Mateus, Parque do Carmo, Vila Jacuí, Perus, Cidade Dutra, Jardim São Luís e Jaraguá; Grupo 5: mais de 65 pontos - engloba os 19 distritos com maior vulnerabilidade juvenil do município de São Paulo: Cachoeirinha, Vila Curuçá, Guaianases, Sapopemba, Capão Redondo, Lajeado, Anhangüera, São Rafael, Jardim Helena, Cidade Ademar, Brasilândia, Itaim Paulista, Pedreira, Parelheiros, Jardim Ângela, Grajaú, Cidade Tiradentes, Iguatemi e Marsilac (SEADE, 2002)
A decisão em trabalhar com a EMEF João XXIII foi motivada por dois fatores básicos. O primeiro refere-se ao dado de que a realidade escolar brasileira é muito melhor representada nas escolas públicas brasileiras, onde se encontra em torno de 80% da população em idade escolar. O segundo diz respeito à disponibilidade da equipe técnica (direção e coordenação pedagógica) da escola. Muito abertos aos propósitos da pesquisa, os profissionais da escola facilitaram o acesso aos estudantes e a coleta na configuração proposta, demonstrando ainda interesse pelos resultados da investigação.
A escolha da 5a e da 8a séries se deu pelo fato de considerarmos que a aprendizagem da escrita e o desenvolvimento da consciência histórica intensificam-se ao longo da escolaridade, num processo dinâmico e multifacetado. Nesse contexto, torna-se fundamental compreender os escritos desses jovens como espaços de trabalho lingüístico e não como demonstrações de saberes prontos. A comparação dos dados, nesse sentido, pode nos ajudar a constituir um olhar que, longe de rotular a produção dos estudantes, favoreça a compreensão do processo de aprendizagem que, a despeito das suas regularidades, é complexo e singular.