A.2 Electrical power production subsea
A.2.1 Power from marine current
As entrevistas foram transcritas na íntegra, sem alterações ou qualquer tipo de correção gramatical. Na transformação da fala para a escrita, tentando ser o mais fiel possível, foram acrescidos ao texto elementos nem sempre identificados na fala em si, tais como expressões corporais e emoções demonstradas. Os textos produzidos a partir das falas das participantes, em interlocução com a pesquisadora, compuseram o corpus de nossa pesquisa.
Guiamo-nos pelo conhecimento de que na fala, do percurso que a pessoa faz desde a elaboração mental do conteúdo até a expressão objetivada externamente desse conteúdo, é manifestada a orientação social do(a) falante. Assim, buscamos uma estratégia de análise que fornecesse uma base para melhor compreensão do discurso das participantes. Sob a influência das leituras dos escritos de Brandão (2004) e de Rocha e Deusdará (2005), escolhemos a Análise do Discurso para fundamentar a análise dos dados coletados.
A teoria da Análise do Discurso (AD) surgiu nos anos 50 e foi, mais claramente, assumida como estratégia no fim dos anos 60 “em decorrência da insuficiência de uma análise de texto que se vinha praticando e que se pautava prioritariamente por uma visão
conteudista” (Rocha & Deusdará, 2005, p. 307). Em decorrência, até mesmo do momento histórico e político, emergiu nas ciências uma abordagem discursiva com olhar diferente das tradicionais, articulando linguagem e sociedade ao contexto ideológico, embora seja constatada a existência de diferentes maneiras de se efetuar a análise do discurso, possivelmente em decorrência das divergentes correntes – francesa e americana – que norteiam suas respectivas práticas (Brandão, 2004).
Para Maingueneau (1987/1989) o ponto crucial dessa teoria é compreender a linguagem como fazendo sentido para sujeitos, inseridos em interlocuções com posições sociais. Esse intercurso entre a subjetividade e o social – embora a autora deste trabalho acredite que a subjetividade, por si só, seja constituída em parte pelo social – permite que a Análise do Discurso varie de acordo com as referências pontuadas por este. Dessa forma, essa disciplina teria a interdisciplinaridade como fundamentação.
O que nos fez optar por esse método foi a articulação entre linguagem e sociedade, permeado por um olhar para o contexto ideológico, ou seja, que relaciona o texto com seu entorno, a fala situada socialmente como ressalta Rocha-Coutinho (1998). Aqui é possível analisar o texto, sua organização, em contrapartida com o lugar social determinado, o que torna essa estratégia condizente com a postura feminista adotada ao longo do trabalho.
Além disso, a AD leva em conta a interferência do pesquisador em uma dada realidade. A relação do(a) pesquisador(a) com os saberes que pretende explicar é vista como implicador, como constituinte do discurso e da investigação (Rocha & Deusdará, 2005). Dessa forma, só na interação é que o discurso aparece e, com ele, o significado do texto. Esse princípio de heterogeneidade proposto por Maingueneau (1987/1989) em que o discurso é construído pelo discurso do outro, presentificado ou não, acolhe a proposta e o posicionamento teórico-metodológico adotado nesta pesquisa.
Nessa teoria discursiva a linguagem não é apenas estudada num âmbito restrito ao seu sistema interno, concebendo-a como elemento inerente da formação sócio-ideológica do(a) falante, ela seria uma forma de manifestar e significar sua realidade. Não se limita às formas gramaticais, como coloca Rocha-Coutinho (1998), mas ao valor social reconhecido pelo lugar do(a) falante. Dessa forma, a linguagem revela visões específicas da realidade, que além de ser inseparável dos contextos sócio-econômicos é, na verdade, constituidor de significados e de práticas sociais.
Como bem resume Brandão (2004), “o ponto de articulação dos processos ideológicos e dos fenômenos lingüísticos é, portanto, o discurso” (p.12). Dessa forma, a expressão ou palavra empregada por alguém diz de sua posição, diz do sentido que essa posição lhe dá, uma vez que a palavra empregada é referenciada a esse lugar. Logo, o sujeito falante revela a sua formação ideológica e discursiva. Pela enunciação os processos discursivos se apresentam, e ficam presentificados atributos individuais de seus desejos e de sua ideologia, a qual “está ligada aos aspectos hierárquicos da organização social cujo sistema interpreta e justifica” (Brandão, 2004, p.25).
Urge mencionar que em acordo com a filosofia do Programa de Pós-Graduação no qual este projeto está inserido – que busca articular elementos da cultura ao fazer e o pesquisar a clínica – assim como, de acordo com o posicionamento político e epistêmico da pesquisadora, optamos por uma estratégia de análise que possibilitasse essa interlocução. Cabe reconhecer, também, que a figura do(a) pesquisador(a) passa pelo sujeito-do-saber – uma vez que ele(a) categoriza os dados, mas ou menos aleatoriamente, para sua análise, muitas vezes ancorado(a) em discursos de referência, em teorias e em seu saber histórico, até mesmo para delimitar os espaços discursivos. Por isso, buscou-se estar atenta a esse
lugar, pela postura e forma de condução da pesquisa, para que não fosse reproduzida também aqui uma relação de poder.
Reconhecendo que as teorias e as metodologias possuem limitações e um alcance restrito, acreditamos que a teoria de Análise do Discurso foi a mais adequada para a análise dos dados coletados nessa pesquisa. Por ser compreendido, a partir de Rocha-Coutinho (1998), que a versão do analista do discurso fornece apenas uma interpretação do texto e não um sentido unívoco do mesmo, procuramos apresentar e discutir os dados de forma que o(a) leitor(a) possa também interpretar e analisar os discursos, contribuindo para uma ampla construção de distintos saberes e olhares sobre o fenômeno em foco.
Esperamos também que o(a) leitor(a) compreenda como o discurso foi analisado, partindo do posicionamento de que o lugar do(a) analista também é construído no discurso. Logo, verificar-se-á no texto, a exigência de um trabalho crítico voltado não só para investigar o discurso de outros(as), mas também pautado na auto-análise por parte da pesquisadora. Em todo momento buscamos ter preocupação com a apreensão das ideologias e valores presentes na pesquisadora nos momentos dos encontros, durante as entrevistas e, principalmente, quando de posse do saber investigado, dos discursos apreendidos em co- construção.
CAPÍTULO V – DISCURSOS DE DONAS-DE-CASA: DA VOZ À VISIBILIDADE
Geralmente, a pesquisa qualitativa tem um cuidado especial com o processo e não só com o produto da pesquisa. Segundo Turato (2000), o trabalho de pesquisa qualitativa busca identificar o que apareceu, não só nos dados em si, mas no que emergiu deles, com o objetivo fundamental de compreender o fenômeno humano e não apenas fatos ou hipóteses estabelecidas a partir deste.
Os discursos das três donas-de-casa participantes dessa pesquisa formaram a base dos estudos de caso apresentados a seguir. No intuito de facilitar a compreensão e ao mesmo tempo ampliar as reflexões possíveis a partir dos encontros com as mulheres participantes, apresentaremos os casos em duas fases. Ressaltamos que essa forma de trabalho não é inédita, uma vez que pode ser encontrada em outros trabalhos acadêmicos, como sugere Nicolaci-da-Costa (2007), embora com temática, estrutura e tendência diferenciadas pela realidade deste e de suas metas.
Na primeira fase, a entrevista de cada participante será apresentada separadamente. Nela será contida uma breve apresentação de cada mulher, de sua trajetória antes de se tornar dona-de-casa assim como os elementos mais presentes em sua fala durante a entrevista. Nesse momento também foi colocada a percepção da pesquisadora durante o encontro, visto que o(a) pesquisador(a) “em um dado campo de análise, é co-construtor dos sentidos produzidos que se alteram no lugar em que ele se situa e sua postura de interlocutor em uma determinada situação de pesquisa” (Rocha & Deusdará, p. 316). Nessa primeira parte da análise foram selecionadas algumas falas que mais estiveram presentes
nos discursos e agrupados em temas que melhor identificaram a significação de seus trabalhos e papéis sociais.
Na segunda fase, buscamos compreender as consonâncias e dissonâncias existentes entre os discursos de cada participante e a literatura levantada, levando em consideração as subjetividades individuais, os lugares ideológicos e as posições sociais ocupadas pelas mulheres participantes. Não buscamos aqui a ocorrência apenas de relatos repetidos, mas a apreensão de semelhanças ou de possíveis desigualdades encontrados nos discursos. Foram agrupados alguns temas, a partir da construção dos textos das entrevistas para facilitar as discussões dos dados coletados que a análise apresentou. Apesar de ter questões provocadoras em nosso projeto de pesquisa que seria de nosso interesse abranger, os temas/categorias foram construídos a partir das entrevistas, partindo do próprio discurso das participantes, de dentro para fora dele, como sugerido por Rocha-Coutinho (1998).
Quanto à estrutura da análise, explicamos que as falas das mulheres estão identificadas pela formatação em itálico, geralmente acompanhado por aspas. Além disso, as palavras que elas deram mais ênfase – seja por aumento da voz ou por uma carga de emoção diferenciada – serão sublinhadas. Por outro lado, as palavras que chamaram mais atenção da pesquisadora serão colocadas em negrito para melhor articulação das discussões. Esclarecemos, também, que foram atribuídos, aleatoriamente, nomes fictícios às participantes em preservação de seus anonimatos. E, em função desse cumprimento ético, outras informações que pudessem identificá-las, minimamente, foram omitidas.