O objetivo dessa pesquisa foi conhecer dimensões da experiência de mulheres donas-de-casa. Além disso, buscamos compreender como donas-de-casa inseridas em diferentes contextos sociais significam os seus papéis femininos; perceber elementos de valorização às suas atividades, por parte das próprias donas-de-casa e de seus familiares; e conhecer como as atividades desenvolvidas por elas podem afetar em dimensões da saúde física e mental.
Dado o caráter exploratório do trabalho optamos por uma metodologia qualitativa para a realização desta pesquisa. Metodologia essa que permite que o(a) investigador(a) compreenda os indivíduos pesquisados como são, sem definições anteriores que arriscariam a expressão dos sentidos pessoais dos(as) participantes. Assim como facilitar o fornecimento de dados essencialmente descritivos, mais detalhados, profundos e completos (Bachelor & Joshi, 1986).
Narvaz e Koller (2006) afirmam que as escolhas por um paradigma de pesquisa, pela conduta da investigação, devem ser associadas à teoria, aos aspectos epistemológicos, ideológicos e éticos por parte do(a) pesquisador(a). Especialmente quando a investigação é identificada como tendo um recorte feminista, uma vez entendido o feminismo como um campo tanto político quanto teórico-epistemológico.
Seguindo as colocações de Neves e Nogueira (2003; 2005) buscamos uma metodologia que não fosse ancorada na neutralidade, na isenção do(a) investigador(a) e que
permitisse o engajamento das subjetividades na pesquisa. Acreditamos que na metodologia qualitativa, a interação entre participantes e pesquisador(a) seja uma dimensão importante. E, também, que os valores do(a) pesquisador(a) interagem com a pesquisa quanto à atenção aos fatores sociais, culturais, políticos e históricos obtidos pela mesma.
Embasada em estudos de gênero e em uma produção científica feminista, optamos pelo uso do método qualitativo para nortear os passos dessa pesquisa por conter elementos condizentes com as práticas feministas, reconhecidas por adotarem metodologias assim caracterizadas:
Podemos assinalar que as metodologias feministas são reflexivas na medida em que implicam o reconhecimento da influência dos factores sociais, históricos, culturais e políticos na construção do conhecimento (negando assim a possibilidade da neutralidade e da objetividade) e o reconhecimento do envolvimento dos/as investigadores/as na produção da ciência e dos seus discursos (Neves & Nogueira, 2005, p.411).
Essa pesquisa acha-se, portanto, contida num campo plural e multidisciplinar que são as teorias e metodologias de caráter feminista, que propõe uma reflexão crítica dos paradigmas metodológicos, preocupando-se com o lugar do(a) pesquisador(a) e do(a) pesquisado(a), bem como com o impacto da pesquisa em suas subjetividades. Nesse contexto, os objetivos da pesquisa devem, acima de tudo, garantir “a criação de um compromisso científico, social, cultural e político que legitime e valorize, numa perspectiva de equidade, as experiências dos homens e das mulheres, bem como dos significados que homens e mulheres constroem acerca de suas realidades sociais” (Neves & Nogueira, 2003, p.47).
Dentre as possibilidades de realizar a coleta de dados, com base na perspectiva apresentada, optamos por fazer um estudo de caso múltiplo. Triviños (1987) define este
como “uma categoria de pesquisa cujo objetivo é uma unidade que se analisa
profundamente” (p.133), onde se pode ter abrangência da unidade e um suporte teórico que
oriente o trabalho do pesquisador. Essa técnica tanto retrata uma realidade quanto revela a multiplicidade de aspectos globais, presentes em uma dada situação.
Segundo Alves-Mazzotti (2006), o estudo de caso facilita a compreensão do que se pretende investigar, coletando tanto o que é comum quanto o que é particular a cada caso. É uma investigação científica de uma unidade específica, segundo critérios determinados, que se “propõe a oferecer uma visão holística do fenômeno estudado” (p.650). Torna-se necessário ainda dizer, que o estudo de caso não deve mais ser compreendido como um monólogo na produção do conhecimento científico e que sua realização, embora erroneamente alguns(mas) pensem o contrário, exige uma complexidade de recursos por parte dos que se dispõem a utilizá-lo.
Esperamos que com o estudo de casos individuais seja possível ter uma compreensão ampliada da experiência das participantes no tocante ao nosso tema de pesquisa. Ao mesmo tempo, acreditamos ser possível apreender a individualidade de cada caso. Partindo do pressuposto que toda fala é comunicada de algum lugar, pensa-se que, por mais individual que seja o estudo de caso, ele possibilita de forma mais detalhada perceber além do mundo desse indivíduo o de outros que vivenciam a mesma experiência, imersos em um mesmo contexto histórico, político, social e cultural.
No presente trabalho, os estudos de casos foram construídos a partir da realização de entrevistas que possibilitaram a colocação livre das participantes, acreditando-se que durante a fala, os valores culturais de determinados grupos sociais internalizados pelo(a) falante se manifestam no processo da entrevista. Assim, pela entrevista, pela fala das
participantes são reveladas não só as suas opiniões, crenças ou teorias, mas aquelas do lugar de onde vêm suas vozes.
Rocha-Coutinho (2006) coloca que “através de suas narrativas podemos obter um quadro mais amplo de como os entrevistados se percebem no mundo, de como e a quê atribuem valor, e do significado particular atribuído a suas ações e a seu lugar no mundo” (p.67). As falas ou as narrativas orais em forma de entrevistas permitem que não só fatos, mas sentimentos sejam apreendidos pelo(a) pesquisador(a).
Ao ouvir o que as pessoas têm a dizer de suas vidas se apreende não apenas o que dizem, mas o como elas falam, ou seja, o discurso construído revela a ideologia a que pertence (Rocha-Coutinho, 2004). E compreender a ideologia que constitui os discursos das participantes se faz necessário na perspectiva que esse trabalho segue, fazendo recortes de gênero e classe, para conhecer a realidade de um seguimento feminino que raramente têm suas vozes ouvidas no campo acadêmico e, aparentemente, no social como um todo.
Lembrando que pesquisadores(as) pautados em uma epistemologia de gênero lançam mão desse recurso por propiciar um espaço de fala para as mulheres, ou seja, por dar voz e criar condições para que suas experiências sejam colocadas por sua própria autoria. Esse contexto permite ainda, que haja mudança ou ao menos reflexão crítica sobre o significado de suas experiências e de sua própria construção de identidade. Fairclough (1998) propõe que no discurso são modeladas as estruturas de poder podendo haver mudanças dessas relações e a construção de uma consciência crítica que vise uma prática social de resistência à dominação.