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A Instabilidade Territorial dos Povos Caçadores / Uma Nova Visão do Comportamento do Povos Coletadores / A Impossibilidade da Aparição das Constâncias do Ser e do Estar / A Impossibilidade de

um Ethos / A Estabilidade Climática: Uma Nova Perspectiva Humana.

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Exemplificando a partir de JAFFÉ (s/d): “Na mitologia grega encontramos inúmeros símbolos animais. Zeus, o pai dos

deuses, muitas vezes se aproxima das jovens a quem ama sob a forma de um cisne, um touro ou águia.” O Homem e Seus

Símbolos, op. cit., pg. 238.

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Conforme o exposto, no lento caminho da evolução humana os Australopitecíneos inicialmente convivem com outras formas humanas e posteriormente são por elas substituídos. Assim a Europa assiste à sua ocupação pelo homem de Neanderthal, e posteriormente, pelo Cro-Magnon.99

Esse período é tido por excelência como o período dos povos caçadores e coletadores. O cenário onde se descrevem suas relações ainda é o mundo natural. São grupos mais adaptados em relação aos Australopitecídeos e se organizam em maior número sendo comum a convivência de vários grupos familiares. Suas migrações circunscritas a uma mesma territorialidade são prescritas pelo deslocamento da caça. Assim, ao que tudo indica, esses homens ocupavam oportunamente as cavernas por períodos não muito prolongados. Também há indícios de que essas cavernas eram visitadas com alguma freqüência, provavelmente quando as condições de caça assim o propiciasse ou quando a inclemência do clima assim os forçasse. O significado da permanência nessas cavernas, ainda que temporária, é muitas vezes atribuída ao conforto e ao descanso por pensadores mais retos. Mais uma vez a escassez de registros parece desautorizar quaisquer abordagens mais elaboradas. Normalmente suas relações com o meio ambiente são descritas segundo um constante e violento embate com a natureza hostil. Contudo, estudos realizados no início desse século indicam condições diferentes dessa violenta forma de relacionarem-se com o mundo.

As figuras 14 100 e 15 101 mostram duas cavernas inglesas onde

essas cenas paleolíticas aconteciam nos finais da última glaciação. Os cenários são desoladores. Nada há ali que indique quaisquer registros de uma vida que ainda não fosse animalesca. Essas são as primeiras formas de habitabilidade de caráter permanente encontradas pelo gênero Homo.

Entretanto, mesmo permanecendo ou revisitando certos locais de caça e coleta abundantes, esses homens não puderam estabelecer vínculos constantes em seus territórios. Apesar de seu nomadismo estar sempre circunscrito a áreas geograficamente determinadas seria necessário mais tempo nessas regiões de modo que as sensações de permanência e estabilidade pudessem ser experimentadas e posteriormente organizadas ou coordenadas, o que possivelmente desembocaria numa esfera de ser e estar no mundo de acordo com algum estilo de vida.

Contudo mesmo que isso fosse possível, os poucos registros encontrados não indicam nenhuma forma articulada de relacionar-se com o meio ambiente que não as pinturas rupestres. Assim, estes homens, o Neanderthal e seu sucessor o Cro-Magnon, contemporâneos por volta de 20.000 a.C., não apresentavam condições de relações mais estáveis e regulares em seus territórios. A busca constante por alimentos, peles, materiais e mais o que fosse, não propiciava a propagação de uma rotina.

O sentido de permanência é algo impossível, inefável, incompreensível, obscuro. Não há o repetir-se dos mesmos atos que desemboca em alguma constância dos hábitos e costumes. Há somente a impossibilidade uma conduta regular, um padrão, mesmo que irracional, a ser seguido. Impera a

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Ver ANEXO 06 “O Neanderthal e Cro-Magnon, a Precedência dos Costumes, o Estilo de Vida dos Coletadores e a Variação do Clima do Globo” para complementar a visualização do homem de Neanderthal e do Cro-Magnon inscritos em seu meio e temporalidade.

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Exemplificando a partir de JAFFÉ (s/d): “Na mitologia grega encontramos inúmeros símbolos animais. Zeus, o pai dos deuses, muitas vezes se aproxima das jovens a quem ama sob a forma de um cisne, um touro ou águia.” O Homem e Seus Símbolos, op. cit., pg. 238.

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Exemplificando a partir de JAFFÉ (s/d): “Na mitologia grega encontramos inúmeros símbolos animais. Zeus, o pai dos deuses, muitas vezes se aproxima das jovens a quem ama sob a forma de um cisne, um touro ou águia.” O Homem e Seus Símbolos, op. cit., pg. 238.

Figura 14

necessidade de sobrevivência face ao mundo intuído e percebido como algo incessantemente estranho pois ele está lá, fora do corpo, mas ao mesmo tempo próximo pois que indistinto do estatuto humano e é nele que se vive.

A diferença por uma alimentação mais abundante residia na diferença entre o arpão liso e o arpão denteado, reside em pequenas aquisições e evoluções técnicas que tornem a sua sobrevivência um pouco mais confortável e que talvez lhes prolongue um pouco a vida com provisões mais generosas. É notável a persistência desses grupos de caçadores e o tema da extinção de determinados animais pela caça predatória é mais antigo do que se pensa.102

Entretanto, à revelia da destreza da caça e das tecnologias desenvolvidas para tal, a vida transcorre segundo um contínuo temporal indistinto; a vida é vivida em sua completa imediaticidade. Somente as necessidades mais básicas são as grandes propulsoras de todo e qualquer ato. Nessa perspectiva, não há como referirmo-nos a uma constância, quer ao nível do território, quer ao nível dos hábitos e costumes. Essa inconstância instalada no âmago daqueles seres e em suas ações somente será superada, ou atualizada, a partir da fixação desses grupos nômades em territórios definidos com o surgimento da agricultura.

É inegável que caso houvesse certa intuição de comunicabilidade, expressa nas pinturas rupestres, e também que existisse um nebuloso senso de espírito associativo, evidenciado pelo exercício da caça em grupo. Contudo esse senso associativo era apenas suficiente para que aquelas pequenas aquisições tecnológicas pudessem ser disseminadas no interior do grupo ou mesmo transmitidas a outros grupos. A noção de ordenação da vida ainda se encontrava absolutamente distante no tempo.

Para que esses grupos de caçadores nômades ascendam à ordenação de seu grupo, alguns passos ainda deverão ser seguidos. Numa ordem de simultaneidade, esses seres deverão ainda ser capazes de intuir as primeiras técnicas de domesticação de animais e outras técnicas de plantio, ou, os rudimentos da pecuária e da agricultura além de fixarem-se numa região geograficamente definida. Será somente a partir da conquista de uma territorialidade mais definida e também, em detrimento do abandono gradativo das práticas de caça, e das possibilidades de aquisição de alimentos pela criação de animais e posteriormente do plantio de vegetais, que esses grupos poderão se articular em torno de condutas ordenadas. Essas parecem ser as prerrogativas necessárias à lenta construção dos costumes e dos seus significados.

Assim, não há como mencionar um ethos, não há como revelar normas ou interditos, regras ou leis. A vida é vivida em sua imediaticidade, verifica-se um contínuo de ralações que não estabelece vínculos causais entre a natureza, o agir e o conhecimento. Talvez essa seja mais uma razão para que esse espécime antropóide sequer seja reconhecido como nosso ancestral.

Existem ainda outras razões, decorrentes de uma única alteração em seu habitat, para que ocorra uma transformação fundamental na forma desses seres experimentarem o mundo exterior: a lenta e gradual transformação climática de todo o globo terrestre. Essa parece ter sido a grande razão que impulsionou não só profundas transformações desses hominídeos nos seres humanos e sua forma de relacionarem-se com o meio ambiente, como também alterou radicalmente todas as outras formas de vida na terra.

Ali no final do Paleolítico e no limiar do Mesolítico o globo passa por essa grande transformação climática 103 provocada pelo aumento de 10 a 12 graus centígrados nas médias de temperatura, o

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Segundo o Atlas da História do Mundo, “Caçadores paleolíticos, usando lanças e setas com pontas de sílex de precisão letal, já haviam começado e exterminar as outrora numerosas espécies animais. Em 15.000 a.C., o mamute estava em extinção na Eurásia setentrional e tronou-se pressa dos caçadores da América do Norte. Cerca de 11.000 mil anos atrás, as pastagens do oeste e sudoeste americano tinham vida animal abundante: o bisão gigante com chifre de quase 2 m, animais altos da família dos castores (casteróides), camelos, bichos preguiça de chão, alces, duas espécies de bois almiscarados, variedades de felinos, mastodontes e três tipos de mamutes - peludo, columbiano e imperial. A população humana cresceu; mas, em mil anos, a

maioria desses animais desaparecera, incluindo todos os cavalos, reintroduzidos pelos europeus depois de Colombo.” Atlas da

História do Mundo, op. cit., pg. 36 e 37.

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Claro é que essa transformação não se dá de modo abrupto. Os milênios do período Paleolítico estão aí também

contabilizados. Segundo Mc EVEDY (1979): “O período do Paleolítico superior termina durante o nono milênio a.C., quando se dá um rápido, posto que largamente transitório, movimento do clima e uma modificação mais permanente da flora e da fauna da

suficiente para provocar o degelo das calotas polares e elevar o nível dos oceanos em 140 metros. Desde então as temperaturas médias do globo encontram-se relativamente estáveis e iguais às que se conhece atualmente.

Essa modificação climática modifica substancialmente as condições de vida sobre a terra. Além do aumento confortável das temperaturas médias a partir do gradual degelo, regiões que antes eram ocupadas pelas geleiras expõem o seu solo às espécies vegetais que ali se fixam e estabilizam suas características básicas. Segue-se à expansão da flora a expansão da fauna que diante da abundância de suprimentos vegetais ampliam os seus territórios e retomam o crescimento populacional. Segundo essa cadeia alimentar básica os predadores humanos também crescem numericamente e ampliam a sua dispersão pelo globo em busca de caça e ocupando as áreas anteriormente geladas.

Assim o clima promoveu o que a evolução biológica, tecnológica ou intuitiva ainda não havia propiciado: a estabilidade do meio natural e a sua amplificação territorial. A partir de então, os saltos qualitativos e quantitativos passam a ser gigantescos se consideradas as eras mais remotas. Nessa perspectiva não causa espanto que o primeiro paradigma de estabilidade e ordem de alguns povos e culturas repousasse na morna e generosidade regularidade do mundo natural, o que entre os gregos se denominará imanência da