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6.2. O Obscuro Período Histórico e a Verossimilhança dos Mythos / As Invasões Aquéias e a Total

Fragmentação da Grécia / Os Novos Núcleos: os Génos / A Fragmentação da Esfera Sagrada nos Mythos / Das Thémistes à Díke / Dos Génos aos Phylaí: o Prenúncio da Pólis / Dos Deuses Zoomorfos aos Heróis

Antropomorfos / A Exemplaridade dos Heróis / Os Mythos Como Modelo de Reunificação Ética.

A Idade dos Heróis, esse período da história grega compreendida entre 1.200 e 800 a.C., é vista como um período obscuro pois, que do que se sabe, pouco se pode comprovar. As escavações arqueológicas em quase nada têm contribuído para o seu esclarecimento e na ausência de registros escritos datados, como é o caso das escritas lineares, têm-se recorrido à tradição grega, da qual os melhores relatos são de Homero e Hesíodo. Contudo os relatos mitopoéticos 336 foram, por muito tempo, considerados improváveis, dado o seu eminente caráter mítico.

A ciência somente se dobrou à possibilidade de verossimilhança desses mitos após o descobrimento dos palácios cretenses e micênicos já no início do século XX. Isso não ocorreu sem alguma relutância e com grandes restrições. Os achados iniciais de Schliemann, que começou a desenterrar os restos de Tróia em 1872, foram vistos com uma grande incredulidade pela comunidade científica da época.337

Arthur Evans já teve maior sorte. Seus descobrimentos em Creta, iniciados em 1900, foram comemorados sem resistência por parte da comunidade científica de então. Ela já não era tão ciumenta e via com mais naturalidade uma possível dessacralização de seus ídolos. Mas isso não ocorreu de forma radical e a comunidade científica pode novamente respirar aliviada.

Assim, somente a partir das descobertas de Schliemann e Evans é que se passou a creditar maior verossimilhança aos conteúdos míticos. A partir de então, os elementos históricos contidos na tradição grega como, lugares, personagens, os reinados, sua organização política, social e bélica, o comércio, as celebrações, a cadeia lógica dos eventos históricos, os hábitos e costumes, enfim, todos os elementos que poderiam se constituir como histórias inverossímeis passaram a ser vistos como possibilidades reais e não apenas fantasias poéticas postas no seio da ciência.

As provas materiais lentamente eram retiradas dos escombros arqueológicos em parte recompondo e comprovando as lendas, como é o caso do lendário e labiríntico palácio do Rei Minos, e por outro lado desautorizando a credulidade de outros elementos, como é o caso da própria existência desse rei. Entretanto, ainda no âmbito da tradição escrita grega, a dificuldade não residia apenas no que poderia ou não ser comprovado, mas sim de onde provinham os dados históricos e como eles se articulam no conjunto dos mitos. Os próprios textos homéricos, por exemplo, provavelmente escritos séculos depois dos eventos citados, apresentam dificuldades, pois contêm várias informações imprecisas, dispersas e amalgamadas indistintamente por seguidas gerações de tradição oral.338 De qualquer modo, e apesar das descobertas

336“Mitopoéico. 1. Relativo ou pertencente à mitopoese; mitopoético.” Na esteira da definição do termo: “Mitopoese. [Do gr.

mythopoíesis]. 1. A criação de um mito. 2. Procedência ou origem dos mitos.” Dicionário Aurélio Eletrônico, arquivo citado anteriormente.

337 Conforme COTTRELL (1992): “Muitos dos investigadores profissionais, especialmente os alemães, se opuseram às escavações

de Schliemann. Durante mais de um século, eles e seus predecessores haviam teorizado, recostados nas suas cômodas poltronas de seus estúdios, sobre a provável localização de Tróia; mas a nenhum ocorreu a idéia de ir até lá e escavar. E, sem mais nem menos aparecia esse audaz comerciante, sem preparação acadêmica, um qualquer, ansioso por publicidade (coisa que os sábios preferiam odiar) que sem método e precipitadamente derrubava sem piedade restos de edifícios clássicos em uma busca enlouquecida que,

provavelmente, só havia existido na imaginação de um poeta.” El Toro de Minos, op. cit., pg. 60.

338

Segundo BRANDÃO (1989): “A dificuldade maior no estudo da epopéia homérica está em isolar o que realmente é micênico do que pertence a épocas posteriores, como à Idade do Ferro, à Idade Média Grega a ao ambiente histórico em que viveu o próprio poeta. Sem dúvida, também sob o ângulo político, social e religioso, os poemas homéricos são uma colcha de retalhos com rótulos de civilizações diferentes no tempo e no espaço. Não obstante todas essas dificuldades, alguns elementos micênicos podem, com boa

margem de segurança, ser detectados nos dois grandes poemas.” Mitologia Grega - Volume I, op. cit., pg. 116. Mais uma vez, o

melhor e mais sensato desfecho para os limites de credulidade constantes nos mitos é apresentada por DURANT(1966): “As lendas da Idade Heróica sugerem tanto a origem como os destino dos aqueus. Não devemos, pois, ignorar essas lendas porque, embora se caracterizem por uma fantasia sanguinária talvez contenham mais história do que supomos. Além do mais, essas antigas lendas acham-se de tal forma impregnadas de poesia, da tragédia e da arte gregas, que não poderíamos compreender estas por aquelas.

arqueológicas, a comunidade científica ainda espera por evidências mais concretas para crer na ocorrência de vários eventos históricos. Continuando na esteira do mito e de alguns achados arqueológicos que comprovam o mito cada vez mais claramente, sabe-se através de Homero que, anteriormente à queda das monarquias e seus palácios, a Grécia vinha sendo lentamente ocupada pelos Jônios. Inicia-se com esse povo a longa construção dos palácios continentais instalados nos cumes montanhosos e de uma série de pequenas modificações na forma organizacional da vida nas cidadelas.339

São eles que levam para a Grécia continental uma nova forma de organização política: respondem a um mesmo chefe, contudo, vivem em grupos familiares relativamente independentes. Assim, se comparados aos os cretenses, os Jônios apresentam um maior grau de liberdade, pois se trata de uma organização menos centralizadora. São os donos das próprias terras e gozam de certos direitos restritos unicamente ao círculo imediato das famílias. Eles, de certo modo, antecipam o surgimento dos futuros génos, definitivamente implantados pelos próximos invasores que são os Aqueus.

O povo Jônio em muito pouco contribui para o desenvolvimento da agricultura ou da metalurgia, que continua a trilhar a tecnologia do bronze. Sua maior contribuição nos termos práticos da vida campesina foi a introdução da criação e domesticação de cavalos o que proporcionou algumas importantes conquistas e expansões territoriais para o período. Deve-se também a esse povo a cerâmica conhecida como mínia, uma cerâmica estilizada de coloração ora acinzentada ora amarelada, encontrada no Peloponeso e na Beócia. Por outro lado, sob o ponto de vista das cidades eles introduzem um importante hábito: deslocam os sepultamentos de seus mortos do exterior para o interior das cidadelas. Conforme BRANDÃO (1989):

“Em matéria de religião, o primeiro ponto a ser observado é o deslocamento do processo de inumação,

das necrópolis exteriores para dentro dos núcleos urbanos, mas as escassas oferendas encontradas nos túmulos mostram um enfraquecimento na crença em relação à imortalidade da alma ou ao menos no que se refere ao intercâmbio entre vivos e mortos. Santuários construídos em acrópole, como o de Egina, evidenciam a implantação da religião patriarcal indo-européia na Grécia, o que explica o desaparecimento quase total das estatuetas e do culto da Grande mãe nessa época, pelo menos nos

núcleos „urbanos‟.” 340

Além da proximidade admitida aos mortos, e diferentemente dos cretenses, inicia-se com o povo Jônio, o estilo de vida baseado na linhagem patriarcal na Grécia continental. Passados mais alguns séculos os Jônios sucumbem à própria barbárie e a Grécia continental será invadida pelos Aqueus. DURANT (1966), indica que essas novas ocupações ocorreram durante os séculos XVI e XIII a.C. e que essas tribos provavelmente chegaram aos territórios gregos a partir da Tessália:

“Em Homero os aqueus são especificamente um povo do sul da Tessália, cujo idioma era o grego; como,

entretanto, eles se transformassem numa das mais poderosas tribos da Grécia, Homero serve-se freqüentemente de seu nome para denominar todos os gregos de Tróia. Os poetas e historiadores gregos da idade clássica consideravam os aqueus, e também os pelasgos, como autochthonoi - naturais da grécia de origem remotíssimas - presumindo sem hesitação que a cultura aquéia descrita em Homero

seja a mesma que aqui classificamos de miceneana.” 341

...como figuras puramente mitológicas. Os gregos mais modernos, criticando seus antigos historiadores, não põem dúvida em afirmar que eles foram personagens históricos que governaram em Argos e outros reinados; e depois de um período de ceticismo, muitos críticos modernos começaram a adotar esse ponto de vista grego como sendo o mais satisfatório ... Os heróis das lendas, bem

como o cenário geográfico em que se situam, são reais.‟ Tudo leva a crer que as lendas principais são verdadeiras na essência e imaginativa nos detalhes.”A História da Civilização - Tomo II - Nossa Herança Clássica, op. cit., pg. 32.

339

A ocupação continental assim se deu conforme BRANDÃO (1989): “Ao apagar das luzes do Bronze Antigo ou Heládico Antigo, por volta de ~ 2600-1950, os primeiros gregos, os Jônios, atingiram a Hélade, através dos Bálcãs, e ocuparam violentamente a Grécia inteira, levando de vencida os Anatólios, que foram, ao que tudo indica, escravizados. Guerreiros com sólida organização social do tipo militar, obedeciam em tudo a seus chefes. Instalavam-se em palácios em acrópole, fortificados com grandes muralhas, portas de entrada estreita, reforçada com torres, como se pôde observar nas escavações efetuadas em Egina, Tirinto e Micenas pré-

aquéias. ... Mercê da forte organização social desses primeiros gregos, o povo, ao que parece, „tinha uma vida igualitária‟, com a

terra dividida em glebas iguais entre os vários chefes das famílias de que se compunha cada uma das quatro tribos em que já se

dividiam os Jônios.”Mitologia Grega - Volume I, op. cit., pg. 49.

340

Mitologia Grega - Volume I, op. cit., pg. 50.

341

Esses novos gregos, pouco numerosos mas muito combativos, rapidamente expulsaram os Jônios para a costa asiática.342 Com eles novos hábitos e costumes foram introduzidos os quais vão se refletir profundamente na religião. Segundo BRANDÃO (1989), ocorre a essa altura da história grega o sincretismo entre a forma matriarcal, de origem cretense, e a forma patriarcal, proveniente desse povo aqueu:

“De seu mundo indo-europeu os Gregos trouxerem para a Hélade um tipo de religião essencialmente

celeste, urânica, olímpica, com nítido predomínio do masculino, que irá encontrar com as divindades Anatólias de Creta, de caráter ctônico e agrícola, e portanto de feição tipicamente feminina. Temos pois, de um lado, um panteão masculino (patriarcado), de outro, um panteão, onde as deusas superam de longe (matriarcado) aos deuses e em que uma divindade matronal, a Terra-Mãe, a Grande Mãe ocupa o primeiríssimo posto, dispensando a vida em todas as suas modalidades: fertilidade, fecundidade, eternidade. Desses dois tipos de religiosidade, desse sincretismo, nasceu a religião micênica. Diga-se, de passagem, que esse encontro do masculino helênico com o feminino minóico há de fazer da religião posterior grega um equilíbrio, um meio-termo, muito a gosto da „paidéia‟ grega posterior, entre o

patriarcado e o matriarcado.” 343

Além do sincretismo religioso, a tradicional forma de organização política dos Aqueus diferia das formas anteriormente expostas. Conforme GLOTZ (1980) essa nova forma se articulava em torno dos vários génos, ou unidades familiares de cunho patriarcal, as quais se organizavam em grupos maiores, ou as phratríai.344 Ocorre que a partir desse novo cenário mais uma vez dispersivo, segue-se a formação de numerosos e diminutos grupos patriarcais chamados clãs, originariamente procedentes das antigas tradições indo- européias, que isoladamente fundam seus próprios rituais, os quais necessitam, à semelhança dos antigos palácios, da instância divina central que é o deus Patrôos. PUECH (1986) apresenta esse deus e essa nova forma religiosa como uma espécie de deus-síntese dos génos, ou Zeus Patrôos:

“Desde os tempos indo-europeus, Zeus foi o protetor da família patriarcal. Os gregos conservavam seu título de „pai dos deuses e dos homens‟; mas quando pensam em suas atribuições domésticas, preferem

chamar-lhe Patrôos, „ancestral‟. ... Zeus Patrôos possuía múltiplas funções especializadas.” 345

Esse deus-síntese adquire as mais ricas formas e desdobra-se sob outras denominações protegendo as mais

342 DURANT (1966) prossegue mais à frente: “Os aqueus (isto é, os gregos da Idade Heróica) surgem-nos como um povo menos

civilizado que os precedentes miceneanos e mais que os dóricos que lhes seguiram. Neles predominava o físico - os homens altos e atléticos e as mulheres de excepcional formosura. Como iriam fazer os romanos mil anos mais tarde, os aqueus encaravam a cultura literária como uma espécie de degeneração efeminada. Eram contrafeitos que se serviam de escrita, e sua única literatura consistia nos cânticos marciais e nas canções não escritas de seus trovadores. ... Como viviam esse homens e essas mulheres? Homero nô-los descreve a lavrar o solo e a aspirar deliciados o cheiro da terra revolvida de fresco, a correr olhares orgulhosos pelos sulcos do arado, a joeirar o trigo, a irrigar os campos e construir barreiras às margens dos rios para impedir as enchentes de inverno; faz-nos sentir o desespero dos campônios cujas lavouras, representando meses de trabalho, eram varridas pela „fúria das torrentes, que, em

avalancha não respeitava diques, barreiras e valados, e que nem os muros dos pomares conseguiam deter.‟ A terra era difícil de

cultivar, pois o terreno compunha-se na maior parte de montes e pântanos, ou de colinas recobertas de espessas matas; as aldeias eram constantemente atacadas pelas feras, e a caça, antes de torna-se um esporte, foi uma necessidade. A classe rica se compunha de grandes criadores de gado, carneiros, porcos, cabras e cavalos. Um deles, Erectônio, possuía três mil éguas de raça com cria. Os pobres nutriam-se de peixe, trigo e às vezes legumes; os guerreiros e os ricos comiam muita carne assada - a primeira refeição, pela manhã, consistia em carne e vinho. ... A terra era propriedade das famílias ou clãs e não de indivíduos; ao pai ou chefe da família cabia o dever de administrá-las, mas nunca sem o direito de vendê-las. Na Ilíada extensos territórios são denominados Comunidades do Rei ou Senhorias (têmenos); essas regiões pertenciam à comunidade, podendo qualquer cidadão usá-las para uso de seus

rebanhos.” A História da Civilização - Tomo II - Nossa Herança Clássica, op. cit., pgs. 37 e 38.

343

Mitologia Grega - Volume I, op. cit., pg. 70.

344

Eis como Glotz situa esses povos que chegaram à Grécia e como se organizavam politicamente revestidos e investidos de nova representação divina: “Os primeiros gregos chegados à Grécia, aqueles que se conhecem como aqueus e uma parte dos quais recebeu mais tarde os nomes de jônios e de eólios, eram pastores seminômades da península Balcânica. Acostumados a vagar com seus rebanhos pelos prados das planícies e pelas florestas das montanhas, jamais chegaram a constituir um Estado. Tinham por pátria o clã patriarcal a que precisamente chamavam patriá ou, mais amiúde, génos, onde todos os membros descendiam do mesmo antepassado e adoravam o mesmo deus. Esses clãs, reunidos em número mais ou menos grande, formavam associações mais extensas, confrarias no sentido mais amplo ou phratríai (fratrias), corporações de guerra cujos componentes eram conhecidos pelos nomes de phrátores ou phráteres, étai ou hetaîroi. ... Quando o génos se tronou sedentário no solo grego, continuaram a reunir-se em torno do lar comum todos os que perpetuavam o sangue do antepassado. Debaixo do mesmo teto, mamaram o mesmo leite

(homogálaktes), respiraram a mesma fumaça (homókapnoi), comerem o pão da mesma ucha (homosípuoí). Não há necessidade de precisar os vínculos de parentesco: todos os gennêtai são irmãos (kasígnêtoi).” GLOTZ, G.: A Cidade Grega, Rio de Janeiro, Difel, 1980, pgs. 4 e 5.

345

diferentes atividades e coisas. Contudo, a idéia de um único deus para cada lar ou clã esteve grandemente difundida entre os gregos de então. É então evidente que essa nova forma organizacional difere da centralização política e religiosa anteriormente verificada nos palácios continentais. Sucede à antiga forma centralizadora outra mais dispersiva e ao mesmo tempo descentralizada. É assim, diante dessa nova perspectiva organizacional, que se apoia nas unidades independentes e articuladas que são os génos e as

phratríai, que os deuses multiplicam-se se tornando incontroláveis e conduzindo os mitos, as fábulas e os

feitos a uma grande desorganização. Conforme VEGETTI (1994), por se tratarem de apenas de relatos que vão se combinando cada vez mais com o decorrer do tempo, a sua confusão amplifica-se:

“Anônimos, difusos, repetidos e aprendidos de geração em geração, esses relatos - uma espécie de vasto

catálogo do imaginário religioso - constituem todo o saber social acerca dos deuses, imediatamente credível e persuasor, não questionável, precisamente devido ao seu anonimato, à sua difusão no tempo e no espaço, à antigüidade imemorável de suas origens.” 346

Deuses, heróis e grandes feitos humanos multiplicam-se e imiscuem-se desordenadamente na forma mítica. Esses confusos relatos surgem como que uma necessidade provocada pelas dispersivas unidades religiosas autônomas. Segue-se à fragmentação da centralidade do poder palaciano a dispersão territorial dos génos e a conseqüente multiplicação e mistura incessante do conteúdos míticos.

Nessa perspectiva, os heróis caseiros parecem ser a atualização do divino face às novas necessidades associativas de uma Grécia que se apresenta fragmentária em todas as suas esferas. Se antes a unicidade divina era representada espacialmente pela centralidade da fortificação, onde residia o deus personificado na figura do monarca, agora, a partir da dispersão territorial os pequenos núcleos familiares chamam para si a divindade na figura do patriarca que representa uma ascendência direta de algum deus ou herói.DINSMOOR (1950) apresenta outra versão que complementa essa idéia da fragmentação da religião grega sob outro ponto de vista:

“Antes de considerar o desenvolvimento da arquitetura religiosa grega, pode-se apontar que a religião

era uma combinação da adoração personificada dos fenômenos naturais de modo que deificava os heróis ou a devoção de seus ancestrais. As tribos egéias, especialmente os cretenses, pareciam ter adorado um deus supremo (Réia); e quando saíram para a Jônia na Ásia Menor estabeleceram o mesmo lá. Igualmente, a religião frígia apresentava uma grande deusa, Cibele, a mãe dos deuses, a protetora de toda a fertilidade. Mas os primeiros registros da religião primitiva salientam a adoração por Zeus, o deus supremo. Essas dois modos de adoração parecem ter-se misturado, e o número de deuses gregos rapidamente multiplicaram-se; eles se casaram e geraram uma descendência inumerável, e em diferentes localidades o talento dos sacerdotes rapidamente determinou a adoração especial de certo deus ou deuses sem observar que a mesma adoração do deus ou deuses era praticadas em todos os lugares do

mundo grego.” 347

Essa idéia da dispersão de deuses pela grécia pode ser apreendida pelo significado de “mundo grego” ou à

forma como os gregos o apreendiam. Ao abordar essa questão e, referindo-se às características religiosas gregas, VERNANT (1993) indica que a construção do sentido de “mundo” para os gregos passava necessariamente por seu politeísmo e pela forma como as divindades se relacionam com o mundo. Nessa perspectiva, as divindades

“... não são eternas, perfeitas, oniscientes, ou onipotentes; não criaram o mundo, nasceram nele e dele,

vindo à luz do dia por gerações sucessivas, à medida que o universo, a partir dos poderes primordiais, como Caos, o Vazio, e Geia, a Terra, se iam diferenciando e organizando. E o universo era a sua morada. Por conseguinte, a sua transcendência é absolutamente relativa, válida apenas em relação à esfera humana. Tal como os homens, mas acima deles, os deuses fazem parte integrante do cosmos. ... O que significa que entre o humano e o divino não existe a fratura radical que, para nós separa a ordem da

natureza do sobrenatural.” 348

346 O Homem Grego, op. cit., pg. 237. 347

The Architecture of Ancient Greece - An Account of Its Development, op. cit., pg. 38.