Stangroom (2009, p.34-36) e Tallarico (2014, p.63-64) comentam a história de Tomás,um dos nomes que trouxe uma enorme contribuição para a doutrina católica. A grandeza de sua obra ultrapassa seu tempo, chega a exceder os limites de sua época e está aí para ajudar a
compreender a história futura. Esses mesmos autores em seus textos retratam um pouco da vida e obra de Tomás que nasceu em 1225 no castelo da família em Roccasecca, um condado próximo à Nápoles, na época pertencente ao reino da Sicilia. Iniciou seus estudos, aos cinco anos, no mosteiro em Monte Cassino como oblato. Depois, muda-se para Nápoles, onde continua seus estudos e decide se desvincular dos monges do Monte Cassino e se torna um dominicano. Mais tarde, em Paris, completa sua formação. Passou quatro anos em Colônia, juntamente com Santo Alberto Magno, teólogo de excepcional conhecimento. Em Colônia termina seu curso de teologia.
Nascimento (2012, p.12-15) relata que em 1255, após terminar seus estudos teológicos, Tomás é designado para ensinar em Paris, exercendo a função de assistente junto ao titular de uma das cátedras de teologia pertencentes aos dominicanos, no convento de São Tiago. Nascimento (2012, p.16-17) narra que Tomás de Aquino foi investido no cargo de mestre na primavera de 1256, recebendo a licença para ensinar. Depois da aula inaugural, tornou-se Mestre Regente em Ato, mas esperarou quase um ano para ser agregado ao colégio dos mestres, por causa de uma disputa que havia entre os dominicanos e os padres comuns. Isso por que, sendo os dominicanos uma ordem religiosa nova, era vista com certo receio pelos demais membros da Igreja. Obras de grande importância, como as Questões Disputadas foram escritas nesse período. Tomás acabou voltando para a Universidade de Nápoles, onde viveu seus últimos anos de vida. Seu pensamento exerce ainda grande influência nos estudos teológicos atuais.
Lima Vaz (2002, p.11-33) e Tallarico (2014, p.63-64) refletem sobre o pensamento de Tomás de Aquino que se situa na vanguarda de seu tempo. Ele rompe com a linhagem tradicional da Igreja que utilizava o pensamento platônico como sua base. Ancorado nas concepções aristotélicas, Tomas de Aquino permite a sobrevivência e a adaptação da fé cristã à nova mentalidade racionalista que seria, nos séculos seguintes, a diretriz do pensamento ocidental. Foi Tomás de Aquino o responsável pela introdução de Aristóteles na teologia.
Nascimento (2012, p.66-91) mostra como a obra de Tomás de Aquino é grandiosa, não apenas em quantidade, como também em densidade. Destaca-se, todavia, as Sumulas. Na Suma contra os gentios explica os modos pelos quais o homem pode conhecer as coisas divinas. Essa Suma trata de Deus de suas obras, na fé na santíssima trindade, da encarnação, dos sacramentos e da vida eterna. Outra obra de relevo é a Suma teológica. Caracteriza-se por ser
uma obra que demonstra a clareza e a unidade de seu pensamento. Aborda vários temas de suma importância para a doutrina católica. Segundo Nicolas (2014, p.30)
Aqui está a significação que a Suma Teológica tem dentro de sua imensa obra. Ela a unifica. Não foi Tomás que criou esse gênero literário, que era comum havia um século e totalmente conforme ao espírito, aos costumes intelectuais, às necessidades da Idade Média. Mas em sua forma superior (não a da enciclopédia e do resumo, mas do conjunto orgânico), era feito para seu gênio próprio e respondia às necessidades de seu espírito. Sem dúvida, e isso é comovente, foi uma preocupação pedagógica que o levou a escrevê-la. Mas foi sua vontade de unidade e de síntese que, apoderando-se de um instrumento banal, se apropriou dele e o transformou.10
(Nascimento, 2012) explica que Frei Tomás elabora uma teologia que não representava o pensamento cristão de sua época. A frente de seu tempo procurava demonstrar a existência de Deus por meio do conhecimento apofático. Consoante ensina Nicolas (2012, p.35) para Tomás11 não é possível descrever a essência de Deus, o que é o ser, isto é, traçar Seu perfil. Só se conhece Deus a partir daquilo que Ele não é. Aqui, Tomás de Aquino expõe sua versão negativa sobre o conhecimento de Deus que é tema central de sua teologia. Dedica-se grande parte de seus escritos, tentando descobrir quem é Deus. Nas palavras de Nicolas (2014, p.35).
Ninguém o sentiu mais fortemente que Sto. Tomás, que chega a dizer : de Deus, só sabemos o que Ele não é. Como Fonte e fundamento do ser, como Realidade da qual tudo o que existe participa, Deus pode ser conhecido como desconhecido pela mera força da razão. Nunca, por certo, o espírito humano poderia pretender conhecer o que é em si mesmo o Ser de quem todo ser procede e testemunha, se Ele não se tivesse revelado. Mas essa revelação teria sido impossível se não houvesse entre certos conceitos do ser e a Realidade divina analogias à primeira vista insuspeitas. O que possibilita a fá e a teologia é a capacidade de nosso entendimento para apreender o real, e apreendê-lo em toda a sua amplitude analógica. Notável é que Platão e Aristóteles inspirem a concepção do espírito e do ser aqui presentes. Aristóteles, com sua metafísica da inteligência e do ser e com sua teoria lógica do raciocínio por analogia, Platão, a quem a filosofia universal deve a idéia de participação, de hierarquia do ser e do bem e, conseqüentemente, do movimento dialético, cuja alma é precisamente a analogia.12
Josaphat (2012, p.402-460) mostra que a ética, também, é um tema de destaque na obra de Frei Tomás, que constrói uma reflexão filosófica sobre o agir humano racional e livre. Examina a estrutura do ato humano que, segundo seus ensinamentos, é dotado de um arcabouço lógico, voltado para um fim. Uma finalidade orientada pelo bem. Um fim último que só será realizado pela beatitude. Na base dessa estrutura está a vontade livre e o intelecto.
Nascimento (2012, p.76; 80) e Josaphat (2012, p.401-404) explicam que para Tomás o ato livre é pressuposto para a elaboração de sua compreensão sobre o agir humano. Muito mais
10 Texto de Marie Josieph Nicolas na Introdução à Suma Teológica, v.1, parte 1, questões 1-43.
11
Id 12 Id
do que uma teoria sobre a ética, desenvolve um estudo sobre o ser humano, considerado imagem e semelhança de Deus. Assim, como Deus o ser humano é capaz de construir seu mundo, por ser dotado de autodomínio e de intelecto. O ser humano é, para Tomás, um ser caracterizado pela autonomia, capaz de poder agir livremente.
Tomás de Aquino foi sem dúvida o maior filósofo de seu tempo. Foi um pensador que desenvolveu uma doutrina caracterizada pela originalidade e criatividade que teve imensa influencia em sua época, estendendo-se até o período contemporâneo. Desenvolveu uma filosofia própria e sistemática que abordou várias questões pertinentes de seu tempo, que permanecem atuais. No prefácio à tradução brasileira da Suma Teológica, Josephat (2014, p.14) ensina
Desde os vinte anos, após se libertar das cadeias das miúdas ambições familiares, Frei Tomás encarna uma forma original de ser religioso, vivendo evangelismo radical, mas todo voltado para universidade e para a sociedade. O que significa para ele abarcar a universidade do estudo e do saber, orientando-a a coerência de uma visão global do cosmo, das questões humanas e do mistério de Deus. Joga-se de corpo e alma nesta proeza, jamais realizada antes ou depois dele, e que sua síntese quer levar a cabo: tecer uma Suma, em que se juntem e fraternizem a filosofia, concebida como o leque completo do saber humano, a teologia, que enfeixa e ordena toda tradição cristã, e ética pessoal e social, que estuda e articula os valores e modelos de plena realização do ser humano e da sociedade. E tudo vem coroado por uma mística de perfeita contemplação e união com Deus. Sem dúvida, como todo gênio, Tomás só podia contar com os recursos de seu tempo para tentar concretizar a audácia infinita, desse projeto, que renasce sem cessar, solicitando todas as épocas e todas as gerações.13
Mestre na arte de ensinar e de escrever, Tomás de Aquino deixou um legado que contribui imensamente para o desenvolvimento da cultura ocidental. Um clássico, que como tal, nunca perderá sua importância.